
Semana retrasada foi aniversário da minha prima e, como de costume, fomos comemorar a data na casa do meu tio. O filho de um dos vizinhos estava lá, então minha outra prima resolveu colocar um filme da Pixar para entretê-lo: Monstros S.A. Como alguém que adora animação – e coincidentemente Monstros S.A é uma das minhas animações favoritas da “Pixar do Velho Testamento” – fiquei lá assistindo com o gurizinho. Um pensamento que me ocorreu naquele dia é que fazia um bom tempo que eu não parava para assistir um filme novo da Pixar ou um da sua tutora Disney. Portanto foi uma curiosa coincidência quando, uns dias atrás, meu amigo me mandou uma mensagem perguntando se eu gostaria de ir ver o “filme do castor”: Hoppers.
Um breve aviso: aqui no Brasil, Hoppers lançou como Cara de Um, Focinho do Outro, porém vou ficar com o título origina mesmol. Por mais que eu adore o uso de expressões brasileiras, ainda sou um preguiçoso inveterado. Não quero escrever seis palavras o tempo todo quando uma só já basta. Agradeço a compreensão de todos… e não é como vocês pudessem fazer algo para me impedir.
Hoppers conta a história de Mabel Tanaka, filha de imigrantes japoneses, que vive na cidade de Barra do Castor. Desde pequena ela já demonstrava ser uma menina rebelde, com o filme abrindo numa sequência em que ela tenta fugir da escola com os mascotes da escola. A paixão pelos animais é intensificada pela avó de Mabel, que cuida dela sempre que a garota se mete numa confusão e lhe ensina a respeitar e a cuidar da natureza. Assim, anos depois quando a sua avó morre, Mabel toma para si a tarefa de cuidar da clareira próxima a casa dela e dos animais em que lá vivem.
A trama engata com Mabel, agora uma jovem adulta, frequentando a universidade de Barra do Castor. Ela vai mal nas aulas porque passa a maior parte do tempo protestando contra o carismático e super popular prefeito Jerry e seu “anelviário”, uma rodovia que irá cercar a cidade, passando bem por cima da clareira. Qualquer um que assistiu um daqueles filmes ambientalistas dos anos 90 que passavam na Sessão da Tarde já está familiarizado com esse tipo de trama. Entretanto, é evidente que a Pixar consegue trazer sua fórmula para mexer com esse tipo de história manjada.
Não há muito que Mabel consiga fazer para impedir a construção pois, por algum motivo misterioso, todos os animais sumiram da clareira. Jerry então a desafia a fazer um abaixo-assinado que obviamente não vai para frente. A população de Barra do Castor mostra um completo desinteresse *cof* *cof* típico de uma alienação americana *cof* *cof* na preservação do ecossistema local e, mais ainda, são repelidos pela personalidade intensa de Mabel.
O que achei mais curioso nesse aspecto é que até mesmo a professora de biologia dela, a Drª Sam, não se importa tanto com preservação da clareira. Geralmente essa seria a exata personagem que motivaria a protagonista na sua causa. Porém em Hoppers é justamente o contrário. A Drª Sam chega a desencorajar a Mabel do seu ativismo, pedindo que ela foque nos seus estudos. Uma bióloga falando isso! Guardem essa informação que eu vou voltar nisso mais para o final.
Na primeira meia hora, mais ou menos, Hoppers até que clicou comigo. Gostei da construção de uma protagonista tão fervorosamente anti-establishment como a Mabel – nem sei se ainda usam esse termo – mas sem deixá-la caricata ou unidimensional. Sim, ela é muito impulsiva e tem um temperamento explosivo, porém que é compreensivo dentro daquele contexto. A ligação dela com a clareira não vem apenas do seu amor pelos animais, mas também representa o vínculo afetivo e a memória que ela tem da sua avó. Então é fácil entender a raiva dela por ninguém mais parecer se importar com o lugar.
Nessas horas é impossível não deixar de se emocionar com Hoppers e é o tipo de reação que Pixar aperfeiçoou ao longo das décadas. Eu não consigo reassistir Viva: A Vida é uma Festa, porque aquela cena final do Miguel cantando com a bisavó dele me destrói emocionalmente. Porra, só de digitar eu já fico com os olhos marejados…
Conforme a trama se desenvolvia, o filme ia me perdendo porque eu tinha minhas suspeitas de qual caminho o roteiro seguiria. Aqui eu confesso que uma crítica que eu li um tempo antes de assistir Hoppers solidificou essas dúvidas, porém a sementinha já tinha sido plantada bem antes no próprio trailer.
Quando nenhum dos planos de Mabel dá certo, ela busca uma solução mais radical. Uma noite ela descobre que a Drª Sam e seus assistentes desenvolveram uma nova tecnologia, os Saltitantes, que permite transferir a consciência de um humano para um robô. Aqui não dá para fazer a óbvia piada com Avatar, porque no pesadelo da cultura pop autoconsciente que vivemos o filme já fez questão de apontar isso. Sendo assim, Mabel entra na máquina e usa um robô-castor para entrar em contato com os animais.
A partir desse momento, Hoppers toma uma direção criativa que eu gostei bastante. Apesar de ser uma história que teoricamente acontece numa realidade parecida com a nossa, existe um pouco dessa ideia dois mundos que de alguma forma se conectam que a Pixar já explorou em outros filmes. Quando Mabel está na forma humanas, os animais são representados de uma maneira bem naturalista. Já quando ela está no castor-robô, esses mesmos animais aparecem antropomorfizados. Eles adquirem mais expressividade, os olhos mudam e seus comportamentos também são mais humanos. Isso mostra que a Pixar ainda tem aquela veia artística que traz soluções criativas que fizeram nos afeiçoar ao estúdio no passado.
Infelizmente, não é essa a Pixar que existe hoje. Os artistas estão lá, porém o estúdio é outra coisa, é uma quimera chamada Disney-Pixar. Essa quimera tem todos os recursos e poder computacional possível para dar vida a toda criatividade dos seus artistas. Não existem limites para a animação! Mas e para o roteiro? Aí já são outros quinhentos. Hoppers é um filme covarde e não é porque é uma animação voltada para o público infantil. Hoppers é um filme covarde porque está sob a asa de uma gigante corporativista como a Disney. Ela até pode deixar que seus funcionários, digo, seus artistas alfinetem o status quo… pero no mucho.
Quando Mabel começa a ter contato com os animais ela conhece o Rei George, o castor que também é o rei dos mamíferos. Uma das principais características dele é sua política conciliatória. Inclusive dão muito destaque para sua crença pessoal de que todos no fundo podem ser pessoas boas. O Rei George tenta manter a paz na sua floresta com uma série de regras que supostamente criam um bom convívio entre todas as espécies. Uma dessas regras é a de “se tiver que comer, coma”. Isso é algo que Mabel, com seu espírito rebelde, contesta logo de cara, afinal é um grupo específico de animais que se beneficia dela.
Num dado momento vemos a ursa Ellen tentando devorar o castor Pão, porém Mabel impede. Para a nossa surpresa, o próprio Pão critica a atitude da protagonista dizendo que ela está desobedecendo as leis da floresta. A gente entende que na natureza é assim, predadores irão se alimentar de outras espécies. O problema é que não é assim que o filme representa o “ciclo sem fim” da vida. A regra do Rei George não só dá o direito dos carnívoros de se alimentarem dos herbívoros, como impede que estes façam algo a respeito. Eles tem que aceitar que serão devorados.
Aliás, em poucos minutos o filme se contradiz porque o Rei George também estabelece que os animais precisam se ajudar. Ué, não foi isso que Mabel fez ao salvar Pão de virar almoço? Então pode ajudar, só não pode interferir no status quo dos predadores? Conveniente… Ok, mas vamos ignorar isso por enquanto porque eu só estou sendo implicante. O problema real que tive com Hoppers vem a seguir.
Um pouco depois, Mabel descobre o motivo dos animais terem deixado a floresta: Jerry mandou instalar uma torre de rádio disfarçada de árvore que emite uma frequência que apenas os animais conseguem escutar e isso os afasta dali. Mabel consegue derrubar a torre, porém Jerry ordena que instalem mais e os animais fogem mais uma vez. Sem escolha, ela pede para o Rei George a convocar o conselho que é presidido pelos reis das aves, dos anfíbios, dos répteis, dos peixes e dos insetos.
Finalmente então chegamos a cena do trailer em que Mabel convence todos os reis a se unirem contra Jerry que ela diz ser o “rei dos humanos”, começando então uma rebelião. Rebelião esta que não tinha como ir muito longe, afinal estamos falando da Pixar. Digo, da Disney-Pixar. Quando o Rei George apareceu com essa bobeira de todo mundo pode ser bonzinho, eu já sabia que o papo de revolução não passaria da página dois. A corda que a tutora Disney colocou na Pixar só pode esticar até um certo ponto.
Se o filme quer usar de um discurso conciliatório que tenta defender mais moderação na política, que use. Eu não espero muita coisa do liberalismo covarde americano. Só que além de covarde, é também um filme desonesto. Para fazer a solução moderada parecer a mais racional, o roteiro precisa levar o outro lado até as últimas consequências. Os animais não decidem apenas se revoltar contra o Jerry, eles decidem matá-lo. Mas não para por aí. Depois o filme ainda introduz o verdadeiro vilão da história na pele do filho da rainha dos insetos, Titus, que foi esmagada numa discussão com a Mabel. Titus é tão megalomaníaco que decide não apenas exterminar o prefeito, mas como também seus eleitores. Aí fica fácil, né?
Por esse motivo que eu não consigo acreditar que Hoppers está argumentando por mais moderação. Pelo contrário, para mim o que ele quer é a despolitização. A narrativa de verdade que ele constrói é que o radicalismo só levará a barbárie e por isso precisamos tentar soluções mais “democráticas”. Mas eu pergunto, democrática para quem? Jerry em momento algum sofre as consequências dos seus atos. Quando Mabel o confronta dizendo saber da sua torre de rádio, ele não só diz que ela não tem provas como também vai continuar a construção do “anelviário” e dane-se os animais. O filme se dá o luxo de esquecer disso, afinal agora temos um inseto pregando genocídio, um problema um pouquinho maior que picaretagem para construir uma rodovia.
De verdade, o discurso de Hoppers beira ao ofensivo porque não podemos tratar sua existência no vácuo. Hoppers sai nos cinemas enquanto os Estados Unidos vivencia a segunda administração do Donald Trump, um homem abertamente racista, que criou a sua própria Gestapo americana na forma do ICE e está financiando guerras pelo mundo. Como é que podem ter a cara de pau de colocar um personagem dizendo que precisamos acreditar que todo mundo tem um lado bom quando é esse cara que senta na cadeira de presidente do paisinho de merda deles?
Hoppers é um ode a passividade política. Em não se levantar contra os seus opressores, em aceitar que quando alguém tem que comer, tem que deixar ele comer – mesmo que você seja o prato – e acreditar que eventualmente as coisas irão se resolver. Isso é o melhor para “todo mundo”. Agora eu volto lá na Drª Sam, uma cientista, uma bióloga, que cria essa tecnologia fantástica e em momento algum pensa em utilizá-la para descobrir porque os animais estão sumindo. Porque, segundo ela, eles não devem interferir na natureza. A ciência não pode ser usada como uma ferramenta política, ela tem que ser “neutra”. Uma neutralidade muito útil para aqueles que não agem dentro das regras. Afinal, o que foi que Jerry fez? Ele interferiu na natureza para garantir que seu projeto fosse aprovado.
A narrativa de Hoppers não faz um apelo à racionalidade, faz um apelo à inação para que ela não interfira nos interesses corporativistas. Inclusive, não é uma surpresa que a Pixar – desculpe novamente – a Disney-Pixar queira tanto uma história com esse papinho conciliatório. Algumas das crianças que cresceram com seus filmes hoje se tornaram um bando de adultos infantilizados que esperneiam porque A Pequena Sereia é negra ou porque tem casal gay em Lightyear. Até certo ponto a Disney-Pixar tentou explorar essas polêmicas para fins de marketing, mas agora que ela acumula alguns filmes cujas bilheterias não bateram a meta, parece que houve uma mudança estratégica.
É hora de (tentar) agradar gregos e troianos. A Mabel simboliza isso muito bem. É uma personagem não-americana, porém a sua ascendência é tão diluída que dá para facilmente ignorar se você deixar passar umas ceninhas do começo. O seu ativismo também porque, embora ela nunca deixe se defender a causa ambientalista, o filme a representa como a chatona, a inconveniente e ela só consegue obter sucesso ao abaixar a cabeça se conciliar com a classe política. Hoppers quer te fazer acreditar que dá conviver em paz e acreditar que no fundo essas pessoas são boas e tem uma chance de se arrepender (e voltar a comprar ingresso pros seus filmes). É só ter esperança num mundo melhor, na democracia, no sonho americano, em qualquer besteira que a elite política e econômica americana tenta vender até hoje.
Eu me divirto pensando em como até Dr. Dolittle 2 consegue ser mais politicamente ousado que Hoppers. Ali pelo menos os animais se organizam, fazem greve, se rebelam contra o vilão capitalista. Hoppers, por sua vez, argumenta que isso é errado porque tem que fingir que existe a possibilidade de colaboração mútua. Não se rebele, não se revolte. Tente conversar que com certeza eles irão te ouvir. Se a gente der uma segunda chance, quem sabe o presidente Donald Trump, digo, o prefeito Jerry reavalie suas ações, né?
Hoppers não é uma ficção para crianças, é uma ficção para o liberal americano!
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