
Medusa, filme brasileiro de Anita Rocha da Silveira, começa com um close numa personagem que mais para frente descobriremos que se chama Melissa (Bruna Linzmeyer). A câmera se afasta devagar e ela faz uma perfomance artística que, combinada com iluminação e a música, traz uma aura surrealista e meio tenebrosa. A cena abre mais e então percebemos que estávamos assistindo à tela do celular de uma moça. Ela desce do ônibus a caminho de casa, andando por ruas desertas à noite, quando percebe que está sendo seguida. Um grupo de mulheres mascaradas corre atrás dela e, ao tentar fugir, a jovem cai no chão. As perseguidoras a espancam, xingam e então puxam um celular para filmá-la e perguntam: “Você promete aceitar Jesus no seu coração e se tornar uma mulher devota, recatada e submissa ao Senhor?”.
A primeira vez que assisti Medusa eu sabia praticamente nada do filme. De vez em quando isso é muito bom, porque produz algumas surpresas positivas. Por exemplo, a virada em de ver as moças mascaradas gritando “Pecadora! Jezebel! Vai morrer na cruz!” me surpreendeu porque o que antes eu achava que seria um filme slasher virou um filme de culto. O que estava parcialmente certo porque é uma trama que se desenvolve em torno de uma comunidade evangélica. Contudo, Medusa não é tanto sobre a Igreja Evangélica brasileira – ainda que essa crítica trespasse o filme em vários momentos – e mais sobre a perspectiva da mulher e as opressões que ele vive naquele meio, por vezes reproduzindo essa violência para com as outras mulheres. E não somente com aquelas tidas como “do mundo”.
Seguimos o filme com Mariana (Mari Oliveira), uma jovem evangélica vivendo na pensão da sua igreja. Clarissa (Bruna G.), sobrinha de uma das mulheres que também vivem lá, fica sob seus cuidados para ajudá-la a se integrar àquela comunidade. Mariana então a apresenta para suas amigas que fazem parte do grupo gospel As Preciosas, lideradas por Michele (Lara Tremouroux), sua melhor amiga. Elas se apresentam durante os cultos de de dia e durante à noite, saem pelas ruas para perseguir e agredir outras jovens que consideram impuras. As Preciosas “convertem” – na cabeça delas, pelo menos – essas mulheres na base dos socos e chutes, depois gravam seu testemunho das vítimas e publicam nas redes sociais. Para elas, é uma ação justa para espalhar a palavra de Cristo. Para nós, é apenas uma humilhação sádica.
Não precisa muito esforço para perceber que a violência é o principal tema de Medusa. São as agressões, físicas e emocionais, que as mulheres sofrem e também as agressões que elas mesmas exercem sobre as outras. Anita explora em seu filme como esse tipo de violência se produz, se propaga e se perpetua no meio religioso.

Antes que algum protestante proteste em prol do seu protestantismo sobre como esse é um filme anti-evangélico – ainda mais quando tem uma galera que acredita que existe perseguição contra os cristãos no Brasil – peço um pouco de parcimônia. Tal como Conclave não é um filme anti-católico, mas tece críticas sobre a Igreja Católica, o protestantismo na sua denominação evangélica é colocado em cheque em Medusa não pela fé e sim pela instituição. A ferida que o filme cutuca é sobre a instrumentalização que se faz da religião, tanto para fins políticos* e econômicos, tal como as contradições entre crença, discurso e ação entre os líderes religiosos e seus fiéis. Você tem como exemplos o Pastor Guilherme (Thiago Fragoso) que mostra mais interesse na sua campanha para prefeito e o Dr. Arnaldo (Márcio Mariante) que é dono de uma clínica de estética “cristã”.
*Nem preciso dizer em qual governo aconteceu a produção deste filme, não é mesmo?
Mas antes de entrar nesse tópico, vou voltar à questão da violência da mulher contra a mulher porque isso já se destaca no próprio título ao evocar o mito da Medusa. Acredito que estamos aqui todos bem familiarizados com a história da Medusa que já foi recontada diversas vezes na cultura pop: os cabelos de serpente, o olhar que transformava qualquer um em pedra e sua decapitação pelas mãos de Perseu. Mas aqui a diretora usa uma outra versão desse mito, escrita pelo poeta romano Ovídio.
No conto de Ovídio, a Medusa não nasce já como um monstro. Originalmente ela era uma sacerdotisa no templo de Atenas dotada de imensa beleza. Isso atraiu a atenção do deus Poseidon que passou a cortejá-la e Atenas a transforma na criatura desfigurada que conhecemos quando a sacerdotisa “dorme” com o deus dos mares. Porém tem um detalhe importante nessa história: não foi uma relação consensual. Poseidon estupra Medusa, ou seja, ela é uma vítima em duas instâncias. Primeiro ela sofre uma violência sexual e depois é condenada como se fosse responsável pelos atos de Poseidon. A beleza vira um pecado inerente à figura da mulher.
A alusão ao mito da Medusa vem na personagem de Melissa, a mulher que vemos na primeira cena. Michele conta a sua história quando as Preciosas se reúnem em torno de uma piscina para receber Clarissa no grupo. Melissa era uma atriz e dançarina que viveu naquela cidade e era considerada uma “depravada”, uma “destruidora da moral”. Ela vivia nos bares dançando e cantando, “cada noite com um homem diferente”. Durante a Sexta-feira Santa, Melissa estava numa boate “em meio a todos os piores pecados que a gente pode pensar” e uma mulher fantasiada de anjo se aproximou dela. Essa mulher usava uma máscara branca igual a que as Preciosas usam de noite e ao encontrar Melissa, ela joga querosene no seu rosto e lhe ateia fogo.
Não se sabe o que aconteceu com a atriz depois do ataque, apenas que ela passou por umas cirurgias e desapareceu. Mariana e suas amigas são obcecadas em encontrá-la para poder tirar uma foto de como ela ficou. É mais um pouco daquela humilhação sádica que vimos anteriormente. Chega a ser assustador como Michele conta esse caso como se fosse uma história inspiradora. A agressora é vista como uma heroína por dar a tal pecadora o destino que ela supostamente merecia: ter sua beleza destruída para sempre para lembrar dos seus pecados.
Percebam como a ideia de beleza e pecado sempre aparecem associadas ao tema central da violência contra mulher. Pois não é apenas uma questão de agredir, é também necessário desfigurar a vítima. É preciso deixá-la com uma marca que sirva de um lembrete e que mostre que ela é uma impura aos olhos das demais. Porque para os personagens de Medusa a beleza não se resume à estética, ela vai para o campo da moral também.
Eu não sou de reparar muito na fotografia dos filmes porque eu não entendo muito além do nome de meia dúzia de ângulos e enquadramentos. Mesmo assim eu não conseguia deixar de reparar como a câmera em Medusa parece evocar constantemente essa ideia de perfeição. Os ângulos, em sua maioria, são retos, com tudo bem centralizado e todos os elementos da cena harmonicamente distribuídos. Michele, que no filme é uma influencer evangélica, faz um vídeo ensinando suas seguidoras como tirar uma “selfie perfeita e cristã” dizendo que é muito importante que o celular esteja sempre em linha reta. A câmera foca muito nos rostos das personagens evidenciando, acima de tudo, a maquiagem.

Quando falo de maquiagem eu não me refiro a usada pela equipe do filme. Falo dos cosméticos que vemos Mariana usar, como quando ela acorda e vai fazer sua oração matutina enquanto passa uma máscara facial. Um exemplo melhor acontece também bem no comecinho, a primeira interação que Mariana tem com Clarissa. Elas estão num ponto de ônibus e a garota começa a chorar, sentindo saudades da sua família, dos seus amigos, da sua cidade, do seu lar. Depois de acalmá-la, Mariana ajuda Clarissa a se recompor, limpar o rosto e passar um gloss. A cena termina com a menina sorrindo.
Numa primeira olhada, realmente é um momento fofo de acolhimento. Porém ao reassistir, a sensação que eu fiquei dessa passagem foi como a maquiagem ali é empregada para esconder as verdadeiras emoções de Clarissa. Ela não pode mostrar que está triste por ter sido afastada da sua família, ela tem que aparentar felicidade por estar agora está dentro da igreja. Tanto que o filme justamente faz um corte seco para uma apresentação das Preciosas, todas bem produzidas, cantando que “quando Apocalipse acontecer, ô, vou sobreviver”.
Essa ideia de uma aparência imaculada representar também uma alma imaculada – ignorando toda a ironia com a vaidade – é tão forte em Mariana e suas amigas que o arco dela inicia de fato quando algo a marca. Literalmente! Numa das noites em que elas tentam atacar outra jovem, a vítima corre para dentro de um parque e se esconde. As Preciosas se dividem para encontrá-la e quem acaba dando de cara com a jovem é Mariana. Elas caem na grama, brigando, a moça pega uma garrafa quebra e a sua para fazer um corte profundo na bochecha de Mariana. A partir daí fica notável o tratamento diferente que Mariana passa a receber das suas amigas e da comunidade em volta.
Uma das minhas cenas favoritas em Medusa é quando o Dr. Arnaldo decide demitir Mariana que trabalhava na sua clínica. A justificativa é que a ferida no rosto dela assusta as clientes. Aos olhos do personagem, a protagonista deveria ser uma vítima, pois ela cria uma história que foi atacada por um assaltante de noite quando voltava para casa. Porém, em vez de receber algum acolhimento, tal como ela fez com Clarissa, o Dr. Arnaldo apenas olha para Mariana com condescendência e diz que ela “deveria saber que a mulher digna não anda desacompanhada à noite”. Ou seja, à violência, mesmo que seja uma violência hipotética nesse caso, ainda é culpa da mulher e não do agressor.
A partir desse ponto, Mariana começa a ter mais consciência do real tratamento que ela recebe ali enquanto mulher. Porque não é algo individual, é uma mentalidade tão enraizada naquela comunidade que a própria protagonista achava normal até passar a ser vítima. Basta ver como Mariana não tinha objeção alguma no uso de violência contra outras mulheres por simplesmente considerar que elas eram merecedoras dessa punição. Esse é outro termo muito associado ao tema da violência: merecimento.
Depois de ser demitida da clínica, ela toma para si a missão de encontrar a Melissa, acreditando que ela está num hospital especializado em cuidar de pessoas em coma. Como Mariana é enfermeira, a administradora a contrata e ela passa a trabalhar ao lado de Lucas (Felipe Frazão). Os dois desenvolvem um vínculo rápido, algo que vai despertando desejos em Mariana depois. Em dado momento, Lucas conta para ela a história de uma das pacientes que entrou em coma depois de uma reação ao anestésico durante uma cirurgia plástica. Os dois vão cuidar do paciente do leito ao lado e Lucas pede para Mariana imaginar o porquê dele estar ali.
Na história de Mariana, o homem entrou em como por causa de traumatismo craniano causado numa briga. Ele teria se aproximado de uma mulher comprometida num casamento, o namorado viu e partiu para cima dos dois. A mulher morre e o homem vai parar ali. Lucas cria outra versão, imaginando o paciente como um homem gay que, voltando para casa com o namorado, sofre um linchamento de um grupo.
O que há de mais curioso nessa sequência são as reações de Mariana. Na sua versão, ela fala com a mesma tranquilidade de quando Michele conta a história de Melissa. Para ela, parece normal um homem ficar em coma por causa de uma surra de um namorado ciumento. Que, vamos lembrar, também teria matado a namorada. Porém, quando ela ouve a versão de Lucas, é visível o seu incômodo. Podemos interpretar que a personagem passando a ter consciência do que ela e suas amigas fazem. Mas eu também gosto de pensar que a história de Lucas obriga Mariana a ver aquele homem como uma vítima inocente e não alguém que “mereceu” uma punição.
Mas o que torna Medusa um filme especial é que a diretora entende que essa violência não é uma característica inata das personagens. Mulher nenhuma nasce odiando outra mulher. Tanto Mariana quanto suas amigas foram condicionadas a enxergar a feminilidade como que traz consigo o pecado e por isso deve ser castigado. Não precisa nem ser nem com um castigo físico.
Michele interrompe um dos ensaios da Preciosa quando seu namorado aparece lá com seus amigos que fazem parte dos Vigilantes de Sião, uma milícia de jovens evangélicos a serviço do pastor. Não sabemos o motivo da briga, mas o namorado faz questão de pontuar que a culpa é da Michele. Mariana fica observando os dois de longe e uma das outras Preciosas se aproxima. Ela diz que uma vez disseram para ela que os nomes de garotas que começam com letra M – Melissa, Michele, Mariana – são nomes de “meretrizes, marias madalenas, messalinas, monstras”.
Essa cena se conecta também a uma outra quando Mariana participa de um speed dating evangélico onde estão outros Vigilantes de Sião. O primeiro com quem ela conversa diz que as mulheres de hoje perderam os “valores cristãos” e estão sempre exibindo seu corpo para os homens. Algo que ele supostamente acha nojento e por isso está em busca de uma “mulher limpa”. Mas o terceiro que é o mais enfático, porque já chega encarando Mariana com desprezo. Segundo ele, uma mulher direita nem deveria estar ali e depois pergunta se ela “não tem vergonha de ficar se oferecendo assim pros homens?”. Veja que não importa o que as mulheres façam, sempre arranjam uma forma de inverter a situação e colocá-las como culpadas.

Pode parecer que já falei de Medusa inteira, mas na verdade eu devo ter, no máximo, coberto metade da história. Nem mesmo precisei entrar na trama sobrenatural que inicia quando Mariana finalmente encontra Melissa. Ao tentar tirar uma foto dela, a mulher acorda, grita e faz a protagonista desmaiar. Melissa desaparece e Mariana começa a sentir desejos estranhos, “pensamentos impuros” como ela confessa ao pastor Guilherme, e acha que soltou um monstro no mundo. Porém não preciso entrar em mais detalhes porque isso é uma extensão de tudo aquilo que já discutimos aqui. Mais uma vez é a mulher sendo culpada por tudo aquilo que ela faz, que ela sente, que ela deseja, como se o mero fato de existir como mulher é um pecado.
Nesse sentido, acho que a maquiagem é quase uma armadura. A pele linda e imaculada não é apenas uma questão de vaidade, é uma tentativa desesperada de se mostrar pura porque sabem, mesmo que inconscientemente, como as mulheres “sujas” são tratadas por aquela comunidade.
Assim, o que em outro contexto seria interpretado como vaidade, em Medusa é ressignificado como um símbolo da suposta pureza moral. Mas a maquiagem não é apenas uma tentativa de se mostrar imaculada, vira também uma forma de esconder tudo que há de pior naquela comunidade. O mesmo acaba aplicando a religiosidade, que acaba se tornando um cosmético usado como uma justificativa para qualquer ação. Inclusive aquelas que vão contra aos supostos valores que dizem ter.
Não são mulheres perseguindo, espancando e humilhando outras nas ruas. Elas apenas estão trazendo essas “destruidoras da moral” para o coração de Cristo. Não é uma milícia reforçando um regime teocrático local. São apenas jovens fiéis garantindo a proteção da moral e dos bons costumes. Não é o uso da fé alheia para construir sua carreira política. É apenas um pastor querendo garantir o futuro do país para que os políticos não se acharem acima de Deus. Também não é a mercantilização da religião para o benefício dos empresários. É apenas um cirurgião querendo que as fiéis se sintam belas. Com a maquiagem certa você cobre qualquer infâmia!
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