
Apesar do brasileiro ter uma enorme má vontade com o nosso cinema, de tempos em tempos surge um filme para unificar as massas não-cinéfilas. Curiosamente, no início do milênio nós tivemos três desses eventos nacionais. Primeiro, no exato ano de 2000, tivemos O Auto da Compadecida, uma nova adaptação da peça de Ariano Suassuna, dirigido por Guel Arraes. Dois anos depois chegou aos cinemas Cidade de Deus, outra adaptação de um livro homônimo que vocês estão descobrindo agora que existe, do grande Fernando Meirelles. Por último, em 2007, veio o fenômeno de Tropa de Elite, direção de José Padilha, que dentre os três é o que eu me lembro com mais afinco.
Também é curioso que são justamente esses os três exemplos que uma galera por aí sabe citar como filmes brasileiros bons.
Tropa de Elite teve um inegável impacto cultural naquele período. Frases como “Pede pra sair”, “Quem quer rir, tem que fazer rir”, “Bota na conta do papa”, entre muitas outras entraram para o vocabulário do brasileiro. O Capitão Nascimento, interpretado pelo excelentíssimo Wagner Moura, se tornou um dos heróis da ficção brasileira. Numa anedota pessoal, meus amigos começaram a usar o nome dos personagens de Tropa de Elite quando a gente ia numa lan house daqui do bairro pra jogar Counter-Strike. Creio que nem preciso dizer em qual mapa, né?
Depois de um bom tempo sem rever o filme, eu resolvi baixá-lo. Sigo gostando bastante, provavelmente até mais do que antes, já que aprendi a apreciar o cinema para além dos fins de entretenimento da minha juventude. As atuações, sobretudo a naturalidade dos diálogos, o roteiro e a direção José Padilha são aspectos que eu não tenho que criticar. Na verdade, a minha crítica é voltada ao Padilha, mas logo chego lá. As cenas de ação de Tropa de Elite particularmente me chamaram muita atenção. Salvo um tiroteio caótico durante o baile na favela, todas as sequências tem uma execução (até em mais de um sentido) precisa. É sem rodeios, o BOPE entra, faz o seu serviço e sai.
Entretanto, eu não vim aqui para falar de Tropa de Elite e sim sobre um discurso que vem se repetindo há anos sobre ele. Como eu disse, o filme se tornou um fenômeno nacional. Ele foi massivamente assistido, massivamente discutido e, mais do que isso, massivamente cultuado. Num ponto que passou a incomodar algumas pessoas, sobretudo o seu diretor. Você não precisa fazer parte da cinefilia brasileira – e eu recomendo que pela sua saúde você não faça parte mesmo – para ouvir a história batida de como “o brasileiro não entendeu Tropa de Elite”. Essa ideia ganhou mais força três anos depois, o Padilha dirigiu Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro. Qualquer crítica que o anterior supostamente fez, na sequência ela reaparece muito mais mastigada.
Quando eu digo “supostamente” não é porque eu estou negando que haja críticas em Tropa de Elite. Eu só acho bobeira esse discurso conveniente de que as massas não captaram a tal grande mensagem do filme. Casos da mensagem recebida ser diferente da mensagem enviada são comuns na comunicação social, porém para o caso particular de Tropa de Elite me parece mais uma questão do autor negando que escreveu a carta.
Vamos pensar, qual seria essa crítica que passou despercebida pelo povão? Bom, é evidente pra qualquer um que o filme faz um comentário bem contundade sobre Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, mostrando-a como uma instituição corrupta e incompetente no combate contra o crime. Os PMs, em sua maioria, são representados como agentes despreparados que têm mais interesse em proteger os seus esquemas do que garantir a segurança da população. E qualquer um que tente fazer um bom serviço, como é o caso dos personagens, Neto e Mathias, são desincentivados e até punidos. “Morte na praia, meu filho, é afogamento!”
Também tem um comentário sobre as raízes da política no crime organizado e na corrupção da PM, porém isso vem de maneira mais pontual. A primeira vez que o Mathias vai até a ONG do seu grupo da faculdade, o administrador entrega pra ele um santinho do senador para quem eles estão fazendo campanha. Um pouco depois, durante o tiroteio no Morro da Babilônia, vemos o Coronel numa boate conversando com um deputado sobre promover um dos seus subordinados para garantir o apoio de mais um batalhão na candidatura dele.
Show de bola, meus camaradas. Temos aí algumas críticas que qualquer um pode perceber com tranquilidade, contanto que esteja olhando as imagens se mexerem no filme. Contudo não é essa a tal mensagem o Padilha irá alegar que não pegaram, né? Prosseguindo!

Segundo consta, Tropa de Elite também teria uma crítica sobre a violência urbana promovida pelas próprias forças do Estado. Contudo ninguém viu isso, supostamente, porque a maioria saiu do filme repetindo que é bandido bom é bandido morto. “Na cara não, chefe. Pra não estragar o velório!”. Durante um tempo esse discurso colou, porém hoje em dia cada vez mais pessoas questionam se essa mensagem foi de fato transmitida no filme.
Não precisamos chegar ao ponto de dizer que Tropa de Elite vai por um viés apologista da violência policial. O que eu considero é que ele dá margem o bastante para a interpretação que essa violência é um mal necessário na contenção do crime. Aí entra o famoso Batalhão de Operações Policiais Especiais, vulgo BOPE. Essa ideia se resume perfeitamente na narração inicial que o Capitão Nascimento faz, antes do Neto dar o tiro que iria mudar a história de todos esses personagens:
No Rio de Janeiro, quem quer ser policial tem que escolher: ou se corrompe, ou se omite, ou vai pra guerra!
Tropa de Elite não está dizendo, explicitamente, que é assim que o combate ao tráfico precisa operar. Porém o Capitão Nascimento cria todo um argumento para mostrar que, da forma que o crime organizado se instalou nas favelas do Rio, em coexistência com a PM, não existem muitas alternativas. De um lado, um bando de PM corrupto que não faz o seu serviço direito. Do outro, grupos e mais grupos de traficantes com armamento militar. Quem está no meio quer uma solução eficiente, ou que pelo menos pareça eficiente, e que seja rápida.
Aqui eu chamo atenção de novo para aquilo que falei da direção das sequências de ação. Todas às vezes que os policiais do BOPE aparecem numa operação na favela eles são rápidos, precisos e eficientes. Parece que eles nem mesmo erram um tiro. São o completo oposto da PM: altamente capacitados, muito bem treinados e incorruptíveis. Ok, também mostram eles tomando algumas atitudes questionáveis, como a sua política de que eles sobem o morro para matar e não hesitam em usar métodos de tortura para extrair informação dos outros. Mas é fácil para a audiência justificar isso para si mesma, porém vou falar disso mais para frente.
Tropa de Elite é literal. O BOPE, na história, funciona como um grupo de super policiais que vão na linha de todos aqueles super soldados que o público ficou tão acostumado a ver em filmes de ação americanos. Claramente são os mocinhos dentro dessa narrativa, porque você tem uma penca de policiais corruptos servindo de antagonistas na primeira metade do filme e o Baiano como um vilão na segunda. Que, aliás, é mais um elemento para ajudar a audiência aceitar a violência do BOPE mesmo aparecendo tão pouco.
Baiano não é um mero traficante, ele é um monstro. A interpretação do Fábio Lago ajuda muito nisso por como ele muda de cena para cena. Em situações comuns, ainda que saibamos que ele é um traficante perigoso, o Baiano é um sujeito boa praça e simpático. Mas quando ele fica com raiva, a fisionomia dele se transforma. Você não vê uma alma ali naqueles olhos e isso é reforçado pelas suas ações. O Baiano mata o amigo de infância do Mathias com um tiro pelas costas, executa uma jovem universitária inocente com um tiro na cabeça e depois bota o administrador da ONG no “micro-ondas”. Como não esperar que os espectadores regozijem no final do filme quando esse cara é morto?

A ficção tem uma grande capacidade de mexer com nossos afetos, mesmo que isso vá contra nossos valores. Talvez num outro filme o público geral conseguisse enxergar o Capitão Nascimento como um psicopata. Basta ver como ele fala com orgulho como quando o Neto entrou pra equipe dele na Operação João Paulo II já “tinham morrido mais de 30 vagabundos no Turano”. Entretanto, o filme dá abertura para você ver um lado mais vulnerável do personagem com que se dá para simpatizar. A gente vê ele sofrendo de estresse pós-traumático, o medo que ele tem de morrer com seu primeiro filho próximo a nascer, a sua discordância inicialmente da operação porque ia acabar morrendo gente inocente, ele se derramando em lágrimas quando a esperança de ter o Neto como seu substituto pode não se concretizar.
Para piorar, Tropa de Elite acaba abandonando pontos úteis para evocar as consequências dessa violência. Na primeira metade temos a pequena trama da mãe do fogueteiro que o Capitão Nascimento deixa ir embora depois que ele entrega quem estava com a droga. Porém o garoto acaba morto pelos traficantes por ser X9. Isso vai criando uma enorme culpa no personagem, porque toda vez que ele pensa no filho, ele pensa na mãe do garoto que não pode enterrá-lo. Poderia ser um elemento forte no roteiro para criar a reflexão que os métodos do Nascimento só causam mais derramamento de sangue e menos diminuição do crime. Só que passado a sequência do tiroteio no Morro da Babilônia, o roteiro esquece isso. E já que como o dono do morro morreu, dane-se a história do fogueteiro. Quando o morro estiver pacificado, a morte dele vai “servirá” para um bem supostamente maior, né?
Vejam como Tropa de Elite o tempo todo constrói zonas de ambiguidade em que a tal crítica contra a violência policial perde a sua força. Querem outro exemplo? O Mathias! Teoricamente o arco dele deveria ser negativo. Temos um sujeito humilde que com seu esforço conseguiu entrar numa das melhores universidades do Rio e que tinha um sonho de se formar advogado para conseguir contribuir para sociedade dentro dos limites da lei. No final ele perde esse idealismo e se torna mais um braço a serviço do Estado que acha que a solução é pro crime e enfiar bala na maior quantidade de bandidos possíveis.
Dá para argumentar que é perfeitamente isso que o filme faz… mas! Reparem em como a cena final é gravada. No roteiro é uma execução brutal, não prática não parece tanto assim para o espectador. Tropa de Elite tem tantas cenas à noite que te fazem se sentir num filme de terror. Mas justamente nessa sequência o Padilha escolhe filmar de dia, com o sol sempre brilhando nas costas dos personagens. Quando o Mathias vai dar o tiro fatal, a cena se dissolve numa tela branca em vez de preta como se aquilo fosse a redenção do personagem e não a sua ruína.
Então o José Padilha pode continuar batendo o pé que não entenderam o Tropa de Elite dele. No seu lugar provavelmente eu faria o mesmo, ainda mais num Brasil pós-2013. Contudo ele tem que reconhecer que as coisas que botou no seu filme dão espaço o bastante para a audiência ler de outra forma. E é isso que eu gostaria de destacar porque eu não acho que foi uma infeliz coincidência que o público saiu de Tropa de Elite pensando que bandido bom é bandido morto. Hoje eu tenho certeza que ele fez isso de caso pensado, muito por conta que há poucas semanas eu enfim assisti Ônibus 174.
Tropa de Elite não foi o primeiro filme do Padilha. Antes disso ele se lançou como diretor com um filme documentário que reconta os eventos do sequestro do ônibus 174, um crime relativamente famoso do início dos anos 2000. Imagino que alguns aqui sejam muito novos para conhecer essa história, então irei resumir os fatos.
O sequestro do ônibus 174 aconteceu na tarde de do dia 12 de junho de 2000 quando o jovem de 22 anos, Sandro Barbosa do Nascimento, fez sinal na parada do Jardim Botânico. O rapaz pretendia fazer um assalto, porém alguns passageiros viram a arma que ele carregava e fizeram sinal para um carro de polícia que passava perto. Dois policiais interceptaram o ônibus e alguns dos passageiros conseguiram fugir a tempo. Mesmo assim Sandro conseguiu manter dez deles de refém, entre elas a professora Geísa Firmo Gonçalves.

A negociação se estendeu por horas, com o próprio Sandro não sabendo muito o que fazer além de ameaçar matar todo mundo dentro do ônibus. Na chegada da noite, o rapaz finalmente resolveu descer do ônibus usando Geísa como escudo para garantir sua escapatória. Nesse momento, um policial tenta intervir atirando em Sandro. Entretanto, ele errou o disparo e assustou Sandro. Ele acabou caindo e descarregando sua pistola. Os três tiros acertaram Geísa que não resistiu aos ferimentos. Sandro foi jogado numa das viaturas, morto por asfixia na mão de dois policiais.
Ônibus 174 já era um documentário fascinante por si só, hoje é melhor ainda por vivermos no pesadelo dos podcasts e séries de true crime. O filme do Padilha tem um olhar muito mais social. Ele não se limita a nos contar os fatos do crime e faz uma investigação da vida de Sandro, buscando entender o que o levou àquele momento. Mas não para nos dar a história de origem do criminoso e sim mostrar como todas as instituições falharam com o Sandro, sem deixá-lo com qualquer outra perspectiva na vida que não fosse uma vida de furtos para sobreviver.
Se você falar “vítima da sociedade” vai ter uma galera na internet dando ataque de pelancas, porém ela cabe perfeitamente na trágica vida do Sandro. Abandonado pelo pai, viu a mãe ser degolada na sua frente quando tinha apenas oito anos. Tinha dificuldades nos estudos, abandonou a escola, foi viver nas ruas e acabou se viciando em drogas. Aos 11 anos ele testemunha outro crime bárbaro, sendo um dos sobreviventes da terrível Chacina da Candelária. Sandro nunca conseguiu colocar sua vida nos eixos, não tendo oportunidades de trabalho. O final da história já sabemos.
Trouxe o documentário porque tem duas passagens nele que me chamaram atenção. Na primeira temos uma das entrevistadas que acredito que é uma historiadora e/ou pesquisadora que estudou o caso de Sandro e da Chacina da Candelária. Ela conta o quando aconteceu este episódio, que vitimou oito jovens, teve uma pesquisa feita numa rádio em que as pessoas defenderam a chacina dizendo que “tem que matar mesmo”. A segunda acontece bem para o fim do documentário, depois que Sandro faz os disparos e é contido pelos policiais. Uma multidão sai correndo na direção do ônibus com a intenção de linchar o rapaz. É durante essa confusão que ele acaba asfixiado dentro do carro.
Esses dois momentos e Ônibus 174 como um todo mostram que o Padilha conhecia muito bem a relação do brasileiro com a violência urbana. Ele viu exemplos claros de que o sangue que ferve nas veias desse país é o sangue do punitivismo. O brasileiro não é alienado como algumas pessoas gostam de pensar. Ele sabe muito bem a violência que o cerca, ele vê isso todos os dias. O problema é que alguns não entendem as causas dessa violência e como combatê-la, ao mesmo tempo que existe esse sentimento generalizado de impunidade. Por isso, que no final das contas, esse brasileiro vai buscar uma solução rápida. Tem que resolver agora, não com ações que terão resultados daqui talvez uma década. Ele quer uma justiça a qualquer custo, seja pela lei, seja pela bala.
Foi para esse brasileiro que o Padilha fez Tropa de Elite. Era para esse brasileiro que o Padilha tentou dar uma catarse. Ele foi acenar desesperadamente para uma elite intelectual teoricamente mais consciente só no segundo filme. Aqui ele quis alcançar o cidadão médio, aquele que pode até não ser formalmente reacionário, porém tem um grande talento para tal. Só que pega mal admitir isso hoje em dia, né? 2018 aconteceu. Por isso que o Padilha nunca dará o braço a torcer e continuará dizendo que foi mal interpretado, fingindo que ele não botou elementos em Tropa de Elite que se conectam com a gana punitivista do brasileiro. Parafraseando o seu próprio filme renegado: “o senhor é um fanfarrão, seu Padilha!”.
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