Me desanima que produtivismo gamer seja uma realidade

Meme do "Are you winning, son?" editado, mostrando o pai perguntando "bateu a meta hj filhão?" e com o garoto com cara triste por estar sofrendo com o "produtivismo gamer"

Apesar dos meus parentes, amigos e conhecidos tentarem tanto me tirar dessa vida de vício e autodestruição, eu infelizmente ainda acesso o Reddit gamer. Piadas à parte, eu realmente gosto do subreddit que participo: Games e Cultura. É uma comunidade que não se rendeu ao reacionarismo gamer e também não se deixou virar um grupo com aquele progressismo pau-mole que tenta se vender como “espaço seguro”. Ainda que apareça uma postagem ou outra que me tira do sério (e convenhamos, não é muito difícil), gosto de andar por lá e interagir com as pessoas.

Embora admito que por vezes sou grosso e agressivo sem a menor necessidade.

Acontece que, de uns tempos para cá, eu reparei num tipo de postagem que se repete frequência. Os títulos mudam, tal como o intervalo de tempo escolhido, mas em essência é o OP perguntando quantas horas a gente joga por dia/semana/mês. Aparentemente inofensivo até você ver pessoas se sentindo mal por “jogarem pouco”. Algo que é bem relativo, diga-se de passagem. Quando você vê a mesma coisa sendo repetida tantas e tantas vezes é natural que ela se torne irritante. Mas comigo já incomodava por conta do tom de algumas daquelas postagens.

Não parecia um mero caso de gamer sem saber como puxar assunto e sim parte de algo que eu já observei em outras ocasiões. Como eu tenho mania de pôr nome nas coisas, chamei de “produtivismo gamer”. O -ismo aqui foi adicionado não com o intuito de criar um neologismo e nem numa etimologia freestyle de achar que o sufixo designa doença. É para traçar um paralelo que ficará mais claro ao longo do texto com o termo coitadismo.

Muitos dos BOs da Semana surgem após um comentário específico que eu vi por aí. Dessa vez foi um cara dizendo que às vezes “batia uma bad” por ele não ter tempo de jogar tudo que queria. Compreensível, mais ainda quando você está na faculdade e/ou trabalha. Ele então perguntou se mais alguém passava por isso, o que o histórico do subreddit confirma que sim, e acrescentou uma pergunta final se as pessoas chegavam a pôr no fácil para poder zerar os jogos mais rápido.

Foi isso que deu o estalo na minha cabeça por me fazer pensar na produtividade do consumo de mídias que aparece tanto nas redes sociais. Turminha da literatura de vez em quando vem com papinho de taxa de páginas/dia ou livros/ano. Já sabemos que tem um monte de gente que assiste a séries na velocidade 2x para terminar logo. Cinéfilo tem crise de ansiedade se não postar print do seu Letterbox mostrando quais filmes ele assistiu na semana. Otakus ainda acreditam que o MyAnimeList serve pra algo. Para ser franco eu não sei se as pessoas ainda usam o MyAnimeList, entretanto é a única referência que eu tenho.

E aí tem o gamer. Ah, o gamer… Desde a chegada das redes sociais, eu sinto que o ato de jogar se tornou uma atividade performática. Acho que alguns argumentariam que tudo nas redes sociais é performático. Contudo eu não falo nesse sentido mais recente em que a performance virou um sinônimo de fingimento. Eu digo no mesmo sentido daquela frase famosa “a mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Adaptando para o nosso contexto, ficaria algo do tipo: o gamer não basta jogar, deve parecer que joga.

Lembram quando os racistas da Xbox Mil Grau perderam o canal e foram chamados para uma “conversa de bar” no Flow Podcast? As falas que mais viralizaram foram as “13 mil horas de gameplay” e o tal do “contexto” que repetiram N vezes ao longo do programa. Para o meu entretenimento próprio, eu revi um compilado semanas atrás. Algo que na época eu não prestei atenção foi como eles também repetiam muito como faziam mais de 10 horas de live todos os dias. Chegaram até a dizer que passavam mais tempo em live do que com as famílias como se isso fosse algum mérito. Mérito não, um certificado!

Os racistas da Xbox Mil Grau queriam mostrar para o público que eram “gamers de verdade” e que se dedicavam à mídia embora o conteúdo deles não conseguisse pisar fora dos limites do flamewar barato. Não é à toa que são os mesmos que originaram aquela bobagem do “currículo gamer” quase uns dez anos atrás. Eu adoraria que essa fosse uma mentalidade exclusiva desses imbecis e da comunidade deles, infelizmente a realidade é um pouco mais desanimadora.

Recentemente a PlayStation Brasil anunciou quais seriam os novos integrantes da PlayStation Playmakers Brasil e numa postagem do Twitter eu me deparei com vários comentários reclamando das escolhas. O que é bem normal, já que o gamer é incapaz de ficar satisfeito com qualquer coisa. É evidente que a marca contratou essa galera por serem pessoas com bom engajamento nas redes sociais e não pela sua associação a comunidade gamer. Os dois nomes mais ligados a videogames são a Nyvi Estephan e o Bruno Correa.

O que me chamou atenção é como as críticas vinham todas nessas de que essas pessoas provavelmente não jogavam nada. Não é a primeira vez que algo assim acontece. Quando fiz aquele texto comentando dos “memes” da Bella Ramsey e os ecos do Gamergate, eu mencionei o caso da Isadora Basile. Ao anunciarem que ela seria a nova apresentadora do canal Xbox Brasil, choveu de comentário questionando se ela tinha o console, se ela jogava, se ela realmente gostava do Xbox. Aquela mesma lenga-lenga de sempre. Claro que temos que considerar que existe muito reacionarismo e misoginia nessas histórias, porém eu vejo que também tem influência dessa cultura de “produtivismo gamer” onde o gamer quer sempre mostrar como ele joga.

Quantos consoles você tem?

Qual o tamanho da sua biblioteca, física ou digital?

Já zerou quantos jogos esse ano? E ano passado?

Platinou algum?

E voltando ao início do texto, joga quantas horas por dia?

Parece ridículo, porque de fato é ridículo, mas tem gente que realmente leva essas coisas a sério. Eu nunca vou me esquecer que, numa dessas Jogorespectivas que publico todo ano, uma vez recebi um comentário de um cara que disse que sentiu falta de eu não ter mencionado a quantidade de horas que levei para zerar os jogos que recomendei. Dei uma resposta educada, mas admito que meu primeiro impulso foi de perguntar se a pessoa era meio idiota. Por que diabos eu me importaria em anotar esse tipo de informação? Mais do que isso, que diferença faria? Se está querendo uma média, o HowLongToBeat está logo ali!

Por essas e tantas outras ocorrências que não sai da minha cabeça que tem gamer que trata videogame como um segundo trabalho e isso o deixa desesperado em mostrar produtividade. O resultado é que também é igualmente frequente me deparar lá no subreddit com postagens falando que “os games já não são mais o mesmo” ou então milésimo desabafo do OP alegando estar sofrendo com a Síndrome do PC Gamer. Aliás, se você sofre com isso, aqui tem um método com 100% de garantia para te curar disso.

*sigh*

Eu sei que eu tenho uma enorme facilidade de me incomodar com qualquer aspecto da cultura gamer, mas me desanima muito saber que “produtivismo gamer” é real. Queria muito que fosse apenas uma maluquice que eu inventei para ter conteúdo pro blog, como eu queria… Por isso eu nem me surpreendo que meses atrás tinha uma galera dizendo que “zerar pelo YouTube” é uma experiência válida. Quando o que importa é só marcar mais um joguinho no seu Backloggd para bater a meta do mês, o pessoal vai buscar qualquer subterfúgio possível.


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