
Se você não conhece o indivíduo do tweet acima, meus parabéns! Claramente você utiliza as redes sociais muito melhor do que eu. Lamento então por ser o responsável por lhe apresentar essa pessoa, mas o que é a vida sem algumas decepções, não é mesmo? Pois bem, Yorch Torch Games é o perfil de um aspirante a gamedev que vive reclamando sobre o cenário atual dos vídeo games que ele supostamente ama. Eu digo supostamente porque esse cara é o que os gringos chamam de grifter. Ou que no bom português significa vigarista.
Contudo, ele não é aquele tipo mais clássico de vigarista. Ele não quer te enfiar num esquema de pirâmide e nem te vender um produto de qualidade duvidosa. O Yorch Torch Games faz parte de um seleto grupo que surgiu com o advento das redes sociais, como Twitter e YouTube, os media grifters. Eu não sei se existe um termo equivalente na nossa língua, então eu resolvi traduzir como vigaristas midiáticos. Em vez do seu dinheiro, eles procuram te enganar para conseguir a sua atenção que irá se converter em visualizações, curtidas, retweets e por aí vai.
Tais pessoas existem em peso no mundo da política – *cof* *cof* MBL *cof* *cof* – mas os que eu vou falar hoje são aqueles ligados a cultura pop. Filmes, quadrinhos, séries, animês, etc; só que apenas a nata do mainstream dessas mídias que é a que atinge o maior público possível. Os vigaristas midiáticos sempre se apresentam como os “fãs de verdade”. Assim eles se aproveitam do senso comum de que o fã entende do que está falando ao mesmo tempo que tentam fazer a audiência se identificar com o conteúdo. É de gamer para gamer, é de nerd para nerd, é de otaku para otaku. Porém a característica que melhor une todos os vigaristas midiáticos é o discurso sobre guerra cultural.
A primeira coisa que todos esses perfis e canais vão fazer é te vender a ideia que o seu joguinho, o seu filminho, o seu gibizinho está sendo ameaçado por essa terrível (e abstrata) cultura woke. Ou, para nós, a lacração. Nem vale a pena definir o que seria isso. É apenas um termo genérico que eles aplicam para tudo que não gostam e também para disfarçar seu preconceito. Assim eles exageram situações e mentem descaradamente para a sua audiência, pintando um quadro quase que apocalíptico sobre essas mídias.
Vamos aproveitar o exemplo lá de cima sobre Ghost of Yotei. No momento que foi anunciado que o jogo teria uma protagonista mulher os vigaristas midiáticos passaram a falar que o jogo era woke, que tinha “representatividade forçada” e que por isso seria um fracasso. Como vimos em textos passados, o sucesso financeiro é um ponto fundamental do discurso anti-woke. Sem ele não dá para sustentar a narrativa que a lacração está destruindo a indústria do entretenimento. “Quem lacra não lucra”, bradam eles aos quatro ventos. Logo, mesmo que todos os fatos digam o contrário, eles precisam manter o discurso até as últimas consequências. Deturpam fatos, distorcem números, fazem comparações esdrúxulas que funcionam apenas com aqueles que já se alistaram nessa guerra cultural.
Desde que eu iniciei meus textos de “Como gamers mentem para você”, minha intenção foi sempre de mostrar qual é a lógica por trás da retórica desses vigaristas midiáticos focando na comunidade gamer. Mais ou menos no mesmo período, descobri que um youtuber chamado Th3Birdman vinha fazendo o mesmo há mais de um ano com “Exposing the Grift”. Dos seus mais de 30 vídeos sobre o assunto, o que eu mais recomendo (caso entendam inglês porque não tem legendas) é o de The Media Grift Machine. Em dez minutos o Birdman consegue destrinchar perfeitamente o discurso desses vigaristas midiáticos como também explicar a forma que eles lucram com esse tipo de conteúdo.
O melhor exemplo é o do Critical Drinker, um vigarista gringo que foca no nicho de filmes e vem tentando se lançar na indústria cinematográfica. Um tempo atrás ele iniciou um financiamento coletivo para a produção de um curta baseado nos livros meia boca que ele escreveu. Um dos argumentos de venda que ele utilizou é como a qualidade do cinema atual vem decaindo. Embora ele nunca mencione a cultura woke na página do financiamento coletivo, a ideia está implícita.
Sacaram agora o golpe? No seu canal ele empurra o tempo todo que os filmes estão repletos de lacração, para depois convencer o público a embarcar no seu projeto com a garantia de ser “woke free”. Com isso ele conseguiu juntar a bagatela de 300 MIL LIBRAS para gravar um curta genérico de ação que apenas seus seguidores assistiram. Aliás, esse ano ele iniciou outro financiamento coletivo para produzir um novo curta e arrecadou mais ou menos o mesmo valor.
Outro caso bom de se citar é o do Grummz, esse atuando na bolha gamer. Seu nome verdadeiro é Mark Kern e, segundo consta, ele trabalhou na Blizzard Entertainment como produtor até meados dos anos 2000. Depois disso ele tentou se meter em alguns projetos que não tiveram sucesso. Então ele foi para o Twitter onde se tornou um sujeito de meia-idade que fica reclamando de cultura woke. Anos atrás ele iniciou um financiamento coletivo para seu jogo Em-8er – também “woke free” – que o próprio Grummz afirma ter arrecadado em torno de 600 mil dólares. O jogo, obviamente, não foi terminado até hoje e muito pouco foi revelado para aqueles que apoiaram o projeto. É como dizem, hoje o malandro e o otário nem precisam mais sair de casa.

Porém nem todo vigarista midiático sente a necessidade de criar um projeto paralelo para tirar mais grana dos trouxas que os assistem. A maioria está confortável com a renda gerada nos seus canais e aqui no Brasil temos alguns exemplos “notórios”: Gigante Richard, Canal Tragicômico, Linhagem Geek, Rodrigo Baltar, etc. Mas aquele que considero o melhor expoente desse tipo de conteúdo é a Central. É essencialmente uma mescla de leitura de hard news com canais de opinião em que seus apresentadores, Lion e Outro Cara Lá, apenas repetem o mesmo discurso de outros vigaristas midiáticos gringos como o Grummz. Não é à toa que foi por causa da Central que temos o meme “a lacração no mundo dos games”.
Eu considero esse exemplo especial porque ainda existe uma certa ambiguidade em alguns canais de vídeo games. Por exemplo, o Davy Jones não é um vigarista, ele apenas não manja muito da mídia. Ele até desinforma às vezes, mas é por ignorância e não por malícia. A Central, por outro lado, é feita por dois evidentes vigaristas e para perceber isso basta olhar o passado do canal. A Central que conhecemos hoje não é a mesma Central que surgiu nove anos atrás. O Lion e Outro Cara Lá fizeram um rebranding para capitalizar em cima desse público reaça. Público este que sempre esteve presente na comunidade gamer, mas que se solidificou depois do infame Gamergate.
Então hoje, em vez falar sobre a retórica que canais como a Central utiliza, eu quero falar do porquê dela passar por essa transformação:

Em 2016 tivemos o lançamento de Overwatch que ajudou a estabelecer o imaginário dos hero shooters pelos anos seguintes. O jogo foi um fenômeno imediato, conquistou uma vasta gama de jogadores e criou uma comunidade entusiasmada ao seu redor. Aproveitando essa onda, o Lion e Outro Cara Lá criaram a Central Overwatch Brasil, cujo conteúdo era totalmente dedicado ao jogo. Tutoriais, notícias, vídeos sobre a história dos personagens, etc. Com o tempo, querendo ampliar um pouco mais seu público, eles passaram a incluir mais conteúdos como reviews e notícias de outros jogos. Mesmo assim Overwatch ainda era o carro-chefe do canal, algo que se manteve até meados de 2019.
Três anos depois, Overwatch já não tinha a mesma força e começava a desagradar alguns fãs. Foi nesse momento que a Central tomou a oportunidade para reformular o canal para aquilo que conhecemos hoje, tanto em termos de identidade visual quanto de conteúdo. Palavras como “militantes” e “lacração” passaram a compor o vernáculo da Central. O combate contra um suposto, maligno e abstrato progressismo virou seu editorial. Foi uma mudança brusca e eu acredito piamente que intencional. Lion e o Outro Cara Lá escolheram fazer essa mudança porque perceberam o que muitos outros vigaristas midiáticos já vinham notando: como é muito fácil ganhar visualização em cima do público reaça.
Vai parecer que eu estou saindo do assunto, mas vocês conhecem o PRATA GAMER SEM LIMITES? Não? Então vão lá no YouTube procurar que eu espero… Não precisam me agradecer por colocar mais essa outra pessoa na vida de vocês.
Para constar, eu não acho que o Prata Gamer é um vigarista midiático. Pra mim é só um velho doido que resolveu fazer um canal pra se divertir falando abobrinha sobre vídeo game e ganhar um trocado no processo. O mais importante de se destacar aqui é como os vídeos do Prata Gamer são ruins. Não estou entrando nem no mérito do conteúdo (que é ruim também), mas sim da forma. O cara apenas liga a câmera, grava uns três ou quatro vídeos de uma vez em frente a TV, não faz qualquer edição fora uma vinhetinha que eu tenho certeza que ele pediu para alguém no VintePila fazer, solta um monte de bobagem e lança pro YouTube.
Os vídeos não tem muita audiência, costumam flutuar entre 2 mil e 6 mil visualizações. Sim, tem muita gente que assiste ele apenas por motivos de guerra de consoles ou para xingá-lo. Mesmo assim o cara ainda tem público. É pouco, porém tem. A questão aqui é que se você comparar o custo que ele tem para produzir esses vídeos – que é praticamente nulo – e o volume com que ele posta, o Prata Gamer está saindo no lucro. Mesmo que ele ganhe uns 100 dólares no máximo por mês, é uma renda extra bem-vinda para um sujeito que provavelmente já se aposentou e não tem muito o que fazer no dia.
Os vídeos da Central são igual e profundamente medíocres. Também não preciso entrar no mérito do conteúdo, é só olhar de novo para a forma. O que o Lion e o Outro Cara Lá fazem? Eles pegam algum artigo aí, geralmente da Game Vício, dão uma lida por cima e depois fazem alguns comentários genéricos enquanto roda uma gameplay qualquer no fundo. Tudo isso duas vezes por dia. Não tem análises muito profundas, nenhuma reflexão, nem mesmo o mínimo de trabalho jornalístico. É um conteúdo tão vazio como qualquer um desses ainda existentes canais de opinião porque ele é puramente reativo. Fato ocorre, eles comentam, segue o jogo.
Quem assiste não ironicamente o Prata Gamer ou a Central é uma audiência com um critério de qualidade baixíssimo, pois eles não querem de fato receber conteúdo sobre vídeo games. O que querem é ter alguém que valide as suas opiniões já previamente formadas. É por isso que não adianta tentar refutar, apontar as mentiras e as distorções que esses canais fazem. O público deles não se importa com a verdade, eles querem a narrativa. Então tudo que a Central faz é entregar a esse público aquilo que eles já querem ouvir, com base nas palavrinhas e gatilhos que sabem que geram as reações corretas.
Você não precisa pesquisar e nem conhecer a mídia para atingir essa audiência, você só precisa entender como eles pensam. Se esse nicho existe em maior ou menor grau, não faz diferença. Ele existe e isso é suficiente. A Central consegue garantir entre 10 até 60 mil visualizações por vídeo com um conteúdo que duvido muito que eles levam mais do que uma hora para gravar. Sem contar que eles têm patrocínio. Então uma coisa eu tenho certeza, hoje o canal rende muito mais dinheiro do que na época de Overwatch fazendo um esforço muitíssimo menor.
Algo que prova o quão pouco o Lion e o Outro Cara Lá pensam na hora de fazer seus vídeos foi o caso de anos atrás com o polêmico Lindinhas (Cuties). Esse foi um filme de 2020 que mostrava a hipersexualização de meninas pré-adolescentes em contato com a cultura das redes sociais na perspectiva de uma jovem imigrante senegalesa vivendo em Paris. Pela temática e por causa de algumas cenas, Lindinhas teve uma recepção imensamente negativa do público. A galera de direita em peso odiou esse filme. Aí imaginem a minha surpresa quando a Central saiu em defesa de Lindinhas. O vídeo não se encontra mais no ar, mas felizmente encontrei um tweet fazendo menção a ele.

Em vez desse vídeo, o que vocês acharão na Central é o Lion e o Outro Cara Lá dizendo “erramos, fomos moleques”. Porque o próprio público deles os rechaçaram por defender aquele filme. Portanto, eles tiveram que voltar atrás e mudar a opinião que já não tinham de verdade sobre o filme. Isso eu preciso reforçar, o que o Lion e o Outro Cara Lá falaram inicialmente foi com base em nanica de nada. Eles não viram Lindinhas e comentaram o filme com base nas primeiras reações que viram na internet. Como tinha muita gente de esquerda criticando – vide o “lacradores” no título do primeiro vídeo – eles assumiram que o pessoal da direita reaça iria gostar e fizeram o vídeo nas coxas como de costume.
Percebam que a fraqueza desse tipo de conteúdo acaba sendo a sua principal força. Como a Central não tem qualquer opinião de fato, eles podem moldá-la facilmente e ainda posarem de que ouviram as críticas do público. Se ninguém tivesse reclamado, eles nunca tirariam o vídeo do ar. Provavelmente nem lembrariam do que falaram do filme. Tudo que produzem é calculado sobre aquilo que imaginam que seu público vai querer ouvir, mesmo que isso não esteja de acordo com a realidade. Um mês atrás eles também estavam falando que Ghost of Yotei era um fracasso, tal como insistem em fazer vídeo atrás de vídeo sobre como Assassin’s Creed Shadows flopou. É só para manter a narrativa que o público quer acreditar.
Essa é a grande vigarice da Central e de todos os seus semelhantes. Eles apenas seguem o fluxo da maré e corrigem o curso do canal para o lado que a opinião do seu público sopra. Se amanhã ou depois, por exemplo, com um passe de mágica esses gamers começarem a defender a inclusão de mais minorias em jogos, o Lion e o Outro Cara Lá vão fazer vídeos falando que o que eles chamam hoje de “representatividade forçada” é importante. Sabem como eu tenho a mais absoluta certeza disso? Porque enquanto eu escrevia este texto eu esbarrei com um vídeo deles de oito anos atrás falando sobre o boato que rolava na época que a personagem Moira de Overwatch era trans. O trecho a seguir é inacreditável se você comparar com a Central de hoje:





Excelente texto! Adorei a análise do Prata, e mostra como aqui, qualquer lixo com constância é premiado pelo algoritmo com um publico idiotizado
Valeu! Confesso que o Prata Gamer é guilty pleasure meu. Eu tenho ataque de riso com os vídeos dele kkkkk
Na época do Overwatch eu gostava da Central. Mas realmente esse “novo” caminho da mais retorno.
Essa bolha faz o caminho todo, da like, comenta, compartilha. Faz esse conteúdo chegar a outros cantos, retroalimenta. Financeiramente não tem porque mudar, ainda mais fazendo um conteúdo fácil e raso. Dinheiro tão tranquilo (até mais) do que divulgar tigrinho.
Sim, um público altamente engajado e com pouco critério é o sonho de qualquer criador de conteúdo. Arrisco a dizer que a Central provavelmente tá até melhor que muito youtuber conhecido se a gente considerar a proporção de retorno por custo de produção dos vídeos
Você aparenta sentir inveja do sucesso alheio. Talvez seja interessante abordar isso em terapia…
Você é o Lion ou o Outro Cara Lá?
Caí aqui de paraquedas pois vi sua postagem no perfil do Izzy no X. Infelizmente, conteúdos relevantes ficam quase ocultos aos nossos olhos devido à mediocridade do algoritmo. Compartilho de uma visão mais ácida sobre os ‘sangue-sugas’ que se alimentam dessa guerra infantil entre a cultura woke e o mundo dos games; este último, por ser captado por pessoas facilmente alienadas que vivem em mundos reacionários de ilusões, torna-se solo fértil para discursos perigosos. Ganhou um leitor frequente agora. Parabéns pelo conteúdo!
Agradeço o comentário, Daniel. E seja muito bem-vindo. Esse tá sendo um mês atípico em conteúdo porque escrevi bastante coisa no final do ano que tô soltando agora,mas não publico com tanta frequência. Mas se semana em semana tem algo aqui.
PS: eita, Izzy Nobre comentou algum post meu? Eu vi que ele me seguiu, achei que era pelo tweet sobre o MBL. Não sabia que ele tinha visto o texto também. Não sei lidar com esse tipo de atenção hahaha