
Em meados de 2024 eu peguei uma febre por filmes de kaiju. Começou com uma experimentação moderada, muito guiada pela filmografia do icônico Godzilla. Em algum momento a coisa desenfreou e estava lá eu assistindo filmes de outras criaturas como Varan, Dogora e Gorgo. Se derem uma olhada nesse texto que eu linkei, verão que eu tinha uma série de artigos planejada para essa jornada. Contudo a vida nem sempre segue nossos planos e eu saturei dos kaiju. Inclusive calhou de acontecer o mesmo com aquela maratona de filmes nacionais…
Durante o último ano, eu ensaiei várias vezes de pegar os filmes que eu anotei, porém não assisti. Em nenhuma delas deu certo porque eu sempre me metia a fazer outras coisas. Então nesse início de 2026 eu consegui um pouco de força de vontade e quebrei esse jejum de kaiju. De todas as (boas) escolhas possíveis, eu fui escolher justamente a infame trilogia animada de Godzilla da Era Reiwa.
Eu vou enrolar um pouquinho, então se vocês quiserem podem pular direto pro primeiro filme.
Só para recapitular, Godzilla é a mais longeva franquia do cinema e acompanhou todas as últimas eras da história moderna do Japão. A primeira leva de filmes começou na Era Showa, indo do original de 1954 e terminando com O Terror do Mechagodzilla em 1975. Depois disso, a franquia teve um hiato de quase uma década até retornar com o literal The Return of Godzilla em 1984. Tecnicamente esse filme ainda é da Era Showa, que terminou em 1989, porém ele iniciou uma nova linha do tempo que se formou ao longo da Era Heisei.
A nova fase se estendeu até Godzilla vs Destroyer, em 1995, e depois a Toho resolveu colocar o personagem na geladeira por mais uns anos. Havia dois motivos: primeiro não queriam saturar os filmes como aconteceu na era anterior e também porque o estúdio estava em negociação com a TriStar Pictures para uma série de produções americanas. Isso culminou no também infame Godzilla de 1998 que matou o projeto logo na primeira tentativa.
Contudo, alguns males vem para o bem e esse filme gerou burburinho suficiente para convencer a Toho de tirar o Godzilla do seu hiato com mais uma pequena leva de produções japonesas. Na história da franquia esse período ficou conhecido como a Era Millennium que já comentei aqui no blog que eu gosto bastante. O último filme veio em 2004 e dessa vez o Godzilla ficou de fato na geladeira por uma década. A Toho resolveu dar outra chance para os americanos e tivemos o filme de 2014 que culminou no Monsterverse que continua até hoje.
No Japão, quem inaugurou a entrada do Godzilla na Era Reiwa em 2016 foi Shin Godzilla, que se tornou um clássico moderno. Porém o personagem não voltou às telas de cinema como no seu passado nas Eras Showa e Heisei. O que vimos nesses últimos 10 anos é uma segunda Era Millennium, onde não existe uma continuidade entre todos os filmes e com mais liberdade para se criar histórias com Godzilla. Tiveram exemplos positivos, como o já citado Shin Godzilla e o mais recente Godzilla Minus One. Porém, entre os dois teve uma trilogia animada de Godzilla que se tornou uma ovelha negra da franquia.
Produzidos pela Polygon Pictures, os três filmes foram lançados em 2017 e 2018. São eles: Planeta dos Monstros, Cidade no Limiar da Batalha e O Devorador de Planetas. Eu já tinha ouvido algumas coisas sobre essas animações e nenhuma delas era positiva. Como eu tenho mais curiosidade do que bom senso, resolvi conferir. Olha, não acho que sejam filmes terríveis como o pessoal na Wikizilla faz parecer. Mas concordo que eles são bem fraquinhos e deixam a desejar em alguns pontos. Então já que me dispus a essa experiência, por que não aproveitar meu retorno ao universo kaiju com um texto sobre a trilogia animada de Godzilla?
Não irei entrar em questões técnicas sobre a animação porque eu não tenho comentários que vão além do “achei essa sequência bonita / achei essa sequência feia”. Fora que não sou um grande fã dessa tentativa de fazer animações 3D mesclando com a estética da animação tradicional, então prefiro manter esse viés fora da discussão. Irei me ater aos pormenores da história dos filmes, explicando o que exatamente me incomodou em cada um deles. Portanto, fica o aviso que esse texto estará recheado de spoilers!
GODZILLA: PLANETA DOS MONSTROS (2017)

*sigh*
Planeta dos Monstros é o melhor filme dessa trilogia animada de Godzilla e eu não falo isso como um elogio. Mas também não falo isso como uma crítica. É uma ambivalência intencional, pois simbolicamente é também como eu me sinto em relação a animação. Mas num sentido mais prático, serve também para pontuar como as sequências não ajudaram a elevar a trilogia e, pelo contrário, somente arrastaram-na um pouco mais para o fundo.
Se desse para isolar Planeta dos Monstros, ele seria até uma aventura sci-fi da horinha. Ainda teria os problemas de personagens pouco carismáticos e um Godzilla esquecível, mas pelo menos ficaria na memória uma excelente sequência de ação final. Mas estou me precipitando, primeiro tenho que deixar todos a par dos eventos que estabelecem esse universo dentre todas as outras representações do Godzilla no cinema.
Em Planeta dos Monstros, a Terra é atacada por dezenas de kaiju que surgem repentinamente ao redor do mundo. O Godzilla é um deles, e o mais ameaçador, destruindo tudo que vê pela frente: cidades, pessoas e até mesmo outros kaiju. A humanidade é incapaz de enfrentar essas criaturas, ao mesmo tempo que duas raças alienígenas surgem buscando abrigo na Terra: os religiosos Exif e os guerreiros hi-tech Bilusaludo*. Mesmo formando uma aliança entre os três povos, ninguém consegue deter a fúria de Godzilla e assim os sobreviventes sobem em duas naves, Oratio e Aratrum, para buscar refúgio em outros planetas.
*BILUSALUDO! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Essas informações são entregues bem no começo do filme, através de uma montagem narrada pelo protagonista, o Capitão Haruo Sakaki, parece uma recapitulação de eventos de um filme que nunca vimos. Isso vira um problema porque, sendo este o primeiro capítulo de uma nova linha do tempo que querem estabelecer no Godzillaverso, parece que estamos vendo um tabuleiro em que arrumaram as peças apressadamente para iniciar a partida o quanto antes. As duas outras raças que deveriam ser pontos centrais dessa trama, você quase não consegue distingui-las dos humanos. Os Exif pelo menos tem a nebulosa religião deles que é o tempo todo mencionada nos diálogos, já os Bilusaludos você só os nota porque possuem um nomes característicos.
Toda essa pressa atrapalha para nos investirmos emocionalmente na trama e o que mais reforça isso é a sequência que acontece antes do infodumping do protagonista.
O filme abre com o Haruo ameaçando explodir um ônibus especial dentro da Aratrum porque o Comitê decidiu enviar um grupo de idosos para investigar as condições do planeta Tau-e que pretendem povoar. Haruo acredita que isso é uma artimanha para se livrar dos mais velhos já que a nave enfrenta problemas de recursos, porém é dissuadido pelo seu próprio avô que está entre os voluntários. Ele é preso, o ônibus é enviado e explode logo ao entrar na atmosfera do planeta.
Esse seria um baque efetivo para começar a história se não fosse o detalhe que você, durante essa sequência, está se perguntando o que diabos está acontecendo. Você não sabe quem são esses personagens, você não sabe onde eles estão, você não sabe nada. Então quando o ônibus explode, embora racionalmente dê para entender o efeito que é para causar em Haruo, as nossas emoções ainda estão um pouco distantes.
Mas voltando ao ponto da pressa em iniciar a partida, é assim que todo o primeiro ato de Planeta dos Monstros se desenvolve. Todas as ações são rápidas, quase nada é estabelecido com um tempo para respiro, porque o filme quer chegar logo ao ponto em que os personagens decidem voltar a Terra e matar o Godzilla. O ódio do Haruo pela criatura é o catalisador dessa decisão, pois como podem imaginar, a ele tem o background manjado dos pais mortos durante um dos ataques do Godzilla. A Aratrum então gera uma dobra espacial e retorna à Terra, 20 mil anos depois da sua partida, embora para os personagens só tenha se passado duas décadas.
É aí que o filme mostra a sua parte mais empolgante e também a mais decepcionante. Falarei primeiro desta última porque aí dá para encerrarmos numa nota mais positiva. O título é uma tremenda propaganda enganosa, porque deveria se chamar Planeta do Monstro no singular. Quando chegamos na Terra, não encontramos nenhum dos kaiju que apareceram rapidamente naquela montagem inicial. Temos apenas o Godzilla e um tipo de ave que logo descobrem que é uma subespécie dele.
Mas eu perdoo. É triste ver todo o potencial da animação desperdiçado em tão poucas criaturas, porém o filme consegue se redimir bastante a partir do segundo ato. Assim que os personagens põem os pés na Terra, a trama engata bem. Toda a trajetória deles descobrindo o ponto fraco do Godzilla até a elaboração de uma estratégia para derrotá-lo é excelente. Existem perdas, complicações, boas sequências de ação. Tem até um momento que você chega até a pensar que o Haruo pode ser um bom protagonista. O confronto é empolgante e quando eles finalmente conseguem matar o Godzilla a gente vibra.
Por isso que eu digo que se Planeta dos Monstros fosse uma história isolada, teríamos uma boa aventura sci-fi. Infelizmente esse é apenas o primeiro capítulo da trilogia animada do Godzilla, então logo você sente que uma reviravolta está a caminho. Ora, como vamos continuar quando o principal antagonista foi morto? A resposta é óbvia, né? Portanto, não é muita surpresa quando o chão começa a tremer e revela-se que aquela criatura era outra subespécie. O verdadeiro Godzilla que expulsou a humanidade da Terra está vivo, maior, mais poderoso e destrói tudo que restou da frota dos personagens em instantes.
Admito que é um final chocante, porque chega num momento que sua emoção estava lá em cima. Só que aí tem o segundo filme e depois de assisti-lo você vê essa escolha não como uma reviravolta, mas sim uma traição da boa vontade da audiência. Agora é só ladeira abaixo!
GODZILLA: CIDADE NO LIMIAR DA BATALHA (2018)

Não vou ser arrogante de dizer que eu sabia que Cidade no Limiar da Batalha seria o pior capítulo da trilogia animada de Godzilla. Eu tinha essa impressão, mas admito que era apenas uma suposição por este ser o segundo filme. Não é uma regra, obviamente, porém quando se tem uma trilogia o título do meio tem altas chances de ser o mais esquecível quando ele apenas serve de trampolim para o último. Ele até pode apresentar alguns conceitos novos e expandir o universo estabelecido no anterior, só que ele acaba se limitando porque a resolução final tem que ser deixada para o terceiro.
Portanto, como podem imaginar, Cidade no Limiar da Batalha acabou caindo nesse limbo. Ele segue do ponto em que Planeta dos Monstros parou, com as unidades que a Aratrum enviou para terra sendo destruídas pelo verdadeiro Godzilla. Haruo acorda numa cabana primitiva, salvo por uma nativa que logo descobriremos que se chama Miana. Ela e sua irmã gêmea, Maina, pertencem à tribo dos Houtua, descendentes dos últimos humanos que ficaram na Terra. Os Houtua encontram os outros sobreviventes, curam suas feridas e trazem todos para sua vila dentro da montanha.
A tribo possui habilidades telepáticas, conseguindo se comunicar com os humanos, os Bilusaludos e os Exifs em seus respectivos idiomas. Mas o que chama a atenção do general Galu-Gu é o material das armas dos Houtua. Ao investigar, ele e outro soldado Bilusaludo descobrem que é nanometal, uma liga metálica desenvolvida por eles que tem algumas propriedades especiais. O nanometal consegue assimilar outros minerais e até organismos vivos, podem se regenerar e se duplicar. Antes da fuga da Terra, os Bilusados tentaram usar essa tecnologia para criar uma arma, o Mechagodzilla, para derrotar o Godzilla. Porém a criatura destrói o laboratório antes que tenham chance de ativá-lo.
Percebendo que alguma parte do Mechagodzilla não foi destruída, os personagens rastreiam o material e descobrem que depois de 20 milênios ele também evoluiu. Seguindo a programação contida na cabeça do Mechagodzilla, o nanometal se expandiu aos poucos, reconstruindo uma cidade similar ao laboratório antes do ataque de Godzilla. Reavendo a tecnologia o general Galu-Gu sugere a Haruo que transformem o lugar numa grande armadilha para destruir o kaiju com base nos dados que coletaram em Planeta dos Monstros.
Por mais que essa introdução do nanometal foi uma solução muito conveniente para que os personagens tivessem algum jeito de enfrentar o Godzilla, a ideia de uma cidade Mechagodzilla é um conceito interessante. De certa forma, ela mantém parte da essência do Mechagodzilla ao mesmo tempo que traz uma nova representação. No meu coração eu gostaria de uma porradaria entre kaiju e robô kaiju, mas também sou a favor de criar coisas diferentes. Todavia, não é porque o filme tem uma ideia boa que significa que ele vai conseguir compensar por toda a falta de suspense em Cidade no Limiar da Batalha.
Em parte isso é culpa, como eu falei, desse ser o segundo filme de uma trilogia. Quando os personagens põem em execução o novo plano para derrotar o Godzilla, em momento algum a gente acredita que existe a menor possibilidade dele dar certo. Você não sabe como ele vai dar errado, mas você sabe que vai dar e isso tira um pouco da emoção. Novamente cito a mesma sequência no Planeta dos Monstros. Ainda que tenhamos a noção que haverá uma continuação, o jeito que o plano é conduzido te mantém numa ansiedade genuína. Em Cidade no Limiar da Batalha até existe uma complicaçãozinha aqui e acolá, entretanto é contornada com tamanha facilidade que elimina qualquer noção de risco. Nunca parece que os personagens estão correndo perigo. Vira uma questão de esperar a próxima reviravolta que irão inventar para a história não acabar.
Um outro exemplo menor é que quando o filme começa a tripulação na Aratrum decide sair da órbita da terra com medo do sopro atômico do Godzilla atingir a nave. Porém eles ainda não sabem se alguém sobreviveu e por isso determinam que irão esperar 48 horas para ver se recebem algum contato. Isso deveria criar aquele fator bomba-relógio na trama, contudo logo isso é esquecido. Os personagens conseguem falar com a nave-mãe, eles enviam uma nave menor para buscá-los e uma parte dos sobreviventes retorna para Aratrum enquanto os demais ficam para executar o novo plano. Pronto, suspense dissipado!
Eu acho que esse não é um problema apenas desse filme, é da trilogia inteira. Um personagem que eu deveria ter mencionado no tópico anterior é o Metphies, mas achei que seria mais pertinente falar dele aqui. Metphies é um Exif, um personagem bem proeminente em todos os filmes, e não existe qualquer momento que você não o trate com desconfiança. Desde o primeiro filme é óbvio para qualquer um que ele tem interesses escusos e está manipulando o Haruo para atingir seus objetivos. Não existe incerteza no caráter dele porque a dublagem, os trejeitos e como o Metphies é representado na tela gritam que ele é real antagonista dessa trilogia animada de Godzilla.
Pior do que a falta de suspense é a falta de esforço em criá-lo. O que Cidade no Limiar da Batalha faz é apenas não verbalizar informações que você pode facilmente completar. Tem um diálogo que chega a ser ridículo. O Haruo pergunta para o Metphies se o planeta dele foi destruído por um monstro e este responde que sim. Depois ele menciona uma criatura muito mais poderosa que o Godzilla, que os Exifs nem mesmo falam seu nome por ser um mau agouro. Porém, já que o Haruo estava prestes a enfrentar o Godzilla mais uma vez, Metphies decide lhe dizer o nome. Ele se aproxima do seu ouvido e o áudio corta para não sabermos o que ele falou.
Lembro que nessa hora eu fiquei encarando a tela, incrédulo, me perguntando: os caras realmente acham que a gente não sabe que esse monstro é o Ghidorah? Chega a ser ofensivo eles criarem um mistério em cima disso e depois entregar a informação numa cena pós-créditos digna de um filme da Marvel. E olha que esse não é nem o mistério menos misterioso da animação, pois se você sabe nem que seja um pouco da lore de Godzilla já deve ter imaginado qual é o deus dos Houtua no instante que eu pontuei que existem irmãs gêmeas no filme.
Enfim, Cidade no Limiar da Batalha é um filler. Um filler ruim. Seu único motivo de existir é para reorganizar as peças do tabuleiro para que a partida de verdade seja disputada no terceiro ato. Digo, no terceiro filme. Nada aqui empolga, até mesmo a sequência de ação fica aquém quando comparada a Planeta dos Monstros. Além disso, acho Cidade no Limiar da Batalha evidencia como essa trilogia deveria ter sido tratada como uma série de uns 12 episódios. Tudo aqui parece um meio de temporada bem enfadonho que fizeram porque tem que preencher todos os espaços da grade,
GODZILLA: O DEVORADOR DE PLANETAS (2018)

Acho que nada resume melhor o problema que eu tive com toda essa trilogia do que a primeira conversa de O Devorador de Planetas. Temos o Dr. Martin, um biólogo a quem recai sempre o papel de explicar a natureza dos kaiju para a audiência, observando o Godzilla de longe com outro personagem. Ali ele teoriza que talvez os humanos e a tecnologia que resultou no surgimento dessas criaturas existiram com o único propósito de gerar a forma de vida perfeita. Foi nessa hora que meu cérebro estalou. Somente no terceiro e último filme que a gente tem alguma caracterização real do Godzilla.
É necessário entender que o que faz os kaiju personagens interessantes é justamente isso. Não são apenas monstros gigantes como as formigas de O Mundo em Perigo ou o dinossauro de O Monstro do Mar. Kaijus são personagens com uma profundidade que vai além das suas características biológicas. Não que sejam personagens muito complexos, mas existe algo de substancial ali. Nesse sentido, o Godzilla já representou diferentes papéis em diferentes filmes. Ele pode ser tanto um herói quanto um vilão, ou então uma força da natureza amoral. Ele pode ser uma alegoria para aquilo, ou então uma crítica para aquilo outro. Mas ele é sempre algo mais do que um lagartão gigante que de vez em quando dá uma baforada atômica. Infelizmente nos dois primeiros filmes parece que ele é apenas isso.
Só na reta final que a trilogia animada de Godzilla tenta entregar algo a mais. E até no que ela tenta fazer, não faz direito. Desde Planeta dos Monstros ouvimos vários personagens martelando como o Godzilla é essa grande ameaça a humanidade. Não apenas como uma criatura gigante que agora existe no nosso mundo, mas como um ser que intencionalmente quer acabar com os humanos. Só que nunca o vemos tendo esse tipo de perversidade consciente. Pensem em Godzilla Minus One. Por que aquela sequência inicial em que o Godzilla destrói a guarnição e mata praticamente todos os soldados japoneses na ilha Odo é tão importante pro filme? Não é só porque ela solidifica o conflito interno do protagonista. Ela também estabelece o Godzilla como uma força de destruição, incontrolável e cruel, que tem aparenta ter um ódio latente pelos humanos.
Nesses filmes, por outro lado, a gente nunca tem isso. É até o contrário. Mesmo com aqueles flasbacks do Haruo, tudo que a gente vê do Godzilla depois mostra somente um animal defendendo o seu território. Todas as vezes que ele atacou os humanos foi porque eles atiraram primeiro. Pelo amor de Deus, o bicho passa metade do tempo dormindo e a outra metade andando em círculos. Até quando ele ataca a cidade Mechagodzilla é porque entende que aquilo é uma ameaça para ele. A trilogia animada de Godzilla nunca consegue construir a sensação que é uma criatura intrinsecamente perversa. Diferente do que ela faz com os Exifs e a crença deles que também só é de fato explicada agora no terceiro filme.
Por isso que as sequências acabam sendo tão chatas, pois viram apenas uma questão de enfrentar o monstro gigante da semana que ainda é o monstro da semana anterior. Até mesmo nesse último capítulo, que deveria ser o grande embate épico entre o Godzilla e o Ghidorah, ambos os personagens estão ausentes 90% do tempo. O Devorador de Planetas nada mais é do que os 30 minutos finais de um outro filme que foram esticados para virar um longa-metragem.
Percebam que eu não estou nem me preocupando em dar qualquer detalhe da trama porque vocês já devem saber o que acontece. Tudo que se sucedeu desde o Planeta dos Monstros foi uma enorme manipulação dos Exifs para invocar o deus deles, Ghidorah, que vem trazer a destruição e consumir o Godzilla. A entrada dele é até muito boa, passa um horror cósmico impactante. Mas quando chega o confronto com o Godzilla é outra decepção. As três cabeças do Ghidorah o mordem e aí a gente tem que ficar esperando porque o verdadeiro embate do filme está acontecendo em outro lugar.
Depois de muita e muita enrolação, o que temos é choque das ideologias que movem o Metphies e o Haruo. Um carrega a conformação diante de uma suposta destruição inevitável, enquanto o outro tem ímpeto humano de lutar pelo direito de viver independente das circunstâncias. É um “duelo” mais filosófico que até seria mais interessante de se ver se tivesse sido colocado em outro filme. Não é que Godzilla precisa ser dois monstrões se batendo sempre, às vezes a gente nem tem um segundo monstro. Apenas foi uma ideia mal executada numa trilogia sem ritmo, suspense e emoção.
Então, para finalizar, eu não quero nem falar especificamente de O Devorador de Planetas porque o filme não é o problema, é só parte dele. A trilogia animada de Godzilla inteira foi um experimento mal conduzido. De vez em quando tem um conceito legal e nos momentos que de fato tentou criar cenas que empolgasse ela conseguiu. Mas no geral, é só uma enrolação danada que talvez funcionasse melhor como uma série.
Mas já que estamos falando de trilogias de kaiju, eu tenho um último comentário: o GOAT segue imbatível!

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