
Há poucos dias eu falei sobre Maniac e como tenho nostalgia pelos jogos mais antigos de Grand Theft Auto (GTA). Também há não tão poucos dias eu falei como joguei quase nada do que resgatei na Epic Games Store. Num desfecho no mínimo irônico, esses dois mundos se colidiram e eu acabei jogando Rustler, que possui o muito auto explicativo subtítulo de Grand Theft Horse. Ele foi desenvolvido pelos poloneses da Jutsu Games, em 2021, e foi dado de graça na Epic semanas atrás. Até me frustra um pouco que levei tanto tempo para descobrir a sua existência. Esse é o tipo de jogo que parece ter sido feito exclusivamente para mim, então… obrigado, Epic?
Rustler é uma conversão quase que um para um da jogabilidade de GTA para o contexto medieval. Em vez de carros e motos, temos cavalos e carroças e as armas de fogo se tornam espadas, machados, lanças, pedras e uma besta. Também dá pra jogar bosta de cavalo nos outros e acho que essa é uma informação pertinente. A grande diferença aqui, desconsiderando o período histórico, é que o jogo não se inspirou nos títulos mais atuais de GTA que reciclam seguem o mesmo modelo de Grand Theft Auto III em escalas cada vez maiores. Rustler resgata o “GTA do Velho Testamento” que existiu num curto espaço de tempo no final da década de 90. Foram apenas dois jogos, 2D, com uma vista da cidade por cima e uma jogabilidade num aspecto mais arcade de acumular pontos sem a necessidade de uma trama amarrando tudo.
Também há uma diferença na diferença. Se você quiser ficar só tocando o terror na Idade Média em Rustler você pode, mas o jogo enjoa bem rápido assim. Não falo nem por falta de conteúdo e sim porque não tem a mesma graça dos primeiros GTAs e mais a frente vocês entenderão o porquê. A sua jogabilidade está em função das missões que por sua vez estão em função da história. Ela se desenrola em torno do protagonista Guy, um camponês que vive de pequenos golpes com seu parceiro Buddy. Depois de um dos roubos, os dois ficam em posse de um convite para participar do Grande Torneio e resolvem se passar por nobres para competir. Se isso te fez pensar em Coração de Cavaleiro, é intencional.
Rustler não tem o mesmo tom satírico de GTA, ele escolhe ir por uma via de paródia de várias obras conhecidas da cultura pop. Tem algumas que casam bem com a temática do jogo, como as missões que envolvem personagens tirados das esquetes de Monty Python e, obviamente, o filme Em Busca do Cálice Sagrado. Outras são um pouco mais aleatórias, como uma sidequest que envolve roubar cavalos especiais para um NPC que é a cara de um certo protagonista de uma certa série animada baseada numa certa franquia de jogos que envolve capturar monstros. Conseguiram até dar um jeito de botar uma Batwoman na jogada.

Admito que a salada mista da cultura pop fica um pouco irritante com o tempo, ainda mais quando a punchline de uma piada se limita a referenciar o original. Pelo menos ela funciona dentro do tom anacrônico de Rustler. Diria até que esses elementos funcionam muito mais para o tom cômico do jogo do que essas piadinhas fáceis. Você passa pelas ruas e encontra placas de trânsito, pichações na parede, NPCs fazendo beatbox, algo tipo de Samurai Champloo que é um dos meus animês favoritos. Muito melhor, e mais criativo, do que quando apenas aparecem três caras com vestes vermelhas dizendo “Ninguém espera a Inquisição Espanhola!”. Aprecio a homenagem, combina tematicamente, mas não é o tipo de humor que clica comigo.
Acho que isso já indica que minha experiência com Rustler é cheia de altos e baixos. Isso se aplica à jogabilidade também. Olhando primeiro para o lado positivo, é reconfortante ter um jogo que vai contra essa tendência de jogos de mundo aberto com escopos gigantes. O mapa aqui é reduzido, você tem essencialmente duas cidades e algumas vilas espalhadas ao redor. Os pontos de interesse também são poucos, mas isso não quer dizer que seja um jogo vazio. Pra mim, Rustler tem um tamanho ideal. Só vai ser um problema, como eu falei, se você quiser apenas “aprontar altas confusões na Idade Média” e não seguir a história. Tem alguns mini games para você passar o tempo – clube da luta, corridas, dirigir a “ambulância” ou o “táxi”, etc. – mas tudo isso satura rápido.
As missões também não são lá grandes coisas. No começo são bem genéricas do tipo roubar um cavalo, matar uma quantidade de NPCs, essas coisas. Depois dão uma melhorada, não necessariamente na complexidade das suas mecânicas e sim no fator diversão. As side quests principalmente. Uma das minhas favoritas é quando você é contratado pela Inquisição Espanhola para descredibilizar os “terraglobistas” e você acaba usando o fast travel para perceber que de fato a Terra é redonda. Tais missões ficam mais marcantes mais pelo roteiro do que pela jogabilidade.

Ok, eu fico circulando esse tópico o tempo todo, então é melhor parar de enrolação. A jogabilidade de Rustler enfrenta problemas basicamente em dois pontos: os controles e mecânicas mal implantadas.
A gente percebe isso logo de cara no combate que, ao contrário de GTA, foca muito no corpo-a-corpo. Eu joguei pelo mouse e teclado, como toda pessoa de boa índole deve fazer, então você clina botão esquerdo para atacar e segura o direito para defender. Por vezes parecia haver um atraso no tempo de ação do personagem, coisa que os inimigos não tinham, fora as vezes que o Guy continua defendendo mesmo que eu já tivesse largado o botão. Quando é um duelo isso não irrita tanto, mas quando você tem que enfrentar múltiplos soldados, banidos ou camponeses de uma vez incomoda demais.
Aí tem os cavalos, sua principal forma de locomoção no jogo. É tranquilo de controlá-los, contudo montar num deles pode levar ao aborrecimento em algumas ocasiões. Tem horas que o Guy não consegue subir no cavalo e fica correndo em volta dele até que finalmente encontra uma posição correta. O pior que isso se aplica aos NPCs também e teve umas duas vezes que falhei na missão porque a desgraça do personagem enrolou para subir no cavalo e na carroça e acabou sendo morto por um dos guardas ou eles acabaram me prendendo.
A “polícia” do jogo também é um problema a parte em diferentes camadas. Seguindo a tradição de GTA, você tem níveis de procurado. Em Rustler são três. O primeiro e o segundo não possuem tanta diferença, mas no terceiro aparecem algumas unidades mais fortes. Teoricamente você pode despistar os soldados, porém na prática a melhor forma de reduzir o nível de procurado é arrancando os posters que aparecem em locais específicos. Isso fica um tanto ridículo, porque o guarda pode estar na sua cola que basta você chegar perto do cartaz que cessa a perseguição. Algum gamer formado na Academia Flow Games™ pode reclamar que isso tira a imersão, mas isso é bobagem. O defeito real é como isso elimina qualquer sensação de risco e faz a guardar parecer inútil (e ela é mesmo).
Notem que eu falei que teoricamente dá para despistar os soldados, entretanto essa mecânica funciona apenas quando o jogo quer. Teve uma missão que eu tinha que reduzir o nível de procurado e fui parar na vila dos pescadores. Quando percebi que só tinha um soldado atrás de mim, eu saltei do cavalo, esperei ele descer para vir me atacar e acertei um dardo na testa dele. Fiquei cinco minutos na praia esperando o nível de procurado reduzir, o que não aconteceu e eu tive que voltar até a cidade para arrancar alguns cartazes.

Mas não é como se os soldados apresentassem grande perigo. Mesmo no nível três, se você tiver um cavalo, eles nunca vão te encurralar. Lembro que numa das side quests do começo de Rustler eu tinha que matar alguns camponeses porque o coveiro queria impulsionar o negócio dele. No meio da missão os soldados começaram a me perseguir e eu simplesmente fiquei correndo pelo mapa matando os NPCs até bater a meta. Como a única arma de longa distância que os guardas têm é a besta, é só você continuar em movimento que eles não te alcançam, até mesmo com você parando para o Guy recuperar o fôlego.
No geral, eu me diverti muito mais com Rustler do que com Maniac. Tem sua boa dose de problemas, porém eu consegui relevar tudo por ter esse fraco pelos GTAs antigos. Caso alguém compartilhe dessa nostalgia, talvez se divirta também com essa homenagem/paródia se for capaz de tolerar os controles. Também vale para ver o tom cômico e as adaptações que fizeram para o contexto medieval.
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