
Não existe a menor necessidade de apresentar Fiódor Dostoiévski, um dos maiores escritores do século XIX. Também eu não conseguiria dizer muitas coisas além de platitudes, pois não conheço a fundo sua história e nem sua obra. Procurei algumas coisas a respeito do autor e, dos seus trabalhos, eu li O Idiota, Crime e Castigo e, mais recentemente, seu último romance Os Irmãos Karamázov, que terminei de ler há algumas semanas.
Por um tempo, eu me digladiei com a ideia de fazer ou não um texto sobre esse livro. Falar de Dostoiévski não é uma tarefa fácil para um reles mortal como eu. Seus livros são bem complexos e eu não tenho muito background literário fora uma meia dúzia de clássicos que eu li. A narrativa do Dostoiévski é bem compreensível e seus temas são claro, ela só demanda muito de você porque ele é muito loquaz. Pelo amor de Deus, tem dois monólogos gigantescos no final do livro mostrando duas perspectivas diferentes sobre justiça! Por conta disso, não dá para resumir um livro do Dostoiévski num seleto número de temas, pois suas histórias tem tantos quanto linhas narrativas. Talvez até exista alguém capaz de tal ato, porém eu não me sinto apto para essa tarefa.
Portanto, a minha escolha nesse texto é de fazer um corte específico de Os Irmãos Karamázov. “Eu não me rebelo contra Deus, só não aceito o seu mundo“. Essa frase é proferida por dois personagens, Ivan e Aliocha em momentos distintos e carrega um dos principais temas do romance. Mas vamos com calma porque estou me precipitando. Não dá para jogar nomes, ainda mais nomes russos que eu preciso consultar a internet toda hora, assim sem o devido contexto.
Os Irmãos Karamázov conta a história, bom, dos irmãos Karamázov. Na verdade a família Karamázov, pois o patriarca também tem um papel fundamental na trama. Mas quem são esses Karamázov? Ora, os russos! Ok, isso não faz o menor sentido para quem não leu o livro, apesar de ser uma descrição que eu julgo perfeita. Um dos principais traços do trabalho de Dostoiévski é como ele está sempre falando das transformações sociais, políticas e filosóficas na Rússia. Assim podemos associar cada integrante da família Karamázov a algum aspecto da sociedade russa da época.
Fiódor Pavlovitch Karamázov, o patriarca, é um hedonista irremediável. Ele não liga muito para vida além dos seus prazeres, tratando todos; inclusive os próprios filhos, com descaso. Na história é mostrado que ele também tem um filho bastardo, Smierdiakóv, por quem ele demonstra certa afeição. Mas isso não vem na forma de afeição paternal. Fiódor gosta de Smierdiakóv porque uma vez este lhe devolve um dinheiro que ele deixou cair depois de desmaiar bêbado. Com um faro para os negócios, porém avarento e mentiroso, eu vejo no Fiódor a degradação moral de uma elite russa que cada vez mais pensa unicamente em si e no acúmulo de riquezas.
Depois de Fiódor, temos o seu filho mais velho, nascido do seu primeiro casamento, Dmitri. Apesar de detestar o pai, este é o filho que mais se assemelha a ele. Dmitri é um personagem fascinante porque é o mais conflituoso dos irmãos. Ele se dedicou à vida militar, porém isso não foi o bastante para suprimir o “sangue Karamázov” que ferve nas suas veias. Então Dmitri está sempre entregue a bebidas e orgias com seus companheiros. Ele é um homem honrado, ao mesmo tempo que é constantemente vítima dos seus vícios. Logo, eu diria que Dmitri é o mais humano dos Karamázov, um russo clássico, imperfeito, mas que tenta ser honesto com seus valores.
Os dois últimos irmãos, Ivan e Aliocha, vem do segundo casamento de Fiódor. Ivan é o filho do meio, metido a intelectual e dado aos ideais do socialismo e do ateísmo. Ele passa seus dias escrevendo artigos provocativos em revistas e traz uma das principais discussões morais de Os Irmãos Karamázov. Num dos seus textos, Ivan diz que não existe uma lei natural que faça os homens amarem os seus semelhantes e se isso aconteceu na história foi por meio de uma lei não-natural criada a partir da crença na imortalidade. Exauridos dessa fé, diz Ivan, “[…] então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia”. É mais fácil associar o Ivan como uma representação do progresso, mas não acho que seja exatamente nesse sentido. Ele mostra mais as mudanças sociais inevitáveis de acontecer de geração em geração.
Por fim temos Aliocha, o mais novo dos irmãos. Ironicamente, ele podia ser o mais velho já que ele evoca uma Rússia mais antiga, voltada ao misticismo e a religião, que o fez se juntar ao monastério local. Muitos colocam Aliocha como o protagonista de Os Irmãos Karamázov e eu tendo a concordar. Ainda que o romance aborda diferentes perspectivas, na maior parte do tempo vemos os eventos se desenrolar do seu ponto de vista. Se Ivan é o mais intelectual, ele é o mais sábio. Também é o personagem mais apegado ao seu código moral e talvez seja por isso que ele é tão querido pelos demais personagens. Até mesmo aqueles que no começo tem algum conflito com ele, logo se veem muito afeiçoados ao jovem monge.
Embora Aliocha deveria ser o mais espiritualmente esclarecido, ele é alguém profundamente angustiado. O seu mentor, amigo e figura paterna, Padre Zossima, está em seu leito de morte e o pensamento de perdê-lo nesse momento atormenta o jovem. Porque, ao mesmo tempo, ele se vê no meio de uma tragédia familiar em andamento, uma vez que seu pai Fiódor e seu irmão Dmitri vivem em pé de guerra. Se já não se bastasse uma velha rixa por conta da herança do irmão, ele e o pai se apaixonaram pela mesma mulher, Gruchénka, que se diverte provocando os dois pelo seu amor. Soma-se isso a tantos outros acontecimentos que o atormentam, Aliocha passa a primeira metade de Os Irmãos Karamázov sem saber o que fazer.
O conflito entre Fiódor e Dmitri é um campo gravitacional no qual as outras tramas e personagens orbitam em volta. Evidentemente eu não vou listar todos aqui para poupar tempo e energia de vocês. Ainda mais que as minúcias dessas outras linhas narrativas não contribuem tanto para a discussão que eu pretendo trazer aqui. Agora que conhecemos as figuras centrais da nossa história, eu finalmente posso falar sobre a frase pela qual fiquei obcecado.
Na primeira ocasião que ela surge, Aliocha está conversando com seu irmão Ivan num restaurante quando este deveria supostamente estar se encontrando com Dmitri. O rapaz tem essa capacidade de fazer com que as pessoas sejam sinceras consigo, então ele e Ivan tem uma conversa franca sobre suas visões à respeito de Deus e da imortalidade. Neste capítulo, Ivan lista uma série de crimes hediondos que ele vem colecionando de revistas e jornais ao longo dos anos, incluindo casos em que a vítima era uma criança. Esse interesse mórbido tem um motivo, Ivan quer mostrar que o tal mundo de Deus na Terra é um mundo de sofrimento. Por isso que diz que até pode aceitar a existência de Deus, porém não consegue aceitar o mundo que ele criou.
Dostoiévski era um cristão ortodoxo que nunca escondeu suas crenças nas suas obras, mas não necessariamente com dogmatismo. Todos os três romances têm esse traço do autor bem destacado. Contudo, em Crime e Castigo ainda existe espaço para uma discussão secular a respeito da moralidade. Em Os Irmãos Karamázov isso já não é possível, pois a todo momento o autor deixa a sua moralidade cristã transparecer nos seus personagens. A gente volta àquele pensamento do artigo que eu comentei parágrafos atrás. E o Dostoiévski faz isso de caso pensado!
Neste romance, ele traz uma questão muito sensível da fé cristã que é o problema do mal. Que, aliás, eu descobri enquanto escrevia esse texto que também é conhecido como o problema do sofrimento que faz ainda mais sentido com o livro. Como não sou filósofo, não ofenderei a inteligência de vocês tentando explicá-lo. Se me permitirem, usarei uma definição copiada da internet. O problema do sofrimento é um dilema filosófico clássico que questiona a compatibilidade entre a existência de um Deus onipotente, onisciente e benevolente e a presença de sofrimento e maldade no mundo.
Muitos escritores e teólogos já se debruçaram sobre o problema do sofrimento. Se eu não me engano, o C. S. Lewis, outro conhecido autor cristão, tem um livro dedicado a essa discussão. Dostoiévski, por sua vez, busca uma segunda abordagem. Em vez de tentar dar uma resposta teológica ao problema do sofrimento, ele resolve reconhecer essa angústia que todo cristão tem, ou deveria ter, para conciliar a existência de Deus com a existência do mal como parte fundamental da sua própria existência.
Logo após a morte do Padre Zossima, Aliocha se encontra no seu pior estado de espírito. Além de perder seu mentor e amigo, ele também precisa testemunhar as mesmas pessoas, que antes louvavam Zossima como um santo, questionando a virtude do monge somente porque seu corpo entrou em estado de decomposição pouco depois do seu falecimento. Nessa hora, um dos amigos de Aliocha, o malicioso Rakítin, aproveita a vulnerabilidade do rapaz para levá-lo até Grúchenka, acho que ela iria seduzi-lo tal como fez com seu pai e seu irmão.
Por um momento, nós, os leitores, acreditamos que o mais pio dos Karamázov está prestes a perder sua fé. Porém o que acontece é o justo oposto. Ao encontrar Grúchenka, é ela quem acaba sendo influenciada pela sua presença e ambos se tornam amigos. Vendo o efeito positivo que surtiu na moça, Aliocha sente sua fé renovada. Ele volta para o monastério, beija a terra, chora. Nos capítulos restantes temos um personagem muito menos agoniado com as mazelas que estão ocorrendo mundo afora.
Dostoiévski quer nos dizer muitas coisas em Os Irmãos Karamázov, afinal ele sempre foi um estudioso da natureza humana. Seus personagens falam sobre fé, moralidade, dor, justiça, dúvidas, angústias, etc. Então a problemática do sofrimento é só mais um entre os muitos temas contidos no romance. Mas em vez de propor uma solução, o autor propõe a aceitação. O arco de Aliocha é perceber que o sofrimento vai existir no mundo e ele não pode ignorá-lo. Ele deve aceitá-lo como parte desse mundo que Deus criou e fazer o que estiver dentro dos seus limites para mitigá-lo em si e naqueles a sua volta. É algo que o Padre Zossima tenta ensiná-lo mais cedo, ao dizer que ele precisa deixar o monastério e viver no mundo.
A fé de Dostoiévski sempre foi muito própria, sem necessariamente se prender aos ensinamentos da Igreja Russa. Ele cresceu lendo os textos sagrados e provavelmente teve seus momentos de dúvidas ao longo da sua vida. Os Irmãos Karamázov é um registro de como ele conseguia conciliar sua fé com todo esse mal que ele podia observar ao seu redor. Dostoiévski aceitou o sofrimento como uma parte inalienável da existência humana, porém para ele isso nunca serviu para aliená-lo de Deus ou da sua ideia de imortalidade.
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