
Dois dias atrás eu publiquei a primeira lista de Jogospectiva que escrevi numa época em que o Backlogger não existia nem mesmo no campo das ideias. Eu não gosto de dar pontos sem nó, então eu não trouxe esse texto movido apenas por uma simples nostalgia. Era tudo parte do meu plano (nada) elaborado para seguir a tradição de publicar algum texto no dia do meu aniversário.
Aceito meias, cintos e Tormented Souls 2 de presente!
Eu tento fazer essas coisas com antecedência para não correr o risco de ter que me apressar quando estiver mais próximo da data. Contudo, chegou Março e eu ainda não tinha a menor ideia sobre o que escrever. Fiquei perambulando por umas postagens antigas até que por algum motivo me bateu uma vontade de dar uma olhada no meu velho perfil do Medium. Vários dos meus textos antigos ainda estão por lá, mas eu já trouxe boa parte deles para o blog. Foi aí que esbarrei com a Jogospectiva original que eu me esqueci quase totalmente que a tinha escrito. Pensei então que poderia trazê-la para cá para o dia do meu aniversário, mas depois de ler a lista inteira me veio uma inspiração.
Se vocês chegaram a pelo menos dar uma olhada na Jogospectiva, viram que naquele ano eu zerei um total de SETENTA JOGOS. Na verdade foram 71 porque joguei ambas as versões de Mighty Morphin Power Rangers: The Movie, a de Mega Drive e a de Super Nintendo. Me conhecendo, com certeza eu juntei as duas só para a lista ficar com um número redondo. Enfim, fazendo as contas rapidinho, isso significa que em média eu zerei um jogo ou mais por semana em 2021. Isso foi possível porque sempre que eu pegava algo mais demorado, como foi o caso dos RPGs de Dragon Quest, eu escolhia um segundo jogo, mais curto, e ficava intercalando entre os dois.
Admito que me impressionei muito, mas não no sentido de ter orgulho, com a quantidade. Até me peguei pensando se nos anos anteriores, quando eu não fazia esse tipo de controle, eu zerava tantos jogos assim. Talvez nem seja um número muito alto se comparar com uma galera mais desocupada aficionada em videogames por aí. Por outro lado, sei de alguns amigos próximos que não conseguiriam chegar nem à metade dessa lista por conta da diferença das nossas rotinas. De qualquer forma, o que me assustou é o quanto a ideia de zerar 70 jogos num único ano me parece tão impraticável hoje em dia.
Eu ainda termino uma boa quantidade de jogos, entretanto já tem um tempo que eu reparei que o número vem diminuindo. Ano passado, por exemplo, eu zerei 52. Para ser justo, não é uma diferença tão grande assim. Só que vale destacar que 14 desses jogos foram projetos do OpenBOR que são relativamente curtos. Teve dia que cheguei a zerar dois deles um atrás do outro. Se não fossem esses jogos, talvez eu terminasse 2025 com menos de 40 que tem uma diferença bem maior daqueles 71 de 2021.
Essa queda é parte de uma tendência que provavelmente vai continuar daqui para frente. Não sei se já mencionei, mas eu anoto todos os jogos que eu zero num ano para me ajudar a fazer essas listas de Jogospectiva. Tenho todas as planilhas salvas aqui no computador e fui revirar meu histórico. Em 2022 eu zerei 63 jogos, 67 em 2023 e 42 em 2024. E quanto a esse ano? Até o momento, eu zerei 17 jogos. Tudo me leva a crer que devo terminar 2026 próximo aos 40, só não sei se pela esquerda ou pela direita. Para mim isso ainda parece bastante coisa. Só não vejo aqui a possibilidade de cruzar a barreira dos 60 jogos outra vez e talvez eu nem mesmo chegue aos 50 nos próximos anos.
Vamos fazer uma breve volta no tempo.
Apesar de ter sido apenas cinco anos atrás, 2021 era uma outra época em todos os aspectos da minha vida. Academicamente? No ano anterior eu concluí o meu mestrado e não tinha pretensão em começar nenhum curso. Profissionalmente? Eu estava trabalhando, home office e meio período, para uma empresa de um conhecido do professor de um amigo. Amorosamente? Minha namorada na época morava em outra cidade e também estávamos no meio da pandemia da COVID-19, portanto não dava para se ver com muita frequência. Ou seja, esse foi um período em que eu tinha muito tempo livre para jogar.
Agora em 2026 as coisas não mudaram tanto assim. Não estou estudando e continuo trabalhando home office só que em outra empresa. Minha rotina agora inclui ir à academia toda manhã e não apenas as caminhadas que eu costumava fazer. Minhas obrigações em casa também não mudaram tanta coisa. E em relação a minha vida amorosa… não é da conta de vocês!!! Mas existe uma diferença fundamental entre essas duas épocas: hoje eu tenho um blog.
Apesar de que antes eu tinha aquele perfil no Medium, era somente uma vez ou outra que eu publicava um texto por lá. No Backlogger, por outro lado, eu me obrigo a manter alguma regularidade porque ainda carrego aquela vã esperança de ganhar dinheiro com o AdSense um dia. Isso afetou bastante a minha relação com videogames. Diria até que a mudou completamente. Se eu tentasse, talvez eu conseguiria me dedicar um pouco mais aos jogos e assim aumentaria a minha lista anual em 10 ou 15 itens. Só que mais do que conseguir, eu não quero!
Primeiro vamos focar na parte do não conseguir.
Antigamente era fácil eu ficar direto umas três horas ou mais num jogo. Coisa de perder uma tarde inteira jogando sem nem perceber que o tempo passou. Hoje isso não rola mais. Com muito esforço, muito mesmo, eu fico umas duas horinhas. Mas o mais comum é eu jogar uma hora só e ir fazer outra coisa de noite. Que é outro detalhe a se considerar, pois agora eu costumo usar minha tarde para outras coisas mesmo quando não tenho trabalho a fazer. Tem dia que nem mesmo encosto num jogo, mesmo com o PC estando ligado praticamente o dia inteiro já que é minha ferramenta de trabalho e a minha televisão. Nesses dias ou eu vou ler, ou ver filme, ou ver desenho, ou entrar em algum aplicativo de… ainda não é da conta vocês!!!
Não é que eu tenha perdido a concentração e menos ainda que não tenha perdido meu interesse nos videogames. Pelo contrário, considero que amo essa mídia muito mais hoje do que eu amava na minha adolescência. Eu só não tenho mais essa necessidade de jogar e, principalmente, zerar algo o mais rápido possível para passar pro seguinte. Já teve jogo que levei mais de mês para terminá-lo e nem era tão longo assim.
Aí entra a parte do não querer e onde o Backlogger tem sua enorme parcela de “culpa”.
O que mais mudou em mim nesses anos todos foi a minha prioridade com meus hobbies. Pela maior parte da minha vida videogame foi meu hobby favorito. Hoje ele se encontra em segundo lugar, tem dia que cai até para terceiro. Meu maior prazer hoje é escrever.
Eu já flertei com a ideia de ser um escritor, o que resultou em dois livros engavetados pela metade no meu computador. Tenho vontade de terminá-los um dia, mas a insegurança de publicá-los parece que me impede de continuar. Por outro lado, eu adoro sentar aqui na minha cadeira de escritório – porque eu tenho bom senso de não usar essas porcarias de cadeira gamer – abrir o editor de texto do WordPress e falar com vocês sobre as minhas “mídias consumidas de 2026”. Nesse caso eu consigo ser muito produtivo. Só ver que nos primeiros dois meses e meio desse ano eu consegui publicar cerca de 24 textos dos mais variados. Me diverte demais encarar essa página branca, preenchê-la de letrinhas que formam as ideias – algumas tortas, outras menos – que pipocam na minha cabeça.
Eu estou um pouco longe do gamer comum e, ainda que eu seja bem arrogante, não estou tentando me pintar como especial. Apenas quero mostrar como o blog é uma variável importante nesse contexto. Hoje considero que estou numa posição que fica entre os dois principais grupos de consumidores de jogos: os criadores de conteúdo e os gamers. Para mim, o que faço no Backlogger é conteúdo, entretanto sem a necessidade de uma frequência de publicação que, por exemplo, um canal de YouTube precisa ter.
Mas mais importante que isso, no blog eu não viro refém de lançamentos e nem de jogos do momento. Claro que existem pessoas como o Sr. Wilson do canal Colônia Contra-Ataca, alguém que conseguiu construir uma comunidade ao redor da sua persona e com muita liberdade de falar de qualquer jogo, seja antigo ou seja recente. Mas para a maioria dos youtubers e streamers, a realidade é outra. Eles têm que focar nesses lançamentos porque é o que tem mais chance de funcionar.
BRKsEDU, por exemplo, no canal principal dele quais foram os últimos jogos que ele cobriu? Pragmata, Mouse: P.I For Hire, Replaced, Life is Strange: Reunion, Darwin’s Paradox, Crimson Desert, Pokémon Pokopia, Resident Evil: Requiem, Reanimal. Todos são lançamentos deste ano. Não tenho dúvidas que alguns deles ali ele se divertiu bastante jogando. Porém dá para ver que outros ele só fez aquele check-in com meia hora de gameplay e partiu para o próximo. Pode até ser que ele gostaria de passar mais tempo num, entretanto ele “precisa” fazer uma série com o lançamento mais hypado tipo o novo Resident Evil. Eu não tenho dúvidas que se meu blog dependesse disso, minha vida seria um pesadelo e eu teria parado dois anos atrás.
Só de pensar em ter que “obrigatoriamente” falar de algum jogo específico já me dá um leve arrepio, até mesmo se não for um jogo do momento. Eu explico o porquê. Meses atrás o Velberan fez um vídeo sobre como ele estava com “burnout de jogar videogame”. Ele usou o termo de maneira intencionalmente exagerada – que mesmo assim foi mal interpretada por uns gamers bem burrões aí da internet – mas o que ele fala é algo bem comum que criadores de conteúdo passam. Para eles tem o jogar como hobby e o jogar como trabalho, sendo que o segundo geralmente afeta o primeiro. Ele tem que cobrir alguns jogos e isso tira o tempo dele para se dedicar aos que ele queria de fato jogar.
Graças a Deus eu não preciso passar por isso. Tudo que eu jogo é porque eu quero e se eu tiver algum tema que eu julgue interessante de explorar num texto, eu trago para cá. Se isso interessar quem me segue, legal. Se não, paciência. Eu não vou me endividar fazendo pré-venda de um jogo só porque ele será o foco da atenção pela próxima semana. Para mim é libertador não estar preso ao mainstream e, mais do que isso, não achar que eu tenho que jogar algo para aproveitar o hype.
Também já estou velho o suficiente para não ter que me preocupar com essas dinâmicas de bolhas gamers de rede social em que parece que o pessoal joga certas coisas só pra disputar com seus coleguinhas de quem tem o “repertório games” maior. Já superei essa bobagem pueril há muito tempo e isso ajudou a criar o que eu considero a melhor característica do Backlogger que é sua imprevisibilidade.
Num dia eu faço um Top 5 com meus jogos favoritos de Resident Evil. Depois eu resolvo falar de um GTA medieval. Passa mais um tempo e aí eu escrevo sobre um jogo de uma franquia de JRPGs já não tão conhecida e, por fim, cubro três jogos de animês aleatoriamente. A não ser que eu comente lá no meu perfil, é impossível adivinhar sobre o que eu vou falar no blog e isso me deixa feliz porque abre oportunidades para alguma pessoa algo que ela não conhecia só porque não faz parte das discussões mais recorrentes da comunidade gamer. Esse é o meu verdadeiro orgulho.
Provavelmente essa é a pior forma de fidelizar leitores, porém eu gosto de acreditar que quem acompanha meu blog faz por esse fator de surpresa. Assim eu posso sempre trazer uma novidade, mesmo que não seja sobre algo novo, para quem me acompanha sem prejudicar meu prazer em jogar. Já existem dezenas de criadores de conteúdo por aí falando dos mesmos jogos que a comunidade passou anos aguardando, eu seria apenas um sussurro no meio de um vozerio. No meu jeitinho eu consigo sentir a gratificação de trazer algo, mesmo que seja com pouquíssimo alcance, que essas pessoas talvez não veriam em outro lugar.
Essa imprevisibilidade que me dá gosto em escrever e é também aquilo que eu busco nas pessoas que acompanho. Tenho um exemplo de uma recente mutual que fiz lá no Twitter. Ela tem um perfil no Substack chamado Miragem do Porto onde também pública seus textos e tenho adorado acompanhá-la. Não apenas porque ela escreve (invejosamente) bem, mas porque ela sempre traz algo de diferente no Miragem do Porto. Um dia ela fala de série, outro dia ela fala de filme, então fala de livro, depois jogo e por aí vai.
Aliás, aproveito para avisar que estou reformulando a página de recomendações do Backlogger para citar essa galera que acompanho.
Queria que mais criadores de conteúdo fossem assim porque gosto de acreditar que é o que nos torna muito mais próximos das pessoas, pois essa é a realidade da maioria do público. Todo mundo intercala jogos de diferentes épocas até porque são poucas as pessoas que têm disponibilidade – de tempo e econômica – para ficar sempre atualizadas com os lançamentos.
Só que a história não termina aí. Eu também não consigo mais lidar com videogames da mesma forma que eu fazia no meu passado quando eu era apenas alguém que curtia uns joguinhos. Assim que eu zerava um, eu partia para o próximo na mesma hora sem pensar muito. Contudo, agora eu não consigo ter mais esse desprendimento. Dificilmente um jogo vai acabar para mim no momento que ele terminar. Pode ser que até seja quando ele começa de verdade.
Existem intervalos cada vez maiores entre um jogo e outro na minha rotina porque passou a ser cada vez mais comum eu ter vontade de transformá-los em algum texto. Esse ano, por exemplo, ainda não teve um jogo sequer que eu zerei e que não acabou virando tema para um artigo, uma crítica, um ensaio, uma lista, etc. Como falei lá atrás, eu me divirto muito mais escrevendo do que qualquer outra coisa. Até mesmo aqueles textos que quase me levam a loucura por demorar tempo demais para ficar pronto – aquele dos jogos de animê levou uns dois meses mais ou menos por conta de eu ter jogado em momentos distintos – ainda me dão um imenso prazer quando eu termino.
Tem até jogos que antes mesmo de eu encostar neles já me vem uma ideia na cabeça. Aconteceu mês passado quando meu amigo me deu uma chave de Harold Halibut de presente. Eu nem cheguei a instalá-lo na época, só fui pesquisar um pouco para saber do que o jogo se tratava. Porém, quando vi que os desenvolvedores se inspiraram em animação stop-motion para criar a arte de Harold Halibut, eu já comecei a rascunhar na cabeça um texto sobre como jogos de aventura tem essa imensa potência estética.
Mal terminei de fazer este texto que você está lendo agora e estou me preparando para falar de mais três jogos de uma outra franquia de JRPGs (farei mistério por enquanto) que um amigo me convenceu a jogar semanas atrás. Provavelmente quando eu terminar de zerar e escrever sobre esses três jogos, já vai ter outra ideia cozinhando na minha mente. Eu gosto disso, eu fico animado só de pensar que tem tanta coisa para compartilhar com vocês num futuro ainda nem existente.
Portanto, pouco importa para mim que eu nunca mais vou conseguir zerar 70 jogos num ano como se isso fosse uma vitória. Não estou aqui para alimentar Backloggd e mostrar para ninguém o tanto de coisa que eu conheço. Eu quero dividir com vocês as experiências que eu tive, as leituras que tirei desses jogos e apresentá-los a algo que talvez não conheciam e podem vir a adorar. O bom de falar de videogames é isso e, de novo, fico muito feliz que meu hobby tenha evoluído para algo que ainda me dá um imenso prazer de continuar investindo tempo, mesmo que não seja tanto quanto eu tinha antes.
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