A inclusão de legendas PT-BR nos vídeo games é um tópico que, por algum motivo, volta e meia ressurge na comunidade gamer. Às vezes aparece com uma notícia positiva: recentemente a Sega anunciou que Sonic Frontiers seria localizado em português. Vale ressaltar que isso tudo foi graças aos fãs fazendo uma grande campanha nas redes sociais. Contudo, outras vezes aparece com uma notícia negativa: também recentemente a Nintendo anunciou o preço do próximo jogo de Zelda e disse que ele não teria legendas. Os nintendistas até chegaram a se mobilizar por semanas à fio na tentativa que localizassem o jogo, porém (mais uma vez) foram ignorados.
O tema voltar de vez em quando não me surpreende, até porque eu acho muito necessário esse tipo de manifestação vindo por parte da comunidade. O que me surpreende é a existência de pessoas que aparentemente com “síndrome de SPC” e resolvem encrencar com quem pede por legendas.
A Nintendo em particular é sempre foco de muitas críticas dos seus fãs brasileiros e pessoas normais por conta de pouquíssimas vezes traduzir seus jogos para o nosso idioma. Isso incomoda, com muita razão, uma parcela desses jogadores que estão desde longa data consumindo os produtos dela aqui no Brasil. O que, convenhamos, não é uma tarefa financeiramente das mais fáceis. Também incomoda por sabermos que a empresa tem recursos mais do que suficientes para fazer uma localização decente, ainda mais para uma das suas franquias mais famosas e rentáveis.
Mas enfim, hoje eu não vim aqui para falar mal da Nintendo. Haverá outras oportunidades para tal no futuro. Eu vim aqui pelo meu hobby favorito que é reclamar de gamer bocózão. Então, se você já acompanhou algumas dessas discussões sobre legendas – e se não acompanhou, fique tranquilo que uma hora ela irá voltar – é provável que você se deparou com um ou mais dos memes abaixo. Existem diversas variações deles e agora tem até uma que inventa um gamer metafórico que abandonar um jogo só porque não tem dublagem. Até porque é muito fácil para ter um jogo dublado para diferentes idiomas e não coisa que somente estúdios grandes podem se dar o luxo de fazer, né?
Jogadores dos anos 90 não zeravam nem metade do que jogavam por não entender o que estava acontecendo, mas ok!
Esse primeiro com o Resident Evil 3 original é um que aparece sempre nas minhas redes sociais. As versões com Red Dead Redemption 2 idem. O problema é que embora ele seja teoricamente uma piada, ela ilustra uma mentalidade real que estou acostumado a esbarrar em comentários sérios nas postagens que trazem esses memes. Pela rant que postei no meu Twitter é bem óbvio a minha opinião a respeito dessa história, mas vou tentar me expressar melhor (porém não com menos raiva) no texto.
Tem múltiplos motivos do porquê de eu detestar essa conversa. O primeiro é esse deboche bobo com os jogadores mais novos dizendo que eles são frescos por querer legendas em português. Até parece que não é algo que toda criança dos anos 90 sonhava em ter nos seus jogos. Odeio esse tom de superioridade por uma coisa tão banal que é o ato de jogar. Em segundo lugar, acho uma tremenda bobeira essa ideia de se vangloriar porque, naquela época, nós jogávamos sem entender qualquer coisa da história. Ignorância não deve ser motivo de orgulho nunca. E em terceiro lugar, nossa, que crime os consumidores exigirem coisas das empresas cujos produtos eles compram, né?
Nessas últimas instâncias em que me deparei com a postagem, eu passei a me questionar se essas pessoas se lembram mesmo de como era jogar coisas em japonês. Porque, vejam bem, eu sou uma criança dos anos 90. As minhas experiências com o PlayStation começaram a partir dos anos 2000, porém estou bem familiarizado com o cenário descrito no meme. Inclusive eu tinha um CD de Resident Evil 3, que para mim se chamava Biohazard 3: Last Escape, e também tive um Castlevania: Symphony of the Night. Sabe o que eles tinham em comum além do fato de estarem em japonês? Eu nunca zerei nenhum dos dois! Bom, pelo menos não naquele período. Isso só veio se concretizar anos depois graças a emulação com ISOs. Em inglês!
Não sei quem essa galera da minha época está tentando enganar. Porque, com toda sinceridade e ênfase, era uma B-O-S-T-A ter que jogar qualquer coisa em japonês. A própria diversão que a gente alegava ter com esses jogos pode ser posta em xeque já que passávamos metade do tempo frustrados tentando entender o que fazer e aonde ir. Durante um bom tempo da minha vida eu cheguei a odiar o Castlevania: Symphony of the Night por simplesmente não conseguir avançar no jogo. Eu ficava rodando e rodando o mapa a esmo sem ter a menor ideia do que fazer. Tudo porque não tinha como eu ler a descrição em japonês do item que era necessário para abrir as portas com brilho azul.
A nossa sorte é que alguns desses jogos depois foram lançados em inglês e quem manjava de emulação conseguia encontrar ROMS e ISOs traduzidas pela internet. A tradução nem sempre era das melhores e a velocidade de internet da época era outro obstáculo. Isso é, assumindo que você era uma das pessoas que tinha o privilégio de ter um computador e internet em casa. Entretanto tem que por um asterisco aqui, pois a maioria de nós também não entendia patavinas de inglês. A vantagem é que ao menos dava para entender as letras e assim podíamos consultar um dicionário ou pedir ajuda aos universitários (conhecidos como primos que fizeram cursinho de inglês).
E olha que isso é um problema que a gente sofre até hoje, porque tem centenas e mais centenas de jogos que nunca cruzaram o oceano por nunca receberem uma localização. Tengai Makyou Zero, que eu recomendei na minha Jogospectiva do ano passado, é um desses casos. Um RPG fantástico que a gente só tem a possibilidade de jogar hoje porque recentemente um grupo disponibilizou uma versão traduzida por completo em inglês na internet. O nicho das visual novels é um dos que mais sofre com essa questão, tendo que apelar para traduções de fãs que sempre variam bastante em qualidade.
Mas não precisamos focar apenas em jogos japoneses. Ter jogo apenas em inglês também era – e ainda é – uma merda. Para quem convive em círculos cibernéticos pode parecer que muitos brasileiros falam inglês, porém isso é uma falsa percepção. A vasta maioria tem pouco ou nenhum conhecimento do idioma. No passado isso não parecia um grande problema apenas porque não tínhamos outra escolha. Éramos obrigados a acatar o inglês por falta de opção e, no máximo, o que dava para fazer é mudar o idioma para espanhol quando havia essa possibilidade. Por isso que eu acredito existe um bom motivo para jogos de plataforma e beat’em up terem sido tão populares na época. Por serem experiências que se baseavam quase que puramente na jogabilidade, o fato da gente não saber inglês era irrelevante.
Mas aos RPGs ou jogos de aventura? Claro que terão alguns que se orgulham em dizer que zeraram algum desses jogos sem entender a história. O que é uma coisa imbecil de se fazer. Não é um grande feito porque você teve só parte da experiência que o jogo deveria te proporcionar. Eu falo do meu caso pessoal, tem incontáveis jogos cuja a experiência foi muito melhor quando eu os joguei de novo depois melhorei meu nível de inglês.
Nessa mesma pegada, há também quem irá alegar que mesmo sem entender nada a gente se divertia. Ora, é claro que nos divertíamos. Afinal, éramos crianças e as do pior tipo: estúpidas! Crianças se divertem com qualquer besteira porque são naturalmente curiosas e ainda não tem muita noção de que um jeito melhor de se aproveitar uma mídia. Sem contar que havia outros fatores que nos faziam ter que jogar independente do idioma. Nunca foi barato ter vídeo game aqui no Brasil. A maioria de nós tinha que se virar com os mesmos três ou cinco jogos pelo resto do ano, ou até mesmo anoS. Portanto, entendendo ou não entendendo, era só aquilo que você tinha para jogar.
Acho ridículo sentir orgulho por ter jogado algo sem entender o que era para fazer. É bater palmas para um passado em que a experiência com jogos era bem pior. A existência desses indivíduos me parece fruto de um ressentimento que o pessoal mais velho tem pelos mais novos só porque eles “sofrem” menos perrengues do que nós passamos na nossa época. A gente deveria é estar dando graças aos céus que hoje os mais jovens não precisam passar por essas mesmas dificuldades. Porra, anos atrás eu vi meu sobrinho se divertindo pra cacete com God of War, podendo entender o que se passava na história ao texto traduzido. E a dublagem. Fiquei muito feliz pelo pivete porque eu vi naquele dia a mesma alegria que eu senti quando consegui zerar um RPG entendendo a história e sem precisar de um detonado.
Eu diria também que há uma certa hipocrisia nessa fala sobre as legendas. Pega todas essas pessoas aí que ficam reproduzindo o meme e bota elas pra jogar algo 100% em japonês. Eu tenho certeza que elas não irão jogar! Duvido que irão além do tutorial. Vão reclamar que não tem nem ao menos uma legenda em inglês e abandonar o jogo na primeira oportunidade. Portanto, é uma tremenda de uma besteira menosprezar as reclamações mais do que válidas pela inclusão de legendas. Flerta até com um certo elitismo, querendo transformar vídeo game num clubinho mais fechado do que ele já é.
Nós das gerações (não tão) mais velhas nos beneficiamos horrores por todas as melhorias que surgiram na indústria. Então por que diabos você vai fingir vanglória por aquele passado merda? Só pra se sentir melhor os jogadores mais jovens? Mas que coisa patética!
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Concordo 100% com o texto.
Joguei GTA IV em espanhol pelo XBOX 360 do meu irmao e achei o jogo legal. as quando joguei no PC, com tradução baixada, a experiência foi outra. Nao tem comparação
Né? Experiência é muito melhor quando você ENTENDE o que tá acontecendo e os cara ficam nessa de supervalorizar o passado