Os jogos do Hamtaro são supreendentemente bons

Montagem com uma imagem do desenho de Hamtaro colocando ele e Oxnard olhando para três jogos baseados na animação para Game Boy Advance: Ham-Ham Heartbreak, Rainbow Rescue e Ham-Ham Games

Quem leu meu texto de semanas atrás sobre a duolologia de RPGs de Fullmetal Alchemist sabe que eu estou no meio de uma maratona de jogos de animês. Especificamente para o Game Boy Advance! Pois bem, ainda não tenho qualquer perspectiva de quando vou terminar essa maratona porque toda hora eu invento de colocar mais um item na lista. Por exemplo, a última adição foi não somente um, nem dois, mas TRÊS jogos de Hamtaro.

Caso não saibam – até seria bem estranho se vocês soubessem – nos tempos áureos da TV Globinho eu adorava assistir Hamtaro. Nem lembro se eu era tão novo assim para assisti-lo e mesmo que não fosse não teria problema. Não sou um adulto americano para ficar com vergonha de ver desenhos. Então, para me reconectar mais uma vez à minha criança interior, eu me senti obrigado incluir os Ham-Hams na minha maratona.

Pesquisando eu vi que existiam três jogos para o Game Boy Advance, lançados no intervalo de 2002 até 2004: Ham-Ham Heartbreak, Rainbow Rescue e Ham-Ham Games. Rainbow Rescue não me era estranho porque tenho vagas memórias de jogá-lo em algum ponto ali da minha infância e adolescência com os emuladores. Planejava ir só nele, porém não resisti à curiosidade de testar os outros dois e acabei zerando todos. Sem brincadeira, foram gratas surpresas.

É evidente que os jogos de Hamtaro tinham como público-alvo as crianças e por isso que nenhum dos três tem uma jogabilidade particularmente complexa. Com isso em mente, eu joguei cada um tentando imaginar como seria se eu tivesse contato com eles quando era crianças. Uma criança que falasse inglês, aliás. Esse será um ponto importante para Ham-Ham Heartbreak. De fato eu consigo visualizar uma realidade em que o Belmonteirinho se interesse por jogos de aventura a partir de Hamtaro e não The Secret of Monkey Island.

Portanto, já tive uma experiência consistentemente positiva com essa “trilogia”, decidi que seria legal dedicar um texto para eles igual eu fiz com os jogos de Fullmetal Alchemist. Então, sem mais delongas: Hamtaro vem aí!

HAMTARO: HAM-HAM HEARTBREAK (2002)

Imagens da jogabilidade de Hamtaro: Ham-Ham Heartbreak

Hamtaro: Ham-Ham Heartbreak é um jogo de aventura e quanto mais eu penso nele, mais me convenço que ele foi um proto-metroidbrainia feito para crianças. Pondo minhas divagações de lado, o jogador tem dois dois objetivos principais e simultâneos: conseguir todas Ham-Chats, palavras específicas do vocabulários do Ham-Hams que servem também como comandos, e também preencher o Medidor de Amor ajudando os personagens a reatarem seus vínculos. Vai fazer sentido mais para frente porque eu descrevi esta última parte deste jeito.

A história começa com Hamtaro tendo um pesadelo com um Ham-Ham fantasiado de diabrete, Spat, que atazanando casais. Ele acorda assustado e vai contar para o Chefe sobre o pesadelo, porém tropeça no Soninho, molha o Dicionário Ham-Ham e perde a maior parte das Ham-Chats. Algumas palavras são ensinadas pelo Chefe que depois fala para o Hamtaro buscar a Bijou no Sunny Peak. Ao reencontrá-la, os dois descobrem que Spat é real e está causando problemas para os outros Ham-Hams.

A partir daí, a jogabilidade Ham-Ham Heartbreak segue um padrão. Você habilita um novo mapa, nele você interage com diversos personagens com as Ham-Chats que você possui para liberar novas e também descobrir o que o Spat aprontou naquela região. Geralmente tem algum relacionamento que ele de alguma forma atrapalhou, você precisa consertar e expulsar o Spat dali. Quando isso acontece, uma nova área habilita e você tem mais relacionamentos para consertar nesta e nas outras regiões já exploradas. Quanto mais Ham-Chats você aprende, mais você consegue ajudar os Ham-Hams.

Notem que quando eu digo “relacionamentos”, eu falo especificamente de casais. Existem vários no jogo sim, porém Ham-Ham Heartbreak representa o amor na sua história para além do romântico. Ele também se manifesta através dos amigos, da família, de dois desconhecidos encontrando um interesse em comum, da compaixão, etc. Achei um jeito bem bacana do jogo mostrar para crianças que existem outras formas de amor no mundo, um sentimento complexo, sem precisar cair naquele didatismo um tanto monótono dos jogos educacionais.

A jogabilidade de Ham-Ham Heartbreak respeita a criança o bastante para estimulá-la a usar da sua criatividade e imaginação para interagir com aquele universo. Por exemplo, você tem um comando para cavar e numa parte do mapa da praia você passa em frente a um balde de areia. O jogo em momento algum te diz “cave aqui”, ele te permite a chegar esse raciocínio por si só. São coisas intuitivas que acredito serem bem mais proveitosas do que fazer um puzzle que é apenas uma continha de matemática muito básica para ensinar a criança a somar.

Achei um barato como eles conseguiram traduzir o vocabulário dos Ham-Hams, uma característica do animê, tão bem como mecânica. Infelizmente isso também dá um calcanhar de Aquiles para o jogo. Todos os puzzles são bem fáceis, afinal a maioria é só escolher o comando correto ou encontrar um item. Só tem um mais pro final que acho que crianças teriam um pouco mais de dificuldade em resolver. Então eu gostaria de acreditar que Ham-Ham Heartbreak teve o potencial de ser uma ótima porta de entrada ao gênero de aventura para um público infantil. O problema é que só passaram por essa porta as crianças que tinham compreensão de texto em inglês.

Claro que ainda dá para progredir no jogo apenas fazendo apenas recorrendo à tentativa e erro de testar cada comando, com cada personagem e em cada canto. Porém isso tira parte da graça, outro tema importante de Ham-Ham Heartbreak é a comunicação. Tanto é que o Hamtaro vira um protagonista mudo em Ham-Ham Heartbreak para que o jogador seja a sua voz. De qualquer forma, ainda o defendo como um bom jogo para crianças. Por se tratar de Hamtaro é óbvio que os gráficos serão a definição de fofura, ainda mais com a dedicação dos desenvolvedores em dar muita expressividade aos Ham-Hams, então elas irão se encantar mesmo que não entendam uma palavra do que está sendo dito.

HAMTARO: RAINBOW RESCUE (2003)

Imagens do jogo Hamtaro: Rainbow Rescue

Talvez eu devesse ter mencionado antes de Hamtaro: Ham-Ham Heartbreak existiu Hamtaro: Ham-Ham United! (2001), um jogo do Game Boy Color com uma jogabilidade bem similar. O que não é estranho já que ambos foram desenvolvidos pela Pax Softnica. Contudo, Rainbow Rescue passou para outro estúdio, a AlphaDream, portanto temos outra proposta ainda que dentro do gênero de aventura. A jogabilidade não se guia por uma mecânica central como eram as Ham-Chats, dessa vez o jogo se divide numa centena dos mais variados mini-games.

Na premissa, Bo, o príncipe da Terra do Arco-Íris, cai na cidade de Hamtaro e descobre que seu guarda-chuva mágico perdeu suas cores e, por consequência, seus poderes. Incapaz de voltar para casa, ele recebe ajuda dos Ham-Hams para encontrar ingredientes que representam cada uma das cores do arco-íris para restaurar seu guarda-chuva. Portanto o jogo se divide em sete capítulos onde em cada um deles Hamtaro e seus amigos visitam uma nova área na busca de um desses ingredientes.

Ainda que exista mais variedade em Rainbow Rescue, pois cada área apresenta uma gama de mini-games diferentes, existe um padrão. Em cada mapa você chega com alguns companheiros e vai reunindo outros conforme explora o lugar. Isso é necessário por dois motivos. Primeiro é necessário um certo número de Ham-Hams para executar algumas tarefas como levantar um objeto pesado ou alcançar uma plataforma muito alta. O segundo e principal motivo, é que cada personagem tem uma habilidade especial. O Chefe pode quebrar pedras, Fofuxo pode se chocar contra objetos para derrubar coisas, Tureco pode limpar sujeira, etc. Por conta disso, cada mini-game só pode ser feito por um Ham-Ham específico, geralmente levando em consideração a sua personalidade.

Quando eu falo mini-game é exatamente isso. Todos os “puzzles” são versões mais simplificadas de outros tipos de jogos que você encontra por aí. Então em algum momento você vai esbarrar com um jogo de memória, de ritmo, de pesca, de corrida, de plataforma, etc. Tem até uma hora que você entra numa típica batalha de JRPG de turnos. Nada muito difícil, até porque Rainbow Rescue continua sendo um jogo para crianças. O único momento que eu passei um pequeno aperto com um desses mini-games foi o de… pular amarelinha. Em minha defesa, o problema é que por eu jogar num emulador eu errava qualquer era a tecla que tinha que pressionar.

Há também um capítulo extra (e opcional) depois que você encontra todos os ingredientes em que o Bo pede para você entregar ingressos para um show no teatro da Terra do Arco-Íris. Assim você pode revisitar todos os mapas do jogo, tendo liberdade de escolher os personagens que quiser na sua equipe, e reencontrar todos os Ham-Hams e mais alguns personagens novos para convidá-los para o show. Assim você tem acesso a novas áreas e, obviamente, novos mini-games se tiver interesse em passar mais um tempinho com os Ham-Hams.

Ham-Ham Heartbreak falou muito sobre amor e tipos diferentes de relacionamento, Rainbow Rescue é também mais simples nisso: é um jogo sobre trabalho em equipe. Aliás, algo que sempre esteve na essência do animê de Hamtaro. A jogabilidade já deixa isso bem claro e todos os outros elementos visuais e textuais reforçam a mensagem. O efeito disso é que no jogo temos uma possibilidade muito maior de ver os Ham-Hams interagindo entre si, enquanto no anterior a presença deles era muito pontual e fechada nas suas duplinhas pela temática da história.

Há momentos em que até o Hamtaro deixa de ser o protagonista temporariamente para dar um pouquinho mais de espaço para outros personagens como, por exemplo, você explora um parque aquático apenas com as meninas. Enquanto em Ham-Ham Heartbreak cada capítulo começa apenas com uma personagem apontando onde o Spat está, aqui vemos os Ham-Hams se reunindo e decidindo onde procurar pelos ingredientes. Então para quem gostava do desenho, eu acho que esse é um jogo ainda mais cativante por deixar o elenco agir como uma comunidade.

Há quem ache Ham-Ham Heartbreak um jogo melhor, porém eu gostei bem mais de Rainbow Rescue. É um jogo mais criativo e menos monótono já que a todo momento você tem um desafio diferente para passar. Talvez ele se estenda um pouquinho mais do que deveria com aquele último capítulo, mas é apenas conteúdo extra pros mais aficionados.

HAMTARO: HAM-HAM GAMES (2004)

Imagens da jogabilidade de Hamtaro: Ham-Ham Games

Sem sacanagem, Hamtaro: Ham-Ham Games foi o título que mais me surpreendeu dentro dessa “trilogia”. Ele tem umas escolhas criativas que achei interessantes, e logo chego nelas, mas o que me pegou desprevenido foi o aumento súbito no nível de desafio dele. Depois de sair de dois jogos que miravam muito explicitamente o público infantil, eu não esperava passar um sufoco nas “Olímpiadas” dos Ham-Hams.

Se Rainbow Rescue foi um sucesso de vendas ou não, eu não sei dizer. Porém dá para ver que em algum momento depois do seu lançamento a AlphaDream viu algum potencial em pegar aquela ideia dos mini-games e fazer um segundo jogo todo centrado nelas. Assim a gente sai do terreno do gênero de aventura e entra no de esporte.

Com um título bem autoexplicativo, Ham-Ham Games coloca Hamtaro e seus amigos para competir num evento esportivo patrocinado por ninguém menos que o príncipe Bo. Ao todo temos quatro equipes: Ham-Ham, Seahams, Djungle e Rainbow. Creio que não preciso dizer com qual deles você joga, certo? Assim o jogador irá passar por 15 modalidades de esportes diferentes tentando ser o time com o maior saldo de medalhas de ouro ao fim do evento. Cada jogo tem suas próprias regras e os únicos que se repetem são o de vôlei e de tênis, porque nesses dois casos você tem primeiro uma partida eliminatória e depois a final.

A maior qualidade de Ham-Ham Games é como os desenvolvedores não apresentaram os jogos de uma maneira impessoal. O que eu quero dizer com isso? As competições não acontecem numa sequência mecânica em que rola um jogo e logo depois o seguinte, algo como o clássico California Games (1987). Existe um pouquinho de role-play na jogabilidade também. As “Olimpíadas” dos Ham Hams se desenrolam no espaço de uma semana, com cada dia tendo uma ou três competições. Entre um jogo e outro, você pode controlar o Hamtaro e explorar as arenas e também interagir com os personagens que sempre tem um diálogo novo dependendo do dia e do resultado das partidas. Com isso a gente se sente de fato num evento esportivo e não apenas num conjuntinho de mini-games.

Agora deixa eu falar um pouco dos jogos em si. Não vou descrever cada um porque seria muito trabalho por pouco motivo. Vocês não precisam saber as minúcias das mecânicas entre o arremesso de peso, o salto com vara e a natação. Basta que entendam que são mini-games que levam em consideração coordenação motora, precisão e, acima de tudo, ritmo. Aliás, este foi a minha kryptonita com Ham-Ham Games porque eu sou péssimo em jogos de ritmo. Tanto que a última competição que é uma maratona, onde você tem que apertar o botão na batida certa para fazer o Hamtaro correr, eu simplesmente entreguei porque por mais que eu tentasse eu não acertava o tempo correto.

Talvez eu só seja muito ruim nesse tipo de desafio mesmo, mas não estou plenamente confiante que a mesma criança que se divertiu com Ham-Ham Heartbreak e Rainbow Rescue vai curtir o Ham-Ham Games da mesma forma. Aí entra um grande dilema para o jogo, porque também não vejo muitos adultos se interessando por ele por conta dos visuais e por se tratar de Hamtaro. O que é uma pena, pois ele é bem desafiador e consegue te dar um aperto. Inclusive, arrisco a dizer que Hamtaro: Ham-Ham Games é o meu jogo favorito dessa “trilogia”, apesar de que meu coração sempre estará com Rainbow Rescue.

COMENTÁRIOS FINAIS

Ao contrário da “duologia” de RPGs de Fullmetal Alchemist, eu não tive nenhum outro motivo para dedicar um texto separado para os jogos de Hamtaro. Não foi nem mesmo para movimentar o blog, até porque o que eu mais tenho aqui são textos que venho empurrando com a barriga faz meses. Eu apenas gostei tanto desses joguinhos que senti que valia a pena falar um pouco mais deles sem o limite de parágrafos que eu me imponho quando faço uma lista.

Apesar de que, se pensar bem, dá até para relacionar ao mesmo tema que me levou a falar dos jogos de Fullmetal Alchemist. Contudo não farei um repeteco de ideias aqui, até porque eu já pretendo expandir a discussão velada que fiz naquele texto num artigo futuro. Então qual o motivo desse tópico? Sei lá, eu falo (e escrevo) demais mesmo.

Ok, para não perder a viagem: não se impeçam de testar a “trilogia” dos jogos de Hamtaro do Game Boy Advance. Independente se você tem 10, 20, 30, 40, 50 ou sabe-se lá quantos anos. Acho tão cansativo essa ideia de público-alvo porque ela pode até fazer sentido para as empresas, mas não deveria carregar qualquer valor para nós os consumidores. Se permita ter um contato com sua criança interior e jogar, assistir ou ler qualquer coisa que não tenha sido feita com a sua demografia em mente. Sempre expanda seus horizontes culturais e isso inclui algo como um joguinho de Olimpíadas com Ham-Hams!


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