
Esses dias, o algoritmo do Twitter tratou de colocar na minha frente comentários de uma das mais nefastas organizações criminosas do mundo: os fãs de Clair Obscur – Expedition 33! Ok, para ser sincero não sei se eram de fato fãs de Expedition 33 ou apenas gente que curtiu o jogo. O que sei é que alguns são supostamente fãs de Final Fantasy. Ou melhor, do “Final Fantasy de Verdade” que aparentemente já não existe mais.
Calma aí que estou me adiantando. Preciso contextualizá-los um pouquinho antes de deixar a ironia tomar o meu corpo e controlar os meus dedos.
Tudo começou quando o Diego Kerber, do Adrenaline, resolveu discordar de uma fala do Naoki Yoshida, vulgo Yoshi-P, responsável por Final Fantasy XIV. O Naoki disse recentemente que acredita que o tempo de desenvolvimento entre os jogos mais recentes de Final Fantasy dificulta a entrada de novos jogadores na franquia. Contudo, para o Diego, Final Fantasy não chega a novos jogadores porque está ruim e também começa a perder seus fãs mais antigos. O que para mim é uma posição justa. Muito justa. Justíssima! Não estou debochando da fala do Diego, realmente não vejo problema em pensar isso, e se este fosse o único comentário dele eu não teria o que criticar. É completamente normal não estar satisfeito com os jogos mais recentes da série, eu tenho uns probleminhas parecidos com Ys que não gosto de verbalizar. Contudo que ele resolveu fazer um segundo tweet…
“Clair Obscur deixou bem claro pra mim que tem gente que faz um Final Fantasy melhor que a Square”, foram as exatas palavras do Diego. Aí eu começo a ter alguns probleminhas com o comentário. Se eu quisesse dar vazão pro meu lado mais problematizador, poderia falar sobre como é “peculiar” dizer que um estúdio ocidental consegue fazer muito melhor algo que os japoneses fazem há décadas. Mas não quero ser leviano hoje. Prefiro me ater a um comportamento que observo desde o ano passado. Parece que ninguém é capaz de elogiar Clair Obscur sem falar mal de outras franquias de RPGs, sobretudo os de turnos.
Fiz meu comentário mordaz habitual e que não teve nada demais. Foi apenas no dia seguinte que as interações foram para outro lado. Passou um tweet falando sobre a Square Enix e eu resolvi fazer uma piada referenciando a postagem do Diego. Ali que surgiram comentários mais pertinentes para a nossa pauta. Uns supostos fãs de Final Fantasy vieram reafirmar que sim, Expedition 33 era muito mais Final Fantasy que os jogos atuais da franquia. Se fosse apenas uma questão de gente que não gosta de um Final Fantasy XV ou de um Final Fantasy XVI eu iria ignorar. Mas parece que as coisas acontecem só pra gerar conteúdo pro meu blog.
Alguns desses comentários vieram com a velha história do “Final Fantasy de Verdade”, que embora eu esteja limitando a Final Fantasy, é um papo que se repete para outras franquias. Com todo respeito (mentira), isso é só bobagem de fã otário. Estou ciente que implico bastante fanbases fazendo generalizações – principalmente se for a fanbase de Expedition 33 – mas faço isso por graça mesmo. Sei que nenhuma delas é homogênea e conforme crescem mais micro bolhas se formam lá dentro. Então antes de qualquer crítica a gente precisa ter em mente qual é o tipo de fã de que estamos falando. Uma franquia que eu considero perfeita para analisarmos isso é Resident Evil.
Tem muito fã que rejeita os últimos jogos e acha que “Resident Evil de Verdade” são os que hoje a gente chama de clássicos, com os controles de tanque e as câmeras fixas. Mas também tem aqueles que gostam mais dessa fase action horror com tiro em terceira pessoa. Inclusive existem até aqueles que defendem o infame Resident Evil 6. Os jogos atuais conquistaram uma nova geração de fãs, tal existem também aqueles que gostam da série na sua totalidade. Meu alvo seria fãs daquela primeira categoria, não necessariamente saudosistas, mas que acreditam numa essência da série que se perdeu com o tempo. Pode acontecer, mas geralmente é só incapacidade de aceitar a ideia que franquias também não são homogêneas tal como suas fanbases.
Algo que ajuda nesse caso é que Resident Evil é uma série de jogos com fases bem definidas ao longo da sua história, o que incentiva os fãs a terem seus períodos favoritos. Se a gente for um pouco flexível, dá para dizer que também existem fases em Final Fantasy. Para os fins desse texto, vamos considerar três. A trilogia original do Nintendinho é a primeira delas, os jogos que usavam o Active Time Battle (ATB) são a segunda e tudo que veio depois disso forma a terceira. Dá para dizer que Final Fantasy XVI vai estabelecer uma quarta e nova fase, mas só teremos certeza quando houver um próximo jogo.

Aliás, seria bom dar uma ênfase em Final Fantasy XVI porque vejo que ele influenciou bastante essa ideia de que a Square Enix deixou de fazer “Final Fantasy de Verdade”. Já existiam richas entre fãs com os jogos que o precederam, mas o que pegou nele foi a questão de ser RPG de ação. Ainda não entendo porque reagiram como se isso fosse uma mudança tão drástica. Não é como se fosse alguma novidade dentro de Final Fantasy que há tempos experimenta com uma jogabilidade voltada para a ação. Um ano antes tivemos Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin e até lá atrás, em 1991, dá para citar o Final Fantasy Adventure que acabou se tornando depois a série de Mana. A não ser que essas pessoas convenientemente considerem que os spin-offs não contam.
Não permitam que tirem Chocobo’s Mysterious Dungeon de vocês!
Porém, mesmo aglutinando Final Fantasy nesses grupos, eu não acho que a ideia de fases funciona tão bem quanto em Resident Evil. Porque existem algumas nuances em cada jogo que fazem essa ideia do “Final Fantasy de Verdade”, com todo respeito de novo (e mentira de novo), soar como balela inventada pelos fãs mais bestas.
Nesses comentários que eu recebi, não precisava de muito esforço para entender que “Final Fantasy de Verdade” era um eufemismo para se referir aos jogos antigos. Alguns até deixaram bem claro que se tratava disso. Só que “antigo” é um termo bem vago para falar de Final Fantasy, precisa ter uma linha de corte e eu tinha uma leve suspeita de qual seria. Não me surpreendi quando questionei um desses supostos fãs deles e ele citou Final Fantasy XIII. Você nem precisa estar por dentro da fanbase para saber que esse é um título bem divisivo entre fãs. Segundo o cara lá, do XIII para frente a Square Enix perdeu a mão. Se não me engano tem muita gente que não foi com a cara do XV também.
Show, então agora temos por onde começar. O tal do lendário “Final Fantasy de Verdade” está entre tudo aquilo que veio antes do XIII. Vamos analisar alguns desses jogos.

Final Fantasy I segue o formato mais tradicional de JRPG com combate por turnos, além de deixar o jogador decidir as classes do grupo de heróis. Não há muito que se comentar da sua jogabilidade, no máximo que na época um dos seus diferenciais foi mostrar os personagens no canto da tela em vez da visão em primeira pessoa aos moldes de Dragon Quest e Phantasy Star. Fica aqui mais como um ponto de partida.
Final Fantasy II manteve o mesmo sistema de combate, porém com uma escolha que eu achei bem interessante. Ele eliminou a ideia das classes e também os pontos de experiência, ou seja, personagens não passavam de nível. Em vez disso, você aumenta os atributos de acordo com suas ações nas batalhas. Atacar com espadas te dá mais proficiência nessa arma, receber grandes quantidades de dano aumenta sua vida e usar magias aumenta a sua inteligência e a sua proficiência com esse poder também.
Eu gosto bastante desse sistema e até acharia legal se um dia fizessem outro jogo nesse formato. Infelizmente ele não foi bem implantado em Final Fantasy II e acredito que esse foi o principal motivo de voltarem atrás com Final Fantasy III. O jogo pega de novo o molde do primeiro, contudo vem com um sistema de classes bem mais refinado. Você encontra cristais que liberam novas classes e pode trocar e aprimorá-las com pontos conseguidos no final de cada batalha.

Passado mais um ano chega Final Fantasy IV que seria um dos mais importantes títulos para franquia, tanto por questões de narrativa quanto de jogabilidade. Foi nesse jogo que a Square Enix (na época ainda Square) introduziu seu icônico sistema de batalha, ATB, no qual o personagem pode executar uma ação quando a sua barra preenche. Ainda existia alguma uma lógica de turnos, porém eles ficavam mais dinâmicos e isso definiu a jogabilidade de Final Fantasy para seus próximos cinco títulos.
Mesmo assim existem detalhes a se considerar em cada um deles. Por exemplo, o Final Fantasy IV tem um elenco extenso de personagens controláveis, cada um com uma classe fixa. Final Fantasy V, por sua vez, volta com o sistema do III, mas permite que o jogador combine algumas habilidades ao masterizar uma respectiva classe. Aí vem Final Fantasy VI, volta com a ideia de classes específicas para cada personagem e também adiciona coisas como Desperation Attacks que liberam de acordo com a quantidade de vida, além das Relíquias que habilitam novos comandos ou efeitos passivos. Final Fantasy VII reformula os Desperation Attacks para Limiti Breaks, some outra vez com as classes e habilita magias de acordo com as Materia que você equipa nos personagens.
Já deu para observar um padrão em Final Fantasy que é a não existência desse padrão, né? Eu poderia parar por aqui, mas ainda tem uns exemplos que eu gostaria de citar para fechar o raciocínio. Vamos dar um salto no tempo, passando por alguns jogos e caindo em Final Fantasy X. Este marca uma nova fase de Final Fantasy em que cada jogo tenta construir um sistema de batalha próprio. O seu foi o chamado Conditional Turn-Based Battle (CTB) que tem uma lógica de turnos que remete aos primeiros jogos só que não é exatamente o formato que costumamos pensar quando ouvimos falar em RPGs por turnos.
O turno de cada personagem e dos inimigos é determinado de acordo com a agilidade e intercalam entre si. Além disso, cada comando tem um rank específico de forma que o tempo de recuperação para o personagem poder atacar de novo demora mais ou menos de acordo com a ação selecionada no turno anterior. Limitis Breaks aqui se tornaram Overdrives que exigem inputs diferentes para melhorar a efetividade do especial. Por fim, o CTB vem acompanhado de um sistema de evolução de personagem que também se distingue dos seus antecessores. Esse foi outro jogo que removeu a ideia de pontos de experiência e os atributos aumentam de acordo com os nódulos que você desbloqueia na Sphere Grid, permitindo que o jogador customize seus personagens de diferentes formas.
Em sequência tivemos o inusitado Final Fantasy XI que apostou no modelo de MMORPGs. Não tem muito que discorrer na sua jogabilidade, que foca em incentivar os jogadores a formarem equipes para enfrentar monstros, mas eu queria dar um destaque para como as batalhas ocorrem. Até então as lutas em Final Fantasy aconteciam com encontros aleatórios, mas no XI elas acontecem diretamente no mapa, com alguns monstros podendo atacar os jogadores ao avistá-los, e os jogos seguintes incorporaram esse elemento.

Por fim chegamos a Final Fantasy XII, nosso último exemplo, que tem também o seu sistema de batalha próprio, o Active Dimension Battle (ADB). Até hoje eu me refiro a ele como “RPG de ação, só que não”. Os inimigos ficam espalhados pelo mapa e você entra em combate em tempo mais ou menos real. Tal como nos tempos de ATB, existe uma barra que precisa ser preenchida para o personagem executar uma ação, colocando o ADB numa zona limiar entre um RPG de turnos e um RPG de ação. Outra coisa que compõe o sistema são as gambits, que te permitem automatizar o combate programando ações para cada personagem em condições específicas como atacar o inimigo mais próximo ou usar determinada habilidade ou item quando sua vida está abaixo de um limite.
Depois de passarmos por tantos jogos, eu pergunto: qual deles é o lendário “Final Fantasy de Verdade”? Porque dizer que são os antigos também não responde muita coisa. É o antigo do Nintendinho, que de fato eram RPGs de turno tradicionais, ou é o antigo do ATB que mistura as coisas? E se for do ATB, qual é exatamente: com classes fixas, com sistema de classes ou sem a existência de classes? É o Final Fantasy X com seu CTB então? Aliás, ele conta como antigo já que só tem um ano de diferença entre ele e o Final Fantasy IX? Percebem como fica mais complexo quando você pensa de fato nesses jogos e não recorre a um saudosismo vago?
Podem até existir temas, tramas e arquétipos que com o tempo se tornaram elementos recorrentes de Final Fantasy. Porém isso não torna a franquia dependente de tais coisas para existir e a jogabilidade é a maior prova disso. Em cada jogo a Square Enix tentou trazer alguma coisa diferente de forma que não existem mecânicas específicas que definem Final Fantasy. Até mesmo a ideia de chamar essa como uma franquia de RPGs por turnos exige um asterisco, principalmente se falarmos do ATB.
Eu ainda estou sendo bonzinho em centrar essa discussão apenas nos títulos principais, porque os spin-offs dificultam ainda mais o caso desses fãs preciosistas. Lá você vai encontrar jogos de estratégia, jogos de luta, jogos de corrida, jogos com elementos de roguelike e até um de tiro em terceira pessoa. Tem combates mais estratégicos, tem combates mais voltados a ação, tem tudo.
Por isso a ideia de um “Final Fantasy de Verdade” soa e é tão ridículo. É quase a mesma coisa que o cara que ficou preso nos Resident Evil dos anos 90, pois se recusa a olhar a franquia para além das suas preferências. Isso não quer dizer que você precisa aceitar de bom grado a fase atual. É seu direito de achar que franquia está com uma qualidade menor do que no seu passado. Posso falar do meu caso pessoal. Prefiro mais de fase metroidvania de Castlevania do que o classicvania – ainda que eu goste bastante dos jogos de plataforma – e não sou chegado aos jogos 3D. Principalmente naquela pegada hack ‘n slash que fizeram em Lords of Shadow.
O que me incomoda é apelar para um modelo idealizado que, quando olhamos para a totalidade de Final Fantasy, vemos que ele só existe na cabeça de certas pessoas. Pela terceira vez, com todo respeito (e pela terceira vez, mentira), assim você só está sendo um idiota que finge conhecer a franquia que supostamente se diz fã.
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