
Anteontem eu publiquei uma review de Maniac, mais outro desses survivors-like que calharam de um amigo me dar de presente. Um dos pontos centrais da crítica é como eu gostei dele, porém decidi parar de jogá-lo antes que esse sentimento mudasse. Leiam depois para maiores detalhes porque não é disso que eu vim falar hoje. O que eu quero é apenas destacar um trecho em que falo como Maniac é mais outro desses títulos que tentam reter a atenção do jogador com grinding de conquistas. Eu poderia ter parado por aí, mas infelizmente eu não tenho muito bom senso. Não resisti o impulso de uma alfinetada e apontei que existe um público interessado nessa caça de conquistas e que eu nutro nada menos do que um puro desprezo por esse tipo de jogador.
Com certeza esse texto trará um debate propositivo!
Coincidentemente, no dia que eu terminei de escrever a crítica de Maniac, um vídeo surgiu no meu feed do Twitter. Era um meme que vinha naquela esteira da piada do “Focus, M” que viralizou um tempo antes. Em vez de satirizar os diálogos de jogos AAA, o vídeo… por que diabos eu vou perder tempo descrevendo se posso mostrá-lo para vocês?
Nota do editor (ou seja, eu mesmo): se repararem na data, o tweet em questão já tem mais de um mês. Esse texto era para ter saído antes, contudo uma série de fatores contribuíram para eu adiá-lo. Durante esse intervalo eu lancei um texto falando sobre algo que chamo de “produtivismo gamer” acredito que se conecta com o assunto de hoje e ajuda a entender melhor o que eu tenho contra a cultura das conquistas.
O vídeo me tirou umas risadinhas porque me fez lembrar da primeira vez que fiquei sabendo do RetroAchievements. Para quem não conhece, essa é uma plataforma para criação de conquistas / troféus para jogos antigos e que dá para integrar com vários emuladores como RetroArch, DuckStation, Dolphin, PPSSPP, entre outros. Olhando algumas das estatísticas do site, dá pra ver que tem um público considerável entusiasta de jogos retrôs que utiliza a plataforma. Pois bem, no dia que eu descobri o RetroAchievements minha reação foi de olhar para o lado, olhar para o outro, suspirar e dizer: é, falhamos como sociedade!
Belmonteiro’s Log é um quadro que eu inventei para falar de alguns assuntos de maneira mais descontraída e cômica. Porém existem algumas ocasiões em que também o utilizo para dar vazão a coisas que me incomodam e conquistas são um dos traços da cultura gamer moderna que me incomoda. Portanto, se você é uma pessoa que se convenceu que ir atrás dessas “recompensas” é algo divertido de se fazer, talvez seja melhor parar de ler por aqui. Provavelmente o texto lhe soará como uma enorme cagação de regra e admito que em parte é mesmo. Não vou fingir que não acho todo esse lance de conquistas se tornou uma coisa de gente meio palerma (queria dizer bocózona, mas umas semanas atrás esse adjetivo me trouxe problemas).
Contudo, é importante ressaltar que eu não odeio a ideia das conquistas. Nem mesmo odeio RetroAchievements, ele apenas será o receptáculo da minha raiva. Eu entendo que conquistas são uma tradição bem mais antiga do que a gente pensa. Tropecei numa curiosidade enquanto lia sobre a história desse sistem no clássico Pitfall!, de 1982. Você podia enviar uma foto da sua TV mostrando que você atingiu 20 mil pontos no jogo para a Activision que ela te enviava de volta um emblema do Pitfall! Harry Explorer Club com uma cartinha te parabenizando. Além disso, eu também tive uma fase sombria na minha vida em que eu tentava obter essas conquistas, mas graças a Deus eu consegui superá-la. O que eu odeio de verdade, como eu já mencionei, é a cultura que se formou ao redor dos troféus, platinas e conquistas.
Sempre tivemos uma parcela de gamers infantilóides que se auto intitulavam os “gamers de verdade” como se fosse uma espécie de casta superior nessa comunidade. Para essa galera as conquistas, platinas, troféus, gamertag, nível na Steam, etc, são formas de se validarem perante os outros. Os racistas do extinto Xbox Mil Grau, por exemplo, adoravam lembrar que no canal eles tinham “13 mil horas de gameplay”. Afinal, são dez horas de lives diária que provam que você deve ser um grande conhecedor dos videogames e não um medíocre que passava metade do seu dia fazendo flame war e discurso de ódio, né?
Infelizmente, essa mentalidade não se limita a quem vive tretinhas e vigarice. Tem gamer comum que internalizou que conquistas são essenciais para a experiência de jogo. Poder ser uma minoria? Talvez sim, talvez não. Não tem jeito de aferirmos isso com exatidão. O que eu tenho de material são ocasiões anedóticas em que vi gente reclamando de jogar no Switch porque lá não tem esses troféus. Ou então quando me deparei com cara fazendo uma review negativa só porque não conseguia pegar uma conquista específica. Também já vi gente enchendo o saco de um desenvolvedor porque ele não coloca isso no seu jogo.
Ah, tem esse print que encontrei no meu perfil de um tempo atrás:

Eu acho um caso curioso porque é um indivíduo que começou a jogar numa época em que esses sistemas de conquistas não existiam. Pelo menos não por parte das plataformas e entro nessa questão daqui a pouco. Agora esse indivíduo está condicionado a necessitar desse tipo de recompensa fajuta que só existe para estender artificialmente a duração do jogo. Pelo menos o texto dá a entender que ele já estava ficando consciente disso. E ele está certo, esses sistemas de conquistas apenas tiram a graça das coisas lhe dando a ilusão de uma recompensa. Ou vocês querem mesmo se convencer que é recompensador ficar matando X monstrinhos só para pular um pop-up na tela?
Parte da rusga que eu tenho com o RetroAchievements vem daí, porque eu sinto que ele está trazendo essa mentalidade besta para dentro do retrogaming. Eu adoraria que as pessoas dessem mais atenção a jogos antigos – só ver os títulos que eu trago aqui de vez em quando – mas sem essa estupidez que parece gamificar o próprio ato de jogar. Assim deixa de ser sobre ter contato com obras do passado, importantíssimas para entendermos a evolução da mídia ao longo das era, e vira só mais uma desculpa para juntar trofeuzinhos. Isso para mim não é incentivo, é adestramento.
Ok, mas eu não decidi falar do RetroAchievements aleatoriamente aqui só para ter do que reclamar. Apesar de que eu posso causar essa impressão às vezes. A ideia do texto veio na forma de um comentário que apareceu no meu perfil tentando justificar que plataformas como o RetroAchievements apenas botam o que “a maioria das pessoas fazia por fazer”. Como era o último dia do ano e eu não queria me estressar com um provável adolescente com foto de animê, eu dei uma resposta genérica e segui com a noite. Porém eu acho essa ingenuidade fofa.
Vamos escolher um jogo qualquer aqui… Castlevania: Circle of the Moon! O melhor Castlevania, diga-se de passagem, e quem discordar está objetivamente errado e precisa perder seus direitos políticos. Uma das conquistas do RetroAchievements: “In the Underground Warehouse, Kill 25 enemies using Martial Arts (Wights room excluded)”. Isso parece algo que um jogador iria fazer por fazer? Ou que tal essa aqui: “[Magician Mode] Defeat Cerberus without taking a hit and always having a Hawk helping you (no heart usage)”.
Deixa eu pegar outro exemplo. Dessa vez vou de Castlevania II: Belmont’s Revenge porque me dá uma desculpa de linkar o texto que fiz para o jogo recentemente. Quais seriam os exemplos de coisas que as pessoas “faziam por fazer”? Seria o: “Break 6 blocks in the Crystal Castle without dying”? Ou então o: “Beat the game without having your whip be downgraded by a Pungachi’s projectile”?
Coisas específicas demais que tem que forçar muito para achar que um jogador pensaria em fazer naturalmente. Contudo, tenho que dizer que não são esses desafios ultra específicos que eu acho ridículo. Para mim, são ainda piores as conquistas que você recebe por fazer algo que você obrigatoriamente teria que concluir numa jogatina normal. É quase como se você tivesse pedindo que o jogo te emitisse uma nota fiscal. Eu só não considero esse tipo de conquista completamente inútil porque pelo menos serve para mapear quantas poucas pessoas de fato zeram os jogos. Me divirto vendo a % de jogadores decair conforme esses marcos aumentam. Tá aí, uma utilidade real para o RetroAchievements! Dá para observar o mesmo fenômeno por lá.
O foda é que você não precisa de um sistema externo para criar o sentimento de recompensa no jogador. Isso deveria ser parte do próprio design do jogo. Um exemplo que me vem à cabeça agora é um chefão de Drakensang: The River of Time. Num determinado ponto da história um dos personagens principais é envenenado e a poção de cura está escondida numa antiga ruína na terra dos elfos. Para abrir o compartimento, você tem que liberar um demônio que foi selado no altar. Esse é um dos chefões mais difíceis do jogo, mas você pode colocar runas ao redor da arena para enfraquecê-lo. Ao mesmo tempo, tem um NPC que diz que vai te dar maiores recompensas se você não gastar essas runas contra o demônio.
A primeira vez que eu joguei eu usei praticamente todas, o que deixou a luta exponencialmente mais fácil. Já na segunda vez que zerei Drakensang: The River of Time eu resolvi encarar o bichão com toda sua força. Foi difícil, mas eu consegui. Isso acabou sendo duplamente recompensador para mim porque além dos equipamentos, eu também me diverti pensando nas estratégias para derrotar o demônio, tipo usar flechas de fogo para aplicar dano de queimadura nele e negar a sua regeneração de HP. O desafio estava lá, in-game, se eu me dispusesse a fazê-lo sem a necessidade do “incentivo” de um pop-up na Steam.
Porém preciso dar o braço a torcer pro comentário do camarada. De fato existiam e existem coisas que os jogadores tentam fazer à toa apenas pela diversão ou para se desafiar. Toda a ideia do 1CC (one credit clear) em beat’em ups e shoot’em ups vem desse impulso. Todavia, esses desafios auto impostos nascem espontaneamente da interação do jogador com o jogo, sem qualquer “incentivo” externo. Nem é a primeira vez que eu falo isso.
Já que estou repetindo exemplos, não posso deixar de mencionar Super Mario 64. Na fase do Jolly Roger Bay, aquela que tem um barco no meio de um lago, tem uma estrela que fica no meio de uma corrente de jato. O jeito mais fácil de consegui-la é pegar o Metal Cap, tentar afundar o mais próximo possível da corrente e pegar a estrela antes que o efeito do chapéu passe. Porém, quando eu joguei, eu botei na cabeça que tentaria fazer isso apenas nadando. Levou muitas e muitas tentativas, mas de algum jeito eu consegui. Não tenho evidências desse feito, mas dá para encontrar vídeos de outras pessoas conseguindo pegar a estrela assim.
Outra vez: foi algo que eu fiz por mim mesmo e não porque iria aparecer um pop-up de “[Mario Phelps] In the Jolly Roger Bay stage, collect the jet stream’s star without using the Metal Cap”. Aliás, fui conferir e tem esse troféu no RetroAchievements quase que com essas mesmas palavras. DUAS VEZES! Na época eu não pensei nesse aspecto, mas refletindo hoje eu considero que foi justamente o fato de não saber que dava para pegar a estrela daquele jeito que fez o ato ser tão recompensador. Tem um pequeno orgulho envolvido em conseguir vencer um desafio, somado a sensação de descobrir novas possibilidades dentro do jogo, que talvez nem os próprios desenvolvedores imaginaram que dava para fazer.
Esse tipo de coisa pode surgir de maneira orgânica até mesmo nesses jogos feitos para grinding de conquistas. Vampire Survivors já no seu lançamento tinha mais de uma centena. Porém a comunidade conseguiu desenvolver seu próprio desafio, o No Move Challenge, que já surgiu em outros jogos antes. Era uma proposta até divertida que partia dos próprios jogadores, de novo, testando os limites do que era possível e do que não era na gameplay. Aí chega o derivativo Megabonk e estabelece isso como uma conquista e tira toda a espontaneidade do feito. Não é à toa que esse é um dos jogos mais produzidos pela lógica de agradar a internet que poderia existir.
Mas tudo bem, talvez o problema seja eu e minha amargura crônica. Já estou tão ranzinza que não consigo enxergar a enorme graça em ser tratado como um cachorrinho repetindo truques para ganhar um biscoitinho. Tá, tá! Essa não foi uma boa analogia… até porque o cachorro ao menos GANHA alguma coisa de fato. Sim, definitivamente o problema é 100% eu. Pois deve ser muito divertido mesmo repetir centenas e mais centenas de partidas em Maniac, depois de já ter liberado todos os personagens, testado todas as habilidades e explorado o mapa inteiro, só para explodir mais veículos e garantir aquela conquista dos 100 mil carros destruídos. Certamente isso é algo que uma pessoa normal faria por si só.
Antes tinha minhas dúvidas, mas agora penso que dá um barato foda gastar dezenas de horas completando as outras dúzias de tarefinhas aleatórias para você ter o prazer de falar para seus coleguinhas online:

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