
Três dias atrás, o perfil oficial de Horizon Chase anunciou que iria tirar as versões World Tour e Turbo das lojas digitais em Junho. Só o anúncio já era o suficiente para causar um burburinho porque, infelizmente, volta e meia algo do tipo acontece. Porém houve uma agravante por como frasearam esse anúncio. Do jeito que colocaram, deu-se a entender que os jogos não poderiam mais ser mais baixados nessas plataformas. Contudo, o correto é que só não terá mais como comprar nenhuma dessas versões. De qualquer forma continua sendo uma notícia ruim e fica ainda pior para nós, brasileiros, considerando o que Horizon Chase representa na história do desenvolvimento de jogos no país.
Horizon Chase: World Tour é de autoria do Aquiris Game Studio, um estúdio de Porto Alegre. Em 2015 eles lançaram seu jogo para celulares iOS e Android e três anos depois ele recebeu uma versão melhorada, Horizon Chase Turbo, que saiu para diferentes consoles (PlayStation, Xbox e Nintendo) e computadores. Acho seguro dizer que Horizon Chase foi um dos jogos brasileiros de maior sucesso, garantindo várias ports, DLCs e, em 2022, uma sequência. Até lá fora ele teve uma boa projeção, algo que fica evidente com alguns gringos repercutindo a notícia nesses últimos dias. Só que a importância desse jogo para o Brasil não é apenas a sua nacionalidade. É também como ele se conecta com o nosso passado nos videogames.
Existe um fenômeno muito curioso na cultura popular brasileira em que obras estrangeiras conquistam um sucesso maior aqui do que nos seus países de origem. Ora, é só olhar para Chaves. A série foi um sucesso no México na década de 70, mas no Brasil ela se tornou praticamente uma religião. O mesmo se repete, com um pouquinho menos desse fervor chavesco, com outras séries, novelas, filmes e, claro, videogames, como é o caso de Top Gear.
Top Gear é uma série de jogos de corrida que estreou no Super Nintendo em 1992. Inicialmente desenvolvida pela Gremlin Interactive e publicada pela Kemco, a série teve vários títulos que gozaram de um moderado sucesso para sustentá-la até a primeira metade dos anos 2000. No Brasil, o primeiro jogo foi uma verdadeira febre nas locadoras da década de 90 que fizeram Top Gear ser mais popular aqui do que outros jogos de corrida da época que são mais reconhecidos mundialmente. Sendo assim, Horizon Chase chegou se apresentando como seu sucessor espiritual, apostando acertadamente na memória afetiva do brasileiro. A Aquiris trouxe até o compositor original de Top Gear, Barry Leitch, para criar uma trilha sonora que evocasse as batidas eletrônicas da era dos 16-bits.
Eu cheguei a ter um Super Nintendo quando era criança e acho que devo ter jogado um ou dois percursos de Top Gear porque os gráficos não me são estranhos. Só queria pontuar que eu não tenho nostalgia por esse jogo, até porque corrida nunca foi um gênero que tive muito interesse. Tenho boas memórias com Crash Team Racing (e quem não tem?), passei por Rock ‘N Roll Racing e em algum momento devo ter jogado Mario Kart, mas Top Gear não foi algo que me marcou.
Dito isso, em 2020 – acho que foi em 2020, eu me viciei em Horizon Chase Turbo. Jogava até quando eu supostamente deveria estar trabalhando. Foi um dos poucos jogos que me dispus a platinar – até então não tinha a DLC do Senna – e segue um dos meus jogos brasileiros favoritos. Por isso é uma pena, para mim, ver Horizon Chase e a Aquiris “acabarem” desse jeito.
Ok, admito que estou sendo um pouco dramático. Não é que o jogo vai sumir do mapa, afinal existem métodos alternativos para consegui-lo. Porém muita gente prefere a conveniência e segurança de adquirir seus jogos por meios legais, então não tê-los disponíveis em algum lugar é prejudicial para a marca. Só que o que me entristece vai um pouco mais além. Para mim isso será uma espécie de morte simbólica do que a Aquiris representou para o desenvolvimento de jogos no Brasil.
Eventos não acontecem isoladamente e são sempre parte de um contexto maior. A notícia de Horizon Chase veio junto com a demissão de mais de 1000 funcionários, a descontinuação de três modos de Fortnite e uma mensagem do canalha do Tim Sweeney que dizia “Precisamos fazer cortes significativos para manter a empresa financiada”. Pelo visto o bilhão que Fortnite gera já não é mais o bilhão que os acionistas queriam que fosse.
Mas o que isso tem a ver com a Aquiris? É porque o estúdio como conhecemos no passado não existe desde 2023, quando foi comprado pela Epic e transformado na Epic Games Brasil. Aqueles que me acompanham devem imaginar o que eu penso da Epic e, por extensão, o que eu pensei dessa compra. Felizmente vocês não precisam se ater ao que eu acho da empresa. Em 13 de Abril de 2022, a Aquiris publicou no seu site que recebera um investimento da Epic. Nas palavras do ex-túdio:
A AQUIRIS anunciou hoje um investimento da Epic Games, a empresa de entretenimento interativo e fornecedora da tecnologia 3D por trás de Fortnite e Unreal Engine. As empresas também firmarão um acordo que prevê a publicação de múltiplos jogos multiplataforma ainda não anunciados.
Aí eu pergunto, o que se deu desses tais “múltiplos jogos multiplataforma ainda não anunciados”? De 2022 para cá a Aquiris só lançou um único jogo, Horizon Chase 2. Primeiro ele chegou na Apple Arcade, ou seja, era um jogo que estava em produção muito antes do acordo com a Epic. Só no ano seguinte que Horizon Chase 2 teve ports para outros consoles, incluindo computadores com exclusividade na Epic Games Store. Aí, em abril daquele ano, a Aquiris também anunciou que agora fazia parte da empresa:
O time da AQUIRIS será o alicerce da Epic Games Brasil, o primeiro estúdio da Epic na América Latina. Fundada em 2007, a AQUIRIS é famosa por seus títulos premiados, incluindo Wonderbox e a franquia Horizon Chase. Com sede na cidade de Porto Alegre, a talentosa equipe de desenvolvedores da AQUIRIS se unirá à Epic Games para criar conteúdo inovador e experiências sociais dentro do Fortnite.
O que foi um proeminente estúdio brasileiro, agora nada mais é que um puxadinho subaproveitado da Epic. Até hoje a gente não teve nada de relevante anunciado pelo ex-túdio desde a sua compra. Só olhar o estado da sua principal marca. Nos seis anos de existência de Horizon Chase não faltou conteúdo, contando com uma versão melhorada e várias DLCs. Quatro anos de Horizon Chase 2, três deles dentro da Epic, e o que ele tem é só o número na frente do nome. Abandonaram até o perfil oficial porque antes da postagem sobre a futura remoção dos primeiros jogos das lojas a última coisa que tweetaram foi em Julho de 2024.
O legado da Aquiris está sendo transformado numa nota de rodapé desde que viraram a Epic Games Studio. Até o seu outro jogo, Wonderbox: The Adventure Maker, já foi chutado para escanteio e descontinuado em 2024. A gente nem sabe o que é esse tal de “conteúdo inovador e experiências sociais dentro do Fortnite” que o ex-túdio fez, porque no site deles agora a única coisa que temos são relatórios anuais sobre igualdade salarial. Ver uma referência tão importante para o cenário nacional se limitar a isso é triste.
Quando eu destaquei lá atrás que Horizon Chase chegou a ter uma boa projeção no exterior, não foi à toa. Outro fenômeno brasileiro, este infeliz, é o nosso profundo complexo de vira-lata. Ele se manifesta em todos os aspectos do país, incluindo a nossa cultura. Isso, em partes, tem influência de uma elite ignorante que domina o Brasil e uma quantidade absurda de patriotas que são cadelas dos Estados Unidos. Aí a gente acaba com brasileiros que não dão um real valor ao seu cinema, a sua literatura, nada. Até mesmo quando enxergam esse valor, é com uma certa inferioridade em relação aos demais.
Jogos não são uma exceção e eu já comentei aqui sobre esse vira-latismo gamer. Mas aí eu preciso botar um asterisco porque é um problema não só do gamer brasileiro, mas do gamer em geral que é bem medíocre na sua relação com a mídia. Durante esses dias aí desde a notícia de Horizon Chase eu pesquei um comentário de um cara dizendo que o Brasil precisa fazer “jogo de ponta”. Porque na cabeça do gamer brasileiro, “jogo bom de verdade” precisa seguir as tendências estéticas e de jogabilidade do mainstream. A gente tem que ter algo como o chinês Black Myth: Wukong ou o coreano Crimson Desert para essa galera talvez enxergar algum valor nos nossos artistas.
Por isso, perder Horizon Chase, um dos raros jogos brasileiros a alcançar um público mais amplo dentro e fora do país, me incomoda tanto. Mesmo que ainda existam alguns vira-latas que torcem o nariz para ele porque “jogo de corrida bom de verdade” é um Forza Horizon da vida. Como eu coloquei no título, a Aquiris merecia um final melhor.
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