
Cinema, teatro, literatura, música. Ao longo de anos, décadas, até séculos, o ser humano desenvolveu formas de transmitir ideias e emoções para o público através da arte. O que é mais fascinante é como cada uma dessas mídias possui seus próprios códigos. Até podem até funcionar com algumas similaridades, mas, em essência, são linguagens distintas. Videogames, que inegavelmente são arte e são tratados como tal, utilizam elementos textuais, visuais e sonoros, mas também tem seus códigos específicos. Aquilo que os distingue, ou melhor, aquilo que se acreditava ser essa essência dos games era a interatividade.
Videogames ainda são uma mídia relativamente nova e por isso não temos uma bibliografia tão robusta de estudos quanto encontramos em outras áreas, como a literatura e o cinema, acerca das suas teorias. A ludologia, também conhecida como game studies, vem ganhando mais força nas últimas décadas e por isso muito já se discutiu sobre como essa dimensão interativa que forma a base da sua linguagem. Porém, sendo sincero com vocês, eu acho que essa se tornou uma visão não ultrapassada, mas sim inadequada por não considerar outros aspectos sociais e econômicos em torno dos games.
Achar que a interatividade é tão importante assim para mídia já não condiz com o seu cenário atual e ignora – e por vezes invalida – outras formas de experiência tão legítimas quanto o ato de jogar. Não me surpreende que hoje a narratologia vem dando um banho nos ludólogos, exatamente por levar em conta a vivência do indivíduo, os gamers, e não apenas o objeto em questão, os games.
Portanto resolvi vir aqui hoje argumentar que precisamos nos desprender de ideia que a dimensão interativa tem todo esse peso para se falar de videogames. Antes que questionem minhas credenciais, devo avisá-los que já platinei mais de mil games, portanto tenho a total certeza de estar capacitado – pelo menos mais do que esses “acadêmicos” cujas gamertags nem conhecemos – para discutir o tópico.
Eu comecei a gostar de games muito cedo na minha vida. Ganhei meu primeiro console quando eu tinha três anos e desde então este se tornou meu hobby favorito. Porém eu também desenvolvi muito cedo algo que hoje se mostra muito necessário, no Brasil e mais ainda na comunidade gamer, que é consciência de classe. Conforme o tempo passava eu vi que aquele meu hobby era muito caro, tanto na aquisição dos games quanto do hardware capaz de rodá-los. Hoje 300 reais já é o preço normal de qualquer grande lançamento aí. 300 REAIS! Vocês sabem quanto está o salário mínimo no Brasil hoje? A pergunta não é retórica. Como eu não trabalho, não me atualizei desses valores. Então, por favor, deixem aí nos comentários que eu depois reviso o texto. Independente de qual seja o valor exato, tenho certeza que é muita coisa para o brasileiro médio.
Portanto, não podemos esperar que a maior parte das pessoas consiga pagar por esses games e precisam recorrer a métodos alternativos, tais como assistir lives e vídeos de gameplay de criadores de conteúdo. Algo que por algum motivo passou a ser mal visto entre algumas bolhas que ainda acham que é preciso jogar para se gostar de games. Ao meu ver, não existe muita diferença. Dá para perfeitamente curtir a experiência de um game apenas vendo outra pessoa jogar.
Posso até citar meu caso pessoal com um dos meus games favoritos da vida, o revolucionário Red Dead Redemption 2. Até hoje eu não joguei e apenas acompanhei as gameplays do meu amigo na Twitch. Também li muita coisa a respeito dele na internet para complementar minha experiência. Só por causa disso ela é menos válida do que alguém que jogou? Acho que não! Se eu quisesse jogar Red Dead Redemption 2 hoje eu teria que desembolsar 250 reais na Steam e atualizar meu computador. Algo completamente inviável para mim no momento e tenho certeza que é a mesma realidade de muitas outras pessoas dessa comunidade.
Vejam também o caso de Pathologic 2. Quantas pessoas foram tocadas por aquele vídeo do Filipe Ramos e nunca precisaram jogar para poder apreciar tamanha obra-prima. Vocês não acham que dá orgulho para o desenvolvedor de Pathologic saber que tantas pessoas amam seu game sem nunca interagir com ele? Me entristece profundamente ver o que essa admirável comunidade gamer se tornou, numa tentativa constante de desprezar a experiência do próximo só porque não segue os mesmos critérios que os deles.
Gostaria de citar um último exemplo: o recente lançamento de Resident Evil Requiem. Sempre fui muito fã da franquia, embora eu não tenha zerado todos os games. Verdade seja dita, eu gosto muito mais da lore de Resident Evil do que a jogabilidade. Pois bem, eu queria muito jogar o Requiem já que estavam todos falando dele e não queria me sentir deslocado, porém ele saiu com um preço de 300 reais. Impossível de eu comprá-lo agora! Então qual o problema de eu acompanhar o jogo pelas lives do Alanzoka? Deu para eu analisar numa boa a jogabilidade e, o mais importante, a história do jogo sem precisar interagir com ele. É uma habilidade que você desenvolve depois de jogar tantos games como eu já joguei.
Então, gente, vamos pôr a mão na consciência e entender que gostar de games vai muito mais além do que essa tarefa mecânica de ficar apertando botõezinhos. Não deixem esse povo amargurado da internet ditar como você deve aproveitar seu game favorito. Eles não pagam suas contas, né? Entendo que existem alternativas como indie games, emulação e, em alguns casos, pirataria. Mas o que eu posso fazer se eu convenientemente quero jogar os últimos lançamentos AAA? Para que eu vou esperar que esses games fiquem mais baratos em promoções futuras, sofrendo meses e mais meses com FOMO, quando meu youtuber favorito tem uma playlist prontinha ali para o meu consumo?
Precisamos lutar por uma comunidade mais inclusiva que compreenda que nem todo mundo pode gastar ainda não sei quanto de um salário mínimo num único game. Por fim, só queria apontar mais uma coisa. Se a interatividade fosse tão necessária assim para os videogames, por que tem tanto game hoje com um “modo streamer”? Hein?! Fica aí o questionamento!
Enfim, gostaria de terminar um pedido sincero do fundo do meu coração: normalizem que não é necessário jogar para se gostar de games!





Tinha esquecido completamente a data de hoje
Assunto seríssimo que independe da data!!!