
Eu tento manter algumas tradições aqui dentro do Backlogger, porém os textos de início de ano não eram exatamente uma delas. O primeiro e o do ano passado surgiram porque eu coloquei uma meta pessoal de que iria testar esse negócio de blog por dois anos para decidir se continuaria ou não. Então eu quis pontuar para os meus leitores qual era a percepção que eu tinha do Backlogger naqueles dois momentos. Isso já não é mais necessário uma vez que decidi continuar escrevendo enquanto eu tiver sanidade (que não é muita coisa).
Agora passamos a ter uma tradição de fato em que pretendo iniciar todo novo ano com algum texto que fale em algum grau sobre produção de conteúdo para internet. Acho que é uma forma de ter esse contato mais pessoal que eu deveria explorar mais no site, porém outras coisas vivem entrando na frente. Pois bem, então o que tem para hoje? Um tempo atrás, acredito que por volta de um ano e meio, eu pensei num conceito que batizei de “não-escrever”. Foi logo após o ChatGPT se tornar essa constante nas nossas vidas, pautando muitos debates acalorados nas redes sociais. Fiquei enrolando bastante para expor esse conceito aqui para vocês (isso faz até parecer que ele é filosoficamente profundo e não uma das coisas que eu penso no meu muito tempo livre), então é hora de largar de preguiça e tirar essa ideia da minha cabeça.
Existem muitas discussões acontecendo ao mesmo tempo sobre a infame Inteligência Artificial Generativa – ou GenAI pros mais íntimos e mais preguiçosos – dentro dos seus impactos sociais e ambientais, das questões legais e ética, etc. Talvez as que vocês mais estejam acostumados a ver é sobre o uso de GenAI na esfera criativa como em filmes, histórias em quadrinhos, animações, videogames, música e por aí vai. Nessas horas sempre vem o papo de que a GenAI eventualmente poderá substituir os artistas e, sendo franco com vocês, eu não estou muito preocupado com isso.
Ok, vamos com calma! Óbvio que o lado trabalhista desse cenário me preocupa bastante. Empresas querem sempre reduzir gastos e não hesitarão fazer isso às custas de uma classe trabalhadora já precarizada. Basta ver aquele comercial de Natal pavoroso da Coca-Cola, que tem dinheiro mais do que suficiente para contratar artistas talentosos e mesmo assim resolveu usar GenAI. Se uma multinacional que teve quase 50 bilhões de dólares de receita não abre o bolso, quem irá?
O que me refiro ao dizer que não estou preocupado é com esse lance de que a IA irá substituir as pessoas. Pelo menos quando no que tange a produção cultural. Certamente dificultará as coisas para todo mundo até implodir – e espero que levando aquele canalha do Sam Altman junto – contudo, substituir jamais. Meu lado mais otimista gosta de acreditar até que isso fará obras feitas 100% com esforço humano serem mais valorizadas. Até porque sabemos o tipo de slop que os entusiastas da GenAI produzem. Só o tempo irá dizer agora.
Até eu, que não sou nada além de um mísero blogueirinho gamer, sei que não existe qualquer possibilidade do ChatGPT me substituir pelo que eu faço aqui no meu site. Talvez se o Backlogger fosse mais um daqueles sites pautados em giro de notícias da indústria do entretenimento isso poderia ser uma realidade. Porém vamos pensar em algo como uma diálogo entre dois amigos em que um tem entende nada do cenário de jogos brasileiros. Como a GenIA iria produzir isso? Não que exista alguma genialidade cômica no texto, apenas porque ele depende muito do meu senso de humor.
Beleza, mas esse foi um texto descontraído com uma proposta bem diferentona. Que tal as críticas de jogos então? Será que o ChatGPT conseguiria falar sobre como Dredge apela para meus gostos e meus medos? Ou fazer uma crítica a Hell Clock sobre como a minha percepção da sua história e da sua jogabilidade divergem? Um tanto impossível porque não é apenas das minhas reflexões que esses textos dependem. Eles são fruto da minha forma particular de me expressar, com as palavras que eu escolho usar e até as pausas específicas que faço entre uma frase ou um parágrafo e outro.
A maioria de vocês não me conhece pessoalmente, contudo tem alguns conhecido que já leram meus textos e mais de um deles comentou que o jeito que eu escrevo parece muito com o jeito que eu falo. Acredito que isso também se relaciona com outros elogios – eu pelo menos encaro como elogios – de outras pessoas que disseram como meus textos passam a sensação de ver alguém conversando sobre aquele tema. É essa pessoalidade presente em diversos outros criadores de conteúdo que atrai o público para aquilo que produzem. Algo que o ChatGPT é incapaz de replicar e duvido muito que um dia terá. E mais do que isso, ele não poder fazer uso do não-escrever só o torna ainda mais fraco.
Vocês já pararam para pensar no jeito que o ChatGPT funciona? Não falo de toda a parte tecnológica dos grandes modelos de linguagem, que envolvem uma arquitetura sofisticada, algoritmos complexos, redes neurais e esse monte de palavras que eu acabei de pesquisar no Google. Me refiro ao seu lado operacional. A gente vai lá, digita um prompt com o que queremos que seja escrito e pronto, ele TEM QUE cuspir um texto logo em seguida. Aqui é importante considerar a escolha de palavras. A não ser que você peça algo que ative alguma das restrições do ChatGPT, ele precisa gerar o texto que você pediu. Não importa o assunto, o software dá um jeito.
Como ele faz isso? Em termos do leigo que eu sou, esses modelos de linguagem se utilizam de probabilidade para calcular qual palavra tem maior chance de vir após a anterior. Porém não é uma probabilidade qualquer, ela está condicionada ao que foi pedido e ao que o modelo já escreveu. De tal forma, o ChatGPT nunca “engasga”. Até pode levar algum tempo para processar o seu prompt ou analisar algum arquivo que você mandou em conjunto, mas uma vez que começa a escrever ele não para até entender que a probabilidade de não continuar o texto é maior do que a de continuar. É por isso que o ChatGPT nunca vai escrever de fato, pois ele ainda está preso na parte menos essencial da escrita ao meu ver.
Pergunta para vocês, quando vocês acham que o texto surge? Ou melhor, quando ele toma forma? Por acaso é quando você rabisca umas linhas num papel ou digita as letras no seu teclado? Errado! Esse aó é apenas o processo mecânico que faz com que as palavras se tornem visíveis para um leitor. O texto de fato já nasceu bem antes dele e sua forma não é fixa, ela vai se moldando antes, durante e após você colocar as palavras no papel, físico ou digital. Assim, o texto não surge no ato de escrever, ele surge ao não-escrever.
As coisas ficarão um pouco pedantes daqui para frente.
Apesar de eu estar focando na escrita, afinal é o ofício que eu escolhi pra minha vida na internet, dá para estender esse conceito para todo os tipos de arte. Então para desenhista existe o não-desenhar, pro compositor o não-compor, o pintor o não-pintar e por aí vai. Porque as ideias que você quer transmitir não irão surgir no momento que você está imprimindo-as em algum material. Elas surgem ali no caos da sua mente através de muita introspecção, reflexão e briga. Porque se você não sair no braço com suas ideias, elas não valem a pena!
O texto de verdade fica dentro da sua cabeça, não ali na tela e por isso ele nunca mais te abandona. Já cansei de passar por momentos que eu tenho uma ideia para um artigo e não paro de pensar nele até sentar na minha cadeira, abrir o editor do WordPress e começar a digitar. Esse tormento não vai me deixar nunca mais porque eu posso ir no mercado que eu vou ficar pensando no texto tanto na ida quanto na volta. Porque é exatamente quando você não-escreve que as ideias florescem. É o momento que você olha para o que está ali no papel e muda um parágrafo de lugar, escolhe outra palavra, reescreve uma frase ou apenas fica olhando a página pensando o que diabos você vai colocar ali agora.
Além disso, é um processo tão contínuo que até mesmo quando o texto “termina” ele não acaba. Só para o leitor que o texto tem um começo, meio e fim. Para o escritor existe até um começo, mas o meio pode ser infinito. Se não houvesse a necessidade de publicação, a gente se engalfinha com as palavras até o final dos tempos. Eu vejo nisso outra desvantagem que o ChatGPT, pois ele também TEM QUE parar.
Uma vez produzido, o texto não será mais modificado a não ser que você peça. Quando a gente escreve é outra história, porque enquanto houver a possibilidade de alterar o texto nós o iremos fazer. Se quiserem fazer um experimento, quando verem que eu soltei um BO da Semana, entrem no artigo, copiem o texto inteiro e salvem em algum lugar. Depois de 24 horas voltem no mesmo artigo e verão que eu mudei algumas passagens. Tem frase que eu reescrevo, parágrafo que mudo de lugar, adiciono novos trechos, etc. Aquele sobre os fãs de Clair Obscur menosprezando outros RPGs de turno, por exemplo, eu devo ter alterado umas cinco vezes ao longo dos dois dias após tê-lo publicado. Até mesmo esse texto aqui que vocês estão lendo agora já foi modificado mais de uma vez depois da revisão.
Isso acontece com praticamente qualquer coisa aqui do blog que eu resolvo reler. A essência dos textos permanece a mesma, porém eu sempre tenho algo a acrescentar ou então esclareço melhor uma linha de pensamento. Recentemente calhou de eu rever aquele sobre Hades e acabei editando vários parágrafos (na maior parte para reforçar meu desgosto por roguelikes e seus fãs, haha). É uma consequência do não-escrever. Enquanto você não parar de pensar, o texto não para de ganhar forma.
Porque arte – eu não estou dizendo que meus textos são arte, ok? – não é um processo finito. Se você se prestar a escrever um livro, até mesmo um conto, aquilo que você começa a escrever nunca é aquilo que você termina de escrever. Se é que um dia você vai terminar de escrever. Você está o tempo todo lutando contra suas próprias ideias, torcendo-as e retorcendo, querendo tirar o máximo delas. É algo que GenAI nenhuma consegue reproduzir e eu duvido que um dia conseguirá. Arte nasce do caos, não de uma lógica probabilística e é um processo contínuo, talvez até eterno. E por isso eu nunca vou ter medo do ChatGPT!
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