
Recentemente eu tive a triste experiência de assistir aquela trilogia animada de Godzilla que saiu entre 2017 e 2018. Pelo meu tom vocês já devem ter imaginado: não gostei muito e isso sou eu tentando ser generoso com os filmes. Mas eu queria lembrar de um sentimento que a trilogia me causou ao sair dela. Fiquei com a impressão de que talvez os filmes funcionassem melhor no formato de série. Os problemas maiores ainda se manteriam, provavelmente, mas pelo menos teria um ritmo melhor se soubessem o que cortar. Por conta dessa impressão, no dia seguinte eu decidi dar uma chance a outra animação, agora no formato de série, Godzilla: Ponto Singular.
Dada a experiência anterior, eu cheguei com minhas expectativas de moderadas para baixas. Deu bastante certo! Já nos primeiros episódios Godizlla: Ponto Singular me fisgou por trazer muitos kaiju do “gojiraverso” da Era Showa. Ênfase nesse muitos. Ao longo dos episódios a gente encontra com: Rodan, Anguirus, Manda, Kumonga, etc. O robô Jet Jaguar também tem uma participação muito importante na trama e até sobrou espaço para criarem um kaiju original, o Salunga. A série é muito mais Planeta dos Monstros do que aquele filme falhou tão miseravelmente em ser.
Evidente que tudo isso é um enorme apelo nostálgico, afinal muitos fãs de Godzilla tem um enorme carinho pela Era Showa. Não precisa nem ser a fase favorita deles, é apenas porque foi nesse período que estabeleceram boa parte dos elementos que compõem a mitologia da franquia. Mas nem tudo é Era Showa em Ponto Singular. O Godzilla, por exemplo, essa encarnação é visivelmente inspirada na de Shin Godzilla que mostra o kaiju passando por múltiplas metamorfoses até atingir sua forma final.
A animação também foi um ponto forte pra mim. Godzilla: Ponto Singular é uma coprodução que mescla a animação tradicional – que hoje convencionamos a chamar de 2D – do queridíssimo estúdio Bones e o CG da Orange. Para ser sincero, esse 3D até o momento não me convenceu. Todavia, como aqui ele é usado pontualmente para animar os kaiju, eu consigo revelar. Os designs das criaturas pode ser um tópico espinhoso para alguns fãs (e já esbarrei com uns comentários por aí). Eu tô do lado daqueles que gostaram, principalmente por terem tomado algumas liberdades. Rodan e Anguirus são dois kaiju clássicos do panteão do Godzilla que aparecem na série em versões menores. Isso ajuda muito a criar uma sensação de escala que aumenta com a progressão da trama.

Godzilla: Ponto Singular não se passa em nenhuma das continuidades existentes da franquia. Existe até uma fala ali por volta do últimos episódios que podemos interpretar como uma alusão ao Godzilla original de 1954. De qualquer forma, eu acho melhor considerar essa como uma linha do tempo própria. Até porque isso é um tema dentro da história. Tudo começa na cidade de Nigashio, onde Yun Arikawa e Haberu Kato – funcionários da Fábrica Otaki, criada pelo excêntrico engenheiro Sr. O – vão investigar uma mansão abandonada que dizem ser assombrada. Lá eles encontram um estranho rádio transmitindo uma música indiana em loop. Ao mesmo tempo, a universitária Mei Kamino chega à estação de monitoramento Misakioku, a pedido do seu professor, para investigar um estranho alarme que de alguma forma se conecta com a transmissão da mansão.
A princípio nenhum dos personagens consegue entender a origem nem o motivo da música e do alarme, mas Yun e o Sr. O imaginam que pode estar conectado a atividade alienígena. No dia seguinte, o grupo vai até um festival local para apresentar a mais nova criação do Sr. O, Jet Jaguar, um robô humanoide que ele diz que será o defensor da Terra. Contudo, antes que a apresentação inicie, o festival é atacado por uma criatura voadora, Rodan. Enquanto isso, o diretor de Miaskioku revela para um dos seus funcionários o esqueleto de um monstro gigante que é mantido no porão da estação.
Nos episódios seguintes, outras criaturas aparecem pelo Japão e pelo mundo. Então os personagens precisam não apenas descobrir a razão desses kaijus surgirem como também numa forma de impedi-los de causar mais destruição. O último a aparecer é o titular Godzilla, que se dirige até Tóquio onde altera o ambiente através de um material chamado de Poeira Vermelha. Porém ele leva tempo para fazer parte da trama, uma vez que Ponto Singular busca um ritmo mais cadenciado que se ajusta bem ao seu formato episódico.
E novamente: muito melhor que aquela maldita trilogia!
A série possui dois núcleos principais, cada um protagonizado por um personagem. Yun fica mais na “linha de frente” junto com Haberu e o Sr. O tentando enfrentar os kaiju com o Jet Jaguar. O outro núcleo é da Mei, em que ela se une ao grupo Shiva, que vem pesquisando o Archetype, um cristal com propriedades estranhas que só pode ser construído em outro mundo. Dentro da narrativa de Godzilla: Ponto Singular, tanto o Yun quanto a Mei servem de vetores para o roteirista explicar os conceitos científicos no qual a história gira em torno. Já já falo sobre como isso eventualmente se tornará um problema. Ainda que tenham uma algumas características próprias, ambos são duas páginas da Wikipédia ambulantes.

Eu não falo isso nem em tom de crítica, é apenas como os protagonistas funcionam nessa trama. Nos seus respectivos núcleos existem outros personagens que nos cativam muito mais. No de Yun é o Sr. O que rouba qualquer cena que aparece e te faz desejar que ele fosse o personagem central desse núcleo. No lado da Mei não é nem um humano, é a Pelops II. Essa é uma IA desenvolvida pelo Yun, Naratake, que Mei instala no seu computador e lhe dá o nome do seu antigo cachorro. Mais para frente o Yun também coloca a IA dentro do Jet Jaguar. Eventualmente, Mei e Yun parecem mais ferramentas de IA do que o contrário.
Com todas essas peças, Godzilla: Ponto Singular entrega ótimos seis episódios sucessivamente, conseguindo juntar de tudo um pouco. Pra quem gosta de uma aventura kaiju (e mechas) vai ter várias dessas sequências, enquanto quem busca uma ficção científica mais pesada em conceitos terá isso do outro lado com a Mei. Mas por que eu estou focando tanto nessa primeira metade? Sim, eu vi a série inteira e no geral eu achei bem legal. Recomendo até! Só que na segunda parte problemas que não ficavam tão aparentes nos episódios anteriores passam a incomodar. Até o ritmo que sempre foi lento – ainda entrecortado com algumas sequências de ação – já não funciona tão bem porque não há mais um senso de escala do perigo e apenas uma enrolação para chegar ao ato final. É irônico que com a chegada do titular Godzilla a série começa a desandar.
Aqui entra a questão do roteirista. Geralmente eu não comento tanto dos artistas por trás das obras porque considero que só de falar nelas estamos indiretamente falando dos seus criadores. Mas talvez seja importante destacar o roteirista de Godzilla: Ponto Singular, pois ajuda a colocar algumas questões da série em perspectiva. Toh EnJoe é um escritor japonês no gênero da ficção científica com alguns livros e contos publicados, além de assinar o roteiro de alguns animês. Ele trabalhou em alguns episódios de Space Dandy e também foi contratado para uma nova série de The Ghost in the Shell. Mas o que nos interessa agora é o seu passado acadêmico.
EnJoe se formou em física pela Universidade de Tohoku e também fez um doutorado na Universidade de Tóquio sobre física matemática em línguas naturais. Ele também dedicou sete anos num pós-doutorado, porém resolveu abandonar a vida acadêmica e se arriscar no mundo literário. Dado esse background, vocês podem imaginar que ele é uma pessoa bem inteirada em tópicos da física teórica que com certeza o ajudaram a se estabelecer como um autor em ficção científica.
Se vocês pesquisarem reações a Godzilla: Ponto Singular, provavelmente irão encontrar muitos comentários apontando acharam a história confusa. Talvez até achem outras pessoas partindo em defesa da série, argumentando que ela faz sentido, só tem conceitos complicados de absorver de primeira. Pois bem, esses dois grupos estão certos.
Os conceitos que o EnJoe traz, caso você não esteja familiarizado por não ser um entusiasta seja das ciências ou da ficção científica, não vão entrar na sua cabeça enquanto o episódio estiver rolando. Provavelmente terão que fazer a mesma lição de casa que eu fiz durante a minha marota. Só que isso não é totalmente culpa de uma audiência leiga, o roteirista também não sabe transmitir essas informações de forma digerível. Quando os personagens abrem a boca, o que parece sair de lá é o mais puro jargão técnico, o famoso technobabble. Esses conceitos podem até existir nos graus mais elevados da física teórica, contudo para nós, meros mortais, não soa nada diferente de um episódio de Star Trek.

Aqui eu completo com outra crítica, tem gente que simplesmente não está preparada para fazer ficção com um teor mais fantástico. Godzilla não é uma franquia puramente de ficção científica, ela puxa muitos elementos da fantasia junto. Algo nada incomum dentro das mídias japonesas. Eu cresci com JRPGs como Final Fantasy e Phantasy Star que mesclam muito bem esses dois gêneros. Acredito que o EnJoe está ciente disso, mas ele não consegue deixar de se levar para a ficção científica. Ele não se contenta em apenas dar uma explicação para os kaiju, ele também precisa dar uma justificativa. Vou explicar com um exemplo mais prático.
Como eu mencionei, um dos kaiju que aparece em Godzilla: Ponto Singular é o Anguirus. Na série deram a ele uma nova habilidade em que ele consegue fazer seus espinhos vibrarem, criando um campo eletromagnético que reflete projéteis. Perfeito, temos aí nossa explicação de porque quando um caçador atira nele a bala ricocheteia. Só que não para por aí. O roteirista vai lá e explica que Anguirus também consegue prever o futuro e por isso ele sabe o momento exato de ativar o escudo. Entenderam?
Dá para argumentar que isso faz parte de uma temática recorrente na série de informações enviadas para o passado. Inclusive é parte da solução que no final vai amarrar todos os eventos da história. Entretanto, parece que o EnJoe está indo mais além do que devia para justificar porque o kaiju tomou determinada ação. Como se algum imbecil fosse no Reddit perguntar como é que o Anguirus soube que tinha que ativar o escudo naquela hora. O pior é que esse tipo de idiota realmente existe e estúdios levam os criticismos baratos dele a sério. Enfim essas criaturas não podem apenas existir no nosso mundo. Não, eles tem que vir de um universo onde as leis da física não funcionam plenamente de acordo com as nossas formulações matemáticas.
Então ainda que o ritmo pese na segunda metade e os protagonistas não se sustentam tanto quanto o elenco de apoio, o que mais prejudica Godzilla: Ponto Singular é essa necessidade do roteiro em tentar mostrar que tudo isso tem sentido teórico, mas falhando em apresentá-lo de maneira mais envolvente. Diz muito quando uma sequência em que os personagens estão cercados por um grupo de Kumongas te deixa mais investido do que o último episódio em que o mundo está a segundos de sofrer uma catástrofe de proporções apocalípticas. No primeiro você entende muito bem os riscos da situação, no segundo você já desistiu de entender e, por consequência, se importar com o que está acontecendo.
Nem sei se gostaria da esperada (por alguns) segunda temporada de Ponto Singular. Consigo visualizar o EnJoe escrevendo bem The Ghost in the Shell, pois é uma história que se move mais por suas questões filosóficas do que pela ação. Agora fazer um Godzilla vs MechaGodzilla sem viajar muito na maionese no sentido negativo? Complicado…
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