Dublagem por IA é a vitória dos medíocres, não da acessibilidade

Meme editado do cachorrinho com fones de ouvido dizendo "puta merda que música ruim". O texto foi alterado para "puta merda dublagem por ia"

Tem exatos dois dias que comentei como eu imaginava quando haveria um BO da Semana. Os planetas então se alinharam (carece de fontes), e ontem pintou essa oportunidade. Existem certas palavras que, para a nossa infelicidade, caíram no vocabulário do gamer. Datado, imersão e acessibilidade são algumas delas. As palavras em si não têm problema, a culpa é inteiramente do gamer que as utiliza de qualquer jeito. Dessas três a que mais me incomoda é a acessibilidade, pois é uma pauta séria que vive sendo esvaziada por algum besta querendo pagar de iluminado. O caso mais recente foi num vídeo de dublagem por IA em videogames.

A postagem em questão foi publicada no Twitter no dia 11, porém eu só tive o desprazer de vê-la ontem. No vídeo temos uma cutscene do remake de Silent Hill 2 mostrando um diálogo do James com a Angela e dublado em português por alguma inteligência artificial generativa.

Não faço ideia se o dono do perfil é o responsável pela dublagem, portanto não irei direcionar meus comentários a ele. Todo mundo é livre para consumir as coisas do jeito que bem entender… MAS se você achou essa dublagem por IA, robótica e sem qualquer emoção, você tem um tremendo mau gosto. Mais do que isso, se defende uma coisa dessas você consegue ser pior do que alguém com tremendo mau gosto: você é medíocre! Não deveria me antecipar, porém eu queria encaixar o insulto o quanto antes.

Para ser justo a vasta maioria dos comentários achou essa dublagem por IA uma grandíssima e fumegante bosta. Incluindo eu, caso não tenha ficado óbvio. Isso se estende para qualquer outro tipo da dita AI slop. Mesmo assim, a gente vai encontrar um seleto grupo de gatos pingados por ali dizendo como essa dublagem está “boa o suficiente” ou como é “melhor do que jogar em inglês”. Alguns até são movidos pelo delírio dos tech bros que acreditam tão desesperadamente que em mais 72 horas a tecnologia vai melhorar e entregar a tal revolução que nos foi vendida. Dentre dessa galera existe um segundo grupo, ainda mais seleto, que usa de todo cinismo para dizer que a dublagem por IA é uma ferramenta de acessibilidade.

Por enquanto é menos que uma meia dúzia de trouxas que “acredita” nisso, mas não me surpreenderia que esse discurso ganhasse tração no futuro. Infelizmente já vi isso acontecer no passado. O esvaziamento da pauta de acessibilidade rola há anos desde aquele embrolho de botar modo fácil em Dark Souls. Então, antes de continuarmos com o texto, talvez seja melhor definir esse conceito dentro do contexto dos videogames.

Acessibilidade significa adoção de recursos que permitam pessoas com algum tipo de deficiência (visual, auditiva, motora, etc), tais como: remapeamento de botões, assistência de mira, alto contraste, legendas, audiodescrição, aumento de fontes, ajuste de velocidade, etc. Para quem quiser se inteirar mais no assunto, eu vou deixar aqui embaixo o episódio do podcast do O X do Controle em que entrevistaram um pessoal da AbleGamers Brasil, uma organização que atua nessa área.

Pelo menos vai ter algo de construtivo saindo desse texto.

Logo, o objetivo da acessibilidade é garantir a inclusão de mais pessoas nos videogames sem comprometer a sua experiência. Acredito que nenhuma pessoa (de caráter) é contra isso. Há um porém nessa história. Tem um monte de gamer boca-aberta por aí que não gosta de admitir que é ruim num jogo e nem se esforça para aprender a jogá-lo segundo suas regras. Para não transparecer que pegam ar quando um adolescente fala “skill issue” para eles, essa galera estufa o peito e finge que sua demanda é pela inclusão.

A atitude por si só é patética, todavia o mais grave é que ela desconsidera como a dificuldade é o menor dos problemas quando a gente fala em tornar um jogo mais acessível. Chega até ser ofensivo e nessas horas eu costumo citar o caso do Joshua Straub que li num artigo anos atrás. Joshua tem paralisia cerebral e por isso não conseguiu zerar Uncharted 2. Foi por que o jogo é difícil? Não, foi por causa de um simples quick time event para abrir uma porta! Ele não conseguia apertar o botão na velocidade exigida, então o Joshua só passaria dessa parte se alguém o ajudasse. Algo que foi contornado anos depois no Uncharted 4 ao adicionarem uma opção que permite você apenas segurar os botões.

Viram como essa ideia de modo fácil ignora toda uma gama de fatores? De fato, diminuir a dificuldade vai facilitar a vida de todos os gamers, sejam eles pessoas com deficiência (PcDs) ou não. Mas sabe a vida de quem fica ainda mais fácil? Das empresas! Se você encara o modo fácil como uma ferramenta de acessibilidade, você está abrindo a oportunidade desses estúdios em abordá-la da forma mais rasa possível. Acessibilidade tem que ser pensada dentro do próprio game design, não apenas adicionando uma opção que altera a quantidade de vida de um inimigo e o dano que você consegue causar nele. É um nivelamento por baixo que não tenta melhorar a experiência para quem de fato precisa, só ajuda a afagar o ego do coleguinha que está apanhando em Sekiro: Shadows Die Twice. Aí chegamos na questão da dublagem por IA.

Dublagem pode ser interpretada como um recurso de acessibilidade. Obviamente não foi por esse altruísmo que os estúdios passaram a dublar seus filmes e séries. É um efeito colateral positivo para aqueles que têm alguma deficiência visual ou que não foram alfabetizados terem acesso à cultura. Então eu até estou disposto a considerar que ela pode ser também uma forma de acessibilidade nos videogames. Porém não vamos ser ingênuos de achar que quem está por aí defendendo dublagem por IA está pensando nas PcDs. Quem faz isso está buscando um jeito mais cômodo de jogar sem precisar ler legendas ou traduzir os diálogos na cabeça. Por ser uma pessoa medíocre, ela acha que uma dublagem por IA já está de bom tamanho apenas por entender as palavras sendo ditas.

Aqui eu preciso fazer uma distinção, porque tem muita gente respondendo aquele vídeo dizendo que é tudo porque as pessoas tem preguiça de ler legendas ou aprender inglês. Eu até posso concordar que tem uns preguiçosos ali no meio, contudo não acho que precisamos vilanizar quem quer dublagem no seu joguinho. Eu já falei tempos atrás que sou contra essa postura da geração mais velha que parece estar amargurada com a facilidade que os mais novos encontram agora com a possibilidade de legendas e, em alguns casos, dublagem. Não acho que deveria ser obrigatório alguém ter que aprender um novo idioma para consumir uma obra que está sendo distribuída oficialmente no seu país. Pode ser incentivado? Claro! Videogames que me deram o pontapé inicial para eu aprender inglês. Se existe a possibilidade de incluir legendas e dublagem num jogo, que assim seja.

Contudo sem essa merda de IA, né caralho?!

Acho que já estamos num período em que o jogo ser localizado no mínimo no texto é uma exigência básica para todo título de padrão AAA. Se pararmos para analisar, até mesmo pequenos desenvolvedores indie com orçamentos limitados investem nisso para alcançar um público mais amplo. Dublagem já são outros quinhentos porque é um custo bem maior. Dublador não ganha tão bem assim como alguns pensam, mas considerando a quantidade de palavras e vozes dentro de um único jogo – ainda mais no escopo atual dos títulos AAA – não vai ser barato fazer isso para múltiplos idiomas. Fora todo o trabalho revisão e controle da qualidade. Até mesmo para um AA e eu diria para jogos indie também, pois dublagem é uma produção complexa.

Queria recomendar um segundo vídeo de um dos grandes nomes da dublagem brasileira, Wendel Bezerra. Além de dublador e diretor, o Wendel também fundou a Unidub com seu irmão e o estúdio foi responsável pela dublagem de Hi-Fi Rush. É um vídeo curto, sete minutos, que usa a experiência desse trabalho para mostrar algumas dificuldades que existem na dublagem de um jogo e também como funciona esse processo. Marquem essa palavra, processo.

Olha a trabalheira que é: tem que fazer o orçamento, encontrar vozes parecidas, fazer os testes e enviar para o cliente para aprovar os selecionados. Isso tudo antes da gravação. Depois ainda vem outras dificuldades porque eles não apenas não conseguem ver a cena como nos filmes, recebem o material original picotado e ainda tem prazos apertados para fazer a entrega. Não é à toa que você precisa de uma equipe bem preparada com diversos profissionais capacitados, técnicos de captura de áudio, diretores e muitos dubladores, para cumprir o prazo sem prejudicar a qualidade. Alguém realmente acredita que uma droga de software vai fazer tudo isso? Com qualidade?!

Por alguns comentários tem gente que acha que sim.

Vamos esquecer toda a parte técnica para focar no que faz a diferença: o fator humano. Os dubladores não são apenas pessoas que conseguem ler um texto em voz alta, com boa dicção, dentro do intervalo correto. Dublagem antes de tudo é atuação. Por isso que é um dos poucos casos em que eu gosto mais do termo em inglês, voice acting, porque acho que exprime melhor o papel de um dublador nesse processo. É bem comum que quando você pesquisa a carreira desses profissionais descobre que eles tiveram algum contato com o teatro, com a televisão e/ou com o cinema.

A mesma coisa se aplica ao diretor. Ele não está ali para ver se todas as palavras foram faladas do jeito certo, o diretor de dublagem conduz os dubladores da mesma forma que um diretor de um filme irá conduzir os atores. Ele orienta a interpretação, ajuda os dubladores a acertar a entonação e a emoção que a cena exige, corrige algum vício de fala que pode se manifestar ali na hora, etc. Além disso, é uma colaboração mútua porque os dubladores também vão criar em cima do que é passado para eles.

Admito que é um resumo bem grosseiro do processo da dublagem, mas minha intenção aqui é mostrar porque ele existe. É assim que se garante um mínimo qualidade. Você não junta várias pessoas talentosas numa sala, bota um microfone ali e espera que vai sair algo de bom. Qualquer produção cultural é um somatório de organização, talento, técnica e por aí vai. É um processo que a IA não consegue reproduzir e eu duvido muito que um dia conseguirá. Ela pode até acertar no “voice”, mas nunca no “acting”. A voz está parecida? Talvez! Mas do que isso serve quando a entonação fica esquisita, não existe emoção na voz, não tem variações durante a fala? É só um text-to-speech glorificado e eu acho triste que exista gente que ache isso “bom o suficiente”.

Quando eu comentei sobre o vídeo lá no meu perfil, não demorou muito para vir um jovem com o cinismo barato de dizer que se não gostou da dublagem por IA é só não baixar. Ele ainda acrescentou que estava “ótima para quem gosta de ver dublado”. Se eu já não estivesse escrevendo o texto no momento que esse guri disse isso, com certeza seria a fagulha que me motivaria a fazê-lo. Eu sou uma dessas pessoas que gosta de ver coisas dubladas, só que aquele vídeo é tudo menos ótimo. Ele faz uma mera tradução das palavras para o português para você entender o texto superficialmente. Por isso você é um medíocre, pois você ignora toda a experiência que é construída pela dublagem e a reduz a transmitir o que foi dito.

Não vou descer pelo declive escorregadio de dizer que se normalizarmos esse tipo de dublagem, mesmo que seja apenas um mod, logo as empresas passarão a utilizar IA para dublagens oficiais. O público por enquanto é avesso demais a essa tecnologia para tal. Se a Bloober Team, ou qualquer outro estúdio, usasse dublagem por IA teria virado chacota instantaneamente. Só a Coca-Cola mesmo que parece não ligar muito pela vergonha que passa com aquelas tenebrosas propagandas de Natal.

Mas vamos fingir por um momento que isso acontecesse. Alguém que supostamente “gosta de ver dublado” aprovaria? Ainda mais aqui no Brasil em que o público tem uma idolatria pelos dubladores? Claro que não. Alguém que entende a dublagem também como uma arte nunca iria se conformar se algo tão artificial estivesse no produto final. Nem mesmo se ela fosse uma PcD. Talvez ficasse até mais insultada por relegarem a ela algo tão feito nas coxas. Porque a verdade é que dublagem por IA, como os comentários daquele vídeo mostraram, só serve para satisfazer o medíocre.


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2 comentários em “Dublagem por IA é a vitória dos medíocres, não da acessibilidade”

  1. Dublagem por IA Generativa, em especial quando usada em mídias de cunho artístico, é uma das coisas mais escabrosas já criadas. Infelizmente, algo que tende a ser normalizado com o passar do tempo. O YouTube, Instagram e TikTok já possuem ferramentas ágeis o suficiente para traduzir conteúdos, não só áudio como o texto que aparece em alguns vídeos curtos. Pior ainda, já configurado por padrão para ser usado assim e caso não queira é preciso retirar manualmente (que foi o que eu fiz).

    Obviamente, eles estão num momento de conseguir enganar o suficiente para o meio no qual eles se apresentam. No modo automático de rolagem infinita é muito fácil não prestar atenção ativa nesse tipo de conteúdo. Porém, é um conteúdo massivo consumido quase que diariamente por uma grande fatia da população, no longo prazo é bem provável que o público vá perdendo a sensibilidade de notar essas pequenas inconsistências. Considerando também que essa tecnologia satânica irá evoluir ainda mais, ou seja, no longo prazo é bem provável que isso seja bem normalizado e no pior dos casos se torne um padrão.

    No melhor dos casos, o que podemos esperar é que a bolha das IAs generativas estoure (e leve consigo todo esse mercado amaldiçoado de IA generativa).

    1. Eu costumo falar que aqueles vídeos de IA são feitos pra galera que se perdeu no doomscrolling e não nota a diferença porque é só mais um vídeo. Essa da dublagem me surpreendeu porque tem gente que achava que era só uma dublagem ruim, nem notaram a IA. Mas é isso, vamos aguardar essa bolha estourar (e que seja logo, porque eu preciso comprar uma nova memória RAM!)

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