Porque o programa de jogos gratuitos da Epic Games Store não “dá certo”

Cena de South Park com os gnomes que roubam cuecas satirizando a Epic Games Store que dá jogos de graça como uma tática pra fidelizar gamers sem sucesso

Essa foi uma semana engraçada, pelo menos para mim. Parece que os astros resolveram se alinhar para desmoralizar a Epic Games Store em sequência. Tudo começou no dia 18 quando saiu uma matéria sobre um comentário do Dave Oshry, CEO da publisher New Blood. No seu perfil do Twitter, Dave revelou que quando Blood West foi dado na Epic – parte do programa de distribuição de jogos gratuitos – isso resultou num aumento das vendas do mesmo na Steam. Vale destacar que o contexto desse comentário vinha em cima de um meme sobre como os gamers preferem comprar um jogo na promoção da Steam do que resgatá-lo na Epic.

Beleza, isso deveria ser apenas mais um domingo como qualquer outro. Seria só mais uma anedota no grande livro de piadas às custas da Epic Games Store. O que tornou essa história desmoralizante de verdade veio na terça-feira. Sabe-se lá por qual motivo, o Tim Sweeney, CEO da Epic, respondeu o Pirat_Nation (mais um entre esses vários perfis que ficam replicando manchete de outros portais). O resultado foi o que eu considero o melhor exemplo de copium da atualidade:

Apesar de serem apenas três tweets daria para falar muita coisa sobre a mini-thread do Tim. Não é sempre que a gente vê um CEO que não seja o Elon Musk se prestar ao ridículo. Não sei qual é minha parte favorita: quando ele fala que a Epic tem hoje por volta de 60% dos usuários ativos mensais da Steam, como se ninguém soubesse que a maioria deles estão lá por causa de Fortnite, ou quando ele tenta alfinetar o Gabe Newell, o “Sr. Valve”, com aquele papo de “iates e dentes de diamantes”. Porém eu vou focar apenas no primeiro tweet, pois é fascinante como alguém pode estar certo e errado ao mesmo tempo.

Quando o Tim fala que consumidores e desenvolvedores se beneficiam por ter mais opções no mercado ele está correto. O problema é que: 1.) a Epic não compete com a Steam, não do que jeito que ele faz parecer e 2.) ela atua ativamente para dar menos opções aos consumidores. Beira o meme ouvir isso do dono da empresa que tenta fazer acordos de exclusividade para lojas digitais e que tirou Rocket League da Steam após adquirir a Psyonix. O que incomoda o Tim de verdade não é a existência de um monopólio e sim que o monopólio não é dele!

De qualquer forma, fato é que todo mundo se beneficiaria se tivéssemos mais opções no mercado. Isso só não incomoda o gamer porque a Steam virou a menininha dos olhos da comunidade. A gente tem que reconhecer o mérito porque até o momento não existe outra plataforma tão completa e com um serviço do mesmo nível que a Steam construiu ao longo de duas décadas. Há até quem defenda que a Steam nem é um monopólio por não ter as exatas características de um. Porém isso não importa muito, porque a parcela do mercado que ela dominou – já vi estimativas que variam de 50% até 80% – cria problemas para os demais concorrentes mesmo que indiretamente.

Recentemente tivemos o caso da Santa Ragione, estúdio desenvolvedor de Horses, que por ser rejeitado na Steam (e na Epic também, vejam só) não teve conseguir firmar contrato com nenhuma publisher para conseguir financiamento para o projeto. Precisaram recorrer a empréstimos privados e se não fosse a GOG e a Itch.io o estúdio nem mesmo conseguiria comercializar seu jogo. Além disso, o padrão que a Steam estabeleceu dificulta surgir novos serviços que sejam competitivos sem um enorme investimento.

Mas dá para contornar esse aspecto ao oferecer algum diferencial como a GOG fez. Provavelmente ela tem menos que um décimo do mercado da Steam, porém conseguiu consolidar o seu negócio ao apostar num nicho específico. Lá você encontra jogos livres de DRM (Digital Rights Management) que são um atrativo para uma parcela da comunidade gamer e também uma grande biblioteca para os entusiastas de jogos antigos. Pessoalmente eu gosto muito do programa de preservação da GOG, tanto que ano passado comprei o Diablo original por lá.

Enquanto isso, temos do outro lado a Epic Games Store que depois de sete anos não permite que seus usuário consigam acessar a sua biblioteca via browser. É chutar cachorro morto dizer como a plataforma da Epic é ruim. Não precisa nem usar a Steam de comparação. Mas o que mais me incomoda é como não existe nenhum diferencial ali. “E o programa de jogos gratuitos, Belmonteiro?”. Já, já chego nesse ponto.

A gente poderia até citar o programa de incentivo aos desenvolvedores, permitindo que eles mantenham 100% da receita até o primeiro milhão de dólares em vendas e que depois cai para 88%. Parece um negócio mais atrativo do que a taxa de 30% que a Steam cobra de todo mundo, né? Porém todo mundo sabe que não adianta nada você receber mais por cada venda quando ninguém vai comprar o seu jogo naquela plataforma. Por isso eu acho trágico a sinuca de bico em que a Remedy Entertainment ficou por causa de Alan Wake II. Sim, o investimento da Epic foi o que garantiu o seu desenvolvimento, mas agora ele está preso numa loja que ninguém entra para comprar jogos e sim para pegá-los de graça.

Há uns seis anos que a Epic Games Store aposta nos seu programa de distribuição de jogos como uma forma de converter usuários da plataforma em compradores reais e há seis anos que não dá certo. Bom, não “dá certo”. O motivo das aspas no título, bem como a interrogação na imagem destacada, é que para a gente dizer com certeza que esse programa não funciona a gente teria que saber qual é o objetivo dele.

Por exemplo, se for mesmo nesse sentido de converter consumidores para a plataforma, realmente não deu certo. Admito que falo isso com um grande viés olhando para o meu caso pessoal. Enquanto escrevia esse texto, baixei o launcher da Epic e conferi quantos jogos eu tenho na minha biblioteca. Parei de contar no 200, mas chuto que no mínimo tenho mais de 300 jogos. Coisa pra cacete, né? E quanto desses jogos vocês acham que eu comprei? ZERO! Nessa hora algum fã da Epic, se é que você existe, poderia gritar que é evidência anedótica. Entretanto, se você der uma passeada pela internet vai encontrar centenas de relatos de outros usuários que também só entram na Epic para pegar jogo de graça e saem depois.

Também no dia 18 saiu um artigo sobre o crescimento da Epic nesses últimos anos em cima dos dados que a empresa divulga anualmente. De 2019 até 2024, a Epic Games Store teve um aumento de 173% dos seus usuários ativos. Por outro lado, a receita gerada com jogos third-party cresceu apenas 1,6%. Receita esta que caiu pelo segundo ano consecutivo. Sei que é uma análise econômica freestyle, mas como é que sua base de usuários segue crescendo enquanto a receita cai? A conclusão mais óbvia é que essa galera toda aí está na Epic só para jogar Fortnite e Rocket League ou então só tem conta para pegar jogo de graça.

Cheguei a ver uns caras argumentando que esse é o objetivo da Epic. A lógica funciona mais ou menos assim: a empresa não quer exatamente fazer com que essas pessoas gastem dinheiro na loja agora. Supostamente a Epic está apostando que ao habituar esses usuários no seu ambiente, sobretudo os mais novos, para quando eles tiverem poder aquisitivo. Teria algum sentido? Para mim isso só é o segundo melhor exemplo de copium da atualidade.

Mesmo que isso fosse verdade, ainda temos que levar em consideração outro fenômeno que acontece na Epic Games Store. Não é apenas que as pessoas apenas resgatam os jogos e não gastam dinheiro na loja. Depois elas ainda vão para outra plataforma e acabam comprando-os lá. 20 Minutes Till Dawn, Dredge e Wizard of Legend são três títulos que fui descobrir hoje que eu tinha na Epic e comprei de novo na Steam. Porém preciso ser justo, eu fiz isso por não ter a menor ideia de que em algum momento eu os resgatei na Epic Games Store e acredito que isso é parte do motivo do porquê desse programa “não dar certo”.

Sempre que tem uma postagem em que alguém pergunta porque as pessoas não usam a Epic Games Store, seja para comprar jogos ou para jogar aqueles que têm na sua biblioteca, muitas respostas dizem que é pelo fato do launcher ser uma porcaria. Não duvido que isso seja uma grande fator para gamers, porém acho que tem outra coisa envolvida nesse processo também.

Vocês provavelmente em algum momento da vida entraram num mercado e viram que rolava a degustação de algum produto. Agora eu pergunto, quantos de vocês de fato compram aquela marca depois de provar? Aqui em casa eu sei que isso aconteceu só uma única vez. Foi com um daqueles pacotes de cápsula de cappuccino sabor doce de leite da Três Corações que minha mãe comprou. Todavia, ela fez isso apenas porque semanas antes minha tia ganhou uma dessas cafeteiras expresso de presente e até então não tínhamos testado porque aqui a gente entende que no coador… Ok, irei poupá-los dessa piadinha! Se a gente tivesse a cafeteira há mais tempo, tenho certeza que minha mãe só teria tomado o cafézinho e voltado sem comprar um pacote. Sabem por quê? Porque a gente já teria café em casa!

Pode parecer um caso de “analogia is my passion”, mas garanto que fará mais sentido. Vocês que estão lendo esse texto provavelmente estão ou irão jogar alguma coisa. Talvez até mais de um jogo. Não importa qual seja, se é online, single player, AAA, indie, competitivo, cooperativo, etc. Ou seja, vocês já tem algo para ocupar seu tempo de jogatina. Se eu mandasse para vocês uma chave de algum jogo, com certeza vocês resgatariam naquele mesmo instante. Porém duvido, duvido muito, que qualquer um de vocês iria testá-lo. Não naquele momento e talvez alguns até iriam esquecer dele. Só aconteceria o contrário se por coincidência eu desse para vocês um jogo que estivessem doidos para jogar.

Até hoje, desses mais de 300 jogos que eu resgatei na Epic só teve quatro que eu instalei: Enter the Gungeon, Frostpunk, Maneater e Turnip Boy Commits Tax Evasion. Desses quatro, apenas o último eu joguei para valer até zerar porque coincidentemente ele foi dado num momento que eu estava livre e também queria testá-lo porque um amigo me recomendou um tempo antes. Tem outros títulos ali na biblioteca que normalmente seriam do meu interesse, tais como Death Stranding, Dragon Age: Inquisition, Industria, Kao the Kangaroo, LISA: The Painful, entre outros. Porém no momento que eu os resgatei, eu já estava ocupado com outros jogos. Eu tô sempre ocupado com outros jogos e por isso que nome desse site é Backlogger!

Eventualmente eu esqueci que tinha cada um deles e não é à toa que eles estão na minha lista de desejos lá na Steam, salvo aqueles que já ganhei de presente. Eu poderia então remover os demais da lista, mas não o farei. Porque eu tenho absoluta certeza que dentro de algumas semanas eu irei esquecer que estão lá na minha biblioteca da Epic. Também não irei instalar nenhum deles agora porque, como podem imaginar, eu já tô jogando algumas coisas e tenho outras planejadas para os próximos meses.

Portanto, o problema fundamental que eu vejo nesse programa de jogos gratuitos é que o público que ele de fato atinge é muito pequeno. Porque existe uma enorme lacuna entre as pessoas que vão resgatar o jogo e as que querem jogá-lo e uma segunda lacuna entre aqueles que querem jogar e aqueles que podem jogar no momento. Assim o programa da Epic vira uma mera degustação de cafézinho no supermercado. Pode até atrais muitos usuários quando sai um jogo tipo Hogwart’s Legacy que já possui um público massivo. Mas e os jogos de Styx da semana passada? Quantas pessoas hoje, em 2026, estão realmente interessadas em jogar Styx e que já não possuem esses jogos em outras plataformas? Existem, com certeza, mas não acho que numa proporção que seria tão vantajosa para engajamento assim.

A Epic Games Store gasta rios de dinheiro todo anos apenas para distribuir jogos que as pessoas não irão jogar e, pior, irão comprar em outro lugar. O launcher é uma porcaria. A Steam tem um mercado muito maior. O Tim Sweeney é o Elon Musk dos videogames. Mas acima de tudo isso, quem está com tempo? Para mim esse é o principal fator que faz o programa não “dar certo”, independente de qual seja o objetivo do Tim Sweeney. Enfim, vamos ver quanto tempo vai levar para ele largar o personagem e admitir que a loja dele só serve para impulsionar duas coisas: Fortnite e a concorrência!


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2 comentários em “Porque o programa de jogos gratuitos da Epic Games Store não “dá certo””

  1. Excelente texto! concordo 100% com tudo, e sinceramente o Tim Sweeney nunca vai largar o personagem, ele parece ter um ego muito alto pra isso. Vai apenas ficar fingindo que a EPIC “bate” de frente com a STEAM.
    Ele finge que é verdade, e o público finge que acredita kkkkkk

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