
Um pouco mais de dois anos atrás eu fiz sobre Dark Souls intitulado “Pela enésima vez: modo fácil não é acessibilidade“. O artigo não era exatamente sobre a discussão da dificuldade desses jogos que assombra a comunidade gamer há bastante tempo – para isso eu fiz um segundo texto – mas sim sobre um padrão que eu vinha percebendo há tempos:o esvaziamento da pauta da acessibilidade. De lá pra cá, o processo continuou para além dos confins de Dark Souls, esvaziando uma causa legítima dentro da comunidade gamer. Acessibilidade se encaminha para virar uma palavrinha que qualquer besta repete para se sentir o defensor dos fracos e oprimidos.
Se eu já soo irritado com esse assunto é porque uma das coisas que eu mais detesto na cultura da internet é o progressismo performático. Em outras palavras, gente que está mais preocupada em mostrar que apoia/defende uma causa do que a causa em si. Fico puto porque eu sei que é esse tipo de pessoa que vai em alguma capacidade contribuir para o enfraquecimento dessa tal causa numa tentativa vaidosa de se mostrar um ser humano mais iluminado. É algo que critiquei naquele meu texto sobre a dublagem de IA quando esbarrei com um seleto grupo de gatos pingados sequestrando a pauta da acessibilidade para justificar o uso dessa tecnologia. Eram pouquíssimos twitteiros, irrisórios e assumo isso numa boa, mas o incômodo veio por eu saber que faz tudo parte de um processo maior.
Como já falei de acessibilidade recentemente, vou poupá-los de uma introdução ao tópico. Mas quem tiver interesse em saber mais, deixarei outra vez o episódio do X do Controle em que eles entrevistam o pessoal da AbleGamers Brasil.
Então por que estamos de volta nesse assunto? Pelo mesmo motivo de praticamente todo BO da Semana que eu escrevo, uma maldita treta no maldito Twitter. Treta talvez seja um exagero da minha parte, porque eu me refiro a interações que rolaram ao redor de uma postagem que eu comentei lá no meu perfil. Não sei se escapou para outras bolhas, porém como teve uma penca de gente se esforçando para não entender do que eu falava, resolvi agraciá-los com esse singelo textinho.
Tudo começou quando o Naoki Hamaguchi, diretor responsável pela trilogia do remake de Final Fantasy VII, fez um tweet sobre alguns recursos que adicionaram nos jogos. Nada muito mirabolante. Nos vídeos que o Naoki publicou vemos um botão para avançar (fast foward) as cutscenes e um menu como uma série de opções que essencialmente funcionam como um god mode em Final Fantasy VII.
O que me chamou atenção na postagem foi a parte em que ele diz que com essas opções algumas pessoas talvez “zerassem o jogo em um dia”. Como eu vinha na esteira de outro texto recente onde discuti algo que chamo de “produtivismo gamer” achei pertinente fazer um apontamento. Minhas palavras foram exatamente:
Próximos recursos serão integrar os jogos com sua conta no Backloggd e um botão que marca o jogo como concluído no seu perfil e gera uma review automática pra você. Porque aproveitar a experiência é irrelevante, o negócio é mostrar que você zera games
Nada de mais, né? Tenho coisas piores a falar dos gamers. Enfim, a história poderia ter acabado ali e eu passaria um sábado tranquilo jogando Rustler. Entretanto eu cometi um erro, um erro terrível, o mesmo erro que cometi naquele dia da dublagem de IA: eu fui ler os comentários. Para a minha (não) surpresa, logo encontrei alguém criticando aqueles que estavam criticando esses recursos em Final Fantasy VII. O que é democraticamente justíssimo. Só que a pessoa resolveu fazer essa crítica pegando a pauta da acessibilidade como seu escudo.
*sigh* Lá vai eu caçar sarna pra me coçar de novo…
Um seguidor meu foi abençoado pelo dom da profecia de Apolo e prevendo que eu iria escrever sobre esse ocorrido. Aqui eu tomo a liberdade de pegar algumas das palavras dele emprestadas. Em momentos assim nós percebemos como a acessibilidade se tornou uma buzzword que varia desde casos de inclusão real até casos de algum bocózão (essa palavra é minha) sofrendo de FOMO. O que antes servia para descrever recursos dentro do design do jogo que que permitam que um jogador que tem algum impedimento (motor, auditivo, visual, etc) desfrutá-lo sem prejudicar a experiência, agora é jogado para qualquer coisa que facilite a vida de um gamer com pressa de mostrar que zerou o AAA do mês.
É isso, pura e simplesmente. Você só pode estar se fazendo de sonso em achar que esses recursos foram adicionados visando maior inclusão e acessibilidade. O próprio Naoki enfatizou isso:
[Tradução livre] Colocamos essas opções para que até pessoas que amam RPGs e não têm muito tempo consigam jogar FF7R no seu ritmo.
Muito curioso a escolha de “no seu ritmo”, porque claramente são recursos para acelerar a progressão. Alguém que joga de fato “no seu ritmo” não precisaria correr, não acham? Por isso que eu afirmo que não tem nada de acessibilidade ali. É só uma forma das pessoas zerarem o remake mais rápido possível sem muitas dificuldades. O alvo não é aquela pessoa que se encontra marginalizada de alguma forma na comunidade. O alvo é justamente o gamer médio, a parcela mais numerosa do público. Então vamos parar com esse cinismo de pegar a pauta da acessibilidade toda vez que seu alerta de insegurança apitar porque um cara na internet falou “skill issue” para você. Não se faça de bobo dizendo que as pessoas estão de “gatekeeping”, mais um termo que o gamer conseguiu esvaziar para se proteger de críticas.
Teve até gente falando como o god mode é sim uma forma de acessibilidade. Ah claro! Com certeza a pessoa que sofre de alguma deficiência motora vai se sentir incluída porque para “aproveitar” o jogo ela precisa que o personagem fique invencível. Maior tempo de reação, mapeamento dos botões, assistência de mira, esse tipo de coisa não precisa ser pensada no game design. Só coloca uma opção ali para dar one-hit kill e não receber dano que com toda certeza essa pessoa irá se divertir muito e se achar como parte da galera. De forma alguma ela se sentirá deslocada, pensando que está recebendo um tratamento especial condescendente. Um viva para o progressismo performático!
Enfim, apesar de algumas pessoas que caíram no meu perfil e interpretaram o que eu falei na má vontade ou na má fé pensarem o contrário, ninguém se importa com o jeito que você joga. Se você vai colocar no fácil, se vai pular cutscene, se vai esperar a Sony seguir com aquela ideia de deixar que uma IA jogue nas partes que você agarrar. Dane-se, faça o que quiser! Só pare de fingir que isso é sobre acessibilidade, que é pra deixar videogame mais inclusivo, que é sobre respeitar outras experiências. Está claro pra mim e pra todo mundo que você só quer um jeito de marcar o jogo na merda do seu Backloggd logo!
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