Meu melhor amigo casou e vou voltar a escrever

Foto área do local onde meu melhor amigo casou

No final de semana passado eu precisei fazer uma viagem rápida até o Espírito Santo. Nada demais, sabe? Era apenas… O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO! Favor não confundir com o filme da Julia Roberts, que inclusive eu assisti dias atrás, porque isso deixaria o texto MUITO esquisito. Uma cerimônia de casamento naturalmente nos emociona, mas esse foi um caso particular. Tanto por envolver uma pessoa tão fundamental na minha vida quanto pelo momento em que me encontro. Por isso eu fui acometido por uma profusão de sentimentos: a felicidade pelo meu amigo, uma série de reflexões sobre coisas que me atormentam (anseios, sonhos, medos, etc.), vontade de voltar a escrever e, por fim, pensamentos sobre um diálogo da animação japonesa A Corrida dos 100 Metroslogo vocês irão entender!

Vamos começar pela parte mais positiva que foi o casamento. Tive a oportunidade de conhecer a família do meu amigo que me recepcionou muito bem, reencontrar o irmão dele que cresceu junto da gente e eu não via há uma década, a cerimônia lindíssima e até as risadas que eu dou agora por ver que eu ainda morro de medo de viajar de avião. Mas o mais importante de tudo foi ver este meu amigo casar.

Eu conheço o Lucas há tempo o bastante para não precisar mais contar a quanto tempo eu o conheço. Eu até poderia fazer as continhas aqui, porém saber a quantidade de tempo exata é irrelevante pois não representaria a real extensão e importância dessa amizade para mim. Porque ele não é “apenas” o meu melhor amigo, ele é uma das três amizades minhas que ainda perduram. Amigos da infância, do Ensino Médio e todo mundo que conheci na faculdade (com exceção do Alex e do Vinícius), eu já não tenho contato com nenhuma dessas pessoas.

Mas admito que isso diz mais sobre mim do que sobre elas. Não sou alguém fácil de se conviver, de se relacionar e por vezes de se aturar. Fora que sempre tive uma dificuldade imensa de me socializar. Até a minha família me acha muito reservado. Então ter uma amizade tão duradoura com o Lucas, que resiste ao tempo a distância e a todos os survivors-like que ele me deu de presente, é um dos bens mais preciosos da minha vida.

Com isso em mente, dá para vocês imaginarem como me emocionei na cerimônia de casamento. Acho que só não chorei mais porque eu estava na primeira fileira sob o olhar sanguinário do fotógrafo. Lágrimas evidentemente de alegria e, enquanto refletia nesse momento, eu percebi que tinha outros sentimentos envolvidos: alívio e admiração.

Sou três anos mais velho que o Lucas. Nos conhecemos por intermédio das nossas mães que frequentavam o mesmo centro espírita. Como a idade mental era bem parecida (e continua no mesmo nível) a gente se deu bem logo de cara. Portanto eu também o vejo como se fosse meu irmão mais novo. Então eu não estava vendo o meu amigo casar e sim meu “irmãozinho” conquistando mais uma etapa na sua vida. Eu sei de todos os altos e baixos que o Lucas passou, então me dá um alívio ver como hoje ele está tão bem. Mora num lugar muito bom, está evoluindo na sua carreira e tem uma ótima condição financeira. Como se não bastasse, agora também é casado com uma mulher gente finíssima que eu tenho plena confiança que vai cuidar bem dele.

Por mais que eu possa parecer distante, eu me preocupo com todo mundo que é próximo de mim. Só tenho dificuldades de transparecer esses sentimentos. Eu sou melhor com palavras (impressas) do que com gestos. Agora eu não preciso mais preocupar com Lucas. Na verdade, acho que até é o contrário. Ele se preocupa demais comigo e eu queria não dar esse trabalho para ele. Mas infelizmente a minha situação é diametralmente oposta à do Lucas.

Sei que é errado ficar comparando a sua vida com a dos outros, porém talvez seja uma daquelas partes inevitáveis da nossa condição humana. Gosto de achar que, pelo menos, eu não faço essas comparações movido por sentimentos negativos ou coitadismo. Sei muito bem que a minha situação é fruto das escolhas que tomei e principalmente daquelas que NÃO tomei.

Se a vida for um grande tabuleiro, eu estou muitas casas atrás. Vivo na informalidade, tentando desesperadamente pegar algum freela e mandando currículos que logo voltarão com aquela mensagem robótica de RH de “Agradecemos a sua candidatura, mas…”. Minha condição financeira então nem se fala. Passei metade da viagem evitando fazer as contas de quanto toda essa aventura irá me custar. E a vida amorosa? Só consigo expressar com um vídeo que meus seguidores no Twitter já estão acostumados de ver:

Piadas autodepreciativas à parte, já tem um ano mais ou menos que me pego pensando onde as minhas escolhas (e minhas não-escolhas) me levaram. Outra diferença entre mim e o Lucas – além de ser uma das coisas que admiro nele – é como ele sempre soube o que queria fazer e se empenhou para tal. Lembro quando ele começou a estudar programação por conta própria, a desenvolver seus primeiros códigos e correr atrás de um curso aqui na região.

Eu, por outro lado, cada ano que passa me questiono mais sobre o caminho que segui. Eu fiz Engenharia de Produção, cheguei até concluir um mestrado, porém nunca trabalhei na área. Curiosamente foi graças ao Lucas que eu consegui meu primeiro emprego como assistente administrativo porque um conhecido de um professor dele mencionou que queria contratar alguém e eu estava no fim dessa série de seis apertos de mão. Depois de uns dois anos, se não me engano, vi que tinha me estagnado ali na empresa e pedi para sair. Comecei a atuar como freelancer até cair na empresa que estou hoje e, adivinhem, sinto que estagnei de novo.

Quanto mais eu olho para trás, mais certeza eu tenho que eu deveria ter optado por outra graduação. Três anos de blog cimentaram algo que eu já sabia, porém não tive a força de vontade de ir atrás, que eu gosto de escrever. Poderia ter feito ao como Letras ou Jornalismo, que são dois cursos que hoje me parecem tão mais interessantes. Talvez eu não estivesse numa posição melhor que hoje, ainda mais nesse mundo pós-Chat GPT, mas uma coisa eu tenho certeza: estaria muito mais satisfeito.

Essa foi uma percepção que eu tive lá atrás na faculdade, entre uma aula de Pesquisa Operacional e Gestão da Qualidade. Durante a minha graduação eu comecei a escrever um livro de fantasia e fui longe. Eu ainda tenho o manuscrito aqui com 536, porém nunca cheguei a finalizá-lo. Anos atrás eu tentei de novo, com outra história inspirada num personagem que inventei na infância. 376 páginas, também incompleto. No primeiro eu usei como desculpa que parei de escrever para focar na faculdade que se aproximava dos últimos períodos. No segundo, foi para focar no “trabalho”. Ambas as justificativas são mentiras que inventei para mim mesmo porque eu sei que o que me impede de terminar os dois livros é o medo da rejeição, das editoras e posteriormente do público se eu conseguisse ser publicado.

Agora uma tangente rápida para falar de A Corrida dos 100 Metros.

O filme, se não me engano, saiu no final do ano passado. É a adaptação de 100 Meters, um mangá curtinho publicado entre 2018 e 2019. A história é sobre o velocista Togashi que quando criança era considerado um atleta prodígio. Na escola ele conhece Komiya, um garoto socialmente desajeitado, e o ajuda a correr melhor. Anos depois eles se reencontram e o Komiya se tornou um velocista muito melhor que o Togashi, cujo desempenho vem decaindo desde o Ensino Médio. Eu adorei esse filme, mas gostaria de ignorar os protagonistas porque o personagem que mais me marcou foi o Kaido.

Kaido é um velocista mais velho que na infância também foi visto como prodígio. Porém, quando sua carreira estava em ascensão, surgiu o fenômeno Zaitsu. Ele se tornou o campeão nacional e acabou colocando o Kaido na posição de um eterno vice. Logo ele também se vê sendo passado para trás pelo Komiya que se torna outra estrela do atletismo. Mas ao contrário do Togashi, que se sente derrotado, o Kaido se vê motivado mesmo que todos digam que o tempo dele já passou. É aí que ele faz um discurso que até hoje ecoa na minha cabeça.

O Kaido fala que a realidade diz que ele não pode vencer nem o Zaitsu e nem o Komiya. Então, para derrotá-los, ele precisa “fugir da realidade”. Com isso o Kaido não quer dizer viver num mundo da fantasia onde o Zaitsu e o Komiya não existem e ele é o melhor corredor do Japão. O que ele quer dizer é que se a vitória dele parece algo irreal, ele precisa quebrar as barreiras da própria realidade para torná-la possível. Em outras palavras, ele tem que ir além dos limites que se convenceu que existem. Assim o Kaido conclui numa cena seguinte:

Você só consegue fugir da própria realidade depois de a conhecer. É diferente de fugir de olhos abertos e ficar parado de olhos fechados. Olhar na cara da realidade é aterrorizante, sabe? Você precisa aceitar coisas que odeia. Mas seja para mudar, seja para negar a realidade, você precisa encará-la. Se fechar os olhos, vai parar de vez.

Pois então, qual é a minha realidade?

Eu acredito que escrevo bem. Evidentemente não no nível desses grandes autores que li ao longo da vida. Já tive alguns elogios quanto a minha prosa aqui nos artigos do meu blog, destacando que eu consigo transmitir a sensação de estar tendo uma conversa. Inclusive quem me conhece no pessoal já disse que eu escrevo do mesmo jeito que eu falo e espero que isso seja um elogio. Mas essa é a parte “boa” da minha realidade. Agora quais são as coisas que eu odeio que preciso aceitar?

Eu sou cronicamente tímido e morro de medo de rejeição. Isso me faz hesitar uma, duas, três, milhares de vezes antes de escrever qualquer coisa sabendo que ela será publicada. Não tenho confiança nas minhas reflexões, muito porque eu careço de qualquer repertório acadêmico e filosófico. Culturalmente ainda tenho umas referências e é isso. Tenho dificuldades de me concentrar porque estou o tempo todo preocupado em como vou pagar as contas no final do mês. Vivo mergulhado num mar de autocrítica. Tenho que batalhar todos os dias contra uma síndrome do impostor que eu julgo que nem tenho o direito de ter. Não tomo riscos, não ouso, não me abro para o desconhecido. Provavelmente vou passar a vida sendo um cara que fez um blog para falar dos joguinhos que ele curte.

Por mais maluquice que tudo isso possa soar eu achei necessário me obrigar a escrever este texto e publicá-lo. Eu quero voltar a escrever, melhorar as coisas aqui em casa, por minha vida nos trilhos, para um dia poder dar ao meu melhor amigo a mesma felicidade e o mesmo alívio que ele me deu ali no dia do seu casamento. Bom, é hora de fugir da realidade!


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