
Semana passada uma notícia gerou uma discussão, um bafafá, um burburinho na comunidade gamer. Ou pelo menos eu quero acreditar que gerou. A Rockstar anunciou que a pré-venda do seu aguardadíssimo e medíocre GTA VI já estava disponível. Porém o que chamou atenção foi que a mídia física do jogo não seria uma mídia física de verdade. Aqueles que comprarem essa versão receberão uma capinha com um código dentro para baixar o jogo nos seus consoles. Uau! Simplesmente… uau!
Existem duas narrativas sobre essa decisão. A primeira diz que é para evitar vazamentos, o que eu acho que é só papinho. A segunda me parece mais honesta, que seria porque não existe disco capaz de armazena o jogo completo. Por que não dividir em dois ou mais discos como já fizeram em tempos imemoriais? Fica aí o questionamento! Esses dias até esbarrei em outra narrativa falando que isso era para fazer o fã de GTA comprar o mesmo jogo duas vezes. Algo que eu não duvidaria, mas nesse caso tenho que admitir que é mais pelo que eu penso do público da franquia.
Independente de qual explicação seja a mais próxima da verdade, fato é que GTA VI não terá mídia física por enquanto. Por conta disso, algumas lojas, incluindo brasileiras, anunciaram que não irão comercializar a dita “mídia física” do jogo enquanto não tiver um disco dentro da caixa. Justíssimo, diria eu. Imagina vender para o seus clientes um link envelopado por 550 reais? E vamos ser francos, esse é o preço real de GTA VI. A tal Standard Edition nada mais é uma forma criativa da Rockstar de vender um jogo incompleto sob o pretexto de ter uma versão mais barata disponível.
Pois bem, essa foi a pauta da semana passada. Mal sabíamos que ela era apenas um prelúdio do que viria hoje, dia 01 de Julho de 2026, por meio do blog da PlayStation.
Há algumas horas o site anunciou que, a partir de Janeiro de 2028, a PlayStation pretende encerrar a produção de mídias físicas de todos os novos jogos. Ou seja, PlayStation 6 já não deve vir com leitor de disco no seu modelo padrão. Nesse momento eu estou com um olho na minha aba do Backlogger e outro na aba do Twitter. Posso afirmar com 100% de certeza que dessa vez a notícia gerou discussão. Muita discussão! Discussão PARA UM CARALHO! Inclusive, outro anúncio que está quase se perdendo no meio desse vozerio é que a empresa também irá encerrar a loja virtual tanto do PlayStation 3 quanto do PlayStation Vita. Mas deixa eu me concentrar na primeira notícia para não perder o fio da meada e enrolar mais do que eu já costumo enrolar nos meus textos.
Apesar de que o futuro fim da mídia física no PlayStation já inflamou o coração das pessoas e dos gamers, não dá para dizer que foi uma surpresa. Esse era um cenário que se desenhava descaradamente na nossa frente há bastante tempo. Talvez o principal sinal foi quando empresas ficaram bem confortáveis em lançar consoles sem leitor de disco. Confortáveis e malandras. Inevitável e literalmente a comunidade acabou comprando essa ideia já que essas versões custam algumas centenas a menos. No PlayStation 5, se não me engano, era coisa de R$500,00 de diferença entre um modelo e outro. Logo, foi bem fácil passar a narrativa de que essa era uma medida pró consumidor.
Mas agora eu pergunto: será que o por enquanto hipotético PlayStation 6 virá mais barato já que não haverá mais leitor de disco? Ou será que a PlayStation agora pode usar a inexistência de outra versão do console para colocar o preço que ela bem entender? Quanto estão essas odds aí, CazéTV?
Avisos foram dados. Usuários, jornalistas e criadores de conteúdo, todos já nos alertavam sobre o fim iminente da mídia física. Não aqueles que vivem de ganhar dinheiro caçando feministas atrás de todo jogo ou então aqueles preocupados em garantir suas chavinhas durante os lançamentos e por isso falam de polêmicas com panos quentes tão grandes que fariam o Jovem Nerd salivar. Falo sobre criadores de conteúdo que realmente se importam com videogames e a comunidade que se formou ao redor deles. Enfim, minhas implicâncias à parte, não foi por falta de aviso.
Há anos que eu acompanho esse movimento em defesa das mídias físicas que se intensificou justamente quando era visível que a indústria estava pouco a pouco tentando extingui-las. Alguns dos principais argumentos destacam questões de preservação dos jogos, propriedade (ownership) e os mercados paralelos. O primeiro admito que eu ignoro por puro cinismo. Acho uma causa muito nobre, porém já não tenho muita fé na ideia de preservação numa comunidade que demanda remakes de qualquer jogo que chegue na casa dos dois dígitos de idade e que depois ainda fica repetindo que estes remakes são a “versão definitiva”. Só que isso é somente mais uma implicância minha então peço também ignorem. Já os outros argumentos mais persuasivos por não dependerem de alguém enxergar videogame como cultura.
Uma coisa que é muito discutida desde a ascensão de lojas virtuais, entre elas a titânica Steam, é como os gamers se acostumaram, alguns sem qualquer consciência, com a ideia de que eles não são mais donos dos seus jogos. Em vez de uma cópia daquele software, o que você recebe é uma licença que lhe dá o direito de uso. Direito este que pode ser revogado a qualquer momento. Se um dia a Steam deixar de existir ou eu ter minha conta banida, toda aquela biblioteca que eu montei nos últimos sete anos sumirá junto.
Esse é um dos motivos que faz a GOG ser valorizada por uma parcela da comunidade gamer. Ela apostou no diferencial de oferecer jogos livres da Gestão de Direitos Digitais, no inglês Digital Rights Management (DRM). Mesmo que não exista uma cópia física, você ainda pode baixar os arquivos de instalação e fazer o seu backup do jogo onde quiser. Ou seja, isso permite você colocá-lo num pen drive e compartilhar com seu amigo tal como nossos ancestrais faziam com seus cartuchos e seus CDs. Algo que não dá para fazer com a maioria das licenças de uso por serem intransferíveis. A Steam até deu uma contornada nisso com a iniciativa da Família Steam que, embora limitada, permite que os usuários compartilhem suas bibliotecas dentro de alguns critérios.
Gostaria que vocês gravassem esse verbo, compartilhar, porque para mim é o principal motivo de tanta gente defender a mídia física. Você ter uma cópia material do jogo não é um mero capricho de quem gosta de colecioná-los ou organizar uma prateleira bonitinha no seu quarto. Até existe essa vaidade consumista entre gamers, porém a mídia física engloba um universo maior. Ela estimula a existência de métodos alternativos de se obter um jogo, seja por troca, por mercado de usados ou outras formas, que nos dão mais poder como compradores.
Aqui alguém pode tentar me pegar na hipocrisia apontando que eu sou um PC gamer, a plataforma que essencialmente extinguiu a mídia física há não sei quantos anos. Até posso ajudar esse inquisidor imaginário dizendo que eu não compro jogo físico de computador desde quando a gente usava CD. Contudo eu não estou falando de uma perspectiva “umbiguista” e, mais do que isso, acho que foi um problema acabar com a mídia física nos computadores. Porque eu, assim como outros que levantam essa bandeira há muito mais tempo, entendo que é uma questão coletiva e não individual. Quanto mais opções tivermos, melhor para nós como consumidores.
Falando em opções, vamos pensar um pouco nesse mercado digital de jogos para computador. Dá para discutir se a Steam é ou não um monopólio porque ela concentra a maior parte das vendas. Mesmo assim quem quiser buscar uma alternativa tem essa capacidade. Eu já citei a GOG e também tem Epic Games Store que apesar de todas as críticas ainda está lá como opção. A Microsoft Store ainda vende jogos para PC e muitas publishers tem suas plataformas próprias. Fora todo o mercado de revendedoras, como a nossa nacional Nuuvem.
Agora vai para os consoles, mais especificamente a PlayStation. Segundo consta, a maior parte do público dela está comprando mídias digitais. E quais os canais que eles têm disponíveis? PlayStation Store! Ainda existe algumas lojas parceiras, mas notem como um o público tem muito menos opção do que quem está no computador. E vejam que não estou nem falando de jogos exclusivos. Nesse cenário, a existência da mídia física abria um novo leque de oportunidades para o consumidor. Não pode comprar algo no lançamento ou o preço ainda segue muito alto? Você poderia pegar emprestado com um colega, trocar por algum jogo que já não tem mais interesse ou então, quem sabe, comprar uma cópia de segunda mão.
É exatamente isso que querem tirar de você ao acabar com a mídia física. A decisão da PlayStation não é apenas fruto das “preferências dos consumidores”, como a própria escreveu no seu site. Também não é “a tendência atual do mercado”, como já veio maluco defender na internet. Na melhor das hipóteses são apenas meias verdades, muito mais convenientes para a pessoa jurídica do que para a pessoa física. Apesar de eu ter focado na PlayStation porque é o caso de hoje, a Xbox não fica muito atrás. Ela também vem matando a mídia física há um tempo e circulam rumores que o seu próximo console também não virá com leitor de disco.
O que essas empresas querem é que você passe a depender exclusivamente das suas plataformas, eliminando qualquer possibilidade de você usufruir de um jogo por outro canal. É triste que isso é capaz de colocar porque elas também têm ao seu favor a crença ingênua de alguns desses gamers de que “existe a possibilidade dos jogos em geral ficarem mais baratos” já que “publishers não terão o custo adicional de fabricar discos”. Essas palavras não são minhas, são de um gamer que eu profetizei no Twitter que apareceria cinco minutos depois da notícia circular pelas redes sociais.
Sabemos que isso não vai acontecer. Não é pessimismo, é só olhar para trás. Não precisa nem ir muito longe. Pelo amor de Deus! Estamos na linha do tempo em que estão vendendo um link para download dentro de uma caixa por quinhentos contos. Mas gamers ainda vão continuar acreditando nessa possibilidade porque, como falei anos atrás, porque há uma angústia que consome a comunidade por dentro há gerações. Jogos ficam mais caros, consoles ficam mais caros e a única coisa que parece diminuir são nossas opções.
Contrariando aquela frase que ficou popular de uns anos para cá: no futuro você não terá nada e NÃO será feliz!
PS: apesar do pessimismo, fico feliz que hoje muita gente mostrou desagrado com a decisão da PlayStation nas suas redes sociais. Entre eles está o meu camarada Pedro Araújo, do site Inextrospectum, que fez um texto falando sobre a morte da mídia física cuja leitura vale muito a pena. Além dissom ele explica o contexto da citação que referenciei acima.
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O FUTURO DOS JOGOS SERÁ SHAREWARE?????
Dá pra fantasiar num futuro onde tu guarda pendrives com jogos pra mandar pros teus amigos, não dá?
Sonhar é tudo que nos restou…