Clair Obscur: Expedition 33 não é indie, porra!

Montagem com cena de Toy Story em que o Woody fala para o Buzz "Você é um brinquedo". Em vez do rosto do Buzz foi colocado a capa do jogo Clair Obscur: Expedition 33

Clair Obscur: Expedition 33 é o primeiro jogo do estúdio francês Sandfall Interactive e também um dos destaques de 2025. É um sucesso inegável, mostrando que existe por público para títulos originais e RPGs de turnos. Outra façanha do jogo foi de gerar as piores takes do ano que eu já não aguento mais ver na minha linha do tempo. Ainda mais quando parte de gente que parece que descobriu esse tipo de combate com Baldur’s Gate 3. Uma take que vem se repetindo com certa frequência é a de que Clair Obscur: Expedition 33 é um dos melhores indie do ano. Só essa semana eu me deparei com esse discurso em três ocasiões distintas, mas apenas uma vale a pena comentar.

Quase uma semana atrás, passou na minha linha do tempo a postagem de algum gamer aleatório falando como em 2025 os jogos indie deram um tapa na cara dos AAA. Para ilustrar essa afirmação, o cara decidiu citar três exemplos, o já mencionado Clair Obscur: Expedition 33, Hell is Us e Cronos: The New Dawn. Acho que vocês já podem imaginar o tamanho do carinho da torcida nos comentários. Deboches e grosserias à parte, as pessoas tinham um ponto: nenhum desses jogos são indie. Eu diria até mais, eles fazem parte de uma categoria especial que há um tempo eu calhei de chamar de ” jogos ‘indie’ pra quem não joga indie”.

Hell is Us eu diria que é o mais escabroso dos exemplos utilizados. Ele foi lançado pela publisher francesa a Nacon, antiga Bigben Interactive, que publica jogos desde 2002. Cronos: The New Dawn, por sua vez, é da Bloober Team e aqui dá pra imaginar que o cara pensou isoladamente no critério da auto publicação. Porém ele ignorou que hoje a Bloober Team é uma empresa de capital aberto, com ações negociadas na Bolsa de Valores de Varsóvia e cujo um dos principais acionistas é ninguém menos que a Tencent.

Clair Obscur: Expedition 33 também não é indie, mas tem a vantagem de estar numa zona meio nebulosa. O jogo tem como parceira a Kepler Interactive, uma publisher britânica que surgiu a pouco tempo no mercado (2021) e ainda é uma empresa privada. Ela ficou mais conhecida por publicar o excelente Sifu e se aproveita de um nicho que outras empresas como a Annapurna Games e Devolver Digital investem, criando o imaginário das “publishers indies”.

No caso de Expedition 33, a Kepler não apenas cuidou da sua distribuição como também ajudou a financiar o projeto. Já vi estimativas que o jogo teve um orçamento entre 30-40 milhões de dólares (informação mais recente é que custou uns 10 milhões, então um salve aí para todos os terceirizados mal pagos). Foi graças a esse investimento que a Sandfall pôde investir muito na sua produção, com tecnologia de captura de movimento, contração de vários músicos para compor trilha sonora e até mesmo chamar atores renomados como Charlie Cox e o Andy Serkis para a dublagem.

Mas antes mesmo da Kepler entrar na jogada, a Sandfall conseguiu financiar sua pré-produção através da Epic Games, do Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada e do governo regional. Ou seja, Clair Obscur: Expedition 33 não deixa espaço para dúvidas de se tratar de um jogo AA. Ele já é um dos principais exemplos. Entretanto, ainda tem quem insista em tratá-lo como indie e eu não acho que isso seja apenas um erro ingênuo.

Se formos generosos, dá para considerar que isso em parte é um eco de uma narrativa falsa que circulou durante o lançamento do jogo. Tendo em vista o seu sucesso, começaram a destacar que Clair Obscur foi concluído “por apenas 30 desenvolvedores”. Contudo isso é só meia verdade. Realmente a Sandfall tinha uma equipe por volta de 30 funcionários, mas ela também contou com muito serviço terceirizado nas animações de batalha, trilha sonora e QA do jogo. Ela até pode estar bem longe das equipes quilométricas de uma Rockstar Games, Naughty Dog ou Santa Monica Studio, mas ao mesmo tempo não está próxima do operacional dos estúdios independentes.

Da mesma forma, como já vimos, ela teve acesso há várias formas de financiamento. Podemos até argumentar que a Sandfall teve independência criativa no processo de desenvolvimento de Expedition 33, mas colocar ela ao lado de jogos indie como Blue Prince e Megabonk (que agora o próprio desenvolvedor pediu para ser removido da categoria de Melhor Jogo Independente de Estreia) é abusar um pouco da boa vontade, né?

O meu lado mais conspiracionista acredita que esse discurso parte uma galera que não apenas não costuma jogar títulos indie, como também tem um inconsciente (às vezes consciente) desprezo por eles. Eu sempre gosto de lembrar que quando Balatro concorreu ao GOTY só faltou o gamer médio abrir uma petição contra a sua indicação. Mas sim, existem vários jogos indie que são celebrados quando ficam absurdamente populares pelo gamer médio. Só que esse tipo de movimentação que vi esses dias, e já me deparei com ela em outros momentos, costuma se voltar a um tipo bem específico de jogo (não) indie.

Sabe aquela postagem que citei ali no começo? Além dos exemplos, o autor fez um comentário adicional:

A UE5 pode irritar mto com suas tenebrosas otimizações, mas ñ podemos negar q sem ela, estúdios menores ñ fariam jogos com visuais de alto padrão, como esses.

Acho curioso que, de todas as características que ele poderia elogiar desses jogos, ele escolheu destacar os gráficos. Não a direção de arte, nem nada, pura e simplesmente os gráficos. Ok, ele falou visuais, mas é sinônimo. Gráficos estes que ele classifica de “alto padrão”. Aqui nós podemos nos perguntar sobre qual seria esse padrão? Ora, ora, essa é fácil! Coincidentemente é um padrão que se assemelha muito aos dos jogos AAA.

Isso não é de hoje. Para mim não é nenhuma surpresa que quando vejo essa galera batendo palmas para os (não) indie, são jogos quem tem essa cara:

  • Cena de Baldur's Gate 3 em que o grupo do protagonista enfrenta um Beholder

E não jogos com essa cara:

  • Mapa da Floresta Perdida do jogo indie Omori

Eu posso até estar sendo um pouco injusto nessa observação, mas me chama muita atenção como é comum ver gente empurrando como indie os jogos que eu costumo dizer que tem “gráficos de Unreal Engine”. Não que exista um padrão estético no cenário independente, ainda que certas tendências ocorram de tempos em tempos. I cenário independente é um espaço para experimentação então você vai encontrar muita coisa diferente. Se você comparar Undertale, Stardew Valley, Hollow Knight, Cuphead, Limbo, Inside, Tormented Souls, Unsighted, Blue Prince, entre outros; o que mais tem entre eles são direções de arte distintas. Tem pixel-art, tem animação tradicional, tem modelagem 3D com vários estilos de renderização, tem de tudo. Recentemente meu amigo PC me fez lembrar de Scarlet Deer Inn, um jogo de aventura cuja animação é feita digitalizando personagens bordados.

Mas quando chegam os tais fantásticos jogos indie que tão dando tapa na cara dos jogos AAA, eles escolhem justamente aqueles que tem mais “cara de AAA”. Logo, o que me incomoda nem é o esvaziamento ou mau uso do termo, tanto que nem abri a discussão aqui do que define um jogo como indie. O que me incomoda é como o que norteia essa discussão são as qualidades estéticas. O jogo pode até ter outros pontos fortes, mas o que enche os olhos do gamer primeiro são os tais visuais de alto padrão.

Aliás, esse é um tipo de discurso que afeta até os próprios jogos AA. Vamos pegar aqui o maior símbolo do gamer médio no YouTube brasileiro, Davy Jones. Vejam qual foi a reação dele ao trailer de anúncio de Sifu:

Eu entendo que gosto é uma parada muito subjetiva, sem contar que eu tô cada vez mais Diggo das ideias com o Davy Jones. Mas vai me dizer que esse trecho não passa uma energia de que ele só achou Sifu ruim assim de primeira porque não os gráficos não tinham o mesmo padrão dos jogos mainstream do PlayStation?

De novo, eu reconheço que posso estar sendo injusto. Felizmente tem outro exemplo mais emblemático. Por que um jogo como Dave the Diver, outro AA e que foi desenvolvido por um estúdio que era uma divisão da gigante coreana Nexon, foi chamado de indie? A informação estava lá na internet pra qualquer um que se dispusesse a procurá-la. Mas para que se dar o trabalho se Dave the Diver tem “cara de indie”?

Também não precisamos ficar só nos gráficos. Tem outro lado que acho tão pernicioso quanto que é a questão do escopo. Lá em 2023 com o fenômeno de Baldur’s Gate 3 eu vi gente falando como a Larian Studios “elevou o nível do cenário indie”. Isso não cria uma expectativa apenas irrealista para a vasta maioria desenvolvedores independentes, isso cria uma expectativa errada. Um jogo como Baldur’s Gate 3 existe com aquele tamanho e nível de detalhe porque a Larian era um estúdio com mais de duas décadas de existência e que tinha mais de 400 funcionários trabalhando no projeto. Uma realidade muito diferente de uma Sabotage Studio ou Omocat.

Por isso que tem que ser chato mesmo com quem fica chamando jogos como Clair Obscur: Expedition 33 de indie. Sinceramente, para mim isso é até ofensivo com os desenvolvedores independentes que sabem essa galera torce o nariz ao ver um jogo com escopo pequeno e que não se alinha às tendências de gameplay do mainstream. Porque a mensagem que essa galera está passando de verdade é que eles adoram jogos indiecontanto que eles pareçam com jogos AAA!

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