
Ontem, (22), a BioWare emitiu um comunicado oficial anunciando que iria fechar as portas. O choque é totalmente compreensível para aqueles que conheciam a história do estúdio. Com mais de 30 anos de existência, a BioWare se tornou uma das principais referências em RPG no Ocidente. Baldur’s Gate, Neverwinter Nights, Star Wars: Knights of the Old Republic, Jade Empire, Mass Effect, Dragon Age. Não dá para dizer que esse não é um catálogo de peso. Porém, as pessoas chocadas com a notícia também podem dizer que não estão surpresas. Pelo menos aquelas que estavam atentas ao cenário da BioWare e da indústria de videogames como um todo. Infelizmente o renome hoje em dia não vale muita coisa.
Citando um rápido exemplos, temos a id Software que é outro estúdio lendário. Na última década conseguiu reinventar Doom, entregar três novos jogos e mesmo assim não ficou imune às “reestruturações” da divisão do Xbox da Microsoft. Metade da equipe foi demitida e a outra metade nem sabe se terá a capacidade, ou até mesmo a chance, de desenvolver um novo projeto.
Quando vi o comunicado da BioWare, fechei os olhos e dei um longuíssimo suspiro. Eu sabia que assim que eu os abrisse não ia levar muito tempo para eu dar de cara com algum maluco dizendo que tudo aquilo era culpa da famigerada (e abstrata) cultura woke. Pode até ser só uma minoria, uma minoria bem barulhenta, só que essa minoria sempre chega até mim.
Apesar do seu histórico invejável, não dá para dizer que os últimos dez anos da BioWare foram muito gloriosos. Após o aclamado Dragon Age: Inquisition, de 2014, o estúdio teve uma série de lançamentos tempestuosos. Em 2017 saiu Mass Effect: Andromeda, a continuação da sua consagrada trilogia sci-fi. O jogo teve um bom desempenho comercial, contudo ele ficou marcado no imaginário popular por uma série de problemas técnicos, fruto do seu desenvolvimento conturbado.
Depois de Andromeda, a BioWare lançou um RPG multiplayer em 2019, Anthem. Como vivemos num universo pós-Concord eu não sei se é muito chamar Anthem de fracasso. Talvez o mais correto seja o eufemismo empresarial de que ele “não atingiu os resultados esperados”. Anthem dividiu opiniões e vendeu abaixo da expectativa. Qual era a expectativa? Não sei! Mas dá para afirmar isso pensando que em 2020 a BioWare anunciou planos para mudar a jogabilidade de Anthem. Porém, no ano seguinte, esses mesmos planos foram terminantemente interrompidos. O fim dessa história se deu em Janeiro quando fecharam os servidores do jogo.
Nesse meio tempo a BioWare ainda conseguiu um lançamento mais seguro com Mass Effect Legendary Edition, um remaster da trilogia original. Além disso, fãs estavam empolgados com um novo jogo da franquia que estava em desenvolvimento. Em contrapartida, 2024 voltou a ser um banho de água fria para alguns. Depois de hibernar por dez anos, Dragon Age voltou com um quarto jogo: The Veilguard. As vendas foram inexpressivas, ficando abaixo do fracasso comercial que foi Dragon Age II. Só que The Veilguard não era exatamente um jogo ruim, a recepção por parte da crítica estava bem generosa. Mesmo não tendo a mesma aclamação que Inquisition recebeu, a maioria das reviews pendia para o lado positivo. Além disso, se considerarmos todo o seu desenvolvimento conturbado – notem como isso virou um padrão na BioWare – ele saiu até melhor do que poderia.

É curioso notar que embora os casos de Dragon Age II e The Veilguard sejam similares, existe uma diferença fundamental no momento em que cada um saiu. Enquanto o primeiro é apenas um jogo que não vendeu muito bem, o segundo esteve no epicentro da guerra cultural de 2024. Quem estava ativo na comunidade gamer naquele período sabe o quão insuportável foram aquelas semanas. Alguns gamers ficavam 24 horas por dia na internet bradando aos quatro ventos como The Veilguard era um lixo. Curiosamente eram bem poucos aqueles que tentavam argumentar o porquê, afinal isso exigiria que eles tivessem jogado. Por isso tudo que conseguiam fazer era repetir pela enésima vez a cena na qual uma personagem explicava que se identificava como uma pessoa não-binária. Quando esse exemplo cansava, eles falavam da personagem que tinha que fazer flexões depois de errar um pronome.
Ao longo dos anos, o gamer médio conseguiu criar dois mitos sobre si: primeiro, que ele gosta de videogame e, segundo, que ele entende de videogame. Um até pode ser parcialmente verdade, o outro é apenas uma ilusão das mais severas. Na cabeça desse gamer, ele está para os videogames assim como o cinéfilo está para os filmes. Longe de mim querer defender cinéfilos aqui. Se dependesse de mim estavam todos na cadeia! Mas uma coisa eu reconheço é que o cinéfilo ama cinema de verdade. Até mesmo aqueles que não têm um conhecimento muito profundo sobre a linguagem dos filmes consegue discuti-los de maneira honesta e com argumentos sólidos. Esse fenômeno até pode acontecer entre alguns gamers, porém você sofre o risco de cair numa galera que só sabe discutir videogame segundo critérios de média do Metacritic, número de vendas e a quantidade de jogadores simultâneos na Steam.
Então para ninguém se doer de graça, é desse tipo de gamer para quem eu estou dedicando o texto. É para aqueles que estão desde ontem nas redes sociais dizendo que o que destruiu a BioWare foi a cultura woke. Afirmação essa que, se feita com total sinceridade, é apenas fruto da mais profunda forma de ignorância que a humanidade já identificou. Até o momento! Todas essas pessoas estão, seja por malícia ou seja por burrice, estão ativamente ignorando um fato muito importante na história da BioWare, o mesmo que eu omiti nos últimos parágrafos.
Desde 2007, o estúdio pertence a Eletronic Arts (EA) e isso alterou a BioWare em formas que talvez nem ela mesma esperava. Para o gamer que só sabe olhar para os lançamentos em si, pode parecer que nada mudou. Afinal, depois da compra a BioWare ainda lançou Bons Jogos™. Tivemos o supracitado Dragon Age: Inquisition, as sequências de Mass Effect e o MMORPG de Star Wars: The Old Republic. Só que o real impacto ocorria nos bastidores. Levou um tempo até que a interferência da EA ficasse mais visível, mas aí já era tarde demais. Arruinaram o processo criativo da BioWare e culminou na perda de desenvolvedores que foram fundamentais para torná-la aquilo pelo qual o estúdio estabeleceu o seu nome.
Em paralelo ao desenvolvimento de Mass Effect: Andromeda, que começou ali por volta de 2012, o estúdio trabalhava num segundo projeto: Shadow Realms. Anunciaram-no em 2014, um RPG de ação cooperativo que iriam lançar sequencialmente em episódios. Cada episódio traria novas missões e novos elementos para o jogo. Porém, no ano seguinte, o jogo foi cancelado e o estúdio disse que iria focar em conteúdo para Dragon Age: Inquisition e no desenvolvimento de Andromeda. Os motivos desse cancelamento nunca ficaram tão claros, mas alguns rumores na época diziam que a EA tinha dedo nessa decisão. Supostamente ela estava insatisfeita com outros projetos multiplayer em desenvolvimento, Command & Conquer (2013) e Dawngate, e cancelou tudo de uma vez.
Mas tudo bem, admito que essa parte é mais nebulosa. Existe a possibilidade que a BioWare só não estivesse tão segura com Shadow Realms e resolveu alocar seus esforços nas suas outras franquias. Então que tal falarmos de algo mais substancial? Porque o que mais marcou a história do estúdio sob a EA foi a saída não de um, não de dois, mas de vários dos seus veteranos nos anos que se seguiram.
Ray Muzyka e Greg Zeschuk, os únicos cofundadores que restaram desde o início da BioWare, decidiram se aposentar em 2012 e depois de um ano a EA colocou um dos seus no controle. Aí em 2014 foi a vez de Casey Hudson, criador de Mass Effect, pedir suas contas. Porém ele ainda voltou como diretor-geral em 2017… só para sair de novo em 2020! Foi neste ano também que Mike Laidlaw, diretor criativo de Dragon Age, se demitiu. Outro que não durou mais um ano na BioWare foi James Ohlen, um cara que esteve envolvido em praticamente todos os grandes jogos do seu catálogo.
Esses nomes chamam atenção porque eram figuras centrais na história do estúdio, mas não foram os únicos. Junto deles muitos outros desenvolvedores foram mandados embora ou saíram por conta própria. Inclusive nos últimos anos tivemos algumas demissões em massa na BioWare, parte da sazonal “reestruturação” que empresas como a EA adoram fazer nas suas subsidiárias. “Reestruturações” essas que aconteceram várias vezes dentro de um único jogo.
Dragon Age: The Veilguard seja talvez o caso mais flagrante do sucateamento que estava ocorrendo na BioWare. Originalmente, ali por volta de 2015 quando o Mike Laidlaw ainda estava lá, o projeto teria um escopo menor e já estava em fase de produção. Porém em 2016 o estúdio passou a ter problemas em administrar os outros dois outros projetos que aconteciam em paralelo. Então interromperam o desenvolvimento e realocaram as equipes para Mass Effect: Andromeda e Anthem. Em 2017 vem o aviso que essa versão de Dragon Age foi cancelada, servindo de estopim para a saída do Laidlaw e outros desenvolvedores.
Depois de algumas mudanças, retomaram o projeto em 2018 com um novo direcionamento. Agora o novo Dragon Age seria um live service, o que com toda certeza foi decisão que partiu da BioWare, né?
Mas olha só como a vida é uma caixinha de surpresas. Como a EA não ficou muito satisfeita com os números de Anthem, ela decidiu que esse negócio de live service era uma furada. Então mais uma vez o desenvolvimento foi interrompido para uma nova “reestruturação”. Sai gente, entra gente, sai gente que tinha acabado de entrar. Os que ficaram agora tinham que pegar o jogo single-player que foi convertido para multiplayer e convertê-lo novamente para single-player. É esse monstro de Frankenstein que hoje conhecemos como Dragon Age: The Veilguard. Mas vocês acham que acabou? Óbvio que não! Porque antes do jogo ficar pronto, 50 desenvolvedores – da equipe de Dragon Age e do novo Mass Effect – foram mandados embora.

Percebam que, apesar da EA só fechar a BioWare de fato em 2026, ela passou a última década e meia podando o estúdio pelas suas arestas? Ah, mas calma aí, lembrei de uma última anedota que é muito importante para a nossa história. Porque, caso não saibam, hoje a EA deixou de ser uma empresa de capital aberto. Agora ela é subsidiária de um consórcio formado pelo Public Investment Fund (PIF) da Arábia Saudita, a empresa de capital fechado Silver Lake e a empresa de investimentos Affinity Partners. Sabem como aconteceu essa aquisição?
O consórcio usou uma artimanha financeira chamada de leveraged buyout. Ela permite que você pegue um empréstimo para somar ao seu capital privado e assim adquirir a tal empresa. Isso gerou um débito de 20 bilhões de dólares que, essa é a parte engraçada da história, foi transferido para a própria EA. Como é que uma empresa é comprada e ela própria se torna responsável pela dívida gerada pela sua compra? Não sei! Pede pro seu amiguinho liberal que acredita que economia é uma ciência para te explicar! Para mim isso é apenas o tipo de magia que o capitalismo tardio permite existir!
Agora eu pergunto, o que uma empresa com vários estúdios sob a sua asa e uma dívida de 20 BILHÕES DE DÓLARES vai pensar em fazer? Será que ela investirá em novos projetos que geram lucros para abater sua dívida? Ou ela vai olhar para sua lista de subsidiárias e ver quais delas pode cortar enquanto detém os direitos das suas franquias? Hmmm, que escolha difícil… Durante mais de uma década a BioWare foi mutilada. Perdeu sua liberdade criativa e, pior, boa parte dos talentos que ela cultivou nesses anos. Tudo isso para quê? Para servir como um peão sacrificado numa jogada desse xadrez empresarial. Não foram as desenvolvedoras metafóricas de cabelos metaforicamente coloridos e nem cultura woke que puxaram esse gatilho. Foi apenas o “bom” e velho capitalismo de sempre puxando o gatilho.
Mas isso é o que eu acho, né? Quem sou eu na fila do pão além de um simples blogueirinho que fala de joguinhos e lê umas notícias de vez em quando? Talvez o Joe e as Baratas Gamer ou o solteirão de meia-idade que reclama de redução mamária em personagem de Rayman tenham razão. Já teríamos um novo Mass Effect se não fossem essas crianças não-binárias e essa maldita cultura woke!




