Lufia: The Legend Returns é bom, mas abusa!

Capa do jogo Lufia: The Legend Returns, de Game Boy Color, destacando os protagonistas Wain e Seena

Um dos jogos que mais gostei de zerar no ano passado foi Lufia II: Rise of the Sinistrals e ele agora consta entre meus RPGs favoritos. Depois de uma pequena pausa para testar outros jogos, resolvi voltar à franquia com o título conveniente Lufia: The Legend Returns. Este serve de terceiro e último capítulo dentro da cronologia estabelecida na franquia, embora exista um spin-off entre os eventos dele e de Lufia & The Fortress of Doom. Pretendo jogá-lo num futuro que não faço ideia se será próximo ou distante.

As memórias de Rise of the Sinistrals ainda estavam frescas, então eu me aproximei com certa cautela de The Legend Returns por saber que se tratava de um jogo de Game Boy Color. Não que eu subestime o portátil. Foi nele que eu conheci aquela obra-prima chamada The Legend of Zelda: Link’s Awakening DX e eu tenho grande afeição pelo que Resident Evil Gaiden tentou fazer.A minha cautela era de entender que, provavelmente, a jogabilidade teria que ser simplificada. Eu esperava que esse Lufia tentaria se moldar no primeiro e não no segundo, mas esse foi um erro (parcial) que fico feliz (parcialmente também) de ter cometido.

Lufia: The Legend Returns ainda é um RPG com combate em turnos como os seus dois antecessores, porém ele reformula a dinâmica do combate. Em vez de você ter um grupo de quatro personagens, você pode montar uma equipe com até nove deles, posicionando-os numa matriz 3×3. Contudo, você não ataca com seu time inteiro. No início de cada turno você precisa escolher um personagem de cada coluna para executar uma ação, então você precisa pensar com mais cuidado o posicionamento de cada um deles.

As IP Skills que foram introduzidas em Rise of the Sinistrals também voltam reformuladas em The Legend Returns. Agora essas habilidades especiais não se associam mais aos equipamentos, você precisa encontrar pergaminhos nas dungeons para ensiná-las aos personagens. Além disso, o jogo apresenta o conceito da Força Espiritual que existe em quatro tipos e cada personagem possui um. Você pode aumentar o nível da Força Espiritual deles, um requisito para aprender técnicas mais fortes. Aqui a posição dos personagens também é importante, pois ele pode acumular pontos de acordo com quem está na mesma linha e coluna que ele. A proximidade com certos personagens também irá alterar os atributos um dos outros, ou seja, há um grande leque de estratégias que se pode construir nesse novo sistema de batalha.

Luta contra o Sinistral Amon

Mas não é apenas o combate que foi repaginado, The Legend Returns também muda as dinâmicas das dungeons. Em Rise of the Sinistrals transformaram a Ancient Cave, uma caverna que aparece em The Fortress of Doom, num desafio extra com alguns elementos de roguelike. É uma dungeon com 99 andares em que, ao entrar, seus personagens têm os equipamentos removidos – salvo algumas exceções – perdem todas as suas magias e resetam para o nível 1. Além disso, todos os andares são criados com geração procedural. The Legend Returns pega esse último elemento e coloca em todas as dungeons do jogo, fazendo com que cada uma delas sejam diferentes sempre que você entra nelas de novo. Bom… “diferentes”.

Então me impressionou bastante como esse terceiro Lufia não foi pelo caminho fácil que eu achei que iria e se esforçou para trazer novidades na sua jogabilidade. A história também foi um ponto alto porque eu adorei como os Sinistrals tem uma participação mais ativa na trama. Eles apareciam para uma destruição pontual e às vezes para um breve confronto com os protagonistas, porém ainda eram figuras muito distantes. Já em The Legends Returns você encontra com os Sinistrals ao longo de todo jogo, com cada um executando seus planos de acordo com suas personalidades. Gades quer destruir todas as cidades, Amon prefere criar caos numa nação incitando uma guerra e o Daos exerce seu domínio através do medo. E a Erim? Aí já é spoiler!

O que já não funcionou tão bem comigo foi o elenco, não por uma questão de qualidade e sim de quantidade. Até então, os jogos de Lufia sempre mantiveram uma equipe reduzida. Mesmo Rise of the Sinistrals, que tem ao todo sete personagens principais, o seu time nunca excede o limite de quatro membros por vez. Não acho que seja por uma mera convenção em que a maioria dos RPGs de turno se fixam nesse número. No caso particular de Lufia, para mim é uma escolha intencional para criar um sentimento maior de camaradagem entre os personagens. Algo que funciona melhor quando você não tem que diluí-lo entre um elenco extenso.

Os vínculos dos personagens tanto de Fortress of Doom quanto de Rise of the Sinistrals é visivelmente mais forte do que os de The Legend Returns. O relacionamento do Wain e da Seena ainda recebe bastante atenção, mas é porque o romance entre o casal protagonista é um núcleo importante de todo jogo de Lufia. Porém, quando você olha para o restante do grupo, essa força é bem menor. Sobretudo com aqueles que chegam mais tarde na história, como a Ruby e o Yurist.

Wain e Seena, casal protagonista de Lufia: The Legend Returns

Eu até entendo que pela necessidade preencher a matriz 3×3 o jogo é obrigado a ter nove personagens principais. Contudo os desenvolvedores decidem adicionar ainda mais três quando já não tem tempo para se investir muito neles. A Milka só não chega a sofrer tanto com isso porque, caso você tenha jogado os títulos anteriores, você vai estar familiarizado com a personagem. Mesmo assim ainda fica aquela sensação de ser uma adição de última hora feita às pressas. Aliás, o tamanho do elenco acaba até criando uns momentos de comédia não intencional. Um que ficou marcada na minha cabeça foi ali nos momentos finais em que cada personagem vai entrando em cena um por um e falando uma única linha de diálogo. Reconheço que é quase um nitpicking, mas acaba evidenciando como tem gente demais nessa equipe.

Mesmo assim, Lufia: The Legend of Returns é um jogo muito melhor do que eu lhe dei crédito inicialmente. Os desenvolvedores tinham ciência que não podiam superar, e talvez nem mesmo replicar, a mesma experiência que Rise of the Sinistrals trouxe, e por isso acho legal que assumiram os riscos de mexer na jogabilidade para trazer algo que fosse minimamente novo para a franquia…

MAS!

Apesar de todos os elogios, não foi fácil zerar The Legend Returns. Não por conta das batalhas que me pareceram um pouco mais difíceis que as dos seus antecessores, isso achei positivo. O problema está na progressão do jogo porque ela não é lenta, ela é insuportável.

Pirate Island, uma das dungeons mais insuportáveis do terceiro Lufia

Quando eu falo da dinâmica das dungeons, na teoria pode até soar como uma proposta interessante. Na prática são outros quinhentos. Porque a verdade é que não existe uma dungeon sequer em The Legend Returns que seja remotamente interessante. A aleatoriedade que o jogo consegue gerar é limitada, então logo que você fica com a sensação que só existe um padrão sendo repetido infinitamente. Não existe nenhum real desafio além dos monstros e as mesmas armadilhas. Rise of the Sinistrals tinha muitas dungeons também, porém por conta dos seus elementos de aventura você encontrava puzzles e desafios distintos ao longo de todo o jogo. Mesmo em Fortress of Doom, que basicamente você só fica matando monstro, ainda havia uma exploração instigante pelo design da dungeon. Em The Legend Returns você só tem uma sequência de blocos sem graça com uns monstrinhos no meio.

O jogo ainda piora o seu caso porque pesa demais na quantidade de dungeons e andares. É um teste de paciência infindável e chega um momento que você apenas desiste da exploração e tenta encontrar a escada o mais rápido possível. O engraçado é que parece que os próprios desenvolvedores tiveram essa consciência durante a produção do jogo. Existem quatro continentes em The Legend Returns e os dois últimos são consideravelmente menores que os dois primeiros. O quarto tem uma única cidade e, se me lembro bem, apenas três dungeons sendo uma delas opcional. O jogo admite que está enrolando demais, porém tenta compensar quando provavelmente a maioria dos jogadores já desistiu. Se eu não fosse tão comprometido em zerar as coisas para poder fazer um texto, eu teria largado antes da luta contra o Amon.

Eu ainda considero Lufia: The Legend Returns tanto um jogo quanto um final bom para a série, porém é um jogo muito cansativo. É louvável a tentativa de fazer algo diferente do seu antecessor, ainda mais quando este é uma pedrada como Lufia II: Rise of the Sinistrals. Só que faltou dosar o escopo do jogo. Não que menos dungeons o tornariam menos repetitivo. Pela forma que estruturam The Legend of Returns isso era meio impossível. Pelo menos teríamos uma jogatina muito mais tragável.

Agora uma coisa é inegável. Puta jogo bonitinho!

Várias imagens do jogo Lufia: The Legend Returns

O Backlogger precisa do seu apoio para crescer. Então, por favor, compartilhe ou deixe um comentário que isso ajuda imensamente o blog. Para mais críticas clique aqui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima