
Eu tenho um texto aqui no Backlogger em que falo de Zueirama. Para poupar o tempo de vocês, não falo muitas coisas positivas sobre o jogo. Sendo curto (e grosso): eu odeio Zueirama com todas as minhas forças, seja como um jogo de plataforma e seja ainda mais como uma tentativa de comédia. Seu maior problema é ser todo construído em cima na cultura de memes da internet brasileira com alguns exemplos gringos também. Isso não deveria ser um problema per se, mas se torna um. Alguns podem achar que se deve a qualidade efêmera de vários desses memes que os fazem ficar datados rápido demais. Só que vai um pouco além disso.
Zueirama tentou se vender como um jogo que encapsulava o espírito zoeiro do brasileiro, contudo a sua “brasileiridade” é muito caricata. Não enxergo isso como um defeito, em mãos competentes isso geraria ouro o que claramente não era o caso aqui. A comédia dele é tão fraca que eu acho que ela fura a barreira da subjetividade do humor, pois Zueirama não consegue construir uma mísera piada sequer. O texto é só uma desculpa para encaixar o máximo possível de memes nos diálogos e nas fases. Como se apenas referenciá-los fosse o suficiente para surtir um efeito cômico.

O que ele produz de verdade é uma grande vergonha alheia de ver alguém tentando forçosamente ser “da zueira”. Inclusive, considero o jogo um presságio terrível de como serão os tiozões do futuro que cresceram em meio a essa cultura de memes. Pois bem, dito tudo isso, semanas atrás eu joguei AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3! Com um título desses, acredito que já dá para imaginar como será o tom do jogo, né? Mas se não for o bastante, é só ler o subtítulo junto, “ABRI UM PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA TENTANDO REVIVER MIT AIA E PRECISO FECHAR”. *sigh* Já que é para ter meme: e lá vamos nós!
É comum a gente dizer que certas obras são fruto do seu tempo. Talvez AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3 – sim, para combinar com o tom do jogo eu vou manter o Caps Lock ligado por mais que isso me incomode – seja um dos melhores exemplos da atualidade. Até mais do que Zueirama tentou ser e falhou. Durante o jogo inteiro eu fiquei com a sensação que eu estava preso num universo formado por shitposts que vejo um público mais jovem usando nas redes sociais. Até agora eu tenho a sensação que já vi a capa dele na Steam como thumb de algum vídeo no YouTube. É essa galhofada que você terá que suportar do começo ao fim.
Tudo em AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3 é feito de maneira intencionalmente zoada. Os gráficos nem tanto, por mais que possa parecer isso. Nesse aspecto ele só está seguindo uma estética low-poly que muitos desenvolvedores independentes exploram em seus jogos para evocar uma experiência retrô. Porém outras escolhas artísticas escancaram isso melhor, como o detalhe de vestir metade dos inimigos com uma camisa do Flamengo. Ou então algumas das armas, que inclui: um chinelo Havaianas, um berimbau que atira cocos explosivos, um aviãozinho elétrico do Sílvio Santos e o guaraná Dolly. A trilha sonora também é outra escolha (literalmente) gritante, deixando o áudio estourado. É quase um daqueles jogos que o Gemaplys faria com sugestões dos seus seguidores.
Se eu quisesse podia fazer uma coletânea desses aspectos: em vez de game over você “vai de Vasco, alguns inimigos ao morrer deixam para trás uma bola de futebol e o texto do jogo… Ah, o texto de AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3! Para começar ele usa a fonte originalíssima de Comic Sans, alternando com Arial e uma outra lá que tem mais cara de jogo retrô. Sempre com aquele contorno preto típico de memes e centralizado, nunca justificado. O texto também é cheio de erros ortográficos como “You found a secret parabains” e palavras escritas sem acento, abreviadas ou então sem seguir a concordância nominal e verbal. Tudo isso de maneira bem autoconsciente para mostrar o quanto “da zueira” esse jogo é.

Alguns podem argumentar que esse é um tipo de humor um tanto ofensivo, afinal se limita aos estereótipos mais crassos sobre a favela. Se não fosse o excesso de memes brasileiros, até daria para achar que foi feito por um gringo. Outros podem dizer que o desenvolvedor fez isso de maneira irônica, ou pós-irônica, ou qualquer outra bobagem que uma geração cronicamente online inventou. Porém não importa muito, porque independente da intenção do autor isso não muda quanto AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3 tem um humor muito irritante. Essa vibe de “haha olha como eu sou memes” fica insuportável rápido. E, como meu amigo Nixo apontou na sua review, vira um escudo contra qualquer potencial crítica porque vão considerar que você está pensando demais sobre um jogo que “não se leva a sério”.
Sabe quando anos atrás viralizou aquele meme do “né, minha filha?” com o Drauzio Varella e em menos de 24 horas ninguém já aguentava mais ver uma postagem desse meme? É a sensação que eu tive depois de 30 minutos jogando AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3! Senti o mesmo constrangimento que senti com Zueirama. Me deu até flashbacks do Ensino Médio, vendo aquele colega de classe que se acha muito engraçalharo e não sabe que todo mundo fala mal dele quando não está presente. Posso ou não ter feito esse comentário para alguém em específico. Contudo existe uma diferença bem singular entre Zueirama e AVIÃOZINHO DO TRÁFICO. Este ao menos consegue ser um boomer shooter genuinamente divertido, dada as devidas ressalvas.
Boomer shooters é uma categoria que vem ganhando atenção desde Dusk, um jogo de 2018. Ele veio com a proposta de resgatar a estética e a experiência de FPS dos anos 90, como Doom e Quake, e pavimentou o caminho para outros indie. Isso também foi muito impulsionado por uma série de remasters desses jogos antigos feitos pela Nightdive Studios, como o meu querido Blood: Fresh Supply. Outro exemplo notável é Ultrakill que eu acredito que foi uma das referências de AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3, apesar de ter um combate com uma complexidade e criatividade maior. Inclusive, se lembro bem, o desenvolvedor de Ultrakill o indicou no seu perfil um tempo atrás.
Logo, a jogabilidade de AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3 não tem qualquer pretensão de ter um combate mais tático. É um jogo tão simples no seu level design quanto no seu game design. Você não precisa ter nenhuma preocupação além de manter o cursor em cima de quem você quer atingir. Nem mesmo a munição é um problema porque é abundante pelo mapa inteiro. Ainda que você esgote todas suas balas, o jogo já troca automaticamente para a arma seguinte que é para você nem ter o trabalho de selecionar uma nova para continuar fuzilando seus inimigos. Claro que você não pode só ficar parado sentando o dedo em qualquer coisa que se mova. A ação frenética exige que você também não pare quieto.

Os únicos momentos que o jogo puxa levemente o freio é quando tem um desafio de plataforma bem simples, como por exemplo um mapa que a gravidade é diminuída. Há momentos que você tem que procurar nos arredores em busca de uma ou mais chaves para abrir a passagem e ter que voltar o caminho todo. Apesar disso, as fases são bem lineares e o máximo de exploração é para encontrar algum segredo. Toda a progressão é guiada pela ação e não tem a possibilidade de você se perder. Até porque os mapas são bem curtos, o que acaba se mostrando uma vantagem.
AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3 perde um pouco a mão é na quantidade de fases. Ao todo são 27, mais uma fase bônus depois do último chefão. É mais do que a premissa exige e é mais uma vez o jogo tentando te mostrar o quanto “da zueira” ele é. Porque você começa na favela e de repente passa pela Vila do Chaves, os estúdios do SBT, a Floresta Amazônica, entra numa nave pra ir para lua ou sei lá onde e volta para a favela. Mas como em média essas fases duram algo em torno de cinco minutos, até menos que isso, ele não periga ficar entediante.
Quando você lê algo como AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3: ABRI UM PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA TENTANDO REVIVER MIT AIA E PRECISO FECHAR é um tanto impossível pensar que não é meme. Entretanto, como eu disse, ainda dá para tirar alguma experiência de boomer shooter dali. Só que isso depende de quanto você consegue suportar o tom do jogo. Eu consegui me divertir, mas por muito pouco. Se dependesse exclusivamente do humor, a história seria outra já que com mais frequência eu ria DE AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3 do que ria COM AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3. Então fica por sua conta e risco ver se a jogabilidade vai te sustentar.
PS: para um jogo que tenta ser tão “HOLY SHIT is that a motherfucking BRASIL reference???”, é uma pena que não dá pra tocar o hino nacional do CS brazuca sem o desenvolvedor correr o risco de tomar um friendly fire.
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