
“Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas” é uma frase cunhada pelo romancista Jean-Baptiste Alphonse Karr. Para os franceses é uma sabedoria popular, para mim – alguém que passa um tempo nada saudável na bolha gamer – é quase uma maldição. Já comentei em outros carnavais sobre a natureza cíclica de certas discussões da comunidade, algumas que se estendem para outras áreas da cultura pop como o cinema. A discussão cíclica de hoje são adultos ficando muito irritados com críticas. Ou melhor, irritados com a “Crítica”.
Três anos atrás chegou aos cinemas o tão aguardado Super Mario Bros: O Filme. Havia muita gente esperançosa, principalmente por se tratar de uma animação com um design bem próximo do jogo. Eu, sendo o ranzinza inveterado que meu pai me condenou a ser, estava com os dois pés atrás. Não que eu não acredite na possibilidade de um bom filme do Mario, só não tinha fé na capacidade da Illumination, a “Pixar com [MUITO] desconto”, de fazer isso. Portanto, nem foi tanta surpresa para mim quando vi que as críticas estavam bem divididas. Depois de assistir eu achei até que elas foram bem generosas. O público, por outro lado, foi muito mais positivo com Super Mario Bros: O Filme e isso também não é nenhuma surpresa.
Se a memória não me falha (vamos fingir que eu não estou com a aba do site aberta aqui do lado), o filme marcou 59% no tomatômetro do Rotten Tomatoes, contra 95% do pipocômetro. Logo, para a terceira não surpresa dessa época, a diferença entre a recepção dos críticos e a do público reacendeu aquela discussão besta de que a famigerada “Crítica” é inimiga do entretenimento. Foram dias e mais dias do discurso mais batido, mais hipócrita e, acima de tudo, mais inseguro vindo por parte de adultos. Passados mais três anos agora eu tenho que ver esses mesmos adultos três anos mais velhos repetirem os exatos mesmos comentários por causa de Super Mario Galaxy: O Filme.
Se eu já pareço de saco cheio com essa história é porque não é a primeira, nem segunda, nem terceira, nem quarta, …, nem a milionésima vez que eu vejo acontecer. Basta haver uma diferença substancial entre a “nota” do Rotten Tomatoes – porque parece muito difícil entender o que é uma agregador de reviews – que começa essa choradeira. Durante a última semana toda o meu feed foi um pesadelo de adulto brigando com críticas (que não leram) a um filme que (supostamente) eles gostaram e isso é o que mais me incomoda nas reações.
Acho que está claro para todo mundo como essa galera nem mesmo se dá o trabalho de ler uma crítica negativa sequer para entender o que diabos aquele crítico em particular falou sobre o filme. Com videogames isso acontece direto também, um exemplo recente é a fanbase de Crimson Desert não conseguindo lidar com uma mísera review que ousou dar 4,5 pro joguinho medíocre deles. Tudo que esse pessoal faz é olhar para a nota – ou no caso do Rotten Tomatoes, aquilo que assumem como uma nota – ficarem putos por ela não refletir o que eles acham que a obra merecia. Assim eles vão para as redes sociais esbravejar sobre a “Crítica” com a mesma raiva ensandecida que o Capitão Ahab gritava para Moby Dick.
Por esse motivo que dificilmente haverá uma discussão honesta nessas situações, pois nenhuma dessas pessoas está de fato atacando críticas. Elas batem nos espantalhos e estereótipos que criaram sobre críticos, sejam eles de cinema, de videogames ou qualquer outra mídia. É isso que eu tenho ilustrado como “Crítica” desde o primeiro parágrafo.
Pegando o caso recente de Super Mario Galaxy: O Filme que no momento tem 43% de críticas positivas no tomatômetro. O principal argumento – termo este que uso com bastante flexibilidade – que vi repetirem é que os críticos estão exigindo demais de um filme feito para crianças e que só se propõe ser diversão para toda família. Vez ou outra ele vem com o acompanhamento de que críticos só sabem elogiar quando é uma animação toda sentimental da Pixar ou da Disney. Beleza! Vamos fingir que isso é verdade. Logo, que tal conferirmos o que essa a “Crítica” achou de, por exemplo, Patrulha Canina: O Filme?

Que loucura, não? 82% de críticas positivas! Como assim? Algo de errado não está certo. Mas tudo bem, a “Crítica” devia estar de bom humor naquele dia. E também, foram apenas 50críticas que levaram em consideração. Acho que precisamos de uma amostragem maior de críticos. Então que tal vermos agora o que acharam de As Aventuras do Capitão Cueca: O Filme?

Catapimbas! Como isso é possível? Será que a “Crítica” não tem essa rigidez toda ao avaliar filmes, sendo muito mais nuançada e englobando um conjunto de profissionais com visões distintas sobre filmes distintos? Não, não! Não consigo acreditar nisso. Eles têm que odiar filmes infantis. Um monte de adultos irritados porque não aclamaram SUPER MARIO GALAXY: O FILME e suas numerosas referências a uma franquia tão amada nos videogames não pode estar errado. Que tal um último exemplo, algo da Illumination? Já sei! Vejamos o que falaram de Sing: Quem Canta Seus Males Espanta, um filmeco bem mediano, mas com um enorme apelo popular.

Eu poderia ficar caçando mais filmes infantis o dia todo, mas acho que essa bobagem dos inimigos do entretenimento já foi por água abaixo. Pelo amor de Deus, até Pokémon: Detetive Pikachu e Patos! conseguiram pontuar respectivamente 65% e 73% de críticas positivas no Rotten Tomatoes. Mesmo assim é inútil porque apesar desses filmes terem como principal alvo o público infantil, quem eles acertam mesmo é o público infantilizado.
Ok, vamos com calma. Quando eu falo de público infantilizado eu não quero dizer que você aí, adulto de não sei quantos anos, não deveria assistir esses filmes. Ano passado estava eu lá me divertindo ao rever Digimon, do primeiro curta que foi aos cinemas, passando pela primeira série animada e fechando com o perfeitinho Digimon Adventure: Our War Game. Adultos podem (e eu diria que devem) buscar assistir coisas das quais eles não se encontram na demografia esperada. Eu me refiro sobre essa postura infantil de não aceitar opiniões divergentes que sempre flerta com um anti-intelectualismo gritante.
Lembro que um dos vários comentários que me deu motivo para falar desse assunto aqui foi de alguém dizendo que críticos não precisavam opinar sobre todos os filmes porque “tem coisas que claramente não são pra nós”. Isso é parte de uma mentalidade que eu vejo cada vez mais nas redes sociais de não querer que ninguém critique as bobeirinhas que você gosta. É uma tremenda insegurança e incapacidade de defender os próprios gostos, precisando recorrer a um mantra patético que eu apelidei de “éssonão”.
Não gostou do filme? Éssonão assistir!
Achou o jogo ruim? Éssonão jogar!
Detestou o livro? Éssonão ler.
Não vai validar minhas opiniões? Éssonão comentar!
É um antagonismo ridículo com a “Crítica”, mas acima de tudo, unilateral. Por isso que eu uso a analogia com Moby Dick, pois é o público que persegue as críticas (que, novamente, não leram) e não os críticos que criam essa rivalidade. Chega a ser cômico como essa galera bate no peito para falar que não liga para as críticas e que pretende formar a própria opinião, mas são os primeiros a correr até o Rotten Tomatoes para ver a “nota” e se morder todos com ela. Por isso vão atrás de outras formas de validação, como a “nota” do público ou então, ainda mais digno de pena, a bilheteria.
Um dia antes de eu começar esse texto passou mais outro adulto infantilizado pelo meu feed. Na postagem a pessoa comentou como em apenas cinco dias Super Mario Galaxy: O Filme arrecadou por volta de $190 milhões em bilheteria e terminou falando “Eu imagino a crítica vendo esses resultados”. Spoiler: a crítica não está nem aí. Quem fica torcendo para coisas floparem é esse bando de criador de conteúdo picareta que só consegue engajar seu público na base do ódio. A “Crítica” que falou mal de Super Mario Galaxy: O Filme foi dormir tranquila depois de ver essa informação. Na verdade, a maioria nem vai procurar saber quanto o filme arrecadou em bilheteria. Isso não faz diferença alguma para percepção daquela obra.
O Cachalote Branco não sabe que você existe, Ahab!
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