
Hoje, primeiro de Junho de 2026, é o fatídico dia em que Horizon Chase deixará as lojas de todas as plataformas nas quais está disponível. Não só a versão mobile original, World Tour, como também a versão para computadores e consoles, Turbo, serão removidas. Esta pelo menos ainda tem a garantia que você poderá baixar sempre que quiser da sua biblioteca, nos celulares que eu não sei direito como funciona porque não uso como plataforma para jogos. Dentro de algumas horas apenas a sequência, Horizon Chase 2, poderá ser comprada nas melhores lojas e também na Epic Games Store.
Alguns podem dizer que não é um problema, porque existem métodos alternativos para adquirir o jogo. Mas para mim é! Alguns leitores aqui devem saber o motivo do meu incômodo e aqueles que caíram de paraquedas no meu blog logo entenderão.
Infelizmente não há nada que possamos fazer porque os desenvolvedores de Horizon Chase, os porto-alegrenses da Aquiris Game Studio, não tem mais controle sobre o jogo. O estúdio anunciou uma parceria com a Epic em 2022 que, supostamente, previa “a publicação de múltiplos jogos multiplataforma ainda não anunciados“. Hoje parece que esses tais jogos não anunciados nunca existiram fora do campo das ideias, porque no ano seguinte a Aquiris fez outro anúncio. A partir de 2023 o estúdio seria convertido para a Epic Games Brasil, após formalizar a compra pela Epic.
O objetivo da compra estava escancarado no próprio anúncio em que a Aquiris falou que se uniria a Epic para “criar conteúdo inovador e experiências sociais dentro do Fortnite”. Nesse processo, pelo visto, o estúdio perdeu não só a sua identidade como o seu próprio catálogo. Bastou um ano apenas após a compra para a Epic descontinuar Wonderbox: The Adventure Maker, outro jogo da Aquiris que foi lançado na Apple Store em 2021. Então o que vimos acontecer este ano com Horizon Chase é o episódio seguinte da história e, pessoalmente, o que me dó mais.
Nesse climão quase fúnebre, pensei que seria oportuno revisitar Horizon Chase Turbo e aproveitar para testar a expansão Senna Forever. Na época eu não me animei de jogar (lê-se: não tinha dinheiro) e essa seria a minha última chance de comprá-la para não depender dos abutres da mídia física. Me diverti bastante, tanto quanto me diverti anos atrás quando joguei pela primeira vez. Para não perder a viagem, também decidi fazer uma review póstuma deste que considero ser um dos melhores exemplares de jogos brasileiros. E também porque eu quero xingar algumas pessoas, mas isso fica para o final do texto.
Só para constar, a review será apenas sobre a versão de computador que eu tenho aqui. Nas últimas semanas eu até me aventurei um pouco pela versão de celular. Porém prefiro me ater a Horizon Chase Turbo que tive muito mais contato.

Horizon Chase começou como um jogo exclusivo de celulares em 2015. Sua proposta, como a de muitos outros jogos independentes, buscava resgatar a experiência de clássicos dos anos 80 e 90. No seu caso particular, as principais influências foram de jogos de corrida arcade como OutRun e, especialmente, Top Gear. Este último não se limita apenas na questão da jogabilidade, mas também pelo impacto cultural que essa franquia carrega no Brasil. Top Gear teve um papel fundamental na construção do imaginário coletivo de videogames no país por se tornar uma febre nas locadoras.
A Aquiris sabia muito bem o que estava fazendo quando desenvolveu Horizon Chase, pois contrataram o Barry Leitch, compositor original de Top Gear, para criar sua trilha sonora. O jogo acerta em cheio a memória afetiva do brasileiro, mas também não fica preso só ao nosso público. A versão mobile teve uma grande projeção lá fora, provavelmente a maior que um jogo brasileiro teve. A popularidade do jogo motivou a Aquiris a lançá-lo para mais plataformas e assim em 2018 nasceu Horizon Chase Turbo.
Por se tratar de um jogo arcade, Horizon Chase foca muito mais em transmitir a sensação de velocidade do que fazer o jogador se sentir como um piloto. A física do carro importa infinitesimalmente menos do que a emoção da corrida. Tanto é que a maior graça que tem durante as corridas não está em fazer uma curva perfeita. O barato vem em ultrapassar o outro competidor na reta final quando no último décimo de segundo. Pode parecer que estou exagerando, mas vocês ficariam surpresos com a frequência que isso pode acontecer nesse jogo.
A base da jogabilidade vem de Top Gear, porém a Aquiris mexeu em algumas coisas para simplificar os controles para uma plataforma mobile. Assim ela também removeu alguns empecilhos criavam interrupções durante uma volta. A mecânica de câmbio manual, por exemplo, não dá as caras por aqui. Sua preocupação é a de acelerar, virar para direita, virar para a esquerda e usar nitro. Também não existem pit stops, ainda que combustível seja um fator que você precisa levar em consideração durante as corridas. Cada pista tem galões de gasolina espalhados em diferentes pontos e você os pega automaticamente ao passar por eles, tal como os nitros extas.

Como praticamente todo jogo de corrida moderno, existem vários modos com dinâmicas distintas em Horizon Chase Turbo. O meu favorito é o modo de Resistência. Nele você é colocado numa sequência de corridas e tem sempre que chegar no mínimo em quinto lugar para poder avançar. Conforme avança, você escolhe entre alguns equipamentos que melhoram o desempenho do seu carro. É divertido porque tem esse fator de aleatoriedade das pistas e me pareceu o modo com a dificuldade mais equilibrada.
Há também os Torneios que acredito que carece de quaisquer explicações. Basta citar que tem três modalidades – Amador, Profissional e Expert – e a imaginação de vocês preenche o resto. Alguns anos adicionaram outro modo, Aventuras, que serve apenas para você desbloquear novas pinturas para seus carros ao concluir os circuitos. Por fim temos o “coração” de Horizon Chase Turbo são suas campanhas, quatro ao todo.
A primeira é a do jogo original, World Tour, no qual você disputa várias corridas ao redor do mundo. Falo dela a seguir, já que é a gameplay principal. Depois você tem a Rookie Series que serve como uma espécie de modo fácil do World Tour. A dinâmica é quase a mesma, porém são menos pistas – geralmente as mais curtas e/ou com menos voltas – menos competidores e menos opções de carros para você usar. A maior graça da Rookie Series está em você usar o carro da autoescola que recebe no início. Fora isso, como eu disse, é só uma versão enxuta e mais tranquila da campanha principal.
Já Summer Vibes é uma campanha que se distingue mais pelo valor de homenagem do que pela jogabilidade. Nela você só pode usar um único carro: o conversível Brisa, uma homenagem óbvia a OutRun. Você corre por pistas em cenários paradisíacos, passando muito a vibe de viajar pelo país sem remover o fator de competição. As vitórias liberam novas skins para o carro que também servem de homenagem para vários títulos da cultura pop como: Miami Vice, Curtindo a Vida Adoidado, Thelma & Louise, Orange Is The New Black, entre outros.
Vou deixar para comentar de Senna Forever no final porque ela se amarra com o motivo de me incomodar com a remoção de Horizon Chase das lojas.
Em World Tour você atravessa o mundo em corridas num seleto conjunto de países. Para habilitar uma nova corrida você precisa chegar nas primeiras posições e o jogo também usa aqui muito a ideia de pontuação. O jogador ganha pontos pelo lugar que chegar ao final da corrida, além de moedas que pode coletar pela pista e a quantidade de combustível economizada. Os pontos servem para liberar pistas bônus em cada região que, por sua vez, desbloqueiam novos carros e upgrades.

Nessa campanha que para mim se consolida um dos grandes charmes de Horizon Chase Turbo que é a variedade de cenários. Só que mais do que poder passar por uma pista no Brasil, no Japão, na Grécia, no Havaí, ou qualquer outro país, o legal é ver como algumas condições climáticas (neve, neblina, chuva) e terrenos criam novos obstáculos. Assim, com o ambiente sempre mudando ao seu redor, não fica aquela sensação de repetição que é natural dessa jogabilidade.
Algo que achei curioso em Horizon Chase Turbo é como as corridas operam numa progressão igual a de uma torre de jogo de luta tipo Mortal Kombat. O que eu quero dizer com isso é que os últimos competidores, são como a “base” da torre e a cada ultrapassem você “sobe” e a dificuldade aumenta. Por exemplo, sair do 20º lugar para o 10º é uma tarefa praticamente trivial. Você faz isso sem muitas dificuldades na primeira volta.
Agora ir do 10º para o 5º já não é tão fácil e é onde você já não pode ficar se dando o luxo de bater em obstáculos ou sair da pista durante uma curva. É do 5º lugar ao 1º que a corrida acontece de verdade, onde os nitros se tornam essenciais porque provavelmente você chegará nessa parte na sua última volta. O último competidor que você tem que ultrapassar acaba sendo uma espécie de chefão, já que o jogo irá impulsioná-lo para ter uma vantagem sobre os demais.
Esse não é um problema per se, pois é uma forma de aumentar o desafio das corridas. Entretanto, acaba virando uma questão muito aparente quando você vai para os Torneios. Nesse modeo a única competição de verdade que você tem é com o carro que o jogo selecionar para ser esse chefão. Caso você não o ultrapasse, ele sempre terminará a corrida em 1º lugar e só comum milagre que mexa na programação do jogo que ele cai para o 3º. Assim você acaba recorrendo a mesma estratégia de economizar todos os nitros para a volta final para fazer ultrapassagens de última hora. O que é uma estratégia válida, apenas que deixa mais visível o quanto o jogo pode ficar engessado. Por isso gosto tanto do modo de Resistência onde existe mais variação no desempenho de cada competidor.
Agora vou puxar o que falei lá atrás dos cenários para fazer um gancho para comentar sobre a estética de Horizon Chase. Podemos dizer que os gráficos são “simplificados” no sentido que aposta em formas mais limpas, sem texturas detalhadas. Existe aqui a possibilidade de um comentário cínico de dizer que isso é por conta de se tratar de um jogo feito para celulares. Particularmente acho um argumento fraco. Não precisa ir muito longe para achar jogos de corrida mobile que apostam numa estética mais realista como a de consoles.
Horizon Chase Turbo foca numa estilização para criar sua própria identidade visual. Além disso, é uma escolha estética que dá a sensação de ter aqueles designs 2D do passado funcionando num cenário plenamente tridimensional. Outra coisa a se considerar é como esses visuais combinam com o próprio tom lúdico de Horizon Chase que se manifesta com seus veículos. Você encontra no jogo o Batmóvel, o Toyota AE86 de Initial D e até o Fiat Uno com escada. Todos devidamente renomeados para não dar nenhum problema de licenciamento para a Aquiris.
Há também uma adição especial com balões de falas que aparecem durante certas ações na corrida. Confesso que, por não ter conhecimento o bastante no nicho dos jogos de corrida, não sei se essa é uma herança de algum clássico dos anos 80 ou 90. Se for, paciência! Esses detalhes podem ser perfeitamente ignorados e não tiram a sua atenção durante o circuito. Porém, para mim, isso me incentivou a encarar cada carro como um personagem e não apenas um veículo. Traz mais humor, mas também cria um pequeno e inconsciente vínculo com os carros.

Esse seria o momento ideal para um parágrafo de conclusão onde eu digo como Horizon Chase Turbo é um jogo de corrida divertidíssimo e um dos melhores jogos brasileiros já feitos. O que é verdade. Mas ainda falta uma campanha para comentar, não é mesmo? 2021 foi um ano especial para Horizon Chase. O título completou seis anos de sucesso e comemorou a data com a sua mais importante DLC: Senna Forever. O nome já diz tudo. Em parceria com o Instituto Senna, a Aquaris criou uma campanha que celebrasse a memória do eterno Ayrton Senna, o grande herói brasileiro da Fórmula 1.
A campanha se divide em dois modos, Carreira e Torneios. O segundo funciona na mesma dinâmica do modo comum de Horizon Chase. A diferença é que você usa carros inspirados nos modelos mais conhecidos da Fórmula 1 e também existe a mecânica de mudar a perspectiva para primeira pessoa. Acredito que por uma questão de tempo, ela só foi implantada nessa campanha. Então mecanicamente Senna Forever não altera muito a jogabilidade de Horizon Chase Turbo e o valor da expansão está no seu aspecto mais “narrativo”, por assim dizer.
O modo Carreira é um recorte da jornada do Ayrton Senna da sua estreia na Fórmula 1 em 1984 até o seu terceiro título na temporada de 1991. O jogo comprime essa história em cinco capítulos que funcionam na mesma lógica das outras partes do jogo. Você vence o circuito num dos primeiros lugares e habilita o próximo. Uma diferença é que em vez dos upgrades agora você escolhe um entre três bônus no início de cada corrida para melhorar ou seu controle, ou aceleração e velocidade máxima ou nitro e combustível.
Cada circuito também inclui as “Façanhas do Senna”, desafios extras como pegar todas as moedas, usar uma determinada quantidade de nitros ou pegar combustível em voltas específicas. As façanhas acabam se repetindo, ainda mais sendo três por pista, mas é compreensível que não dava para ser muito criativo dentro dos limites da jogabilidade. Os desenvolvedores deram uma enorme colher de chá para os jogadores, permitindo que eles concluam essas façanhas em múltiplas corridas. Eu acharia muito mais interessante, do ponto de vista de desafio, que tivéssemos que concluir as três no mesmo circuito para valer. Tanto que foi um desafio que me auto impus para o meu próprio entretenimento. Recomendo fazerem o mesmo!
No entanto, a campanha não busca necessariamente te fazer se sentir na pele do Ayrton Senna e sim mostrar pro jogar o porquê dele se tornar essa lenda da Fórmula 1. Em meio às corridas, tem pequenos textos que marcam alguns dos principais pontos da sua história: o início da carreira em que ele ganhou o apelido de “Rei da Chuva”, a disputa acirrada durante a conquista do seu bicampeonato e também a sua primeira vitória no Brasil. É uma escolha intencional de centrar a narrativa nas suas vitórias, ignorando a sua morte prematura em 1994 que acabou se tornando um episódio traumático no coração dos brasileiros.

Aí vem o motivo de eu querer falar de Horizon Chase hoje. Talvez a maior façanha que o Ayrton Senna fez na sua carreira foi a de virar um símbolo que alimenta um orgulho nacional cada vez mais escasso. Ele não está sozinho nessa, pois no esporte temos muitos ícones como o Pelé, falecido em 2022, e o Oscar Schmidt, que veio a falecer esse ano. Se pararmos para pensar, até mesmo a Seleção Brasileira não conquistando uma Copa do Mundo nas últimas duas décadas, ainda o brasileiro ainda consegue tirar algum conforto em saber que o Brasil é o único pentacampeão.
Embora tenhamos esses pilares no esporte para sustentar algum amor-próprio, ainda vemos várias pessoas atormentadas por uma profunda síndrome de vira-lata. Sobretudo no âmbito cultural e eu já falei disso diversas vezes aqui no blog quando falei sobre o cinema nacional. Infelizmente o mesmo vira-latismo se manifesta em relação aos nossos jogos. É quase como se fossemos ensinados a desprezar nossa cultura ou então enxergá-la como inferior perante à de outros países. Isso bota o brasileiro num estado de eterna busca de validação externa, tanto que basta qualquer celebridade gringa performar um mínimo de brasileiridade que quase ganha uma segunda cidadania por aqui. Olhando para você, Vincent Martella!
Isso me frustra porque eu não aguento mais ver vira-lata de duas patas digitando besteira na minha linha do tempo. Qualquer pessoa normal entende que o Brasil tem seus problemas sociais, econômicos e políticos. Mas como é que não conseguem dar o mínimo de valor nem para sua cultura? Porra! No dia que saiu a notícia sobre Horizon Chase não tardou para surgir um desses vira-latas diminuindo o jogo. Eu até cheguei a referenciar esse episódio no texto sobre Outlive 25 quando eu disse:
Infelizmente ainda tem muita gente aqui que insiste em medir a nossa cultura com a régua dos gringos. Portanto essas pessoas irão olhar para Horizon Chase Turbo e pensar “não é um Forza Horizon”. Vão olhar para um Pocket Bravery e pensar “não é um Street Fighter”. Olharão para Fobia: St. Dinfna Hotel e pensarão “não é um Resident Evil”. Não duvido nada que essas mesmas pessoas iriam ler as reviews antigas de Outlive e balançar a cabeça pensando “não é um StarCraft”.
A gente tem sim que ter orgulho de ter um jogo como Horizon Chase Turbo na nossa história. Um jogo independente mobile que fala com o passado dos videogames no Brasil, se projetou internacionalmente, conseguiu se expandir para outras plataformas, teve várias DLCs; incluindo uma que celebra um dos grandes esportistas que este país já produziu. Por isso é uma pena que agora vamos ficar só com Horizon Chase 2 – e nem sabemos até quando porque o serrote da Epic Games pode voltar a qualquer hora – que pode até ser um jogo legalzinho, mas não tem metade do impacto que foi seu antecessor.
Fica ainda mais triste porque não é só o jogo que está sendo escanteado, é a própria Aquiris. O que se mostrou como um estúdio brasileiro com grande potencial, agora é esse puxadinho chamado Epic Games Brasil que cria o tal “conteúdo inovador e experiências sociais dentro do Fortnite” que a gente nem sabe qual é.
Quando eu chamo esse texto de uma review póstuma é porque o sentimento que eu fico, depois de ter me divertido tanto com esse jogo, é o de luto. Mesmo com todos os percalços, tem muita gente aí se esforçando para fomentar um cenário de desenvolvimento de jogos no Brasil. Temos aí a JoyMasher construindo há mais de década o seu nome entre os jogos retrô. Ou então a Bombservice mantendo a série de Momodora firme e forte. Temos toda uma geração de jovens desenvolvedores trazendo títulos como Dodgeball Academia, Mullet Madjack, Unsighted, Gaucho and the Grassland, entre outros.
Horizon Chase foi uma conquista e tanto para a nossa produção cultural que existe aos trancos e barrancos. É uma pena que tenha que acabar assim, retirado das lojas sem necessidade pelo capricho dos acionistas de uma empresa gringa. Então, para não concluir o texto numa nota negativa, vou repetir as palavras que disse parágrafos atrás: Horizon Chase Turbo é um jogo de corrida divertidíssimo e um dos melhores jogos brasileiros já feitos. Não, é um dos melhores jogos já feitos e ponto!

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