
No dia 30 de maio passou a funcionar a Tela Brasil, uma plataforma de streaming nacional e totalmente pública. Qualquer um pode acessá-la com sua conta GOV.BR sem qualquer custo. O acervo reúne obras audiovisuais brasileiras – curtas e longas-metragens, documentários, telefilmes, etc. – com a intenção de difundir cultural em todo o território nacional. A partir do próximo parágrafo eu paro de falar como se fosse um dos funcionários da SECOM.
Essa notícia deixou muita gente feliz porque é uma forma muito mais conveniente de ter acesso a filmes brasileiros que historicamente tiveram muitas dificuldades para alcançar o público. Para vocês terem uma noção, até mesmo pelos “métodos alternativos” não é tão fácil assim de se encontrar algumas obras nacionais. Não precisa nem ser as famigerados lost media. Já perdi as contas de quantos filmes brasileiros eu consegui assistir porque alguma alma caridosa subiu para o YouTube. Além disso, existem tantas outras obras que ainda não tive chance de ver. Desde o final do ano passado que estou sedento por uma versão de Mundo Proibido (2025) com boa qualidade de imagem para poder assistir. Sigo esperançoso!
Mas algo que é importante de entender sobre a Tela Brasil é que ela não existe para atender nenhuma necessidade do mercado. Por uma questão de simplificar a explicação para as pessoas muito se usou a expressão “Netflix brasileira” para descrever a plataforma, entretanto ela não veio para competir com uma Disney Plus ou uma HBO Max. A plataforma funciona por uma lógica de política pública e existem critérios específicos para os tipos de filmes que entraram e entrarão na Tela Brasil. Para entenderem melhor, recomendo a live do canal Ora Thiago:
Pois bem, na última semana eu tomei um tempo para explorar um pouco o acervo da Tela Brasil e conhecer um pouco mais do nosso cinema. Estou há um tentando me inteirar mais sobre a nossa cultura cinematográfica e tem sido uma experiência muito proveitosa. Claro que sempre existe um segundo motivo além do fomento do meu repertório cultural para tudo que eu faço. Tenho que manter esse blog com conteúdo atualizado, né? Portanto, eu assisti vários filmes na Tela Brasil para fazer uma listinha com pelo menos doze quinze deles para recomendar para vocês.
Ao contrário da plataforma, eu não tenho muitos critérios além de “gostei desse negócio aí”. Entretanto, para ter um pouco de diversidade, me esforcei para selecionar filmes de gêneros, anos e diretores diferentes. Calhou até de ter uma diversidade regional na lista. Apesar do limite tanto do meu repertório quanto do acervo, acredito que tem pelo menos um título na lista para cada gosto.
Ah sim! Sintam-se livres para recomendar outras obras que podemos encontrar na Tela Brasil aí nos comentários.
VENENO (1952)

Ao se falar da história do cinema no Brasil um capítulo que não podemos ignorar é o da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Ela nasceu da ambição (e megalomania) de dois empresários italianos: Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho. Os dois investiram pesado na Vera Cruz com o sonho nada humildade de criar uma “Hollywood brasileira”, o que resultou na produção de alguns dos maiores clássicos do cinema no início dos anos 50. A Vera Cruz foi uma chama que queimou intensamente… porém por pouco tempo.
Oficialmente a companhia fechou em 1954, apenas cinco anos depois da sua fundação, com mais de 40 longas-metragens produzidas. A maioria já caiu no domínio público e alguns deles foram adicionados no Tela Brasil, entre eles o suspense Veneno. Depois de assisti-lo, achei que seria a melhor escolha para abrir a lista.
O filme conta a hostória de um homem inseguro que se convence que sua esposa o odeia e a mata, em seguida manipulando uma cantora para tomar o seu lugar sem que ela saiba. Dá para perceber muita da influência da linguagem e estética do cinema americano em Veneno, mas com alguns toques do melodrama brasileiro. Posso estar enganado, mas acredito que o diretor Gianni Pons tomou inspiração no clássico À Meia-Luz (1944), uma vez que seu filme também usa elementos de thriller para discutir violências físicas, emocionais e psicológicas sofridas por mulheres pela ação de seus maridos.
O CANGACEIRO (1953)

O cinema americano tem uma longa tradição de filmes de faroeste, tanto que se expandiu em diferentes subgêneros e foi importada pelo cinema europeu com os spaghetti westerns que nos trouxe, entre muitas obras, a fantástica Trilogia dos Dólares do Sergio Leone. Aqui no Brasil também tivemos alguns experimentos, trocando o cenário do Velho Oeste pelo Sertão Nordestino e pistoleiros pelos cangaceiros. Isso resultou num dos grandes clássicos do cinema brasileiro: O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto.
A história se centra no bando de Galdino, um cangaceiro que busca dar continuidade ao legado de Lampião. Durante um dos seus ataques, eles sequestram a professora Olívia. Ela desperta o interesse de Galdino e seu braço direito, Teodoro, que é o mais próximo que temos aqui de um pistoleiro a moda estóica. Teodoro ajuda Olívia a escapar e ambos são perseguidos por Galdino e o restante do bando.
O Cangaceiro teve uma produção ousada que mostrava muito daquela ambição que a Vera Cruz trouxe e infelizmente acabou pagando o preço. É fácil criticar as sequências de ação para os “padrões modernos”, porém não deixa de ser um marco importante para um mercado brasileiro tentava existir em frente ao domínio hollywoodiano que já se instalava no país. Somado aos seus personagens e trilha sonora, O Cangaceiro é uma pedra fundamental da história do nosso cinema.
O HOMEM DO SPUTNIK (1959)

Infelizmente o gênero da comédia se tornou uma arma para aqueles que não conhecem filmes brasileiros. Eles pegam na má-fé coisas do tipo Como se Tornar o Pior Aluno da Escola (2017) ou Uma Advogada Brilhante (2025) e os usam como caricaturas. O que me incomoda é como isso não é apenas desrespeito com o nosso cinema, mas como também pela importância que a comédia teve na construção de uma cultura cinematográfica no Brasil.
As chanchadas, por exemplo, que tiveram seu auge ali nos anos 50, que despontou artistas como Grande Otelo e Oscarito. Este último protagonizou uma clássica comédia de Carlos Manga do final daquela década, O Homem de Sputnik, que também é uma obra notável dessa fase das chanchadas do cinema brasileiro. Oscarito interpreta o caipira Anastácio que passa a atrair o interesse de agentes americanos, russos e franceses quando acredita ter encontrado o satélite Sputnik no seu galinheiro.
Além de toda a técnica dos filmes do Carlos Manga, o principal em O Homem de Sputnik é como ele usa a ingenuidade de um personagem caipira não para debochar do povo do interior e sim para mostrar o lado mais ganancioso e hipócrita da sociedade. Anastácio pode até ter suas falhas, porém o alvo da piada aqui são os estrangeiros que só sabem olhar cinicamente para o Brasil quando acreditam que podem ganhar algo para si.
A NOITE DO ESPANTALHO (1974)

A Noite do Espantalho, musical de Sérgio Ricardo, foi a primeira adição ao meu repertório do cinema nacional que a Tela Brasil proporcionou. Foi uma grata surpresa porque eu nem mesmo sabia que o filme se tratava de um musical, gênero que assisti pouco, mas gosto bastante. A trilha sonora é de autoria do próprio diretor e conta com interpretações de Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Este também encarna o personagem do Espantalho que serve de narrador para a história.
Não mergulharei muito no roteiro, porque honestamente não há tanto que se tirar na sua camada mais superficial. Aqui temos uma pequena cidade no interior do sertão pernambucano comandada por um coronel tirano (pleonasmo), Fragoso. O vaqueiro Zé Tulão chega às terras e vendo toda a opressão que o povoado sofre, tenta iniciar uma revolta enquanto disputa o amor de Maria do Grotão com jagunço Zé do Cão, braço direito do Coronel.
A produção é uma maravilhosa mistura de sentimentos e imagens que o cinema brasileiro por várias vezes consegue dar vida. Você tem teatro, literatura de cordel, música, filme, tudo. É uma viagem que só a arte consegue nos proporcionar e se manifesta até na forma como os personagens se expressam. Ora eles cantam, ora eles falam, ora eles fazem repentes. Existe muito simbolismo e uma narrativa que vai para frente, para trás, para o lado e para o outro. Pode parecer confuso, mas o audiovisual precisa nos desafiar de vez em quando mesmo.
A IDADE DA TERRA (1980)

Relutei um pouco se deveria ou não incluir um filme do Glauber Rocha na lista. Não tenho nada contra o diretor, muito menos com sua obra. Inclusive meu dedinho estava coçando para citar O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) e ainda acho que essa deveria ser a minha escolha. Eu só achava que não havia necessidade de recomendar qualquer coisa do Glauber Rocha porque tenho a impressão que até quem não assiste filmes brasileiros conhece o nome dele. Alguns com reverência, outros com a mesma implicância que possuem com o nosso cinema.
Pois bem, o que me fez mudar de ideia é que eu acabei assistindo A Idade da Terra, último filme do diretor antes da sua morte em 1981 e conhecido por ser seu trabalho mais experimental. Essa última palavra é o motivo. Eu acredito que todo mundo deveria assistir pelo menos um longa-metragem experimental na vida. É fácil fazer isso com curtas, acho que a mente é capaz de absorver histórias mais conceituais quando em doses homeopáticas. Mas é quando você passa duas horas vendo sequências de imagens que não parecem fazer qualquer sentido que você desafia seu cérebro a ir além das estruturas convencionais com as quais você foi acostumado.
Eu não vou nem me arriscar a explicar sobre o que é A Idade da Terra, pois o mais provável é que não haja uma explicação. Ele é uma profusão imagética tão caótica quanto seu próprio diretor. Política, sociologia, filosofia, religião, arte, etc. Tudo é jogado na tela num turbilhão artístico que você não sabe se você ou é muito burro para entender ou se o Glauber é muito louco para se entendido. Independente da resposta, o filme de alguma forma te hipnotiza, mostrando como cinema vai muito além de atos amarrados por um roteiro coeso.
A HORA DA ESTRELA (1985)

Baseado no livro de Clarice Lispector, A Hora da Estrela – primeiro longa dirigido por Suzana Amaral – conta a história de Macabéa. Semianalfabeta, órfã, ingênua, tola, simplória e por vezes patética. Parece que eu estou sendo malvado desnecessariamente com a personagem, mas é uma descrição exata. Macabéa não tem muitos sonhos, exceto o de ser uma atriz de cinema, objetivos na vida e por vezes parece que só está existindo porque foi posta nesse mundo.
Pela sua inocência, a gente acaba tendo muita pena da personagem. Às vezes condescendentemente por se tratar de uma tola, às vezes genuinamente ao ver como ela é tratada pelos personagens a sua volta, incluindo colegas de quarto, pessoas do seu trabalho e até o próprio namorado. Isso até cria uns momentos de comédia não intencional pela incredulidade ao ver gente sendo malvada com Macabéa sem a menor necessidade.
Toda a tolice da personagem vai te cativando e convencendo que alguma hora haverá uma virada na história, que precisa estar reservando alguma bonança para essa mulher. Porém o que somos entregues é um final cru e chocante que te faz olhar para a parede e pensar “Porra…”.
O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1997)

Se você conheceu meu blog a partir deste texto não vai saber que no começo do ano falei um pouco de filmes brasileiros sobre a ditadura. Não era uma lista de recomendação, porém citei muitas obras lá. Entre elas estava O Que É Isso, Companheiro?, filme de Bruno Barreto baseado no livro homônimo de Fernando Mangabeira. Tomando algumas liberdades criativas, o filme reconta o caso real vivido pelo autor do sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, quando o Mangabeira participava de um grupo de guerrilheiros contra o regime militar.
Eu queria incluir um filme sobre a ditadura na lista porque sei que muita gente que vai pilhar com o Tela Brasil também adora passar pano para milico. Porém não tem um Batismo de Sangue (2007) e nem um Cabra-Cega (2005) na plataforma, então tive que me contentar O Que É Isso, Companheiro?. Não acho o filme ruim, até gosto de como ele mostra como nem tudo é preto e branco através do personagem do embaixador. Meu problema é que tenta humanizar alguns dos policiais à serviço do regime militar enquanto vilaniza alguns dos revolucionários.
Talvez isso seja uma consequência do próprio livro – que admito que não li – e seu autor que já não deveria ter a mesma fé que tinha nos seus ideais durante seu período de luta armada. Contudo, para mim, ambas as escolhas ficaram muito mal resolvidas dentro da história. Por isso não tenho a mesma segurança de recomendá-lo como teria com outros filmes. Mas está lá para que vocês possam tirar suas próprias conclusões.
GÊMEAS (1999)

Marilena e Iara são irmãs gêmeas que vivem num bairro de classe média do Rio de Janeiro e possuem uma diversão em comum: aproveitar da sua semelhança para enganar os homens com quem saem. Se eu pedisse para vocês chutarem qual escritor brasileiro escreveu esse creio que a maioria aqui pensaria no mesmo nome, Nelson Rodrigues. Pois é isso mesmo! O longa Gêmeas é uma adaptação de umas das suas crônicas que foram reunidas em A Vida como Ela É….
A direção de Andrucha Waddington, que conta com a colaboração de Bruno Barreto na fotografia, opta por focar menos no erotismo e na tensão entre as duas irmãs quando Marilena se apaixona verdadeiramente por Omar, dono de uma autoescola. Assim o filme possui uma atmosfera muito carregada e sombria que até te faz esquecer que estamos em torno do Carnaval carioca. Infelizmente não sei dizer se isso faz parte do conto original ou foi uma escolha artística do diretor. Meu conhecimento de Nelson Rodrigues é muito mais pelas adaptações das suas obras do que sua escrita.
Não entrando em detalhes da trama porque eu acredito que é sempre dar o menos de informação possível para audiência, eu gostei como nós somos parte do jogo entre as irmãs. Em várias passagens o filme evita não deixar tão evidente se estamos vendo a Marilena ou Iara, nos fazendo sentir a mesma confusão que os personagens passam.
A OITAVA COR DO ARCO-ÍRIS (2004)

Eu acredito que existe uma beleza particular nas histórias mais simples e A Oitava Cor do Arco-Íris, de Amauri Tangará, se encaixa perfeitamente nesse caso. O filme é sobre um garoto que sai de uma cidadezinha do interior do Mato Grosso para tentar vender sua cabrita e comprar remédio para sua avó que ele teme que pode morrer.
Algumas atuações são amadoras, incluindo do próprio protagonista, e a trilha sonora de vez em quando é exageradamente sentimental. Contudo existe uma pureza tão genuína na cinematografia de A Oitava Cor do Arco-Íris que torna fácil ignorar todos esses “problemas”. É uma história cativante pela inocência de Joãozinho e sua cabrita, tal como a naturalidade dos personagens e do mundo à sua volta.
A fotografia destaca muito os cenários, que estão longe de serem cartões-postais, capturando a beleza da vida real. É tudo muito honesto, porque isso é uma característica até do próprio Joãozinho. Não é um filme que propõe trazer uma reflexão profunda e nem mostrar a “dura realidade” do Brasil profundo. É somente uma pequena história otimista e sincera para esquentar o coração numa noite fria. Às vezes a gente só precisa disso.
AMIGOS DE RISCO (2007)

Inicialmente eu não tinha planos para assistir Amigos de Risco, dirigido por Daniel Bandeira. Eu até tinha visto o cartãozinho dele ali no meio do Tela Brasil, porém não me chamou atenção. Mas graças a Deus eu assisti aquela live do Thiago que mencionei lá em cima porque ele falou do filme e na curiosidade eu resolvi assisti-lo. Agora Amigos de Risco está entre meus filmes brasileiros favoritos e tenho um segundo motivo para adicioná-lo aqui.
A trama se desenrola em torno de Nelsão e Benito quando ambos são convencidos a sair com Joca, velho amigo que tinha fugido da cidade depois de umas “fuleragens”. Durante a madrugada a tensão entre os amigos aumenta, principalmente depois que Joca tem uma overdose com cocaína e Nelsão e Benito tentam fazer de tudo para levá-lo ao hospital. Durante essa confusão, os dois descobrem mais detalhes sobre as “fuleragens” desse suposto amigo deles.
Amigos de Risco é excelente. Só a naturalidade dos diálogos e camaradagem genuína que vemos entre os atores já sustenta o filme. Ele também funciona como um símbolo da importância que o Tela Brasil pode ter para cinema nacional, porque até um tempo atrás Amigos de Risco era “lost media”. Os rolos do filme foram extraviados durante seu circuito nos festivais de cinema. Depois de muito tempo o Daniel Bandeira e sua equipe conseguiram recuperar os arquivos brutos e fazer uma nova edição. Mesmo assim, o filme teve uma exibição limitada e pouquíssima gente teve a oportunidade de assisti-lo. Agora, felizmente, qualquer um pode ter acesso a esta pedrada cinematográfica!
O MENINO E O MUNDO (2014)

Como o imaginário coletivo de filmes animado se divide entre produções da quimera da Disney-Pixar e dos animês (longas e séries), muita gente acha que não temos nossos exemplos para além daqueles com personagens de A Turma da Mônica e Irmão do Jorel. Realmente a nossa indústria não é tão sólida assim quanto a de outros países, mesmo assim conseguimos produzir talentos como Otto Guerra e Alê Camargo.
Este último é o diretor de Mundo Proibido, que ainda tenho esperanças de poder ver este ano. Enquanto isso não acontece, vou recomendar outro filme do Alê Camargo que teve bastante reconhecimento por representar o Brasil no Oscar: O Menino e o Mundo. A animação conta a história de um menino que decide procurar seu pai que foi para a cidade a fim de conseguir trabalho e assim o garoto começa a conhecer o mundo pela primeira vez.
O Menino e o Mundo tem algo muito especial para mim que é um daqueles filmes que te fazem entender a magia da animação e porque ela nos cativa tanto. O Alê Camargo faz uma mistura fantástica de técnicas, usando lápis, giz, colagem, pintura a mão e digital, etc. Honestamente, você nem precisa se preocupar em entender a história porque é uma viagem imagética tão fenomenal que só pela arte já faz tudo valer a pena.
ERA O HOTEL CAMBRIDGE (2016)

Os primeiros minutos de Era o Hotel Cambridge me enganaram (de um jeito positivo). Com vários planos que destacavam primeiro a rua de algum bairro em São Paulo e depois um enorme prédio desgastado. Aparecem algumas figuras, pessoas comuns, num enquadramento típico a de um documentário. Mas então uma senhora me chama atenção e eu penso: “Ei! Essa aí é a Suely Franco!”. Passa-se mais alguns segundos e vejo outro rosto conhecido: “É você, José Dumont?”. Ora, estava eu assistindo um documentário ou um drama ficcional?
A resposta é que o filme de Eliane Caffé, até então o último longa na carreira da diretora, pode ser ambos, nenhum dos dois, uma coisa nova ou, ainda melhor, não importa. Era o Hotel Cambridge mostra o dia-a-dia de refugiados de vários países – Congo, Colômbia, Palestina, etc. – e refugiados do próprio Brasil. Como assim? Quero dizer que a trama mostra pessoas vivendo sob o teto de um prédio antigo ocupado e os pequenos conflitos que florescem desse convívio e contra um Estado (e uma sociedade) que parece preferir que tais pessoas sigam desamparadas.
Filme fascinante e um dos meus favoritos dessa leva que eu conheci pela Tela Brasil. O jeito que ele transita entre uma narrativa de documentário e uma narrativa de ficção acaba mostrando como não há tanta diferença na linguagem deles. Ele foge de um drama convencional, muito mais focado em retratar essas vivências do que amarrá-las num roteiro que busca a catarse da audiência.
A PARTE DO MUNDO QUE ME PERTENCE (2019)

Quando se fala de documentários brasileiros, o primeiro nome que vem à cabeça (daqueles que conhecem documentários brasileiros) é Eduardo Coutinho. Um grande artista e um verdadeiro mestre da sensibilidade, capaz de nos cativar com histórias cotidianas que faziam seus personagens – pessoas reais – florescerem diante da sua câmera. Edifício Master é um documentário que mexeu muito comigo e ainda que eu não lembre do nome das pessoas daquele prédio, suas histórias me tocaram e ainda me tocam.
Por que dediquei um parágrafo todo para um filme que nem mesmo se encontra no Tela Brasil? Espero que mudem isso o quanto antes! É porque eu acredito que Marcos Pimentel, em A Parte do Mundo Que Me Pertence, teve uma forte inspiração na sua obra. No seu documentário, Pimentel também reúne várias histórias de pessoas comuns, nos permitindo ter um pequeno recorte das suas vidas.
A maior diferença entre Edifício Master e A Parte do Mundo Que Me Pertence é que no primeiro sabemos que o Eduardo Coutinho está presente naqueles mundos. Já o Marcos Pimentel é quase uma presença que não sabemos ao certo se está ou não lá de fato. A câmera sim, porém o diretor desaparece e deixa que cada personagem seja o protagonista completo da sua história. Com poucos diálogos, é pelas imagens, olhares e gestos que entendemos os sonhos e as angústias de cada uma daquelas pessoas.
INVENTÁRIO DE IMAGENS PERDIDAS (2023)

Ainda que centenário, ainda existem alguns gêneros sub-representados entre os filmes brasileiros. Por exemplo, o cinema fantástico – que engloba principalmente fantasia, terror e ficção científica – ainda não tem um cânone de obras tão bem consolidado quanto o drama e a comédia. Terror até que vem se saindo bem, desde o pioneirismo do José Mojica Marins até nomes contemporâneos como Rodrigo Aragão*, Juliana Rojas e Marcos Dutra. Ficção científica, por outro lado, carece de mais filmes.
*Inclusive já falei de todos os filmes dele aqui no blog
Por esse motivo eu achei trazer um representante da ficção científica brasileiro para lista. Por sorte eu encontrei no acervo do Tela Brasil o filme Inventário de Imagens Perdidas, de Gustavo Galvão. Só que é necessário destacar que essa não é uma ficção científica aos moldes das linguagem e estética futurista que encontramos em muitas produções americanas. Branco Sai, Preto Fica (2015) é outro exemplo que eu poderia citar, caso estivesse na plataforma, que também explora o gênero da ficção científica dentro de uma identidade singular.
Quanto ao filme, ele não é nada sútil quanto a sua mensagem. Duas mulheres que se encontram na casa de um cineasta falecido, vendo suas memórias, enquanto o Brasil é tomado por um grupo fundamentalista de direita. É perceptível a influência da ascensão ao poder do bolsonarismo, bem como os eventos que levaram ao fatídico 8 de janeiro. Não sei dizer se o filme já estava em produção antes da tentativa de golpe ou foi feito depois. De qualquer forma, Inventário de Imagens Perdidas se posiciona sem nenhum constrangimento e usa seu próprio formato para discutir o papel da arte na política.
CAPITÃO ASTÚCIA (2025)

E para fechar com chave de ouro: Capitão Astúcia, filme de Filipe Gontijo. O longa já estava disponível gratuitamente via link pelo YouTube e espero que agora também na Tela Brasil ele consiga um pouco mais do reconhecimento que merece. Droga, só de pensar nesse filme eu já começo a lacrimejar.
Santiago é um ex-ator mirim, que volta para casa depois de alguns contratempos na sua carreira como pianista. Lá ele reencontra seu avô, Luís, que durante toda vida trabalhou com quadrinhos e agora parece viver uma aventura dom quixotesca acreditando ser o Capitão Astúcia. Santiago agora tem que acompanhar a jornada do seu avô tentando impedir as forças do mal, que ele acredita que chegam no nosso mundo através do artista Akira Laser, numa mescla de fantasia onírica e drama familiar.
Mais do que falar de quadrinhos – até porque temos uma temática mais do que óbvia sobre super-heróis – Capitão Astúcia mostra muito a nossa relação com a ficção e como essas histórias, por mais irreais que sejam, nos ajudam a interpretar o mundo à nossa volta. Não vou entrar em detalhes porque estraga a montanha-russa de emoções que a história te leva e apenas pedir seu voto de confiança que é um filme que eu acho que todos precisam assistir.
CURTAS-METRAGENS (1989-2019)
Não seria uma lista minha se em algum momento eu não tentasse dar uma leve trapaceada, né? Pois então, de uns tempos para cá eu tenho me interessado em conhecer alguns curtas-metragens porque é um formato que muitos diretores, sobretudo os independentes, utilizam para dar vazão a conceitos mais experimentais e se lançar na indústria cinematográfica. Nosso cinema tem uma vasta coleção desses curtas e gostei muito de ver que Tela Brasil cederá espaço para eles também na plataforma. Portanto, resolvi expandir a lista com seis dez recomendações para vocês.
ILHA DAS FLORES (1989)
Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado, é o único entre os selecionados que eu vi fora do Tela Brasil. Mesmo sendo um clichê nas escolas brasileiras, ele não deixa de ser um dos melhores curtas já produzidos neste país. É uma verdadeira aula de montagem e edição, usando um humor ácido para apontar a desigualdade que muita gente ainda tenta fingir que o capitalismo não gera com sua suposta riqueza.
JOSUÉ E O PÉ DE MACAXEIRA (2009)
Uma releitura nordestina do clássico conto de João e o Pé de Feijão, a melhor forma de definir Josué e o Pé de Macaxeira é diversão. Sem diálogos e comunicando suas emoções através de uma trilha sonora bem regional e uma fantástica animação tradicional, o curta consegue recontar toda a história sem precisar inovar em nada e apenas focar numa boa comédia infantil.
O CÉU NO ANDAR DE BAIXO (2010)
Misturando animação tradicional com live action, O Céu no Andar de Baixo de Leonardo Cata Preta é um romance não muito convencional sobre um personagem também não muito convencional. Francisco nasceu com uma doença congênita de “descalcificação” dos ossos do seu pescoço que faz ele carregar sua cabeça como se fosse um pingente, ora olhando apenas para o céu, ora apenas para o chão. Tentando descobrir seu espaço no mundo, ele acaba por experimentar o amor pela primeira vez. Também de maneira pouco convencional!
O OGRO (2011)
Produções brasileiras não precisam se limitar a retratar a nossa história e/ou nosso folclore. O Ogro, curta dirigido por Márcia Deretti e Márcio Júnior, adapta uma história do quadrinista Julio Shimamoto em colaboração com Antônio Rodrigues que foge da caricatura que alguns têm do nosso cinema. Trabalhando tons apenas tons pretos e brancos, é uma narrativa que mescla fantasia e horror sobre um cavaleiro tendo um encontro sobrenatural numa noite chuvosa.
A NOITE DOS PALHAÇOS MUDOS (2012)
Adaptação de Juliano Luccas de uma história em quadrinhos de ninguém menos que a Laerte, A Noite dos Palhaços Mudos é uma deliciosa comédia. Dois palhaços tentam resgatar seu amigo que foi sequestrado por conservadores que por algum motivo, como se essa gente precisasse de algum, quer a morte dos palhaços. O curta viaja entre uma comédia que encontramos em filmes do Charles Chaplin e Buster Keaton, humor circense e inclui também uma pitada cartunesca no seu DNA.
SOMBRAS DO TEMPO (2012)
Um dos curtas mais experimentais dessa lista, eu não estou seguro se entendi muito bem Sombras do Tempo dirigido por Edson Ferreira. Por outro lado, estilisticamente posso afirmar que gostei muito, utilizando uma cinematografia em preto e branco com uma narrativa sem diálogos. Tempo, memórias, realidade, morte, tem uma infinidade de temas que poderíamos citar dessa pequena história, o desafio é amarrar tudo isso dentro da sua cabeça. Boa sorte para vocês!
GIZ (2015)
Mais uma animação, mas que dessa vez experimenta com stop-motion e live action. Giz, de César Cabral, mostra um homem-pombo destruído pela opressão do mundo corporativo de uma cidade que vocês sabem muito bem qual é. A narrativa é influenciada pela filosofia do bigodudo Friedrich Nietzsche – que inclusive faz uma ponta como personagem no filme – criando um protagonista tentando lidar com o niilismo existencial que consome seus dias.
A FELICIDADE CHEGA AOS 40 (2015)
A Felicidade Chega aos 40, de Daniel Nolasco, conta a história de um casal já na terceira idade que vê seu casamento se tornando uma rotina cada vez mais monótona. Sem qualquer explicação, racional ou fantasiosa, os móveis da casa passam a desaparecer um a um. É um curta bem intimista, usando do surreal para discutir nossas relações reais.
O ÓRFÃO (2018)
Dirigido por Carolina Markowicz, O Órfão é uma daquelas histórias simples que nos causa efeito porque sabemos o quão mais próximo da realidade ela está do que da realidade. Não existe apenas um Jonathas – menino órfão, negro e gay – tentando ser adotado dentro dos limites deste curta. Existem dezenas, centenas, milhares deles cujas histórias não chegarão aos nossos ouvidos, mas sabemos que existem.
A MULHER NO FIM DO MUNDO (2019)
Influenciada pelo movimento do afrofuturismo e o álbum virtualmente homônimo de Elza Soares – aliás, recomendadíssimo para quem for assistir o curta – Ana do Carmo nos trás uma história que parece sóbria, mas é carregada de sentimentos. A Mulher no Fim do Mundo se apresenta com um futuro apocalíptico sutil, sem muitas explicações, que serve para reforçar a luta de uma mulher negra em encontrar sua voz e afirmar sua identidade num mundo cada vez mais solitário.
Chegamos ao final da lista. Gostaria de agradecer a todos (os três) que leram até aqui e espero muito que tenham encontrado algo de seu interesse. Estou bastante feliz com a existência da Tela Brasil porque não poderia ter vindo em melhor hora para mim. 80% dos filmes citados eu pude assistir pela plataforma e ainda tem mais coisa que pretendo assistir. Mas agora vai ser apenas por mim mesmo, não pretendo fazer mais nenhum outro texto.
Imagino que daqui alguns meses irão ampliar o acervo da Tela Brasil e haverá outra infinidade de filmes para eu conhecer. Sigo torcendo pelo Mundo Estranho. Porém não sei se farei uma segunda lista porque não quero ficar repetindo esse formato para falar de filmes brasileiros. Provavelmente, se eu for escrever algo, vai ser apenas sobre um único filme que tenha algum tópico que me interesse.
Agora é com vocês! Já fiz minha parte dando um ponto (vários, na verdade) de partida para quem quiser se inteirar do cinema nacional como eu ando fazendo. De novo incentivo a deixarem aí nos comentários outras recomendações do que podemos encontrar na Tela Brasil ou em outro canto da internet. Sobretudo se for um com Mundo Estranho. De verdade, eu preciso muito ver essa animação!
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