
Por estar acompanhando o YouTube desde que ele era cinza e tinha estrelinhas no lugar das curtidas, eu já testemunhei várias transformações tanto da plataforma quanto da cultura que se formou ali dentro. Uma das que me causa mais fascínio, porém não pelos motivos mais positivos, é a mudança de opinião que aconteceu com os infames reacts. Chega a ser engraçado ver o quão comum o formato se tornou levando em consideração que as pessoas pensavam sobre youtuber que fazia react até um tempo atrás.
O YouTube construiu sua imagem como a de um local para pessoas criativas se expressarem da melhor forma que podiam e compartilharem seus vídeos com o mundo. Independente da qualidade, valorizava-se o mero fato de serem trabalhos autorais. Portanto, quando se formou a figura do criador de conteúdo, vídeos de react eram muito mal vistos por essa comunidade. React nem mesmo era considerado “conteúdo” e virou sinônimo de youtuber preguiçoso, sem qualquer talento e ganhava dinheiro roubando vídeos de terceiros.
Você podia perguntar para o público ou para outros youtubers, ninguém aprovava react. Não que as pessoas não reagissem ao conteúdo uns dos outros. Entretanto isso era feito com muito mais tato, edição e roteiro. Quem se limitava a apenas sentar a bunda numa cadeira, rodar o vídeo original e parar de minuto em minuto para adicionar uma interjeição ou uma reação exagerada que não dá o efeito cômico que muitos acreditam que produz, era visto como piada. Agora o que mais tem é gente fazendo isso. O que mudou? Será que as pessoas aprenderam a fazer react certo? Ou talvez seja por que as pessoas “certas” passaram a fazer react?
Resolvi falar desse tema por causa de um vídeo que o Mateus505 lançou esses dias. O Mateus já está no YouTube há uns anos e conseguiu criar um canal de sucesso ainda que ele não seja um criador de conteúdo tão conhecido e reconhecido. A maioria dos vídeos foca em comédia, mas de vez em quando ele também traz comentários sobre cultura pop ou sobre alguma figura do YouTube. Eu fui conhecer o Mateus505 pelo vídeo “O Problema com Felipe Neto” que viralizou na época e até hoje é o mais visto do canal dele. Há umas semanas ele deu outra viralizada mais uma vez com “Felca se perdeu no personagem”. Nele o Mateus tece algumas críticas o Felca, que já era um youtuber bem popular e se tornou um fenômeno para além da plataforma depois do seu vídeo sobre adultização.
Por falar de um dos maiores nomes do YouTube atual, era óbvio que o vídeo do Mateus505 ia viralizar. Diria até que causou um impacto maior do que o do Felipe Neto porque ele sempre foi uma figura muito crítica por diferentes pessoas. O Felca, ainda que tenha seus detratores, ainda goza da estima do público geral. De qualquer forma, “Felca se perdeu no personagem” está com 800 mil visualizações até o momento deste texto.
Como tudo que viraliza, uma penca de youtuber começou a reagir ao vídeo do Mateus. Isso deu a ele a oportunidade de aproveitar um roteiro que escreveu há muito tempo, mas nunca teve a vontade de gravar, sobre “O problema com reacts”. Quem quiser conferir:
Eu não queria comentar isso, mas como já tem twitteiro chato apontando isso para se achar genial, o Mateus não foi o primeiro a criticar reacts. Se eu não me engano o Philipe Peters já abordou esse assunto e também tivemos o Cartoonizando. Como eu não sou abutre feito igual os extintos canais de opinião, não falei do caso dele por se tratar de uma história sensível que felizmente não teve um desfecho trágico. Teve um gringo também, DarkViperAU, que é mais conhecido pelos seus vídeos de GTA, fez uma toda uma playlist sobre esse tema. Portanto, mesmo depois que houve uma mudança da opinião pública, vídeo de react continua sendo objeto de muita crítica.
Nunca cheguei a abordar o assunto aqui no blog, talvez eu tenha feito alguma menção em algum texto, mas eu também não sou chegado a reacts. Não é apenas que eu não goste, minha opinião vai muito na linha do que o DarkViperAU já falou. Para mim, react é roubo e todo criador de conteúdo que aderiu ao formato é um parasita de conteúdo. Recentemente expliquei um pouco da minha visão lá no meu perfil, contudo cada vez mais eu detesto a limitação de caracteres do Twitter. Por isso eu me vi obrigado a explicar num texto mais longo.
Eu me tornei o “hater #1 de reacts” há muito tempo, antes mesmo dos vídeos supracitados. Eu já achava o formato ruim e o que deixa ele ainda pior para mim era saber como ele se popularizou, ou melhor, se normalizou em cima de uma enorme hipocrisia da comunidade.
Nas minhas andanças pela internet, por vezes eu me deparei com a história de algum influencer ou criador de conteúdo que tentou pagar um profissional (editor de vídeo, ilustrador, etc.) com a dita divulgação. Hoje eu acho que o termo que usam é exposição, mas prefiro o outro. Não importava se a pessoa em questão fosse mais famosinha ou não, todo mundo vinha com paus e pedras. Afinal, é uma atitude que merece toda crítica porque não tem que discutir. A pessoa te prestou um serviço, você o valor que lhe é devido.
Divulgação pode até ser usada como um bônus. Não custa nada dar um destaque para um profissional cujo trabalho te deixou muito satisfeito. Só que ela não serve como pagamento. Não há garantia nenhuma que essa pessoa irá receber novas oportunidades só porque você apontou e disse “foi ela quem fez!”. Engajamento não paga conta de luz, mercado não aceita curtida. Para mim estavam todos de acordo com isso. Aí imaginem a minha surpresa quando os youtubers mais queridinhos passaram a fazer react de outros youtubers menores, com a justificativa que estariam divulgando o vídeo original e o público aceitou isso de bom grado?
Percebi agora que estou martelando muito os youtuber, mas tudo que eu falei e que ainda vou falar se aplica a streamers. Eu só não me preocupei em fazer uma distinção porque, se tratando de reacts, tudo que é gravado numa Twitch ou numa Kick da vida acaba sendo repostado no YouTube. Até brinco que essas plataformas são suas subsidiárias. Então saibam que quando falo de vídeo de react eu também me refiro aos streamers.
Eu tenho minhas teorias sobre porque esse papo de divulgação colou para reacts. Por exemplo, uma delas é que ainda tem muita gente que não considera o YouTube como trabalho, então não vê problema em gente se apropriando dos vídeos de terceiros. Acho que também aqueles canais que eram só comentário com gameplay de fundo diminuíram bastante o padrão do que as pessoas consideravam aceitável na plataforma. A dinâmica das lives também tiveram influência nisso porque a pessoa tinha que preencher o restante das horas com algo melhor que a sua própria personalidade. Porém isso é muita especulação da minha parte, então focarei em outros pontos.
O primeiro é o que mencionei há pouco, que o pessoal releva só porque quem está reagindo são youtubers que eles gostam. Nos últimos anos, teve uma porrada de criadores de conteúdo que já tinha se estabelecido no YouTube e conquistado uma comunidade própria que acabou por aderir ao formato. Alguns mudaram totalmente, outros intercalaram com seus outros vídeos, às vezes até criando um segundo canal para postar reacts feitos em live. Alguns exemplos que me vem à cabeça: Maicon Küster, Orochinho, Goularte, Diggo e Luba.

É curioso notar que boa parte dessa galera ou fazia conteúdo mais voltado para humor/entretenimento ou então fazia parte dos, que também hoje são infames, canais de opinião. Portanto era muito mais fácil aceitar um rosto conhecido fazendo react do que um cara aleatório com um camisa amarela furada gritando “Olha os deuses, mano!”.
O segundo motivo é porque, diferente de tentar pagar um artista com divulgação, dá para dizer que existe um ganho para youtubers quando reagem a seus vídeos pois costumam ganhar inscritos. Não é a toa que sempre que essa pauta volta, alguém comenta como teve um crescimento no seu canal ao ser reagido por algum youtuber maior. Hoje mesmo eu esbarrei com um comentário em que alguém tentava justificar react falando em aumento de visibilidade. Contudo essa história nunca me convenceu.
Tal como não existe garantia que você vai receber trabalho porque um influencer te divulgou, também não existe garantia que esses novos inscritos irão de fato acompanhar o canal que começaram a seguir por causa de um react. E mais do que isso, não é como se reagir ao vídeo de uma pessoa fosse a única forma de divulgá-la para o seu público. Você pode citar o canal, compartilhar nas suas redes, passar um trecho de algum vídeo que seja pertinente ao seu conteúdo, pode chamar para collabs, etc. Desde que o YouTube é YouTube essas práticas existem e funcionam de maneira muito mais orgânica do que a falsa promessa que os reacts trouxeram.
Por fim, o terceiro motivo é um que eu acho mais pertinente nesta discussão: youtubers não estão em pé de igualdade. Existe uma relação de poder implícita em qualquer plataforma. Aqueles que já consolidaram suas comunidades exercem influência naqueles que estão começando agora ou tem um alcance menor. Imaginem que você é um pequeno criador de conteúdo que há pouco tempo conseguiu monetizar seu canal. Aí vem alguém do tamanho do Luide e faz uma react de um vídeo inteiro seu. Você vai reclamar sabendo que a comunidade dessa pessoa é dezenas de vezes maior que a sua? Ou então você vai exigir que todos os criadores de conteúdo peçam permissão antes de reagirem a algo seu? Você, o FodidinhoDaSilva123? Óbvio que não!
O Linck do Quadrinhos na Sarjeta é conhecido por não deixar que façam reacts dos seus vídeos. Pelo menos não do canal principal, acho que corte de live ele não liga. Sabem por que ele é capaz de sustentar isso? Primeiro porque o Linck é insuportável e segundo porque ele já se firmou no YouTube. Ele pode não ser um dos grandes, o canal está chegando no meio milhão de inscritos, mas já tem muita gente recomenda e acompanha os vídeos dele, tem clube de membros, faz lives, tem canal de cortes e consegue pegar de 100 até 300 mil visualizações com tranquilidade no seu conteúdo principal.
Se acharem ele o chatão – e o Linck é mesmo o chatão – por não querer que façam react, ele pode dar de ombros sem pensar duas vezes. O Quadrinhos na Sarjeta vai continuar ganhando visualização organicamente. Já um canal que vai soltar fogos se chegar aos 100 mil de inscritos não se pode dar ao luxo de peitar quem está acima dele.
É por isso que me irrita demais quando vejo um reacteiro tentar justificar o roubo de conteúdo alheio dizendo que os dois lados saem ganhando. É mentira! Ou, na melhor das hipóteses, uma meia verdade. Quando dizem que quem reage e quem é reagido ganha com o react eles fazem parecer que essa é uma relação de protocooperação dentro do YouTube. Se você não se lembra das aulas de biologia (vamos fingir que eu não estou com a aba da Wikipédia aberta aqui), protocooperação é quando existe uma relação harmônica não obrigatória entre duas espécies em que ambas se beneficiam. O youtuber de react não precisa reagir ao seu vídeo, mas se o fizer, ele estará ganhando visualizações e você -> supostamente <- também.
Lindo, não? Se fosse verdade…
A minha visão é outra. Como destaquei no título, eu enxergo essa relação como algo mais próxima a de um parasitismo. O youtuber de react está retirando do criador de conteúdo original os recursos necessários para sua sobrevivência (visualizações) e a parte discutível é o quanto isso lhe causa algum prejuízo. Talvez prejuízo não seja a palavra mais adequada e sim que os tais benefícios a corja reacteira alega existir sejam muito menores. Vamos voltar ao Mateus505.
Para relembrar, neste momento o vídeo sobre o Felca tem 802 mil visualizações. Não tenho problema em admitir que ALGUMAS delas vieram do público dessas dúzias de canais de react. Entretanto, não foi por causa dessa galera que o vídeo do Mateus viralizou. Muitíssimo pelo contrário! Se tantos youtubers reagiram é porque essa era a pauta do momento. Por esse motivo, eu diria que os reacts deram visualizações incrementais a um vídeo que já tinha sido assistido em massa. Todo mundo adora uma fofoca e um barraco. Soma isso aos algoritmos do YouTube e de outras redes sociais e você não precisa de muito para impulsionar um vídeo criticando o Felca.
Sabe uma coisa que esses canais de react nunca tem a honestidade de falar? É como o formato é amplamente mais vantajoso para ele do que para o vídeo que estão reagindo. Uma coisa que o Mateus505 fez no seu vídeo sobre reacts que eu gostei muito é que ele botou os números para fora. O vídeo do “Felca se perdeu no personagem” levou cerca de um mês para ficar pronto e tinha 790 mil visualizações quando o Mateus soltou o outro. Todo mundo sabe que o YouTube paga um valor para os youtubers que têm canais monetizados. Contudo, algo que não é tão comentado, é que esse valor não é fixo.
Existe uma espécie de “leilão” em que os anunciantes colocam o quanto eles estão dispostos a pagar por determinado canal. Então cada criador de conteúdo vai ter uma receita que não é exatamente proporcional a quantidade de visualizações quando comparadas a outro canal. No caso do Mateus505, segundo suas próprias palavras, hoje ele recebe em torno de um dólar por cada mil visualizações no vídeo. Já o Peter Aqui, canal de react do Ei Nerd, recebe três dólares. O Peter foi um dos youtubers que reagiu ao vídeo do Mateus, angariando umas 566 mil visualizações no seu react. Fazendo as contas – com os valores arredondados, por favor – o Mateus ganhou 790 dólares com seu vídeo e o Peter ganhou 1710, um pouco mais que o dobro e não precisando desprender mais do que uma hora do seu dia para isso.
Mas a questão aqui não é apenas que o vídeo do Peter fez o dobro da renda com um décimo do esforço do vídeo original. Essa desigualdade vai um pouco mais além. Pensem, o Ei Nerd não gerou esses quase 800 dólares para o Mateus505. Ele contribuiu com no máximo um punhadinho de dólares. Todo resto é fruto do esforço do próprio Mateus, neste vídeo e na construção do seu canal há tantos anos. Por outro lado, podemos afirmar que o vídeo sobre o Felca gerou esses 1710 dólares para o Peter. O Mateus fez todo o trabalho e o Ei Nerd precisou só passar o vídeo dele com uns comentários superficiais para ganhar muito mais com muito menos. Só sendo muito cínico para não achar que um lado está em ampla vantagem pelo outro.
Ah, mais um detalhe! Foi necessário quatro semanas para o Mateus fazer o vídeo sobre os reacts. Nesse intervalo o Peter fez 24 reacts de outros vídeos de terceiros, cada um desses com mais de 100 mil visualizações. Preciso fazer as contas?
Para tentar validar a existência do formato e dizer que não está roubando conteúdo, os youtubers costumam dizer que o react agrega valor ao vídeo original pelos seus comentários. Eles têm até o adjetivo bonitinho para isso, é “transformativo”. Gente, vamos ser sinceros aqui, se tiver uns cinco youtubers que conseguem de fato adicionar algo substancial ao conteúdo já é muito. São poucas pessoas que estão capacitadas para fazer um react verdadeiramente transformativo que é feito assim no improviso. E olha que eu nem falo isso como crítica.
O Faustão tem o famoso bordão de “quem sabe faz ao vivo”. Por ser algo que já escutamos tantas vezes, a gente não se dá conta da sabedoria que existe por trás dessas palavras. Entreter as pessoas em tempo real é uma habilidade que exige um tremendo jogo de cintura e raciocínio rápido. Repertório também ajuda bastante porque você tem mais o que falar, porém que repertório aguenta não sei quantas horas de live? É mil vezes mais difícil tecer um comentário, seja para fins de reflexão ou de humor, ali no calor do momento do que quando você pode sentar, roteirizar, revisar e editar o material.
Aí quando você pega para analisar friamente esses reacts é visível o quão pouco de substância agregada existe ali. O que você mais tem é um comentário genérico e por vezes mal colocado porque a pessoa não se prestou a ouvir a linha de raciocínio toda, uma discordância vazia ou pouco ponderada, interrupção para falar de algo que nada tem a ver com o vídeo original, dar risada, fazer uma piadoca besta ou ter que ouvir um live pix de um espectador querendo ser engraçalharo pro chat e por aí vai. Isso quando a pessoa não fica apenas assistindo o vídeo com o mínimo de reação possível. O tal valor agregado é só uma grande barriga inserida para o react ficar com mais minutos que o original e assim se criar a ilusão que tem algo de relevante ali.
Então eu afirmo categoricamente que todo youtuber de react é na prática um parasita. “Ah, mas o Orochinho…”, parasita! “O Goularte…”, parasita! “Tem dia que o Maicon Küster…”, parasita! “O Luide é legalzinho…”, foda-se, parasita também. Só não digo que não tenho nada contra essas pessoas porque elas fazem react e deixei bem claro como desaprovo o formato. Porém não encarem como um julgamento do caráter delas. O Luide, por exemplo, é alguém que eu nutro bastante simpatia e até tento ver um react ou outro para ver se um dia eu mudo de ideia. Até agora não moveu minha opinião nem um centímetro sequer para trás.
Eu só quis ser sincero a respeito do formato que eles decidiram aderir que para mim é roubo. Todos eles se beneficiam muito mais, e com muito menos esforço, do que quem eles reagem e raramente agregando algo de relevante para o conteúdo original. Por isso que agora vejo muito mais gente reagindo a um podcast, um corte de live, um pronunciamento público. É menos zoado do que você reagir a um vídeo completo, feito ao longo de semanas e talvez meses de trabalho. Porém, mesmo nesses outros casos, ainda tenho dificuldade de encontrar esse tal valor transformativo no react. É só uma piadinha besta, um comentário banal, uma interjeição qualquer jogada pro chat.
A única utilidade real que o react criou no YouTube é justamente aquela que essa galera faz de tudo para não admitir que está na essência do formato: deixar de dar uma visualização para o vídeo original!
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