
Mais um dia, mais uma treta! Não posso evitar de comentar, afinal alguém aqui está desesperadamente tentando fazer este blog dar algum dinheiro antes de 2035. Junho marcou uma bateria de eventos de jogos e junto deles também veio uma bateria de discussões, “discussões” e (não) discussões. Eu poderia explicar a diferença entre cada uma delas, mas a vida fica melhor com alguns mistérios.
O último dos eventos foi o Nintendo Direct que aconteceu no dia… sei lá! Um dos seus maiores destaques foi o anúncio do remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time que será lançado ainda este ano. É evidente que aquele que é considerado um dos melhores de jogos de todos os tempos – quando não o melhor – em algum momento precisaria de um remake já que videogame não é arte*.
*outro ponto para o Roger Ebert!
Horas depois eu me deparo com um meme de Kung Fu Panda falando que GTA VI finalmente terá um oponente a altura para o prêmio de Game of the Year (GOTY). Aqui eu tenho que ser transparente com o meu viés. Eu reviro meus olhos para QUALQUER discussão que envolva a premiação daquele miliciano chamado Geoff Keighley. Mas admito que a culpa não é dele. É só que eu fico com a impressão que sempre são as pessoas mais chatas do mundo se importam com quem vai ganhar o prêmio. Enfim, vamos colocar minhas rusgas com o GOTY de lado porque ainda faltam muitos meses para entrar nessa pauta.
Logo depois desse meme, eu acabei vendo um segundo, também de GTA e The Legend of Zelda, colocando a Rockstar com medo de um suposto lançamento do remake de Ocarina of Time próximo ao de GTA VI. Tanto este meme quanto aquele outro me pareceram coisas bem bobas feitas por gamer médio tentando pescar engajamento de outros gamers médios. Esse punheta apressada com premiação e a preocupação com número de vendas de um jogo que nem mesmo foi lançado, passa a mesma energia de quem fica tentando adivinhar a “nota” do Metacritic. Nenhuma delas importa de verdade, porém as pessoas (não) discutem como se importasse.
Pois bem, era era para ser só mais um dia de eu sendo um ranzinza inveterado com o meme alheio. Contudo, olhando comentários da postagem e depois em outros cantos em que o assunto repercutiu, me deparei com uma gente que DE FATO acreditava que esse remake de Ocarina of Time poderia impactar nas vendas de GTA VI. Por consequência, a (não) discussão evoluiu para um GTA vs Zelda em que cada lado queria defender qual dessas duas franquias era a “maior”.
…
*sigh*
Ok, a partir de agora eu vou tentar parar com a sequência de piadinhas e falar sério com vocês. O assunto já deveria ter morrido ali nesse delírio de que um jogo de The Legend of Zelda, fosse remake ou fosse um original, poderia afetar as vendas do novo GTA. A gente não precisa nem de adotar uma posição neutra (até porque essa neutralidade não existe) para admitir que isso nunca aconteceria. Basta sermos honestos com o que temos de material. Eu acho a franquia de The Legend of Zelda quilometricamente mais interessante do que qualquer um dos títulos de GTA, incluindo o San Andreas que é aquele por qual nutro mais nostalgia. Porém é evidente que não existe a mais remota possibilidade de um jogo competir com outro.
Nintendo e Rockstar possuem públicos distintos, ainda que possamos encontrar interseções entre eles. Já começa que temos dois modelos de lançamento diferentes. GTA VI, quando sair, será multiplataforma enquanto o remake de Ocarina of Time será exclusivo do Switch 2. Mesmo que todo fã da Nintendo comprasse o remake, GTA ainda teria o público do PlayStation, do Xbox e, depois de um período, o de computador. Contudo, mais do que isso, as projeções de venda desse GTA VI já superam The Legend of Zelda como franquia.
GTA V – que vamos nos lembrar que atravessou três gerações de Playstation e Xbox – hoje já vendeu mais de duzentas milhões de cópias. O único a superá-lo é Minecraft. Na verdade tem Tetris, só que esse é um caso especial que necessitaria de todo um contexto que não estou disposto a dar. Quanto a The Legend of Zelda, seu jogo mais vendido é Breath of the Wild, com um pouco mais de 30 milhões de cópias. A série como um todo está em torno de 150 milhões, menos que apenas o GTA V. Por isso eu até brinquei lá no meu perfil que se GTA VI vendesse igual um Breath of the Wild, todos os acionistas da Take Two pulariam da janela.
Só que tem um detalhe: tudo que eu falei acima é um tremendo de um FODA-SE. Gamer nenhum deveria ficar se importando com qual joguinho gera mais receita que o outro joguinho. Ninguém aqui recebe dividendo dessas empresas. Isso parece muito mais parte de algo que eu comecei a chamar de “narcisismo do consumo” que também se conecta com essas brigas chatíssimas sobre GOTY.
Como esse assunto das vendas não tinha para onde ir, a (não) discussão de GTA vs Zelda resolveu mudar de curso. Assim várias pessoas começaram a perguntar qual delas seria “maior”. Se tratando de duas fanbases numerosas e emocionadas, já dava para imaginar que viraria briga de torcida (des)organizada. Eu já odeio esse tipo de (não) discussão, mas nesse caso foi ainda pior. Da forma que foi colocado, o questionamento se perde no abstrato. Pois, afinal, o que seria “maior”? É a com mais jogos? É a melhor? Mas como vamos medir essa qualidade? Recepção da crítica ou dos jogadores? Ou então “maior” seria a mais importante, a mais influente? Influência em exatamente o quê? E, de novo, como iremos medir essa tal influência?
No final das contas a gente sabe que tudo isso se resume a qual franquia você gosta mais. Individualmente pelo menos deveríamos saber disso. Só que a internet existe no coletivo, né? Aí começou o show de medição de piroca eletrônica em que cada lado queria mostrar quem era mais Kid Bengala games. Eu tenho que caracterizar de maneira tão chula, porque é uma (não) discussão que se manifestou sem muita honestidade. Essas pessoas que estavam, algumas ainda estão, nesse assunto não querem mostrar o real papel que GTA e The Legend of Zelda desempenharam na história dos videogames. O barato delas vem apenas de antagonizar o outro lado com qualquer opinião maluca.
Uma comparação esdrúxula que tentaram fazer foi de colocar uma foto de GTA II ao lado de GTA III com a legenda “GTA antes de Zelda // GTA depois de Zelda”. Isso é de uma pobreza galopante fazendo parecer que Ocarina of Time foi esse divisor de águas no que tange jogos 3D e, ainda mais especificamente, jogos 3D de mundo aberto.
Com isso eu não estou diminuindo a importância do jogo nesse período histórico. Até porque o próprio diretor de GTA III já admitiu que teve influências de Zelda. A questão é que Ocarina of Time não nasceu no éter. As pessoas ignoram que ele vinha na esteira de mais de uma década de outros títulos já experimentando com elementos de mundo aberto. Inclusive a própria Nintendo já tinha feito isso no Nintendo 64 com o Super Mario 64 (1996). Era natural que The Legend of Zelda recebesse o mesmo tratamento por ser uma das grandes propriedades intelectuais da empresa.
Portanto o problema não é encher a bola de Ocarina of Time e sim perpetuar essa ideia de um jogo messiânico que é responsável por mudar toda uma indústria. Até parece que ela não é composta de vários agentes contribuindo paralelamente na construção da história da mídia de acordo com tendências e movimentos diversos. O que costuma acontecer é que alguns títulos acabam por popularizar determinadas mecânicas que ou já tinham sido ou estavam sendo testadas por outros estúdios. O próprio GTA também não pode ser colocado num pedestal de “cidade aberta” quando antes dele também vieram jogos como Shenmue (1999) e Driver 2 (2000).
Seria o mesmo que tentássemos entender a história da gênese, por exemplo, do survival horror apenas olhando para o primeiro Resident Evil de 1996. Ou então, para tentar criar um GTA vs Zelda do terror, rivalizá-lo apenas com Silent Hill que veio três anos depois. Assim estaríamos ignorando as contribuições que jogos como Alone in the Dark (1992) e Clock Tower (1995) tiveram no imaginário do que seria uma survival horror. Isso sem contar o clássico de 1989, Sweet Home, que é de onde surge a ideia original para o que viria ser Resident Evil.
Nesse sentido, GTA vs Zelda se torna uma (não) discussão porque é visível que as pessoas não estão discutindo a história dos jogos de mundo aberto, de jogos 3D ou simplesmente dos jogos. São provocações intermináveis porque o que essa galera quer é que o jogo favorito DELA seja chamado O Mais Importante dos Videogames™. Não exatamente porque ele merece esse título, mas porque existe uma espécie de orgulho nisso. Ainda mais em redes sociais onde o “consumir mídias” vira a personalidade e a moral dessa pessoa.
Por isso que a gente vê maluco discutindo que Uncharted 4 merecia mais ser GOTY do que Overwatch. Ou então a enfadonha disputa entre God of War (2018) e Red Dead Redemption 2. Ou como o prêmio de Astro Bot foi comprado, pois ele deveria ir para Black Myth: Wukong/Final Fantasy VII: Rebirth/DLC de Elden Ring/sei lá mais quem estava concorrendo aquele ano. Não tem mérito real nisso, porque não temos como medir esse mérito. É tudo questão de qual você queria que ganhasse. É isso que chamo de “narcisismo do consumo”, é a mesma coisa que está acontecendo na (não) discussão de GTA vs Zelda.
Pode até ser que tem um ou dois ali que estão de fato discutindo com toda sinceridade. Mas grande parte só quer força uma grandiosidade especial na sua obra favorita, ignorando que ela não é única na história, para que vejam o seu gosto pessoal também nesse grau de superioridade.
Ou então essas pessoas apenas não sabem do que estão falando e eu estou aqui perdendo meu tempo com psicanálise freestyle gamer!
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