Resident Evil (2026) e o [i]letramento do fã mimado

Cena do filme Resident Evil (2026), do diretor Zach Cregger, mostrando o protagonista Bryan levando uma mulher infectada no seu carro

Como eu avisei semana passada, ontem eu fui ao cinema para assistir Resident Evil (2026), a mais nova adaptação live action da maior franquia de jogos de terror das últimas três décadas, dirigida por Zach Cregger. Para tecer uns comentários breves, este para mim foi o seu melhor filme. Depois de se (re)apresentar ao mundo com Noites Brutais (Barbarian, 2022) e conquistar o público com A Hora do Mal (Weapons, 2025), agora ele mostra toda sua segurança e eficiência na condução de um projeto evidentemente comercial de maior escala.

Resident Evil (2026) é um tenso e divertidíssimo pastiche de elementos que compõem tanto os jogos quanto os interesses do diretor. Uma dupla perfeita, eu diria. Temos um pouquinho de terror, misturando sci-fi com body horror, um pouquinho de ação e um pouquinho de comédia. É um excelente filme tal como é uma excelente adaptação de Resident Evil. Entretanto, tenho plena certeza que alguns fãs da franquia irão discordar desta última afirmação. Não só tenho certeza como já esbarrei com vários comentários nessa linha.

Tendo gostado tanto dessa adaptação e querendo trazê-la para o blog, isso me deixava com duas escolhas: A) eu fazia um texto com uma crítica ao filme ou B) eu fazia um texto com uma crítica aos fãs. Quem me conhece, tanto pessoal quanto redesssocialmente, sabe qual das opções eu escolheria. Mas se não me conhece, não irei te fazer perder tempo. Se o que procurava era uma crítica tradicional, existem pessoas mais competentes por aí como o Diego Quaglia falando do filme. Eu, por outro lado, só estou aqui para exercitar a maior habilidade que eu tenho que é a de brigar com o fã mimado.

Se já deixo transparecer a minha animosidade em relação a fanbase é porque os meses que precederam a estreia do filme foram insuportáveis. Desde o primeiro trailer que tive o desprazer de ler o discurso mais vazio a respeito de adaptações e de Resident Evil em geral. Tanto é que, como mencionei no meu último texto e repito aqui, passei a considerar seus fãs como pessoas iletradas. Essa é uma palavra que eu escolhi cuidadosamente e não para ser um mero insulto. Embora eu admita que em parte é só para ofender mesmo.

Letramento, ou nesse caso o Iletramento, é um termo que me pego pensando no contexto de fanbases há algum tempo. Aqui eu vou pedir emprestado as palavras da professora Magda Soares no Glossário Ceale da UFMG, onde ela cria uma distinção entre alfabetização e letramento:

Entretanto, na tradição da língua, no senso comum, no uso corrente, e mesmo nos dicionários, alfabetização é compreendida como, restritamente, a aprendizagem do sistema alfabético-ortográfico e das convenções para seu uso: a aprendizagem do ler e do escrever.

[…] o letramento: o desenvolvimento das habilidades que possibilitam ler e escrever de forma adequada e eficiente, nas diversas situações pessoais, sociais e escolares em que precisamos ou queremos ler ou escrever diferentes gêneros e tipos de textos, em diferentes suportes, para diferentes objetivos, em interação com diferentes interlocutores, para diferentes funções.

Ou seja, alfabetização é esse processo mecânico no qual aprendemos a reconhecer, entender e reproduzir as letras do nosso alfabeto. Letramento, por sua vez, é a condição do pleno uso da alfabetização para compreender textos e também conseguir se expressar através da escrita. De acordo com diferentes tipos de contexto, vale reforçar. Assim podemos aplicar esse conceito do letramento em mídias como filmes, séries, livros e videogames. Ou seja, o letramento aqui seria a nossa capacidade de interpretá-las segundo a linguagem de cada mídia. Aparentemente o fã, não só de Resident Evil, não sabe fazer isso muito bem!

Bryan trancando a porta da maternidade enquanto os mutantes o perseguem

Vou repetir uma anedota da divulgação Resident Evil (2026) porque para mim ela é a que mais escancarou a incapacidade do fã de interpretar qualquer coisa. Seja por falta de letramento, seja por uma imensa má vontade com a adaptação, seja por ambas as coisas. Lá atrás, quando o Zach Cregger começou a dar suas primeiras entrevistas sobre o filme, ele mencionou que enxergava sua história acontecendo como algo paralelo aos eventos de Resident Evil 2. O que o Cregger quis dizer com isso é que queria construir uma trama em que o personagem chegava à Raccoon City durante a epidemia do T-vírus, se encontrando num pesadelo infernal do qual ele precisa escapar.

Só que não foi isso que o fã entendeu, né? Algumas pessoas interpretaram as palavras do diretor no sentido mais literal possível, acreditando que aquela seria uma história que se passava no mesmo universo do jogo. Quando saiu aquele maldito trailer, essas pessoas começaram a encrencar com os detalhes mais absurdos possíveis. Dois que estarão para sempre marcados na minha cabeça são o fato do filme não se passar em 1998 e por estar nevando. Essa não só foi uma demonstração de não entender as palavras do Zach Cregger como também entender a própria franquia.

Os eventos de Raccoon City terem acontecido em 1998 no universo dos jogos não é porque essa é uma data importante. É apenas uma consequência do período em que Resident Evil 2 foi desenvolvido. Seus jogos tendem a se passar em épocas mais ou menos próximas das suas produções. Então se o tempo passa para a gente, ele também passa no universo de Resident Evil. Algo que inclusive já vem criando dificuldades na franquia para continuar inserindo os personagens clássicos nos jogos mais recentes. Os personagens masculinos ainda aparecem, mas aparentemente a Capcom é proibida por lei de colocar uma protagonista mulher com mais de 40 anos.

Isso não significa que toda interpretação de Raccoon City precisa necessariamente se dar em 1998. Ainda mais uma adaptação que surge a partir dos jogos, no sentido de ser uma extensão da sua linha do tempo, e sim inspirada neles. Contudo o fã não consegue aceitar isso porque ele se convenceu que esses dados compõem as “regras” de Resident Evil. E por serem “regras” elas devem ser respeitadas, não é mesmo?

Se a data já era uma bobagem, a implicância com a neve é pior. Mostra outra incapacidade de entender coisas além de um sentido prático. Neve não serve apenas para indicar que os personagens vão sentir frio e criar uma estética bonita para a fotografia. Ela carrega simbolismos como tudo que vemos se manifestar nas artes. Dependendo do contexto ela pode simbolizar isolamento, pureza ou morte. A trama de Resident Evil (2026) envolve um protagonista viajando até uma cidade para fazer uma entrega e lá ele encontra uma dezena de perigos. Que sentimentos vocês acham que a neve está evocando nesse contexto? Além disso, podemos até fazer uma associação de cores. Contrasta o branco da neve e o vermelho do sangue e o que você tem? São tons que remetem a logo de uma tal de Umbrella, que eu ACHO que é importante nos jogos.

Mas o fã pensa nessas coisas? Não! Ele vai lá olhar imagens do original, ver que não tem nenhuma neve em momento algum e concluir que a adaptação está errada em adicionar esse novo elemento. Foda-se simbolismo e foda-se semiótica. Se não está no cânone dos jogos, a nossa Bíblia Sagrada gamer, não pode!

O que estava ruim apenas piorou. Porque a partir dessa implicância começou um tremendo exercício de cinismo para dizer que não havia nada no filme que remetesse aos jogos. Assistindo Resident Evil (2026) eu cheguei a rir de como é exatamente o oposto. Diria até que a adaptação vai além do necessário para criar associações explícitas à jogabilidade de Resident Evil. Tem até dois diálogos em momentos distintos para encaixar a palavra videogame na cena. A primeira chega a ser natural, a segunda me pareceu quase uma exigência dos produtores.

Para citar o mais superficial: o protagonista passa o filme inteiro encontrando armas novas. Primeiro ele pega a pistola de um policial, depois ele consegue uma escopeta numa fazenda e por fim encontra uma submetralhadora num carro. Entretanto, o mais importante aqui é a pistola, porque ao conferir o pente o protagonista vê que ele só tem mais quatro armas. Isso cria uma tensão em nós, a audiência, porque a partir daí toda vez que ele dá um tiro a gente pensa que ele tem uma bala a menos. Porém, para quem está familiarizado com os jogos, isso evoca a ideia de recursos limitados que está no cerne dos survival horrors. Pelo amor de Deus, tem até uma cena que o cara encontra uma caixa de munição numa gaveta!

Mas dá para ser um pouco mais elegante nas comparações.

Uma das criaturas que aparece no filme de Resident Evil (2026) feita de um amontoado de corpos

Demora um pouco para aparecer o título de Resident Evil no filme. Considerando que ele tem pouco mais de uma hora e meia de duração, o prólogo é bem lento. Ele termina com o protagonista caminhando até uma fazenda sem saber do perigo que lhe aguarda lá dentro. Mas, claro, como o personagem se chama Bryan e não Ethan e aquela não é a Baker’s Farm, toda essa sequência não lembra em nada Resident Evil 7, né? Aliás, se o Cregger tivesse colocado esse nome na fazenda, eu consigo até visualizar o fã ajeitando seus óculos imaginários e dizendo “na verdade os Bakers moram em Louisiana e não nos arredores de Raccoon City” para se sentir mais esperto que o filme.

Resident Evil (2026) tem diversos mutantes e o que mais se destaca é uma criatura formada pela união de vários corpos que parece ter um interesse particular no Bryan. Quase um nêmesis dele. Ao longo de todo o filme o monstro o persegue e a gente pode interpretar que é uma representação da família que o Bryan está, metafórica e literalmente, fugindo desde o início. Contudo, ter um monstro perseguindo o protagonista do começo ao fim com toda certeza não faz uma associação com Resident Evil 3, né? Afinal é um amontoado de corpos (com tentáculos, diga-se de passagem) e não um brutamontes de mais de dois metros que grita “S.T.A.R.S!” toda vez que vê o Bryan.

Por último, tem um dado momento que o protagonista precisa escapar do seu perseguidor pelos esgotos. Próximo da saída ele encontra um novo mutante, um homem gordo cuja barriga se rasga e libera dezenas de ratos. De maneira alguma isso é uma referência a Resident Evil 2 porque cadê os corpos dos soldados da Umbrella? Cadê aquele crocodilo gigante? Cadê o William Birkin com seu cano de ferro? Também quando Bryan precisa ir até o Hospital Geral de Raccoon City onde existe a possibilidade de uma cura para o vírus, duvido que o filme esteja referenciando outra vez o Resident Evil 3. Imagina! Até porque quem vai lá é o Carlos depois que a Jill é infectada pelo Nemesis e nenhum desses três personagens aparece nessa adaptação.

O que as reações à Resident Evil (2026) nos mostram é que o fã é sim alfabetizado em Resident Evil. Se você mostrar uma mulher de tomara que caia azul, minissaia preta e uma blusa branca amarrada na cintura, ele sabe que é a Jill Valentine. Ele também sabe que o gigante cinzento usando um sobretudo é o Mr. X. O acrônimo R.P.D? Raccoon Police Department! S.T.A.R.S.? Special Tactics and Rescue Service!

E o cara de loiro de boina vermelha? É o Wesker!

O fã supostamente jogou várias horas de vários Resident Evil diferentes e com certeza leu todas as páginas wiki que conseguiu. Então ele consegue reconhecer todos os signos mais explícitos e se dar um tapinha nas costas, satisfeito que é um fã de verdade e não um “larper”. Mas qualquer coisa que exija um pouquinho mais de interpretação, um mínimo de entendimento da tradução intersemiótica, ele recua esbravejando que aquilo não pode ser Resident Evil e está desrespeitando o material original. Plenamente alfabetizado, porém profundamente iletrado!


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