
Nesta tarde que vos escrevo foi lançado oficialmente Marvel’s Wolverine (que por licença poética irei me referir como Wolverine™), o mais novo título da Insomniac Games. Alguns gamers já correm para comprá-lo, entretanto, não dá para dizer que a recepção do jogo foi exatamente aquilo que os desenvolvedores esperavam. Semanas atrás as pessoas se divertiram com comparações nada generosas com Ben 10: Protector of Earth. Para piorar, com a queda do embargo das reviews dias atrás, todos puderam conferir a média de 77 que Wolverine™ teve no Metacritic.
A mente do gamer médio entrou em parafuso e agora ele busca um culpado para a “nota baixíssima” que o jogo recebeu. Para a infelicidade geral da Nação, os trambiqueiros de sempre já encontraram seu culpado e agora tumultuam alguns cantos escusos da internet. Agora, mais uma vez, temos a “ameaça fantasma” da Sweet Baby Inc à espreita!
Desde que iniciei os textos de “Como gamers mente para você”, meu dedo coça para escrever um sobre o caso da Sweet Baby Inc. Já a mencionei em vários artigos dessa série e, se eu não me engano, já até citei o fato que eu queria escrever sobre ela. Ou melhor, sobre o discurso que essa bolha de vigaristas midiáticos que se formou na comunidade gamer inventou. Porém, como de costume na história desse blog, outros planos e pautas foram surgindo pelo caminho. Mesmo assim, eu sabia que era só eu esperar que o tempo traria novas oportunidades. Dito e feito, cá estamos mais uma vez para falar de gamer que passa mais tempo fazendo guerrinha cultural do que jogando.
Desde muito tempo o gamer é condicionado a dar muito mais valor a marca do que os artistas por trás daqueles joguinhos que ele diz amar. Nomes como Shigeru Miyamoto ou Hideo Kojima podem se despontar, mas sejamos sinceros, é mais fácil alguém reconhecer a Rockstar Games ou o Dan Houser? Se eu falar em Michel Ancel, alguns gamers poderão olhar para mim e perguntar: “quem?”. Contudo, se eu falar em Rayman, esses mesmos gamers podem me dizer: “nossa, tô ansioso pelo remake”. Por isso que ao ver o estado atual da indústria, os gamers têm uma grande dificuldade em apontar para as empresas responsáveis por criar esse cenário. Bastou a Bethesda dizer que estão trabalhando em The Elder Scrolls VI e anunciar Fallout 5 que esqueceram da demissão em massa consequente do péssimo direcionamento que a gestão do XBOX deu para sua marca.
Pra ser um pouco justo na minha afirmação, nem todo gamer é capacho de empresa. Alguns são apenas ignorantes, no sentido mais brando da palavra. Eles sequer têm consciência do que anda acontecendo na indústria ou até mesmo na comunidade gamer. O problema é que existem outros ignorantes, agora no sentido mais severo da palavra, que são esses pleonásticos gamers reaças de direita. No passado contaram para eles a fábula do capitalismo e eles acreditaram. Então eles não podem aceitar que essas empresas multimilionárias cometem erros, tem que existir uma força externa que está parasitando o mercado. Nesse contexto que entra a Sweet Baby Inc.
Mas primeiro cabe a pergunta: o que diabos é a Sweet Baby Inc?
A resposta é tão simples que chega a ser ridículo quando você olha o tom conspiratório que esses gamers usam. Sweet Baby Inc é um estúdio criado por dois ex-funcionários da Ubisoft, Kim Belair e David Bédar, especializado no desenvolvimento de narrativas. Ou seja, eles atuam na roteirização do jogo (scriptwriting) – argumentos, diálogos, nomenclaturas, etc – leitura sensível e também prestam consultoria para outros estúdios.
Mas o que chamou atenção dos reacinhas de plantão é que o estúdio foca em práticas de diversidade, equidade e inclusão. A Sweet Baby Inc se propõe a ajudar na criação de personagens para garantir que sejam representados da melhor forma possível, livres de estereótipos e que melhor se encaixem no contexto dos jogos. É isso, pura e simplesmente uma empresa prestadora de serviços de um segmento bem específico.
Agora que sabemos o que ela é, cabe outra pergunta: por que diabos o gamer tem tanto problema com a Sweet Baby Inc?
Quem acompanha meus textos já tem a resposta. Mesmo depois de mais de uma década, a gente continua ouvindo os ecos do Gamergate. Não que a comunidade gamer tenha sido um ambiente mais pacífico antes. O advento das redes sociais e outras plataformas apenas permitiu que certos grupos se organizassem melhor e alimentassem suas teorias e suas inseguranças. Então, desde os anos 2010, temos essa bolha de gamers reacionários que vivem de esbravejar como militantes políticos se infiltraram nas empresas para empurrar a infame “agenda woke” no mundo dos games. Tudo porque eles passaram a ver cada vez mais personagens não cis hétero brancos marcando presença em papéis de mais destaque e histórias que não seguem suas fantasias infantis de poder.
Se no passado tínhamos a figura do conservador pentecostal que dizia que tudo era coisa do demônio, hoje temos o gamer reaça (que por vezes é um conservador neopentecostal pessimamente fantasiado) que acha que tudo é lacração. Os tempos mudam, mas o pânico moral é sempre o mesmo.

Meses atrás, vejam só, essa galera trouxe de volta até a Anita Sarkeesian, um nome que eu não ouvia há anos. Tudo porque algum arrombadinho com tempo demais e trabalho de menos descobriu que ela foi creditada como consultora em Slay the Spire 2. Naquele período, se você entrasse na Steam, nas reviews você encontraria duas coisas: um monte de chinês puto por algum motivo e uns desequilibrados falando que o estúdio contratou alguém que queria “destruir os videogames”. Essas palavras mesmo. Aparentemente essa é uma indústria tão frágil que uma mísera feminista que não está nos holofotes há quase dez anos pode ser uma ameaça.
De tempos em tempos esses alarmistas buscam um novo bode expiatório que não seja os estúdios que eles são incapazes de criticar. A culpa é sempre de um jornalista, de uma feminista, de um militante esquerdista, etc. Mas como bater em figuras metafóricas não dá tanto resultado, eles projetam suas conspirações em pessoas ou empresas como a Sweet Baby Inc. Esta é um caso especial porque conseguiram emplacar a ideia que todos os jogos em que ela se envolve acabam “flopando”.
Essa galera se aproveita que o gamer médio entende muito menos de videogame do que ele gosta de acreditar que entende. Por isso quando falam da Sweet Baby Inc eles destacam títulos em que o estúdio esteve envolvido, como Gotham Knights e Suicide Squad: Kill the Justice League. Além de ser tratar de licenças populares, é bem provável que você tenha ouvido falar (mal) deles mesmo sem tê-los jogado. Lá no Metacritic, a plataforma favorita do gamer que não sabe discutir videogame sem os critérios bestas como nota e número de vendas, qualquer um pode conferir que as médias desses jogos são, respectivamente, 67 e 60. Mesmo se a pessoa não acreditar na crítica, tem também as notas do usuários cujas médias são 5.3 e 3.5.
Para quem se encontra abaixo da linha de medíocre, isso parece um argumento convincente para dizer que a Sweet Baby Inc só se envolve com “flop”. Entretanto, uma coisa que eu reparei é que raramente essa galera menciona outros jogos nos quais o estúdio esteve envolvido. Três que me vem à mente agora são: God of War Ragnarok, Marvel’s Spider-Man 2 e Alan Wake 2. Por que será que não falam desses, hein? Será que é porque se usássemos os mesmos critérios de veríamos que estes têm médias de 94, 90 e 89 no Metacritic? E 8.3, 8.6 e 8.5 nas notas dos usuários! Como eu costumo dizer, o bom do cherry picking é que qualquer idiota pode fazer e o ruim do cherry picking é que qualquer idiota pode fazer.
Só que os fracassos e sucessos de todos os exemplos que eu citei não tem qualquer influência da Sweet Baby Inc. Porque, como qualquer pessoa minimamente honesta sabe, ELA NÃO É UMA DESENVOLVEDORA DE JOGOS. O papel que ela desempenho em todos esses jogos foi o mesmo que citei lá no começo: scriptwriting, leitura sensível e consultoria para histórias e personagens. Só isso! Então fica muito ridículo quando a gente olha os comentários sobre Wolverine™ e vê um sujeito babando porque o jogo teve “dedo” da Sweet Baby Inc. Faz quase parecer que a Insomniac terceirizou o desenvolvimento dele.
As críticas que esse jogo vem recebendo estão em sua maioria na jogabilidade. Reclamaram da linearidade, do excesso de dicas visuais que parecem tratar o jogador como idiota, QTEs que não punem em caso de erro, etc. Antes disso, também havia alguns usuários insatisfeitos com a direção artística do jogo no material que havia sido divulgado. Então numa generalização grosseira, podemos dizer que os problemas do jogo se encontram nas mecânicas e, talvez, nos gráficos. Que coisa não? Justamente duas áreas em que a Sweet Baby Inc não mexe!
Os caras nem mesmo se esforçam mais para esconder que só estão de alarmismo para cima do estúdio só para não ter que responsabilizar a Insommiac Games. Afinal, ela tem sucessos no seu catálogo então fica mais difícil de emplacar um discurso raso. Com a Sweet Baby Inc, que tem histórico (inventado), são outros 500. Já falaram que ela mudou a história de Wolverine™ e que mandou censurar “coisas” que de alguma forma tornaram o jogo pior. Claro, informações tiradas das vozes das cabeças deles depois que viram o estúdio listado nos créditos do jogo.
Chegaram até ao ponto de dizer que é por culpa da Sweet Game Inc que Wolverine™ ficou tão caro. Que aliás, não passa de um rumor. Circula por aí um desses comentários de insiders que o jogo custou por volta de 305 milhões de dólares. Como já coloram a ideia que Wolverine™ é um Jogo Ruim™, precisam questionar com que foi gasto esse jogo. Afinal se gastou muito dinheiro TEM que ser Jogo Bom™, né?
De novo, estão só se aproveitando da ignorância do gamer médio. A Sweet Baby Inc não tem nem 20 funcionários hoje e, mesmo tendo trabalhado com títulos AAA, ela também atende desenvolvedores indie e pequenos estúdios. Não dá para saber o valor exato dos contratos dela, mas pode ter certeza que não é tão alto se até desenvolvedor solo consegue uma consultoria deles. Qualquer que seja o valor, ele é irrisório comparado aos salários gastos nos quase cinco anos de desenvolvimento de Wolverine™.
Pelos próximos dias vocês verão um monte desses perfis com selinho azul do lado do nome esperneando como a Sweet Baby Inc fez mais uma vítima. As crias do Gamergate também vão sair do bueiro para falar como esse estúdio é um desserviço para os videogames e que arruinaram Wolverine™. Alguns estão nessa pelas migalhas que a monetização do Twitter lhes confere, outros porque são idiotas infantilizados que foram enganados pelos primeiros e tem aqueles que apenas são incapazes de tecer qualquer crítica pra Mamãe PlayStation e suas subsidiárias e precisam desesperadamente de alguém para botar a culpa. Independente de qual grupo eles se encaixam, saibam que estão todos mentindo para você.
A Sweet Baby Inc não é um bicho-papão. É um estúdio canadense de 16 pessoas que não tem qualquer poder de influência sobre um estúdio do porte da Insommiac. Eles não criaram os modelos de Wolverine™, não programaram o sistema de combate, não definiram as sequências de moto, não botaram as múltiplas dicas visuais. Eles foram contratados para um serviço pontual de consultoria que o estúdio decidiu ou não acatar suas sugestões. Então se querem reclamar, reclamem! Quando se trata de videogames é tudo que vocês conseguem fazer mesmo. Porém façam o favor de botar o destinatário correto na merda da carta!




