Se tem algo que me motiva a explorar a mídia de jogos até hoje é a esperança de me deparar com uma grata surpresa a qualquer momento. Esse ano foi a vez de Brok: The InvestiGator, dos estúdio francês Cowcat.

O jogo foi cortesia do meu amigo The Flying Kick (que eu ainda não me acostumei a chamar de Savino). Ele não só me apresentou ao jogo numa das suas reviews – que faço questão de deixar aqui no meu texto – como também foi um bom samaritano em me dar de presente. E tenho muito a agradecer a ele porque esse foi com certeza um dos melhores jogos que joguei em 2022.

Não sei se deixei muito claro na minha crítica de Return to Monkey Island, mas eu adoro jogos de aventura point & click. Todo ano eu tento jogar pelo menos um ou dois títulos desse gênero. Esse ano eu já tinha ido muito além da minha cota e aí vim conhecer Brok: The InvestiGator através do canal do meu amigo. E de imediato eu quis jogá-lo! Não apenas por se tratar de um jogo de aventura, mas porque ele tem outra característica que eu gosto muito de ver. Isso é quando um jogo faz misturas inusitadas de gameplay.

Nesse caso, aqui temos a combinação da típica jogabilidade de um point & click com mecânicas de beat’em up. Fiquei entusiasmado porque muitos, e põe muitos nisso, anos atrás eu vi algo parecido com o jogo tcheco, The Fifth Disciple. Eu e o Flying Kick provavelmente somos os únicos brasileiros que o jogaram. Nesse jogo nós temos a junção das mecânicas de aventura point & click com as de um RPG baseado em turnos.

Sistema de batalha do jogo The Fifth Disciple
Feliz que isso não foi um delírio meu

Mas chega de falar de mim e vamos discutir o que faz de Brok: The InvestiGator uma experiência genuinamente interessante e não somente uma gimmick peculiar. Para essa crítica eu acho que será interessante analisar o jogo primeiro na perspectiva de aventura point & click. Depois ver como ele funciona como beat’em up. Por fim pretendo abordar como como essa mistura acaba se complementando tão bem.

Então sem mais delongas e vamos ao primeiro tópico.

BROK: A AVENTURA POINT & CLICK

Embora tenhamos dois gêneros presentes em Brok: The InvestiGator, fica bem claro que o principal é o de aventura point & click. Até mesmo porque o jogo anterior do estúdio, Demetrios – The BIG Cynical Adventure, foi exatamente desse gênero. E como um point & click, ele faz o arroz com feijão.

Você vai encontrar todas as mecânicas padrões de qualquer exemplo moderno desse gênero. Mas eu diria que comparado a outros títulos de aventura, Brok: The InvestiGator é um pouco mais simples no que tange aos puzzles. Você não tem mais de um botão de um tipo de interação com o cenário. E somado a isso, o jogo raramente tira proveito da combinação de itens para resolver qualquer um dos seus quebra-cabeças. Sendo assim, o jogo simplifica bastante a tarefa de descobrir como resolver esses enigmas. De fato, só me vem a mente um único momento em todo o jogo que tive que combinar dois itens.

O inventário de Brok: The InvestiGator

Os demais puzzles também são bem simples de se resolver. Tanto aqueles que envolvem o uso de itens quanto aqueles no formato de minigames. Esse segundo tipo serve como uma boa quebra de padrão, apesar de que não botaram tanto pensamento neles. Um por exemplo me deixou até insultado de tão qualquer coisa que foi para se recuperar um item numa tubulação.

Já os quebra-cabeças mais clássicos com o uso de itens também não apresentam muita dificuldade porque você geralmente os encontra na própria área do puzzle. Os diálogos dão valiosas dicas sobre o que você precisa fazer. Mas como as possibilidades de interações são tão limitadas quantas as áreas que você tem acesso, novamente não é uma tarefa árdua. Por conta disso o método de força bruta com tentativa e erro é facilmente aplicado durante o jogo inteiro. Contudo, há algumas sequências em que os puzzles ficam um pouco mais elaborados e assim o jogador se sente mais intelectualmente desafiado.

Outra coisa que vale elogiar é como o jogo consegue fazer algo diferente e mais interessante através de minigames. Falo das sequências de interrogação que se repetem ao curso da história. Como o trocadilho do nome deixa explícito, o protagonista Brok é um detetive particular. Com isso, grande parte da trama se desenrola ao redor dos seus trabalhos como investigador. O jogador reúne algumas pistas interagindo com o cenário e NPCs que eventualmente se tornam evidências. Com elas Brok cria suas conjecturas a respeito do caso em que está trabalhando para resolver o mistério.

Sequência de interrogação em Brok: The InvestiGator

Novamente não é um minigame tão complicado de se resolver. Fora um único momento no jogo todo, não existem penalidades se você errar uma combinação de pistas. Logo, mais uma vez o jogador pode facilmente apelar para o método de força bruta, testando todas as combinações mesmo que isso estragar muito da diversão. Contudo, acompanhar a linha de raciocínio do Brok é uma grande satisfação pois você sente que há uma conclusão coerente e orgânica do mistério. Além de que estimula você a explorar mais o mapa e sempre buscar o máximo de interações para conseguir reunir pistas o suficiente.

Alguns fãs mais hardcore do gênero de aventura point & click podem até se sentirem um pouco decepcionados pela falta de desafio nesse aspecto. Até eu que sou bem leniente com esse tipo de coisa, achei que Brok facilitou demais em alguns dos seus puzzles. Contudo existe uma razão para isso, pelo menos na minha interpretação existe. Essa aparente facilidade é intencional uma vez que o jogo quer enfatizar muito mais a sua parte narrativa e estimular diferentes playthrough.

Acontece que Brok: The InvestiGator é um daqueles jogos com múltiplos finais. E você já tranca muitos dos desfechos possíveis apenas com decisões logo no início do jogo. Dessa formam o jogo o que te obriga a reiniciar várias vezes se você não ficar satisfeito com o final que acabar pegando. O próprio final canônico – que aliás traz um tema metalinguagem bacana que eu não estava esperando – é um pesadelo de se conseguir. Ele envolve dezenas de ações e um estilo específico do seu modo de jogar (falarei mais sobre isso no terceiro tópico. Portanto você possivelmente terá que reiniciar o jogo umas 3 ou 4 vezes para conseguir obtê-lo.

Um dos finais de Brok: The InvestiGator

E nem fale tanto o esforço assim já que o final “Slumer” é de longe o melhor e mais emocionalmente satisfatório de se obter. É uma opinião pessoal que eu vou tratar como fato consolidado!

O sistema de reiniciar em um capítulo específico já ajuda bastante. E creio que seja pro isso que os puzzles sejam tão simples, pois o jogador pode resolvê-los mais rápido para conseguir liberar os outros finais. Existem seções que até existe um botão para você pulá-las totalmente uma vez zerado o jogo. Sendo assim, Brok: The InvestiGator não está inteiramente interessado em dar ao seu jogador uma experiência que os obrigue a torcer o cérebro para prosseguir. Ao contrário, quer que o jogador possa progredir com mais facilidade e assim aproveitar as diferentes rotas nas quais a história conclui.

BROK: O BEAT’EM UP

Confesso que agora estou pisando bem longe do meu “habitat natural”. Quem leu meu texto sobre beat’em ups e curva de aprendizagem – que eu migrei para cá só para poder linká-lo nessa crítica – sabe que esse não é um gênero que eu tenha grandes experiências, tanto no passado quanto no presente. Então o vídeo do Savino cobre melhor essa seção então recomendo (de novo) darem uma checada na review dele.

Sendo a parte de aventura o carro chefe do jogo, imagina-se que o combate seria algo apenas para dar um pouquinho mais de sabor a gameplay. Mas dentro desse aspecto Brok: The InvestiGator consegue ser um beat’em up surpreendentemente bom. Inclusive o desenvolvedor até se dispôs a dar uma melhorada no combate mostrando que havia um interesse genuíno em implementar essas mecânicas com a mesma qualidade de um jogo do gênero e não apenas para ter uma gimmick marketeável.

O combate de Brok: The InvestiGator

Se o jogo quisesse, ele poderia ter ficado no basicão de soquinho + soquinho + soquinho, porém o combate vai muito mais além. Brok tem combos longos, bloqueio de ataques, pode desviar, tem ataque especial, o bom e velho desperation move, pode pegar armas e até conta com um air recover move. Partitcularmente senti falta de um ataque para agarrar os oponentes. Porém dado tudo que o jogo inclui nas suas mecânicas de luta isso é um mero detalhe que não chega a fazer tanta diferença assim. Brok inclui também um pouco de elementos de RPG com o personagem sendo capaz de subir de nível e melhorar um dos seus três atributos: HP, ataque e especial. Há também a possibilidade de se juntar dinheiro para comprar itens de cura e suporte.

Apesar de não ser ter muita variedade de inimigos – e nesse aspecto eu argumentaria que tem mais do que muito beat’em up clássico aí – a inteligência artificial dos inimigos é suficientemente trabalhada para não deixar as lutas tão fáceis assim. Se você não prestar atenção nos seus movimentos e dos seus oponentes, pode esperar um belo contra-ataque. Os chefões que eu não achei grandes coisas. Ao menos exemplos como o chefe dos Squealers e R.J tem padrões muito fáceis de se prever, desviar e punir.

Inimigo agarrando Brok

Mas o que eu acho melhor no combate de Brok é que ele faz sentido dentro desse universo. Você é um ex-boxeador detetive que vive num futuro distópico em meio a uma onda de crimes e uma força policial autoritária. É óbvio que num cenário desses o Brok precisaria saber se defender. Então quando chega uma sequência de luta, ela se mostra plenamente justificada dentro dessa gameplay.

E o combate não é apenas uma forma de autodefesa, já que os punhos de Brok ajudam nos puzzles. Por exemplo, quebrar uma porta de vidro para conseguir pegar um item ou utilizar os pulos para alcançar uma plataforma. O jogo até insere algumas armadilhas em determinados cenários para que Brok utilize ao seu favor em lutas, atraindo os inimigos para cima delas. Isso também faz com o que o jogador preste mais atenção por onde andar quando está explorando os mapas.

Brok: The InvestiGator

Apesar do beat’em up não ser o principal elemento da gameplay na maior parte do jogo, Brok: The InvestiGator não se limita apenas as mecânicas mais básicas que você poderia imaginar e acredito que consegue satisfazer o bastante os entusiastas da “briga de rua”.

BROK: A SIMBIOSE

O lado de point & click de Brok: The InvestiGator não é tão bom quanto um jogo puro de aventura, da mesma forma que suas mecânicas de combate não tem a mesma energia de um beat’em up completo. Contudo isso não enfraquece o jogo de maneira alguma e diria exatamente o oposto. A soma desses dois gêneros tão diferentes, pelo menos para o caso desse jogo em particular, consegue é cobrir as “desvantagens” que você tipicamente encontra nos seus títulos.

Por exemplo, a maior parte dos beat’em ups não dá muita importância para a história já que no geral ela é tratada apenas como um contexto para explicar as motivações dos personagens que controlamos. Claro que podemos encontrar exemplos que foram um pouco além nesse aspecto, como é o caso de Fight ‘N Rage que menciono em outro texto, mas beat’em up e narrativa não são coisas que esperamos ver lado a lado.

E aqui o roteiro de Brok mostra um ótimo desempenho em criar ao mesmo tempo um universo próprio, um mistério instigante e personagens cativantes. A ambientação é o que você espera de um universo distópico, mas com um tom mais leve e cartunesco, dado o design dos personagens, na maior parte do tempo. Isso não impede o jogo de tangenciar alguns temas mais pesados e como morte, violência doméstica, desigualdade social, religião, autoritarismo, elitismo, etc.

Brok: The InvestiGator

Mas para mim o melhor tema que o jogo trata é sobre paternidade, que é centrada nos dois protagonistas da história que são Brok e seu filho adotivo, Graff. A relação entre esses dois desempenha a força motriz da história, com ambos passando por momentos conturbados em que o jogo faz você encarar ambas as perspectivas e assim podemos simpatizar e compreender os dois lados. E existem sequências que o texto conseguiu me deixar legitimamente comovido e refletir na minha relação com o meu pai, ainda que eu hoje na vida me identifique muito mais com o Brok – mesmo não tendo filhos biológicos ou adotivo – do que o Graff.

O ritmo com que a trama se move segue um passo muito bom, quase como de um jogo de ação e não de aventura e isso deve vir do seu lado mais beat’em up. Os histórias que a princípio parecem ser paralelas, vão se cruzando na reta final, mas sem explicar tudo para deixar espaço para uma possível sequência no futuro.

Agora tratando da parte de aventura de Brok: The InvestiGator, um problema que esse tipo de gameplay enfrenta é de não ser os mais divertidos de se jogar. Por várias vezes você fica andando em círculos tentando descobrir a solução de algum puzzle e são muitos diálogos que você precisa ficar atento pois nunca se sabe quando virá uma dica importante. Ao ter mecânicas de luta, Brok: The InvestiGator consegue “quebrar o gelo” e ter momentos em que o jogador pode ter mais agência e ter uma nova forma de se interagir com o jogo.

E o lado de beat’em up gera um caminho alternativo para a resolução de vários puzzles onde o jogador pode decidir em fazer pelo modo intelectual ou então resolver tudo na porrada. E esse estilo de jogo que você prefere escolher, além de trazer a tona um dos temas do jogo na questão da violência, afeta diretamente nos desfechos da história que você pode obter.

Brok: The InvestiGator

Se essa foi uma simbiose perfeita, eu não sei dizer. Ainda não temos tantos exemplos de jogos desse tipo para estabelecermos um padrão. O que posso afirmar que aqui a fórmula funcionou muito bem!

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao contrário do outro jogo que mencionei no iníci, The Fifth Disciple, Brok: The InvestiGator não me parece a soma de dois jogos incompletos, um de aventura point & click e outro de beat’em up. Ao me ver, ele consegue usar muito bem as vantagens de cada um desses gêneros para compensar pelos seus elementos mais fracos. Em alguns pontos a animação deixa desejar e dá pra pinçar um bug aqui ali, mas nada que impeça uma progressão fluida de jogo.

Brok: The InvestiGator

Brok: The InvestiGator é uma mistura inusitada e muito bem executada para essa história e se isso levar a uma nova tendência de gameplay – como Castlevania e Metroid fizeram com o metroidvania. Se o Cowcat, estúdio do jogo, ter de fato uma sequência planejada para o futuro, talvez possamos testemunhar uma fusão mais polida desses dois gêneros e que consiga ressaltar mais ainda as qualidades de cada um deles. Mas se essa for o caso de um único experimento e o estúdio decida buscar novos horizontes, ao menos deixa uma experiência satisfatória.

2 thoughts on “Brok – The InvestiGator (2022): entre cliques e socos”
    1. Vale a pena! O combate é gostosinho, mesmo não sendo o foco do jogo e tem uns chefões legais. A história também é muito boa. É um pouco chato ter que voltar vários capítulos para mudar uma ação e conseguir um novo final, mas quando você se familiariza com os puzzles dá pra passar rápido por eles. Alguns o jogo até te dá a opção de pular já que não envolvem escolhas

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