Profundezas: racionalizar o terror é uma desgraça!

Capa de Profundezas (Below), minissérie da Netflix que finge ser horror cósmico, mas é apenas sobre uma lula gigante ameaçando uma pequena vila canadense

Anteontem aproveitei o feriado para maratonar uma minissérie da Netflix da qual eu estava ansioso: Profundezas (Below, 2026). Meus motivos eram bem simples. Por mais que eu tenha um medo irracional do oceano – e hoje essa será uma palavra importante – ainda tenho fascínio por histórias que envolvem criaturas marinhas. Desde as que envolvam simples animais até aquelas com monstros fantásticos. Há de convir também que desde que eu assisti Armadilha (Trap, 2024), filme do divisivo M. Night Shyamalan, o Josh Hartnett tem me feito sentir coisas e eu acho essa uma informação muito pertinente.

Então o clima de uma vila pesqueira, Josh Hartnett e um possível leviatã escondido naquelas águas eram todos os ingredientes que eu precisava para me entreter durante uma segunda-feira tranquila. Isso se manteve por exatos três episódios de Profundezas. Fiquei preso na sua atmosfera de horror cósmico, além da tensão entre pai e filho, pois eu adoro um drama familiar. Mas aí a desgraça dessa série se convence que precisava explicar o porquê de tudo estar acontecendo e assim a história vai… por água abaixo!

Profundezas começa em meados dos anos 8 quando a família do protagonista, Calvin Penney, está sendo reassentada para uma nova região da ilha de Newfoundland, no Canadá. Calvin, sua irmã, seus pais e um dos representantes do reassentamento estão num barco puxando a balsa que carrega a casa da família.

De repente a balsa fica presa em alguma coisa e o pai entra na casa para avaliar onde ela pode ter agarrado. Calvin continua no barco com o restante da sua família olhando para a água. Algo chama sua atenção e de repente um olho gigante o encara por alguns segundos antes de desaparecer. Logo em seguida a casa começa afundar e o pai de Calvin não consegue sair a tempo. Para que o barco não afunde junto, Calvin é obrigado a cortar a corda e passa os próximos 40 anos traumatizado com as memórias daquele dia, acreditando que existe alguma maldição em torno do nome da sua família.

Sei que a internet foge de spoilers tal como o Diabo foge da cruz, então se você é uma dessas pessoas eu recomendo parar o texto por aqui. Não estou tão interessado em… mergulhar a fundo na série. O que tenho para dizer é um comentário rápido e bem pontual, mas que ainda exige alguns detalhes. Apesar de não achar que qualquer deles estrague a experiência – essa responsabilidade é toda da série – não custa nada deixar esse aviso.

Pelo meu tom parece até que não gostei de Profundezas, contudo não é verdade. Diria até que gostei mais do que eu deveria pois, como eu disse, é o tipo de trama que eu curto. Se consigo me divertir horrores com Ameaça Profunda (Underwater, 2020), que de fato tem uma criatura descaradamente saída dos contos do H. P. Lovecraft, com um pouco de esforço eu também consigo me divertir com uma série que apenas finge fazer isso. É que meus sentimentos com Profundezas são… tempestuosos. Ok, chega de trocadilhos! Minha reação está próxima a de algumas pessoas que encontrei comentando sobre a série, dizendo que ela começa muito bem e vai decaindo a partir da sua segunda metade.

Cena inicial de Profundezas em que a casa do protagonista é afundada pela lula gigante quando ele era uma criança

Os dois últimos episódios são terríveis, com uma mudança nítida do tom da série e introduzindo apressadamente novos personagens para entregar novas informações necessárias para o seu desfecho. Em contrapartida, os dos primeiros são ótimos e apresentam um caminho que se a série tivesse se comprometido a seguir não nos deixaria com a sensação de que fomos ludibriados.

Quarenta anos depois da morte de seu pai, Calvin e sua família vivem na cidade de Snook’s Arm. A esposa faleceu há alguns anos e Wade, seu filho mais velho, vive com eles. Sua filha do meio, Mary, está na faculdade e o mais novo, Jay, trabalha no continente. Porém ambos retornam para Snook’s Arm para o festival do Ano do Retorno, uma tradição local. Calvin trabalha como um pescador, porém não de peixes. Junto com outros barqueiros, ele recolhe pedaços de icebergs que se desprendem das geleiras e são trazidos pelo mar. Eles vendem o gelo para a família Crockers, dona de um poderoso grupo empresarial da região, que usa a água na produção de vodca.

Nesse comecinho a série fala bastante sobre a falência do mundo capitalista atual e como isso se correlaciona com as mudanças climáticas que afetam a vida em todo o planeta. As coisas não vão muito bem em Snook’s Arm com uma economia estagnada e falta de empregos. O governo resolve propor um novo programa de reassentamento e assim a cidade fica dividida entre aqueles que não querem sair de novo de suas casas e aqueles interessados no dinheiro. Apesar dos problemas financeiros, que obrigam Calvin a converter sua casa num airbnb para turistas, ele está decidido a não deixar Snook’s Arm.

Enquanto esses problemas reais assolam a comunidade, outros problemas mais misteriosos também acontecem nas redondezas. Notícias falam sobre ataques e desaparecimentos de várias embarcações. Reservas ecológicas e criadouros locais relatam perdas de vastas quantidades de peixes nos últimos dias. Se isso já não fosse o bastante, um gigantesco iceberg aparece no porto de Snook’s Arm no meio da noite. A Dra. Fonda Howander, uma bióloga marinha que trabalha num instituto de pesquisa local, se junta a Calvin para investigar esses acontecimentos e logo descobrem que estão todos interligados com a criatura que ele viu quando era criança.

Esse é um resumo dos principais fatos dos dois primeiros episódios de Profundezas que são marcados por esse forte horror cósmico. Não é difícil assumir que a criatura tem a forma de um polvo ou lula, porém ela fica nas sombras o suficiente para manter sua aura mística. Isso evoca o medo não apenas do desconhecido, mas do inimaginável. Não é um animal, é uma criatura que está além da compreensão humana. Ou pelo menos é o que a série nos leva a acreditar.

Há um aspecto psicológico em torno dela também, pois vemos que os personagens que têm um contato mais direto com ela apresentam alguns sinais de loucura. O primeiro episódio termina com Wade testemunhando um ataque do monstro e no capítulo seguinte o estado mental dele deteriora. O rapaz fica com uma sede insaciável, passa a ter alucinações com a lenda da Bruxa Velha e começa a desenhar compulsivamente um olho num pedaço de cartolina. Nos próximos episódios mais personagens apresentam alguns desses sintomas, o que só reforça que há algo de sobrenatural na criatura

E é aí que Profundezas se perde!

Por algum motivo, este que realmente foge à compreensão humana de verdade, a série escolhe sacrificar esse horror cósmico que estava tão instigante para nos entregar uma racionalização do seu leviatã. Agora a criatura é apenas uma espécie de lula gigante não conhecida que deixou seu hábitat natural por conta do aquecimento do oceano. O misterioso iceberg é só uma grande pedra de gelo na qual a lula resolveu fazer o seu ninho. O estranho comportamento de Wade e os outros habitantes de Snook’s Arm é tão somente uma reação fisiológica a uma toxina da lula que impregnou o gelo e a água.

Cena de Profundezas em que Wade vê a lula gigante quando ela ataca o barco

O problema não é nem dar uma forma ao monstro, mas sim torná-lo algo mais natural. Já não há mais o temor por estar lidando com algo que foge a nossa imaginação, é um bicho. Um bicho de proporções colossais? Sim, mas ainda é um bicho! Tanto é que se você assistir o primeiro episódio e o último, parece que viu duas séries diferentes com a mudança do tom. Vou pegar emprestado e parafrasear um comentário que vi na internet que dizia que Profundezas começa como O Chamado de Cthulhu e termina como Free Willy.

Infelizmente isso não é um caso isolado, porque parece que hoje existe até uma demanda pela racionalização das histórias, a forma final dos vídeos de “final explicado”. Ainda mais considerando que esta é uma produção da Netflix, que nos bastidores rola a história que ela orienta os diretores a reforçar a trama em diálogos para seus espectadores.

Aliás, deixa eu aproveitar esse gancho para falar de uma cena que até agora não saiu da minha cabeça. Não há nada demais nela, mas é algo tão aleatório que faz você questionar porque se deram o trabalho de filmar. Tem uma subtrama com o Jay em que descobrimos que ele se envolveu em algum esquema e agora está devendo muito dinheiro para algum grupo mafioso. Eles enviam dois capangas até Snook’s Arm e dão 24 horas para o Jay conseguir pagar a dívida. No quarto episódio a gente vê que esses capangas se hospedaram na casa de uma senhora, que também funciona como um airbnb, ela faz café para os dois, espelhando uma cena que aconteceu lá no começo com Wade e um casal de turistas.

Eu tenho duas teorias para essa cena. A primeira é que ela existe apenas para repetir uma informação que tinha acabado de ser dada sobre a água estar infectada pela toxina da lula gigante. Já a segunda é que resolveram incluí-la apenas para mostrar onde é que esses dois personagens secundaríssimos estavam. Independente de qual seja, para mim é mais uma demonstração desse vício de deixar tudo bem explicadinho para a audiência.

Admito que esse exemplo foi mais uma implicância minha do que um ponto. Mas em relação a mudança de tom não é um exagero. Essas revelações desmancham o suspense que se construiu nos primeiros episódios e nos fazem ter que aguentar mais algumas horas de enrolação até que a trama real se apresenta nos 45 do segundo tempo. No penúltimo capítulo ainda tem novos personagens sendo introduzidos, incluindo uma família que combinaria bastante se ainda existisse algum resquício de horror cósmico. Mas como essa ideia já havia sido abandonada, eles ficam deslocados na série. Sua função se limita a entregar novas informações ao Calvin e justificar o episódio seguinte.

O último é especialmente decepcionante porque parece um show de clichê de filme ambientalista dos anos 90. Tem a família se unindo para salvar a representação da natureza, tem os militares para termos uma autoridade estatal que sirva de obstáculo e, claro, o empresário malvadão para ser o antagonista. O desfecho consegue ser ainda mais sem graça. Acima dos clichês, o plano da família Penney é tão bem executado que não há qualquer tensão nesse episódio. É triste que até mesmo o comentário sobre a falência do capitalismo perdeu sua força aqui. A série coloca como a salvação o pequeno empreendimento familiar, remetendo a um individualismo tipicamente americano que pensa na prosperidade dos seus e não no avanço coletivo.

Recomendo Profundezas? Talvez! Ainda há uma diversão ali a ser tirada para quem gosta de histórias com monstros marinhos, mesmo que eles não sejam verdadeiramente monstruosos assim. Mas assistam cientes que todo esse aparente horror cósmico nada mais é do que perfumaria. Eu poderia listar outros problemas, mas essa é a que me dói. A Netflix não tem confiança apenas no seu público, ela parece não ter confiança nem nos próprios gêneros. Se há uma lição a se tirar de Profundezas é que a racionalização é um veneno mortal para o terror. Nas palavras do Stephen King, cujo artigo original eu não li, porém eu joguei Alan Wake:

Pesadelos existem fora de qualquer lógica, e há pouca graça em explicá-los; tais explicações são contrárias à poesia do medo.

Ok, mudei de ideia! Talvez eu odeie Profundezas um pouco sim. Netflix do caralho!


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