
Kabrutus, Grummz, Yorch Torch Games, Asmongold. Sabe qual a semelhança entre esses quatro homens supostamente adultos? Nenhum deles gosta de videogames. Ok, não é para tanto. É até possível que eles gostem. Contudo eles gostam da mesma forma que uma criança de cinco anos gosta dos seus brinquedinhos. Inclusive partilham do mesmo nível de controle emocional. Contudo nenhum desses indivíduos tem uma relação real com videogames a ponto de terem algo de relevante a comentar sobre a mídia.
Se essa turma soubesse o que falar eles teriam canais como O X do Controle, Colônia Contra-Ataca, Jacob Geller, Gaming Historian, entre muitos outros que abordam videogames em diferentes perspectivas. São perfis tão incompetentes que eles não conseguem falar de joguinhos nem do ponto de vista mais pessoal. Eu tenho sérias dúvidas até se eles gostam mesmo de jogar.
“M-mas, Belmonteiro… eles falam tanto de videogame!”
Mais ou menos, meu interlocutor imaginário. O conteúdo que eles produzem apenas usa videogames como um disfarce para atrair um determinado nicho. O que eles fazem mesmo é capitalizar em cima das amarguras e dos ressentimentos do gamer solitário que tem muito pouco critério sobre aquilo que consome. É por isso que, por exemplo, quando tem um jogo como Avowed eles não discutem em termos de jogabilidade, narrativa ou estética. Eles focam no fato que uma entidade no jogo é tratada com pronomes neutros. Esses caras têm tão pouco assunto sobre videogames que precisaram até trazer de volta o espectro da Anita Sarkeesian para assombrá-los.
Em 2019, depois de passar dois anos em acesso antecipado, foi lançado Slay the Spire, um roguelike deck-builder feito pelo estúdio indie Mega Critic. O jogo foi um grande sucesso e um dos responsáveis pela popularização desse estilo entre desenvolvedores independentes e outros pequenos estúdios. Preciso ser franco com vocês, eu não conheço e nem pretendo conhecer o mercado dos roguelikes deck-builders porque é uma sequência de palavras que automaticamente tira minha vontade de sorrir. Mas para minha sorte, não é necessário saber da jogabilidade de Slay the Spire para a pauta de hoje.
Depois de sete anos, os fãs agora tem uma sequência para animá-los. Slay the Spire II é uma das grandes surpresas de 2026, conseguindo um sucesso ainda maior que se antecessor. Só na sua primeira semana o jogo já alcançou mais de três milhões de vendas e isso estando em acesso antecipado. Ele atingiu um pico de mais de 550 mil jogadores simultâneos, segue flutuando entre 100 e 200 mil diariamente e as opiniões estavam bem positivas. Estavam!
Tem algumas semanas que Slay the Spire II sofre uma review bomb da comunidade chinesa. O motivo parece que foi uma atualização que aumentou a dificuldade do jogo. Peço desculpas de antemão se não foi isso porque eu me informei por cima porque essa não é a parte principal da história. Pois bem, gente insatisfeita tem em tudo quanto é canto, porém os comentários negativos vieram massivamente dos chineses. Não faço ideia do porquê e também não tenho interesse o bastante para buscar o motivo. Tomo para mim apenas que gamer é insuportável independente do lado do Meridiano de Greenwich que ele se encontra.
Após esse ocorrido, o gamer ocidental – possivelmente americano – decidiu que também precisava da sua própria bobagem para não ficar deslocado. Alguém, em algum lugar, com nada de melhor para fazer da vida, decidiu dar uma olhada nos créditos de Slay the Spire II e um nome em particular lhe chamou a atenção: Anita Sarkeesian. Essa pessoa então deve ter postado enfurecidamente em algum submundo gamer da internet e assim armou-se um circo em torno da informação.
Dúzias e mais dúzias de gamers que estavam se divertindo com Slay the Spire II passaram a fingir que o envolvimento da Sarkeesian arruinou toda essa diversão. Aliás, um envolvimento que eles nem sabem ao certo qual foi. A Anita foi creditada apenas o genérico “consultora”, algo que pode abranger muita coisa dentro do desenvolvimento de um jogo. Não que o cargo que ela ocupa fizesse a menor diferença. Aposto que se ela tivesse tirado uma foto na frente do escritório da Mega Critic essas mesmas pessoas teriam um ADP. No fundo esse pessoal não gosta de videogame, mesmo quando registram dezenas de horas num único jogo, e arranjam os motivos mais bobos para ficar com raiva.
A única forma que eles têm de engajar com a mídia é através das lentes da guerra cultural, então para eles o mero envolvimento da Anita Sarkeesian deve ser visto como uma ameaça. Mas por quê? Quem é essa tal de Sarkeesian que incendeia tanto as emoções de adultos infantilizados? Como ela gerou tamanho ódio para escreverem reviews negativas sobre um jogo que até um minuto atrás estavam curtindo? Por que tem tanta gente falando que ela é inimiga da indústria e que está matando os videogames? Hora da historinha!
Anita Sarkeesian é uma crítica de mídia que ficou conhecida na década passada pelos seus vídeos em que analisava a cultura pop sob uma ótica feminista. Ali por volta de 2009, ela ingressou num programa de mestrado na Universidade Iorque e criou o site Feminist Frequency com a intenção de tornar mais acessível o contato com essas críticas feministas sobre mídias. Nesse período, Anita também criou um canal no YouTube com o mesmo nome e a partir daí ela se tornou uma figura mais presente no ambiente digital.
Com o canal atraindo mais atenção (positiva e negativamente), a Sarkeesian decidiu fazer uma campanha no Kickstarter para financiar o seu projeto Tropes vs. Women in Video Games. Essa era uma série de vídeos analisando os tropos e as formas como mulheres são representadas nos videogames que se estendeu por 18 episódios de 2013 e até 2017.

É um pouco complicado falar da recepção que a série teve na mídia gamer. Não que fossem vídeos tão divisivos e sim porque o debate foi poluído por uma massa furiosa que não permitia uma discussão honesta no espaço público. Mas dá para dizer que teve algum impacto. Um dos casos mais conhecidos foi o da Arkane Studios cujo jogo Dishonored recebeu algumas críticas da Sarkeesian. Por conta disso, o estúdio decidiu dar um papel maior para a Emily Kaldwin que resultou nela ser um personagem jogável em Dishonored 2.
Jornalistas também se mostraram bem receptivos com Tropes vs. Women in Video Games, mas também tinha algumas opiniões destoantes. O problema é que, conforme os vídeos ganhavam mais popularidade, a Anita Sarkeesian passou a receber uma onda de ataques da comunidade gamer e isso fez com que algumas pessoas se sentissem menos motivadas a expor suas discordâncias. Algo que a gente vê acontecendo até hoje com gente evitando falar da Lei Felca para não ser taxado de defensor de pedófilo.
Aqui é importante destacar o contexto da época porque talvez alguns não se lembrem ou então não vivenciaram. A chegada da Anita Sarkeesian ao espaço público digital coincidiu com dois outros eventos: a formação da skeptic community e o Gamergate. A skeptic community era um conjunto de canais de YouTube que começou a crescer em meados dos anos 2010. Na teoria, esses youtubers surgiram para contrapor religiosos e fomentar um pensamento crítico em prol da ciência. Na prática, era apenas um movimento de combate aos ditos social justice warriors (SJW) que despontaram na internet naquele mesmo período.
Os vídeos da skeptic community giravam em torno de reagir e “refutar” a retórica de pessoas progressistas, geralmente as mais caricatas, sempre com esse verniz de ser um debate de ideias. Começou no campo político e pouco a pouco foi migrando para discussões em mídias como filmes, séries, jogos, etc. Se isso está parecendo muito familiar aos canais de hoje que ficam falando em cultura woke, não é mera coincidência. Agradeçam aos anti-SJW por coisas como a Liga Nerdola e a Central!
Enfim, junto desse feudo no YouTube, entre 2014 e 2015, também deflagrou-se o Gamergate. Coincidentemente é também nesse intervalo que a série da Anita Sarkeesian angariava mais atenção e até precisou ser interrompida por alguns meses. O Gamergate se apresentava como um movimento reivindicando mais ética jornalística, porém hoje sabemos perfeitamente que não era sobre isso. Tudo foi uma enorme desculpa para fomentar uma campanha de assédio contra jornalistas, desenvolvedores e outras figuras da indústria. Principalmente mulheres, já que temos um longo histórico de misoginia na comunidade gamer.
A Anita Sarkeesian ficou no centro desses dois furacões. Frequentemente ela era alvo tanto dos gamers quanto dos anti-SJW. Inclusive, muitos desses youtubers foram responsáveis por minimizar os ataques que ela recebeu – que teve desde ameaças (de estupro e de morte) até doxing – por manter a ilusão que o que estava sendo atacado eram as ideias da Sarkeesian e não a sua pessoa.
Quando a gente olha para aquele período, “faz sentido” as reações que a Anita Sarkeesian gerava. Quero dizer, havia uma explicação do porque tinha gente que se incomodava com ela. Alguns enxergavam-na como uma adversária política, outros viam a oportunidade de exercitar a velha misoginia com que foram criados. Mas e agora em 2026? Já se passaram nove anos desde o último vídeo de Tropes vs. Women in Video Games e a Sarkeesian tem uma vida muito mais reservada. Por que diabos ainda transformam essa mulher num bicho-papão inventando que ela tem tanta influência na indústria e na mídia?
A resposta mais simples é porque existe uma parcela da comunidade gamer que é doente. Não tem outra forma de falar. São doidos, birutinhas, lelés da cuca, lunáticos, DESEQUILIBRADOS. Pessoas com propensão para serem cooptadas por grupos de ódio ou então que tem esses desvios de caráter mesmo. Não me surpreenderia se alguns deles, daqui uns anos, aparecerem cantando hino para pneu ou lavando frango com detergente. Porém eu não quero focar tanto neles porque acho mais perniciosos aqueles que exploram esses sentimentos para o seus interesses escusos.
Desde que comecei essa minha série de Como Gamers Mentem Para Você eu fico me coçando para falar sobre a Sweet Baby Inc. e acho que até já a citei em algum dos meus textos. Faz três anos que os herdeiros dos anti-SJW tentam iniciar um novo Gamergate usando-a como um estopim. Até agora não deu muito certo.
A Sweet Baby Inc. é uma empresa de consultoria e desenvolvimento de narrativas que já trabalhou com diversos estúdios. Eles auxiliam desenvolvedores a criar cenários para jogos, personagens, diálogos, logs, fazem revisão de texto, leitura sensível, etc. Para além desses serviços, a Sweet Baby Inc. também busca promover práticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) durante o desenvolvimento dos jogos para garantir uma melhor representatividade dentro da narrativa.
Sabe o Kabrutus, um dos caras que eu citei no começo do texto? Ele ficou, e estou sendo bastante generoso com esse adjetivo, conhecido na internet ao criar o Sweet Baby Inc. Detected, uma curadoria na Steam que indicava quais jogos tiveram envolvimento da empresa e que por isso os gamers deveriam evitar. Isso tudo faz parte de um discurso maior que tenta demonizar essas práticas de DEI como uma das responsáveis pela situação atual da indústria dos videogames.
Como esse pessoal é, por falta de expressão melhor, puta de empresa, eles nunca irão responsabilizar os acionistas, os CEOs, as práticas anticonsumidor (a não ser quando é conveniente), essa busca incessante pelo crescimento infinito, os problemas de má gestão, os investimentos em modelos de negócio questionáveis, as demissões em massa, nada disso. A culpa é sempre da cultura woke, dos progressistas, da agenda do politicamente correto, da Sweet Baby Inc. e, por fim, da Anita Sarkeesian.
Eu nem nego que algumas das pessoas que empurram esses discursos de fato acreditam nele. Mas figuras como o Kabruts e o Grummz, por exemplo, tem um intere$$e maior por trás. Muitos que já sacaram a malandragem os chamam de grifters ou, em bom português, picaretas. Kabrutus já até tentou ser youtuber e streamer, mas como eu disse, ele não tem nada de útil a falar sobre videogames. Além de ser um abismo de carisma. A forma que ele conseguiu de conquistar alguma atenção foi justamente falar de guerra cultural, tal como os racistas da Xbox Mil Grau só conseguiam produzir conteúdo apelando pro sentimento de vira-lata dos caixistas e fazendo console war.
Só que vejam, a picaretagem de gente como o Kabrutus não está apenas em conseguir visualização para suas plataformas. Os vídeos no canal do YouTube dele, quando ele publica algo, custam para pegar 10 mil visualizações. O seu vídeo mais visto não bateu 60 mil e o perfil da Twitch dele é igual, senão ainda mais minúsculo. O único lugar que o Kabrutus consegue mais engajamento é no Twitter, então ele está sempre tentando fazer tweets que viralizem com base no combustível favorito da internet que é o ódio. Mas que fique claro uma coisa: o Kabrutus não faz isso para ganhar dinheiro do Elon Musk. Apesar de ter muita muita gente tentando, o Twitter tem uma das piores monetizações entre as redes sociais. Posso garantir a vocês que não tem ninguém ganhando a vida com ragebait por lá. Até o dono perde dinheiro com essa bosta.

Entretanto, existe um pulo do gato nessa história. Seguindo essa história de Slay the Spire II, o Krabuts fez uma postagem longa no Twitter com a mesma histeria gamer de sempre. Ele força o mesmo discurso que a Anita Sarkeesian prejudicou a indústria, sempre falando no abstrato, supervalorizando a real influência que ela tem e nunca explicando como as tais “ideias” dela causaram algum impacto negativo. Depois ele fixou a postagem no seu perfil e adicionou um segundo tweet com um link para a sua conta no Buy Me a Coffe para caso alguém queira apoiá-lo financeiramente. Ficou claro a picaretagem?
O que gente da laia do Kabrutus faz é tentar juntar uma comunidade em torno dos seus perfis e converter parte dela para alguma plataforma que lhes dará mais dinheiro. Então não importa muito que as pessoas acompanhem as lives dele ou que assistam seus vídeos, o que o Kabrutus quer é encontrar gamers tapados o suficiente para “fazer o PIX” achando que ele faz algo de útil na internet para a comunidade gamer.
O Grummz é farinha do mesmo saco. Seu nome real é Mark Kern e no passado ele trabalhou como produtor em alguns jogos da Blizzard Entertainment. Ele saiu em 2005 para fundar a Red 5 Studios, uma empresa que tinha como projeto principal um MMO gratuito, Firefall, e ele conseguiu a façanha de ser expulso do seu próprio estúdio.
Depois disso ele se tornou mais um desses perfis que passa o dia todo brigando contra os moinhos da cultura woke no Twitter. Foi então que em 2016 ele criou uma campanha de financiamento coletivo para desenvolver um novo jogo, Em-8er. Gamers podem ficar tranquilos que esse certamente não conterá lacração. Dez anos depois, sabe qual é o status do jogo? Os apoiadores do Grummz também gostariam! Não há nada substancial sobre o andamento do projeto, nem mesmo uma data de lançamento. As únicas pessoas que acham que Em-8er vai sair um dia são os trouxas que foram convencidos a dar dinheiro para o Grummz. Para o restante da internet ele é só um trambiqueiro.
Os tweets do Grummz nada mais são do que a tentativa desesperada de um cara que foi chutado da indústria em criar uma comunidade que apoie um jogo que ele não irá entregar. Por isso que ele vai apontar também para a Anita Sarkeesian e dizer para os seus seguidores tomarem cuidado com ela e com os projetos que ela se envolve. Assim não há espaço para perceberem que o Grummz não tem jogo algum para mostrar para eles. Só um monte de promessas e conforto que o dinheiro deles não será usado para promover a cultura woke ou qualquer outra bobagem que eles foram convencidos que existe.
No final das contas, o que essa galera é um bode expiatório. Os picaretas como o Kabrutus e o Grummz vão usar o medo que ainda existe do bicho-papão da Sarkeesian para convencer algumas dúzias de doidinhos a abrirem a carteira para eles. Enquanto isso, esses doidinhos tem alguém para descontar todas as frustrações que sentem e ter a quem culpar do porque eles não conseguirem mais se divertir com joguinhos como antes.
Então cuidado, gamers! Olhem embaixo da cama antes de dormir para conferir se a Anita Sarkeesian não está lá. Haha, brincadeira. Todos sabemos que a única mulher que entra no quarto de vocês são suas mães para trocar o lençol.





Eu dou block em qualquer um que eu vejo retwittando ou concordando com esses cabaços
Jesus tá poucas ideias!