Ryota e sua mãe nos momentos finais de The First Slam Dunk
Essa NÃO é uma história sobre basquete!

Em junho de 1996, Takehiko Inoue concluía o seu fenômeno Slam Dunk. E aqui não há qualquer exagero: Slam Dunk É um fenômeno. Durante seus seis anos de publicação, ele se tornou uma das maiores referências em mangás de esportes da história. Não, deixa eu corrigir isso. Não devemos limitar apenas a esportes, Slam Dunk é um dos grandes mangás da história e ponto. Mais de trinta anos desde o seu primeiro capítulo, ele continua no Top 10 dos mais vendidos. Só que eu não acho que devemos medir seu impacto pelas vendas, deixa isso para os otakus da internet. Porque o legado de Slam Dunk conseguiu sair para além das páginas de mangás, sendo responsável pela popularização do basquete no Japão na década de 90.

Inoue seguiria sendo consagrado como um dos grandes mangakás da atualidade, dando sequência a sua carreira com séries como Vagabond e Real. E no final de 2022 ele também nos mostraria que também consegue ser um ótimo diretor, revelando ao mundo seu primeiro longa-metragem: The First Slam Dunk.

Numa visão mais cínica alguém poderia dizer que o Inoue apostou no seguro aqui. Afinal, ele utilizou sua própria obra como base e ainda aproveitou uma lacuna deixada no passado. Não existe sucesso garantido, porém dá para criar um cenário bem favorável. E eu até poderia concordar com esse pensamento se o filme fosse apenas uma adaptação 1:1 da última partida ilustrada no mangá original. Mas felizmente The First Slam Dunk é muito mais do que isso e portanto eu consigo afirmar com tranquilidade como ele é uma das melhores animações dos últimos anos.

Certo, agora se acomodem aí porque essa será uma LONGA discussão sobre o filme. Sem grandes spoilers, acredito eu.

Um dos fatores que eu atribuo para Slam Dunk se tornar um fenômeno é como o Inoue conseguiu unir “dois mundos” no seu mangá. Porque histórias que envolvem um contexto esportivo geralmente não são sobre basquete, futebol, boxe, vôlei, futebol americano, etc. Ele é mais uma ferramenta para causar uma transformação na vida de um ou mais personagens. Ou seja, são narrativas que buscam explorar a relação dessas pessoas com o esporte num paralelo com outros aspectos da sua vida.

Ashita no Joe, mangá de Asaki Takamori, por exemplo, não a história de como um garoto órfão se tornou o melhor lutador de boxe Japão. É a história de um jovem problemático que trilhava um caminho de autodestruição, mas através do esporte conseguiu focalizar o ódio que tinha da sociedade e da vida para algo mais positivo e inspirador. Ashita no Joe tem muito mais a falar sobre autodescoberta, desigualdade social, amadurecimento, transformação, legado, etc; do que boxe.

Ahista no Joe é um dos maiores clássicos dos mangás que influenciou diversas histórias para além de narrativa sobre boxe ou esporte em geral
O mangá vai aparecer mais vezes nesse texto!

Slam Dunk tem muito disso. Só que ao mesmo tempo ele também é um mangá sobre basquete. Não é nenhuma novidade o quanto o Inoue ama esse esporte e deixa isso muito claro nas páginas do seu mangá. Havia uma preocupação cuidadosa em representar as partidas próximas da verossimilhança sem tratar as habilidades dos seus personagens como análogas a superpoderes. O Inoue desenhava cada jogada com paciência, mostrando como as estratégias e técnicas funcionam. Quando eu li o mangá em 2022 a minha sensação é que o autor não queria nos mostrar o basquete apenas como esporte, mas também como arte.

É praticamente impossível não ficar empolgado após um arco do Slam Dunk que se desenvolve sempre ao redor de uma partida. O Inoue te faz enxergar qual é a beleza desse esporte. Desse modo é muito mais fácil compreender como ele pode causar uma mudança tão significativa na vida das pessoas. E isso não é só no mundo da ficção. Todo mundo que viu o curta Dear Basketball inspirado na carta que o Kobe Bryant escreveu quando ia se aposentar entende esse sentimento.

Como The First Slam Dunk é uma história que, numa intencional ironia que fará mais sentido depois, começa no final do mangá original, talvez seja útil um contexto. Embora eu tenha a impressão que quem vai clicar nesse texto já está mais do que familiarizado com a obra. De qualquer forma, vamos lá:

A história centra-se no time de basquete da escola Shohoku que está tentando ganhar o campeonato nacional das escolas de ensino médio. Slam Dunk conta com um vasto elenco, mas a formação principal da equipe de Shohoku, que é o coração dessa história, é composta por cinco jovens: Hanamichi Sakuragi, Takenori Akagi, Hisashi Mitsui, Ryota Miyagi e Kaede Rukawa. Todos os cinco recebem bastante atenção ao longo do mangá, entretanto é notável que ele foca muito no Sakuragi, o protagonista da história. Ele é um delinquente que começa a jogar basquete para tentar impressionar uma garota e eventualmente acaba se apaixonando também pelo esporte.

Nesse processo ele conhece Rukawa, um habilidoso e muito arrogante jogador, que se torna seu rival mesmo com ambos jogando no mesmo time. O time de Shohoku tem como capitão o Akagi, que sonha em vencer o campeonato. Para isso ele tenta reunir os melhores jogadores da cidade, e Sakuragi que é um novato tão cheio de entusiasmo quanto inexperiência. Dentre eles se encontra o Ryota, um ágil armador que tinha ficado hospitalizado durante um tempo, e Mitsui, um ala-armador que havia perdido seu caminho – tanto na vida quanto no basquete – e agora tenta voltar para as quadras.

O mangá conta toda essa jornada, desde a entrada do Sakuragi no time até o campeonato. Acontece que Slam Dunk, como todo mangá altamente popular, recebeu uma adaptação no seu tempo de vida com um animê de cento e poucos episódios. Apesar de ter acompanhado o mangá em quase toda sua totalidade, a série acabou não adaptando a fase do campeonato. Então ficou essa lacuna entre as duas obras.

Ou será que ficou mesmo?

Como eu falei lá atrás, histórias de esporte não são sobre o esporte em si. Então o animê de Slam Dunk não ter a fase do campeonato não é um problema, pois o campeonato não é tão importante assim. Nem a partida do filme é tão relevante assim para o que a história quer contar. Slam Dunk fala sobre entender seu lugar no mundo, encontrar seu potencial, sonhar e ir atrás desses sonhos. O animê até termina de forma simbólica, não mostrando aqueles jovens indo atrás do seu futuro porque no final é sobre a busca, não sobre a vitória.

Da mesma forma, The First Slam Dunk não é sobre a partida de Shohoku contra Sannoh. Por isso que o Inoue coloca “primeiro” no título, pois esse filme não é um capítulo final. Na verdade ele é começo, seja para aqueles personagens, seja para aqueles que estão conhecendo a obra a partir da animação. A história de The First Slam Dunk é nada mais do que um momento.

É filme muito mais íntimo do que a emoção do jogo transmite na sua superfície. Isso é maravilhosamente exemplificado pela trilha sonora, ou melhor, a falta dela. Em passagens pontuais a música entra para indicar uma mudança no espírito do personagem ou da partida. Contudo, na maior parte do tempo o Inoue a remove quase por completo. E eu digo quase porque nesses silêncios os sons do ambiente se destacam e eles que compõe a real trilha do filme. O barulho da bola quicando, a fricção do tênis no chão, a respiração dos jogadores, os gritos da torcida. The First Slam Dunk quer que você se sinta ali dentro da quadra com seus personagens, tentando entender o que aquele instante significa nas suas vidas.

The First Slam Dunk usa muitos sons ambiente para te por no momento daquela cena
Ainda consigo ouvir os efeitos sonoros

No original, cada partida é um pequeno arco de transformação nos personagens. Eles não saem dela apenas mais habilidosos, mas também diferentes como pessoa. Pegando Ashita no Joe de exemplo de novo, esse é um dos motivos que a luta contra o Rikiishi é um evento tão marcante no mangá. Existe um Joe antes, um Joe durante e um Joe depois dessa luta. As consequências dela na vida do protagonista são sentidas até o último capítulo.

Só que Ashita no Joe tinha uma vantagem de ser sobre um esporte de um contra um. Assim o Takamori tinha mais tranquilidade para desenvolver cada personagem dentro de um arco. Em Slam Dunk você tem cinco jogadores de cada lado e o elenco de apoio formado pelos personagens secundários. Isso é fácil de trabalhar num formatado serializado, porém num filme a história é outra. Já mencionei em outro texto que enxergo filmes como a “otimização do storytelling”. O que eu quero dizer com isso é que essa mídia não tem o mesmo benefício de um mangá para poder desprender muito tempo em diversos personagens ou ideias. Filmes precisam de um recorte específico para funcionarem.

Só para trazer mais um exemplo – e que não seja Ashita no Joe de novo – tem um filme que eu adoro chamado Virando o Jogo. É mistura de filme de esporte com comédia onde o Keanu Reeves, um ex-quarterback, é chamado para compor um time de futebol americano de jogadores substitutos. Então além do protagonista você tem uns 8 ou 9 personagens no time, mais o restante do elenco. Para que a história funcione o roteiro dá ao time essencialmente o mesmo arco: todos eles são pessoas que tentaram ter uma carreira no esporte, porém por motivos diversos falharam no processo e agora usam essa oportunidade para ter uma segunda-chance de ter o seu momento de glória.

Em The First Slam Dunk, o Inoue tinha o desafio de reapresentar seus cinco personagens sem muito espaço para contexto, na última partida dessa jornada, de um jeito que a história tivesse um começo, meio e fim. Tudo isso em menos de duas horas. E como ele consegue? Ora: fazendo um recorte com uma perspectiva totalmente nova do seu trabalho original.

Luto é um dos principais temas de The First Slam Dunk
Novamente, NÃO é uma história sobre basquete!

O filme abre no passado onde vemos dois rapazes jogando basquete numa quadra vazia. Logo descobrimos que o mais novo é Ryota e ou outro é seu irmão mais velho, Sota. Nessa sequência ficamos sabendo de outros detalhes importante como a morte do pai deles que deixou a mãe emocionalmente abalada por ficar viúva tão cedo e tendo que cuidar de dois garotos e uma menina. Também vemos que Sota tem uma certa habilidade no esporte e que o Ryota está se inspirando nele.

Depois de umas partidas, os amigos de Sota o chamam para ir pescar, algo que deixa um Ryota, que estava muito empolgado, irritadíssimo. Vemos o barco de Sota e seus amigos partir enquanto o irmão mais novo fica amaldiçoando-o do porto. Apesar de não vermos a cena fica claro que Sota nunca retornaria dessa pesca. Então damos um salto imediato para o futuro, com um Ryota mais velho vestindo a braçadeira do irmão antes do jogo contra Sannoh e aí que o filme começa de fato já em meio a partida.

Nesses primeiros minutos o Inoue já deixa evidente não apenas sobre o que será essa história de The First Slam Dunk, mas mais importante ainda sobre quem ela será.

O mangá tem esse tema frequente em que todos estão buscando atingir o seu potencial, porém questões internas atrapalham cada um deles. A gente vê isso se repetir no filme com os personagens principais, mas agora são arcos simples e pontuais, onde o Inoue só desprende o tempo necessário para entender as dinâmicas daquele time.

Então no curso dessas duas horas nós entendemos que o sonho de vencer o campeonato nacional é mais uma âncora do que um motivador para Akagi. Ele vive em constantemente de não conquistar esse sonho, acreditando que vai ser essa vitória que definirá sua carreira no basquete. Então por vezes ele força o seu próprio sonho nos seus companheiros, tratando eles mais como subordinados ou ferramentas para atingir esse objetivo do que membros da sua equipe. Somente depois de perder essa amarra que ele consegue se tornar o capitão que Shohoku precisava.

Cada personagem principal de Slam Dunk tem seu arco pontual concluído ao longo filme
Ainda me impressiona como o filme consegue fazer tanta coisa diferente em apenas duas horas

Mitsui era um jovem com um tremendo potencial para o basquete e que por um momento da vida achou que havia perdido isso. Então agora ele quer mostra pro mundo e, acima de tudo, para si mesmo que ele ainda “está aqui”. Mas o arco dele já está resolvido no momento que o filme inicia, então a gente só vê como ele chegou a essa resolução graças ao contato com a equipe de Shohoku, principalmente o Ryota.

O Rukawa é evidentemente um excelente jogador e que tem tanta confiança na sua habilidade que se deixa cair pela arrogância. Então ao longo do filme ele tem que aprender que não importa o quão bom ele é, o basquete ainda é um esporte coletivo. Ao contrário de que algumas histórias tentavam fazer que um indivíduo faz toda diferença para o jogo, aqui ele entende que ele só pode ser tão bom quanto o seu time. Que inclusive é um arco que faz um paralelo muito bom com um personagem do time adversário, Eiji Sawakita, que também se deixa perder na sua arrogância de ser o melhor jogador do Japão.

E o Sakuragi, bom, leiam Slam Dunk! Ainda que existam vários traços do arco dele no original aqui no filme, é evidente que Inoue só está mais interessado em usar a energia contagiante que o seu personagem exala. Até porque mesmo como coadjuvante o Sakuragi consegue roubar qualquer cena que ele se encontra. Então, entendendo que a história dele já foi plenamente desenvolvida, o Inoue decide conceder os holofotes para outra pessoa. É aqui que eu acho que The First Slam Dunk mais acerta, ao fazer o que toda adaptação deveria almejar: oferecer a sua audiência uma nova camada para compreender o que faz dessa obra tão especial por outras lentes.

Citando pela terceira vez Ashita no Joe, quando o mangá estava para fazer 50 anos lançaram Megalo Box. Essa foi uma releitura que, embora tivesse vários elementos em comuns com o original, buscou ser uma obra independente com uma ambientação e temas únicos. The First Slam Dunk usa o mesmo contexto, o mesmos personagens, até o mesmo “roteiro” da partida contra o time de Sannoh. Porém a história real deixa de ser a jornada de Sakuragi em atingir seu potencial como um jogador de basquete.

Ryota Miyagi assume o protagonismo do filme
E aí entra o Ryota!

Ryota, assim como todos os seus colegas, tem suas dificuldades para atingir o seu potencial. No caso dele é a perda do irmão e, por consequência, o distanciamento da sua mãe. Isso cria um dilema na sua relação com o basquete porque, se por um lado ele ama o esporte, por outro é um lembrete constante da sua perda. O engraçado é que, tal como o Mitsui, o arco dele também já foi resolvido antes da partida contra Sannoh. A gente vê isso através dos vários flashbacks que vão mostrando toda a dificuldade que ele teve de superar o luto pelo seu irmão, mas que depois vira seu principal motivador. Porque ele compreende que jogar é, de alguma forma, manter o irmão vivo consigo

Quando eu falo que o jogo contra Sannoh é totalmente irrelevante para The First Slam Dunk é porque a sua história vai muito além desse pequeno na história desses personagens. Esse não é um filme sobre garotos tentando vencer um campeonato. Não é sobre quem faz o último ponto (apesar de que os minutos finais do jogo são uma das sequências cinematográficas mais incríveis já feitas numa animação). The First Slam Dunk é apenas o começo da vida desses jovens, tentando lidar com seus demônios internos enquanto seguem atrás dos seus sonhos e anseios através do basquete. Ele nos mostra que a beleza desse esporte está para muito além de uma única partida.


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