Uma defesa (mais ou menos) desnecessária aos filmes sobre a ditadura militar

Montagem com alguns filmes sobre a ditadura militar (O que É Isso, Companheiro?, Cabra-Cega, Batismo de Sangue, O Dia que Durou 21 Anos, O Ano  em que Meus Pais Saíram de Férias e Ainda Estou Aqui) com um personagem usando um boné de guerrilheiro e segurando duas facas

Alguns devem se lembrar que, ali por volta de outubro do ano passado, eu iniciei uma maratona de filmes brasileiros. Nesse intervalo assisti por volta de 70 filmes diferentes, viajando por períodos e gêneros diferentes. Assisti de tudo um pouco: animações, curtas-metragens, documentários, western (e neo western), terror, etc. Vi até ficção científica que é um gênero que eu nem gosto. Nessas indas e vindas, eu também tive um pequeno arco especial onde assisti uma penca de filmes sobre a ditadura militar. Acho que vocês já sabem aonde esse texto vai!

O cinema nacional enfrenta muitos obstáculos, como burocracia, financiamento e distribuição. Eu não me julgo com propriedade para falar sobre nenhum desses tópicos, o que sei deles é bem superficial. Novamente recomendo que procurem pessoas mais qualificadas para se inteirarem melhor. Porém tem um ponto que eu acredito que posso falar sobre – e eu já falei mesmo – que é o preconceito com filmes brasileiros. Parte dele vem de um aparente eterno vira-latismo que nos assombra, parte por estereótipos que gente canalha conseguiu convencer gente ignorante de que são reais.

Aqui é impossível não fazer um recorte político. Boa parte das pessoas que vemos torcendo o nariz para o cinema nacional costumam ter um posicionamento mais à direita. A direita brasileira alucinada (que às vezes é quase pleonasmo) adora fazer – vou ser MUITO generoso com essa palavra – a crítica que o Brasil só sabe produzir filmes sobre miséria – na favela ou no Nordeste – comédias pastelonas e ditadura militar. Óbvio que isso é uma visão limitadíssima sobre o cinema nacional porque essa gente não assiste nada além do selo Globo Filmes. Tanto que não é surpresa que quando vão falar de algum filme brasileiro bom são sempre os mesmos três ou quatro exemplos.

Eu queria focar nesse mito dos filmes sobre ditadura porque tem algo especial nele além do preconceito e da ignorância. Pois não podemos ignorar que uma parcela da pleonástica direita alucinada relativiza o golpe de 1964 e algumas até concordam com as ações dos militares. Então é natural que irão repudiar qualquer obra – seja ela um filme, uma série ou um livro – que retrata toda a violência daquele período. Ao mesmo tempo, também temos outra parcela da direita mais adolescente (tipo MBL) que torce o nariz para esses filmes numa tentativa desesperada de ganhar biscoito do primeiro grupo.

Sabe o que é curioso? Essa mesma galera dificilmente tece a mesma “crítica” para os Estados Unidos. Porque se tem algo que o cinema americano gosta de fazer são filmes sobre seu exército e as guerras que participou. Faz as contas aí de quantos filmes você já viu que passam na Segunda Guerra Mundial. Alguns têm até um teor crítico ou mais nuançado sobre o tema, mas não vamos ser sonsos de ignorar que o cinema – e hoje em dia os videogames – foram uma importante máquina de propaganda para as Forças Armadas dos Estados Unidos. Um peso e uma medida para cá, o mesmo peso e outra medida para lá.

Imagem do clássico dos anos 80, Top Gun, mostrando o Maverick, interpretado por Tom Cruise, num dos caças olhando para a câmera com o polegar erguido
Imagem MERAMENTE ilustrativa

O que mais me incomoda é o quão visível que essas pessoas nem mesmo assistiram obras sobre a ditadura militar para falar que o Brasil só produz esse tipo de filme. Dá pra contar nos dedos de uma única mão quais são os títulos que eles conhecem. Por isso eu resolvi escrever esse texto como uma espécie de contraponto ao discurso rasteiro deles. Contudo eu reconheço que é uma defesa um tanto desnecessária. Ao menos em partes!

Se você é um cinéfilo que gosta de cinema nacional ou então uma pessoa com um posicionamento mais à esquerda, eu não tenho que convencê-lo de nada. No máximo o que eu consigo fazer aqui é uma lista de recomendação de alguns filmes que talvez você não conheça. Agora, se você é alguém da direita alucinada, eu nem quero te convencer. Já sei que contigo não existe a possibilidade de um diálogo honesto. Porque as chances são que seu problema não é falta repertório cultural, o probleme é que você é anti-cultura. Ou pelo menos anti a cultura que não esteja alinhada ideologicamente com você.

Portanto, o texto é para você que não tem qualquer opinião formada sobre o assunto. Eu quero convencer você a dar um pouco de atenção para o cinema brasileiro e porque é importante que esses filmes sobre a ditadura existam. Eu tinha pensado em seguir uma ordem cronológica, mas prefiro fazer uma colcha de retalhos, ziguezagueando pelos filmes que eu achar mais pertinente no momento. Também vou trazer alguns títulos que não são bem sobre a ditadura militar, pelo menos não de maneira explícita, para complementar alguns pontos.

O melhor ponto de partida que eu consigo pensar é um filme de um dos maiores documentaristas do Brasil, o saudoso Eduardo Coutinho. O ano era 1964 quando ele e sua equipe começaram a trabalhar em Cabra Marcado Para Morrer. Porém esse não era um filme sobre a ditadura, ele se transformou num filme mais ou menos sobre a ditadura. E não por escolha própria! Originalmente, o projeto era uma história semidocumental sobre João Pedro Teixeira, militante das Ligas Camponesas morto por latifundiários durante os protestos na região da Galiléia e de Sapé, na Paraíba, em 1962.

A equipe de Coutinho já tinha selecionado o elenco, montado um roteiro e iniciado as primeiras gravações. Entretanto, a produção teve de ser interrompida quando forças policiais foram enviadas para prender Coutinho e os demais sob a alegação que se tornaria o clichê favorito da extrema-direita: comunismo. Tem até uma parte no documentário que mencionam que os policiais perguntavam sobre os “cubanos”, refindo-se a equipe. Depois de 20 anos, quando o regime militar já havia se enfraquecido, Coutinho conseguiu retomar o projeto e finalizá-lo em 1984.

Foto de Cabra Marcado Para Morrer, documentário de Eduardo Coutinho, com Elizabeth Altino Teixeira e seus filhos

A partir daí o documentário se torna uma tentativa de resgatar as memórias das Ligas Camponesas, ao mesmo tempo que se centra a narrativa na viúva de João, Elizabeth Altino Teixeira. Devido aos eventos que se seguiram após a morte do marido e das gravações iniciais, ela teve de fugir da Paraíba para o Rio Grande do Norte, separando-se de alguns de seus filhos. Elizabeth então se torna um símbolo da luta popular contra a repressão das forças do Estado e seus aliados.

Se Cabra Marcado Para Morrer não tivesse passado por censura, a sua história não ficaria tão marcada na história como ficou. E para mim essa é a palavra-chave que motivou muito das produções futuras sobre a ditadura militar: censura. Não é apenas a violência do regime, mas toda a tentativa de suprimir qualquer manifestação, fosse da parte da imprensa, dos movimentos políticos ou dos artistas. É uma resposta de “vocês tentaram nos calar, agora a gente não vai parar de falar disso” que se manifesta até mesmo quando uma obra não está falando diretamente sobre o golpe de 64.

Um dos filmes que assisti na minha maratona foi a animação O Menino e o Mundo (2013), de Alê Abreu, e uma cena específica ficou gravada na minha cabeça. Ao longo da história, o menino que acompanhamos esbarra com um desfile organizado por artistas itinerantes. O grupo é representado pela figura de um pássaro gigante arco-íris que o segue. Ali pro meio do filme os artistas se dirigem à cidade, porém ao chegarem são todos dizimados pelo exército que também é representado por um pássaro gigante só que preto. Se o simbolismo já não fosse evidente o bastante, depois desse confronto vemos várias crianças se armando para iniciar uma rebelião.

Beleza, mas esse é um filme produzido anos depois do fim da ditadura militar. E as obras contemporâneas daquele período quando o AI-5 já foi aprovado? Um dos exemplos mais clássicos da censura no cinema é Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), segundo título da trilogia de José Mojica Marins. Para conseguir lançar seu filme, Mojica precisou alterar a última fala do seu personagem, Zé do Caixão. Na cena, ele afunda nas águas de um lago depois de ser perseguido pela população pelos seus crimes. Zé então grita “Eu não creio! Não creio!”, aparentemente uma ofensa para os falsos valores cristãos que os militares diziam ter. Na versão que foi para o cinema, o personagem grita “Deus é a verdade! Eu creio em tua força. Salvai-me! A cruz, cruz, padre!”.

Agora pensem, se um mísera linha de diálogo já causava alvoroço nos censores, o que seria de filmes inteiros que fossem críticos ao regime militar? Por isso é interessante observar algumas produções daquele período que recorriam a alusões para conseguir tocar nessa ferida.

Em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), uma das maiores obras de Glauber Rocha, o matador Antônio das Mortes é contratado para matar o “subversivo” cangaceiro Coirana. Contudo, ao final do filme, o personagem percebe que o real vilão é o Coronel latifundiário que temia a reforma agrária. A mesma coisa com Quem É Beta? (1972), uma ficção científica do Nelson Pereira dos Santos que na sua superfície é apenas uma espécie de apocalipse zumbi riponga. Entretanto, quando você para pra analisar, os protagonistas representam uma elite armada que se vê no direito de eliminar aqueles que consideram uma ameaça ao seu status quo. Hmm, será que esses cineastas estavam aludindo a alguma coisa do cenário político daquele período?

À esquerda uma imagem do filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, e à direita imagem do filme Quem é Beta?, de Nelson Pereira dos Santos
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (esq.) e Quem É Beta? (dir.)

Hoje essa sutileza já não é mais necessária e os filmes podem abertamente falar da ditadura militar. Até na forma das sátiras mais escrachadas como o grupo humorístico Casseta & Planeta fazia na TV. E, bom, eles também fizeram no cinema com a comédia de 2003, A Taça do Mundo É Nossa, sob a direção de Lula Buarque.

É um filme complicado de se recomendar porque o humor do Casseta & Planeta sempre foi muito oito ou oitenta, então tenho a impressão que é muito mais fácil achar as piadas mais vergonha alheia do que engraçadas. Eu que cresci vendo o grupo na TV ainda consigo tirar umas risadas genuínas da irreverência deles. Contudo, ao mesmo tempo tem várias piadas que me fazem revirar os olhos por serem tão óbvias. Uma cena envolve o pau-de-arara e se você já assistiu alguma coisa do Casseta & Planeta você sabe exatamente qual é a piada que fizeram aqui.

A Taça do Mundo É Nossa também tem outros problemas. Por exemplo, as caricaturas que fizeram tanto dos militantes de esquerda quanto dos militares seguem mais estereótipos modernos desses grupos do que uma sátira mais contextualizada nos anos 70. Ainda assim eu acho que o filme tem boas sacadas no roteiro, principalmente na trama que serve de comentário ao ufanismo que os militares tentaram alimentar com a vitória na Copa de 70. Outro detalhe que vem aparecer mais pro final é quando o exército americano aparece no meio da Floresta Amazônica apenas para matar os militantes e ir embora.

Pode parecer uma piada solta, mas não consigo deixar de pensá-la como uma referência ao que hoje já sabemos como fato que o governo dos Estados Unidos teve influência no golpe de 64. Ponto este que foi largamente tratado no documentário de Camilo Tavares, O Dia que Durou 21 Anos (2012). Esse é mais um filme que começou de um jeito e acabou terminando de hoje. Inicialmente, Camilo queria contar a história do seu pai, o jornalista Flávio Tavares, um dos vários militantes presos e então exilados nos anos 70. Porém a ideia evoluiu quando ele teve acesso a vários documentos e áudios que o próprio governo americano tornou público. Eles mostram como havia um interesse dos Estados Unidos de tirar João Goulart do poder, pelo velho medo da ameaça vermelha, e apoiou a conspiração que levou a sua deposição e o eventual golpe militar.

Será que a direita vai falar sobre isso ou vai esperar o Brasil Paralelo inventar a versão deles?

Trecho do documentário O Dia Que Durou 21 Anos que fala sobre a participação dos Estados Unidos no golpe de 64 que deflagrou a ditadura militar. A imagem mostra o Deputado Bocayuva Cunha dando um depoimento sobre o medo do comunismo que existia na época
Ainda bem que as coisas mudaram, né? NÉ?!

Até aqui deu pra ver que existem muitas questões pessoais que influenciam a produção cinematográfica sobre a ditadura militar. Mas eu acredito que também existe uma certa universalidade nesse tema, pois regimes opressivos e a violência contra um povo são eventos que você encontra em todos os lugares em todas as eras. É nessa universalidade que eu acredito que a animação Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi, resolve apostar.

A história retrata um indígena, Abeguar, escolhido para enfrentar o espírito da morte e da destruição, Anhangá. Para tal, Abeguar é fadado a reencarnar em épocas diferentes para descobrir como derrotá-lo. Cada vez que ele retorna, é justamente num período em que há algum episódio de violência ocorrendo no Brasil. Quando o filme começa estamos na época da invasão e colonização dos povos indígenas pelos portugueses. Depois passamos pelas revoltas das Balaiadas contra o exército do Império. Em seguida temos os primeiros anos da ditadura militar, quando a repressão contra militantes de esquerda se intensificou. Por fim, Uma História de Amor e Fúia se passa numa distopia futurista em que a água é escassa, transformando o Brasil numa grande potência pelos seus aquíferos.

Notem que a ditadura militar nesse filme é só uma entre vários ciclos de violência. Inclusive nesse capítulo também mostram os conflitos com as milícias no Rio de Janeiro. De tal forma, eu vejo que a animação fala muito sobre a necessidade de conhecer e, mais do que isso, lembrar desses episódios terríveis da nossa história. Era aqui que eu queria chegar, pois para mim o que move de verdade os filmes sobre a ditadura militar são as memórias.

Se pararmos para pensar, essa não foi nem a única ditadura que o país viveu no séc. XX, contudo a gente tem muito mais obras ambientadas na ditadura do golpe de 64 para o Estado Novo. Por quê? Pois não é apenas com fantasmas da ditadura militar que temos contato. Vítimas como o próprio Flávio Tavares, que eu acabei de citar, e seus parentes próximos ainda estão por aí. Lembremos que uma ex-presidente nossa, Dilma Rousseff, foi torturada e anos depois tivemos um verme que também se tornaria presidente que exaltou esse torturador em pleno Congresso. As feridas da ditadura ainda estão abertas vertendo sangue.

Portanto, não é de se estranhar que muitos dos filmes que temos sejam adaptações diretas ou baseadas em biografias de pessoas que passaram por aquele período. Em 2019, por exemplo, Wagner Moura dirigiu Marighella (2019), adaptação do livro de Mário Magalhães. A obra conta a história de uma das principais lideranças da guerrilha urbana, Carlos Marighella, que escreveu o Minimanual do Guerrilheiro Urbano na mesma data de sua morte, 1969. Não posso comentar nada mais sobre porque eu não assisti, mas resolvi pontuá-lo como exemplo porque acredito que Marighella é o responsável pela criação do estereótipo dos filmes sobre a ditadura militar que a direita alucinada usa hoje.

Mas um que eu vi e posso comentar é Batismo de Sangue (2007), de Helvécio Ratton. Inclusive o Marighella é um dos personagens que aparece no filme. O roteiro adapta o livro homônimo de Frei Betto, relatando sua experiência com um grupo de frades dominicanos que decidem auxiliar a Ação Libertadora Nacional, a organização comandada por Marighella, porém acabam presos pelo DOPS. Embora o Frei Betto esteja presente no filme, o personagem principal é o Frei Tito que foi torturado na prisão e teve uma profunda sequela psicológica depois.

Caio Blat no filme Batismo de Sangue, onde interpreta o Frei Tito, um dos frades que auxiliou os guerrilheiros durante a ditadura militar e foi preso e torturado pela polícia

Batismo de Sangue virou uma daquelas obras que eu adoro, porém não recomendo para ninguém. As cenas que retratam as torturas que o Frei Tito são assombrosas. Aqui eu tenho até que elogiar a atuação do Caio Blat, porque a dor que os gritos dele transmitem são muito reais. Eu uso assombrosas, porque é isso que as torturas se tornaram na vida do Frei Tito que acabou se suicidando em Paris. Não é exatamente um spoiler, pois a primeira cena do filme mostra o frei se enforcando numa árvore pra te deixar com aquele vazio no peito duma vez.

O que acho mais tocante nessa história não é apenas o fato dela ser real. É que ela nos mostra que as sequelas da ditadura não foram apenas físicas. Frei Tito se tornou um morto que ainda estava vivo, pois as memórias da sua tortura tiraram toda a capacidade dele seguir com a sua vida. Assim, quando a gente vê que houve muito mais pessoas torturadas do que mortas, ficamos nos questionando quantos Frei Titos ainda existiam por aí.

Aliás, vou aproveitar o gancho para citar outro bom filme que explora o inferno mental de quem estava sob a navalha do regime militar: Cabra-Cega (2005), do Toni Venturi. Até onde eu sei é uma história 100% ficcional, é mostra um guerrilheiro escondido no apartamento de um dos seus companheiros do seu grupo depois de levar um tiro numa emboscada. O filme se apresenta como um drama, porém eu o vejo como uma thriller psicológico. Praticamente ele se passa todo dentro do apartamento onde vemos a paranoia crescer cada vez mais no protagonista. Você não fica tenso pela possibilidade da polícia encontrá-lo, mas sim que ele fique louco e ponha em risco a si mesmo ou seus colegas.

Junto com a paranoia, existe um enorme sentimento de impotência que ronda o protagonista. Ele se vê incapaz de fazer nada preso naquele apartamento, enquanto pessoas continuam sendo presas e torturadas. A edição do filme faz uma sacada boa em intercalar as cenas dele enlouquecendo no apartamento com as cenas de tortura de uma guerrilheira que os policiais capturaram na emboscada. A gente sabe que aquilo está de fato acontecendo com a personagem, mas da forma que é colocada no filme faz parecer que é a própria mente do protagonista imaginando. Isso apenas aumenta seu sofrimento por não poder fazer nada para ajudá-la.

Cena do filme Cabra-Cega, mostrando um guerrilheiro escondido no apartamento de um colega depois de levar um tiro numa emboscada

Voltando às biografias, também dá para citar O Que É Isso, Companheiro? (1997), filme de Bruno Barreto baseado no livro homônimo do jornalista e político Fernando Gabeira. O filme retrata um episódio muito conhecido da ditadura que foi o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick pelo grupo que Gabeira fazia parte. Obviamente que por ser uma obra de ficção, ainda que baseada em fatos reais, ela toma umas liberdades poéticas.

Uma coisa que eu achei curiosa é como o filme tenta não deixar as coisa tão no preto e branco. O embaixador é representado como uma figura que não partilha as mesmas visões do governo dos Estados Unidos. Ele até mesmo faz o personagem do Gabeira questionar seus próprios ideais como guerrilheiro. Por outro lado, ele também não idealiza os revolucionários mostrando que alguns deles usavam a sua posição de poder dentro do grupo para antagonizar seus camaradas. Evidente que eles estavam numa situação limite em que excessos eram compreensíveis. Mas o personagem do Matheus Nachtergaele às vezes parece mais vilão do que a polícia do DOPS.

Aliás, tem um outro detalhe que não me desceu muito bem. O filme tem uma tentativa de humanizar os torturadores, quando num momento um dos agentes da polícia se mostra afetado por estar ter que fazer isso com “crianças”. No caso são jovens adultos, mas dá para entender a figura de linguagem. Só que isso vem numa única cena e a questão nunca mais é levantada depois. Me pareceu só uma tentativa muito forçada de deixar a narrativa um pouco mais cinza.

Ano passado tivemos o sucesso do Walter Salles com Ainda Estou Aqui. Acho que todo mundo conhece a sinopse, mas não custa nada descrever. O filme conta a história da prisão e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva em 1971 na perspectiva da sua esposa, Eunice Paiva. Eunice tornou-se uma figura importante no ativismo pelos direitos humanos, atuando pela causa indígena e pelos desaparecidos da ditadura. Porém o filme se baseia no livro homônimo escrito não por Eunice, mas sim pelo seu filho Marcelo Rubens Paiva, que na época do desaparecimento do seu pai tinha apenas 12 anos. Então, também existe essa herança dos filhos daqueles que sofreram com a ditadura, alguns que eram muito crianças para entenderem o que estava acontecendo.

Cabe aqui citar O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), do Cao Hamburger, pois o filme nos trás essa perspectiva com uma história mais ou menos fictícia. Supostamente o roteiro é inspirado em algumas experiências da vida do diretor. De qualquer forma, ele usa uma história de amadurecimento para falar da ditadura pelas beiradas. O protagonista é um menino deixado na casa do seu avô pelos pais que estão fugindo dos militares. Porém, em momento algum ele percebe o que realmente está acontecendo. Para o garoto, seus pais apenas tiraram férias. Ele até nota algumas coisas estranhas, porém nunca recebe um choque de realidade. Até mesmo quando ele vê um grupo de universitários sendo atacados pela polícia. A ditadura acontece no entorno do filme e da vida desse menino, cuja inocência o impede de enxergar a violência como ela acontecia.

O curta animado Torre (2017), de Nadia Mangolini, é outro exemplo de histórias herdadas. Aqui temos os filhos de Virgílio Gomes da Silva, o primeiro desaparecido que se tem conhecimento, tentando remontar as memórias nebulosas que têm do pai e do período que viveram no exílio. O Nome da Vida (2024), também um curta animado, tem como base a autobiografia de Wladimir Pomar, militante político preso nos anos 70, mas que sobreviveu. Contudo a direção do curta é da sua neta, Amanda Pomar. Com certeza se eu for pesquisar encontrarei mais casos de filhos e outros descendentes contando a história da sua família.

Dois curtas animados brasileiros sobre a ditadura militar: à esquerda Torre e à direita O Nome da Vida
Torre (esq.) e O Nome da Vida (dir.)

Com esses últimos exemplos, eu gostaria de fechar a ideia central do texto. Apesar de eu ter citado vários filmes – e ainda tem vários outros que eu não assisti – eles não representam nem 1% da nossa produção cinematográfica. Ainda que fosse uma parcela significativa dos nossos filmes, isso não importaria. Pelo menos não para pessoas normais. Um país retratar a sua história, no seu cinema, não deveria ser motivo de desprezo e sim celebração. De novo eu cito a filmografia dos Estados Unidos, que sempre aproveita para se representar como os heróis do mundo. Até em filmes de monstros gigantes da década de 50 eles faziam isso.

Mas toda essa glorificação nós não vemos no cinema brasileiro, pelo menos não nesses filmes que eu assisti. Até mesmo em O Que É Isso, Companheiro?, que os militantes têm sucesso no sequestro do embaixador e libertam vários presos políticos, existe um final plenamente feliz. Alguns militantes são mortos, outros são presos e as sequelas ficam com eles, física e mentalmente. Esses filmes são registros culturais das marcas que a ditadura militar deixou na nossa história.

Por isso que devemos continuar retratando-a na nossa ficção. É um lembrete constante de toda a violência, todo sofrimento e todo sangue que foi derramado pelos militares. Algo que fica ainda mais necessário depois de 2023, com menos de cinquenta da redemocratização, o país passou por outra tentativa de golpe. Por mais ridículo que os golpistas fossem, algo que deixa qualquer sátira do Casseta & Planeta no chinelo, havia essa vontade. Havia esse plano! A nossa sorte foi que dessa vez era um grupo incompetente tentando tomar o poder.


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