
Era uma noite quente como todas as outras em Volta Redonda. Mexendo no meu computador, recebo uma notificação de uma mensagem do meu melhor amigo. “Vou abrir uma live jogando umas paradas. Cola lá!”, disse ele. Todo faceiro, entro na Twitch e procuro o seu canal. Olho para o jogo que que meu amigo acabara de iniciar, Maniac. Nunca tinha ouvido falar. “Qualé desse GTA das antigas aí?”, pergunto inocentemente. Uma sombra se projeta sobre o meu quarto. O ar fica mais denso. Cada pelo do meu corpo se arrepia. Então, eu escuto uma voz sussurrar num dos meus ouvidos: “É um survivors-like!”.
Ok, eu posso ter floreado um pouco essa anedota. Mas essencialmente foi assim que eu conheci Maniac. Me chamou bastante a atenção que a jogabilidade dele era claramente inspirada nos primeiros GTAs que eu gostava bastante – sobretudo o segundo – na época que tive um PlayStation. Logo, tive uma pontada de curiosidade em jogá-lo. Minha esperança era que o Maniac fosse um indie resgatando a gameplay com uma qualidade arcade que a Rockstar abandonou para seguir exclusivamente o modelo manjado de mundo aberto 3D que temos hoje em dia. Para a minha infelicidade, logo ficou claro que GTA não era sua única referência.
O jogo também é mais um exemplo saído da caixa de Pandora dos survivors-like que Vampire Survivors abriu há alguns anos. Para ser justo, ele não segue à risca o modelo desses clones, porém existem algumas convergências. Mesmo que exista a gimmick do GTA, o objetivo principal é o de sobreviver hordas de inimigos durante um intervalo de tempo, com uma meta-progressão que se mantém entre cada partida. Pois bem, considerando alguns dos meus últimos textos, acho que está claro para todos que minha opinião a respeito desses jogos não é das mais positivas. O que abre espaço para o questionamento de por que eu tenho tantos deles? A resposta é simples: o meu amigo acha divertidíssimo me enviá-los de presente, coisa que ele fez com Maniac também.
Mas Tormented Souls 2 você não me dá, né Lucas?
Apesar dessas minhas… desavenças com esses jogos, eu sou um otimista. Ainda tenho esperanças que vou encontrar um survivors-like que surtirá o mesmo efeito que Hades teve em mim. Death Must Die é um em que estou apostando as minhas fichas quando for lançado. No caso de Maniac, eu fiquei com um interesse genuíno de testá-lo depois daquela live e teria comprado se meu amigo não fosse mais rápido no Pix.
Pelo pouco que eu vi naquela noite, já dava para notar que o desenvolvedor entendia qual era o real apelo da gameplay dos GTAs antigos. Apesar deles terem uma estruturazinha que hoje parece simples se comparado ao restante da franquia, como fazer missões para acumular mais pontos e passar para os próximos níveis, só meia dúzia de pessoas jogava desse jeito. A maioria só estava a fim de zaralhar pela cidade, roubando carro e atirando em tudo que se movia só para ver quanto tempo conseguia sobreviver. Se tivesse com um amigo então, aí que era bagunça pura porque um queria fazer mais maluquice que o outro. Eu lembro que teve umas vezes que eu até tentei fazer as missões, só para desistir assim que encontrava um lança-chamas dando bobeira no mapa.

É nesse espírito caótico que Maniac decide investir, te colocando na pele de um psicopata para nada mais do que destruição inconsequente. Você começa com um personagem, mas pode liberar mais outros cinco ao concluir algumas tarefas. Por tarefas eu quero dizer “matar NPCs específicos”. Aliás, nesse aspecto Maniac consegue até ser mais violento do que GTA. É quase um Hatred, porém feito por alguém com algum senso de humor (ainda que seja um senso de humor sombrio). Dá para pôr fogo em ônibus escolar com crianças dentro e atropelar carrinhos de bebê, com direito a você ouvir o choro dele.
Psicopatias à parte, como eu já mencionei lá atrás, o objetivo de cada partida é sobreviver por 20 minutos na cidade até que ela seja explodida por uma bomba atômica. Contudo esse contador só passa a valer no momento que você comete algum crime e a polícia te persegue. Antes disso você pode explorar a cidade para conseguir uns upgrades ou encontrar armas e outros veículos. Então, tal como GTA, você pode roubar qualquer carro no mapa e tem um arsenal à sua disposição. Todo personagem pode levar uma arma de combate corpo-a-corpo, uma de longa distância, dois explosivos diferentes e algum tipo de dash.
Conforme o tempo passa, novas unidades especiais da polícia aparecem para tentar te impedir e, nos níveis mais altos, o exército. NPCs que você mata não deixam experiência e sim dinheiro que você pode usar no menu inicial para melhorar alguns atributos e desbloquear as habilidades do personagem. Também tem um NPC que aparece em lugares aleatórios do mapa que te oferece um upgrade temporário para aquela partida.
Bom, é isso! Não tem mais nada a apresentar da jogabilidade de Maniac que não seja entrar nas especialidades de cada personagem. Por exemplo, o rol de habilidades do Papai Noel inclui iniciar a partida com uma escopeta, uma sacola, presentes explosivos, mísseis e ele também pode rolar para desviar de balas e veículos. Já o Palhaço salta em vez de rolar e tem uma submetralhadora, uma motosserra e balões explosivos que podem te queimar junto se você estiver muito perto.
Eu poderia falar dos demais personagens só que tem um problema: eu não joguei com nenhum deles. Melhor, eu decidi NÃO jogar com nenhum deles porque parei com o jogo assim que consegui sobreviver os 20 minutos com o Palhaço. Embora tenha sido divertido reviver aquela sensação dos GTAs antigos, isso durou poucas horas. Logo eu percebi que já não sou mais aquela criança que vai se satisfazer unicamente com tiro, porrada e bomba. Literalmente! Eu gosto de ter um objetivo maior ou então uma história que me envolva. Ficar repetindo as mesmas partidas, uma atrás da outra, só pela ação frenética não clica comigo. Eu abandonei os jogos competitivos por esse motivo.
Para piorar, eu desanimei mais ainda depois que notei que não havia muita variação no desafio de Maniac. Para ganhar, tanto com o Papai Noel quanto com o Palhaço, a minha estratégia era a mesma. Primeiro eu ficava atirando nos NPCs, desviando da polícia e pegando dinheiro até aparecer os veículos mais pesados. Depois disso eu esperava chegar o exército para poder roubar um tanque e pronto. Nesse momento a partida já estava ganha. Dali pra frente bastava resistir o máximo que desse e, se necessário, pular para outro tanque se o meu estivesse prestes a explodir. Faltando um minuto, eu nem mesmo me preocupava mais em atirar nos NPCs. Era só entrar num carro qualquer e sair a toda velocidade até o contador chegar ao zero.
Eu não ia fazer essa mesma coisa para mais quatro personagens, então decidi parar antes que a minha diversão virasse frustração. Erro este que acabei cometendo com Slyders e vocês viram, caso tenham clicado no link, como terminou essa história.

Mas admito que nem é tanto culpa de Maniac, é do gênero como um todo. Ou ao menos aqueles que joguei até o momento. Esses survivors-like seguem a mesma estratégia de te manter engajado através de desbloqueio de conteúdo. Toda hora você libera um novo personagem, uma nova fase, uma nova arma para estender a gameplay e criar a ilusão que as partidas serão diferentes. Vampire Survivors ao menos colocou alguns segredos e fases com desafios especiais para te incentivar a jogar mais. Seus clones diretos, e indiretos, parecem cada vez mais preguiçosos nesse aspecto. Isso quando não tentam criar uma falsa dificuldade deixando o jogo totalmente desbalanceado.
Como se isso já não bastasse – e não basta mesmo – Maniac também recorre a mesma tática baixa para criar algum valor de replay que é através do grind de conquistas. Rouba esse carro específico, mata essa quantidade de NPCs dessa forma, destrua tal coisa com tal personagem, rouba esse outro carro específico. Afinal, isso tem público. Muitos gamers se convenceram que caçar conquistas é uma experiência divertida e buscam jogos planejados para lhes dar essa recompensa. Eu não sou um desses gamers e, francamente, tenho um enorme pouco de desprezo por eles.
Portanto, não vi outra escolha senão me impedir de continuar jogando Maniac no momento que percebi que a chavinha da diversão estava em vias de virar. Mas não me entendam mal, eu consegui me divertir nessas primeiras horas. Se você é alguém que carrega uma nostalgia pelo “GTA do Velho Testamento”, é bem provável que também vai gostar desse jogo. A cidade é bacaninha, tem várias áreas diferentes, o problema é que não tem nada para fazer nelas. Se tivesse alguma forma de desafio específico nesses locais, talvez eu me motivasse a iniciar outras partidas e usar os outros personagens. Mas como não tem, acho que já tirei tudo que poderia tirar dessa experiência.
PS: se você é um desses gamers que adora colecionar conquistas e de alguma forma se sentiu ofendido com o que falei: que bom! Não tenho o menor respeito pela sua laia!!!
PS 2: estou plenamente ciente que o ponto acima foi apenas um ataque gratuito e gostaria de reforçar que não me importo nenhum um pouco pois não acho que caçadores de conquistas devem ter direito a opiniões na esfera pública.
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