A pirataria não precisa de justificativa

Foto do Capitão Jack Sparrow, interpretado por Johnny Depp, da franquia Piratas do Caribe, o maior ícone da pirataria do cinema contemporâneo

Duas semanas atrás eu dei o famoso ratio num figurão da indústria, Sandy Petersen. Para quem não o conhece, ele é um game designer americano que começou trabalhando no RPG de mesa de RuneQuest e também criou o Call of Cthulhu. Ao longo da sua carreira, ele contribuiu em franquias de videogames conhecidas, tais como: Doom, Quake e Age of Empires. Por fim, Petersen é o autor deste tweet traduzido livremente:

Sou um homem que odeia pirataria com cada osso do meu corpo. Vi empresas que eu amava e homens que eu admirava serem destruídos pela pirataria de videogames. Detesto quaisquer desculpinhas e mentirinhas criadas para justificar a pirataria.

Mas aqui declaro que se você usar um emulador para jogar um jogo que você não pode acessar de outra forma; eu não conto como pirataria. Vá em frente e jogue Panzer Dragoon com a minha bênção.

Acho que a melhor reação para esse tipo de postagem seria um belíssimo de um “foda-se, gringo”, ainda que eu não tenha nada contra o Petersen. Porém eu não pude deixar de dar uma gostosa risada com a fanfic sobre ele ter visto empresas que amava e homens que admirava serem destruídos pela entidade cósmica da pirataria. Por esse motivo, eu muito descontraidamente fiz uma piada com a postagem dele e até agora estou surpreso com o tanto de engajamento que teve. Ah, a falta que um selinho azul faz…

Até certo ponto, eu compreendo que a pessoas que tem carreira na área de desenvolvimento de jogos, jornalismo ou até na produção de conteúdo sobre videogames não apoiem pirataria. Publicamente! Isso seria suicídio profissional. Um tempo atrás teve um rumor que a Kotaku entrou para a lista negra da Nintendo após fazer artigos sobres jogos do Switch que já haviam sido emulados próximo dos seus lançamentos. Ninguém é doido para arriscar perder uma oportunidade de emprego ou patrocínio por divulgar pirataria.

Logo, reitero que entendo perfeitamente ficar de biquinho fechado nessas situações… só que que tem uns que gostam de se fazer, né?

Em algum momento na sua jornada cibernética seu caminho cruzará com alguém condenando a pirataria e aqueles que usufruem dela. O que me chama atenção não é o posicionamento, estamos numa democracia e é direito dessas pessoas. O que me pega é quando usam um tom vexatório ou, como no caso do Petersen, criam um pânico moral em cima da pirataria. Isso vem desde minha mais tenra idade, pois fui uma criança dos anos 2000 na época que se deflagrou o comércio de DVDs piratas. Você podia ir em qualquer feira da sua cidade que em algum momento encontraria uma barraquinha ou um camelô recheado deles.

Claro que os estúdios e distribuidoras não gostaram nada disso e passaram a veicular propagandas para desincentivar o consumo de DVDs piratas. Na gringa teve isso também e vocês devem conhecer a infame “Você Não Roubaria Um Carro”. Tivemos nossas versões brasileiras que… não, para! Eu me julgo um bom escritor de artigos, mas não sou capaz de fazer jus a tais comerciais. Acho melhor mostrar a vocês o meu exemplo favorito:

A profissão de publicitário deveria ser criminalizada!

Fazia tempo que eu não via essa propaganda então eu havia me esquecido do “Amanhã eu vou vender droga na escola por causa desse DVD.”. Fantástico, né? É quase como um daqueles comerciais satíricos de Robocop. Existem mais alguns dessa leva e algo curioso é como todos tem essa tema recorrente do tráfico de drogas que aparece das formas mais absurdas. Tem uma outra propaganda em que depois de vender o DVD o ambulante pergunta se pode dar o troco em bala e dá um monte de balas de fuzil na mão do comprador. Tentaram de verdade associar a pirataria com tráfico de drogas, afinal né, os anos 2000 não foi uma época boa para traficantes. Precisaram vender DVD pirata para complementar renda!

No caso dos videogames o combate a pirataria se deu muito mais por meios tecnológicos, com empresas investindo em formas cada vez mais sofisticadas de proteção. Já o moralismo surgiu por parte da próprias pessoas, apelando para estúdios metafóricos que supostamente faliram por conta da pirataria. Aqui eles são malandros, porque aproveitando de algumas zonas de ambiguidade que permitem que eles vilanizem a pirataria com uma lógica menos absurda do que dizer que comprar DVD pirata financia o narcotráfico.

Naquele meu tweet, por exemplo, por mais de uma vez citaram o caso da SNK, que declarou falência no início dos anos 2000, como uma das supostas vítimas da pirataria. Para isso se valem do fato que muito fácil produzir cópias do Neo Geo, o console da empresa. Contudo, se você olhar para a história da SNK, verá que a derrocada dela foi um pouquinho mais complexa.

A empresa conquistou um enorme sucesso nos anos 90, tal como a Capcom, graças aos arcades. A SNK lançou várias das franquias mais populares da época, como Fatal Fury, The King of Fighers e Metal Slug. Só que houve uma diferença significativa entre ela e a Capcom. Quando o mercado dos arcades entrou em decadência, a SNK não conseguiu se adaptar ao consoles como a sua concorrente. Para piorar, a empresa também acumulou outros fracassos nesse período.

Um talvez não tão comentado foi o investimento na construção de dois parques temáticos, o Neo Geo World Tokyo Bayside e o Neo-Geo Tsukuba, onde o primeiro perdeu espaço para outra concorrente que abriu nas proximidades. O Hyper Neo Geo 64, o hardware que deveria trazer a SNK para o 3D, também não vingou, com pouquíssimos jogos criados para ele. Como se tudo isso não bastasse, a empresa também acabou sendo comprada pela Aruze, que atuava no ramo dos pachinkos. Em vez de investir no desenvolvimento de jogos, a Aruze estava muito mais interessada em criar máquinas com os personagens das franquias da SNK.

Então quando a gente bota tudo no papel, a questão da pirataria se torna uma questão muito pequena comparada as demais. Entretanto ainda é uma desculpa bem conveniente. Oferece uma oportunidade de isentar a empresa de todos os erros da sua gestão e jogar a culpa em você, o consumidor, esse ser abjeto que não quer dar seu suado dinheirinho para ela. Felizmente(de novo) esse é outro discursinho fajuto que não cola tanto porque, como muitos vivem apontando, empresa alguma está de fato deixando de ganhar dinheiro por causa da pirataria. Vocês sabem exatamente o motivo, então no momento não irei destacar o óbvio. Vamos então falar sobre de onde será que vem esse ímpeto de condenar a pirataria.

A gente poderia simplificar que é apenas porque existem os Protetores de CNPJ na comunidade gamer. Parte da identidade dessa galera se forma ao redor de um console e, por extensão, da marca que o produz. Então eles se sentem na necessidade de defender essas empresas. Porém no caso da pirataria eu acho que dá para ir um pouco além.

Sou obrigado a localizar a discussão porque a relação do brasileiro com jogos piratas é bem passional. A relação do brasileiro com muitas coisas é passional. Mas nesse caso é porque o acesso a videogames no Brasil, para a maior parte das pessoas, foi atravessada pela pirataria. O PlayStation 2 é o exemplo mais clássico que teve um enorme impacto cultural no país depois que foi desbloqueado, o que estendeu a vida do consoles por anos depois da sua produção ser descontinuada. Eu posso falar por mim, eu tive um aquela versão Slim e nunca comprei um jogo original sequer. Era DVD pirata de lojinha da esquina ou que eu mesmo gravava no meu computador depois de descobrir o maravilhoso mundo das ISOs.

Na internet existe esse fenômeno que qualquer posição que seja defendida intensamente, fará surgir uma posição contrária com o mesmo fervor. Então se existem brasileiros que tem um ímpeto muito forte em defender a pirataria, também existem aqueles que a condenam, como eu já disse, passionalmente. Daí vira uma guerra de espantalhos em que um lado retroalimenta o outro. O que eu mais gosto é um pessoal que pega um ar com meia dúzia de guri que se orgulha por não comprar jogo e acha que todo mundo consumindo pirataria faz isso indo na mentalidade de “hi hi levei vantagem”.

Em contrapartida, por conta da existência dos idiotas acima, surge outra galera que tenta dar uma justificativa nobre para o ato da pirataria.

Eu falo isso em relação aquela conversinha de tratar pirataria como uma forma de protesto contra as ações da empresa. Com a Nintendo rola esse papo direto e a gente sabe que é balela. A pessoa pirateia jogos da Nintendo pelo mesmo motivo que todo mundo pirateia; ela, as demais empresas e até mesmo jogos indie que tem uma galera que definiu que é o limite moral, mas quer ganhar um pontinho no score social da internet. Estamos baixando ROMs de Super Nintendo, Game Boy Advance, Nintendo DS, etc., há décadas e ninguém nunca meteu esse papinho. Mas como agora temos os Protetores de CNPJ, que se você apertar um pouquinho já sai suco de elitismo, o pessoal tem que vir com papo de consciência pró consumidor para contrariá-los.

Mas não me entendam mal, dá para buscar justificativas para pirataria se a gente quiser. A preservação dos jogos talvez seja o melhor argumento que existe porque muita coisa desapareceria se deixássemos nas mãos das empresas. Mais uma vez recorro a notícia que a GOG precisou insistir com a Capcom para trazer os originais do Resident Evil para o seu programa de preservação porque, segundo os executivos, os “remakes já eram versões superiores”. Se tratam uma das maiores franquias da história dos videogames assim, que será dos títulos mais obscuros do catálogo deles? Porém o melhor exemplo que eu gosto de usar é Mother 3.

Mother 3, um dos melhores títulos do GBA que até hoje não tem uma localização além do japonês
Aliás já foi pauta aqui no blog anos atrás

Desde o seu lançamento em 2006, o único jeito de você conseguir jogá-lo é através de uma ROM pirata porque em 20 anos a Nintendo não demonstrou qualquer interesse em traduzir o jogo. Não é um caso isolado e tem muita coisa que hoje a gente só tem acesso por causa de grupos como o Aeon Genesis que faz patches de tradução para jogos antigos. Tengai Makyō Zero, Laplace’s Demon e Treasure of the Rudras são outros exemplos de RPGs que só consegui jogar por causa disso.

Show, então qual é meu ponto nessa confusão toda? É simples: não vejo necessidade alguma em criar essas justificativas. Tenho para mim que não precisamos nos armar desculpas legítimas para usar da pirataria. Mais do que isso, eu diria que ela é uma consequência “natural” de como o mundo se organiza. O “Sr. Valve”, Gabe Newell, já falou uma vez que entende a pirataria não como um problema de preço e sim de serviço. Meu pensamento costumava ir na linha dele, porém eu passei divirjir um pouco.

De fato a Steam foi fundamental para eu ter uma biblioteca digital e sempre que posso eu aproveito uma promoção. Entretanto, os jogos que eu costumo comprar lá já estão com um preço baixo porque não tenho pressa. Entretanto, se fosse para jogar um lançamento, eu teria que piratear. Na verdade, não precisa nem ser um lançamento. Quase dois anos depois, Sand Land ainda custa R$ 242,50 no seu preço base. Se eu não tivesse um backlog inteiro para esvaziar, esse já tinha ido de torrent faz tempo.

Se consideramos também o que aconteceu com o Game Pass, que era a grande apostar para ampliar o acesso a jogos, fica claro que não dá para tirar o preço totalmente dessa equação. Logo, eu prefiro dizer que pirataria é um problema de capitalismo. Tenho consciência que esse é um dos clichês mais batidos da internet. Qualquer mazela do mundo é jogada no colo do capitalismo. Com frequência está certo, só que a gente acaba de saco cheio de tanto ouvir essa história. Dito isso, eu vou encher o saco de vocês com essa história!

Seja você de direita ou de esquerda, podemos todos concordar numa boa que o capitalismo aumentou em larga escala a produção a nível mundial, o que inclui a indústria cultural. Todo ano temos uma infinidade de novos livros, quadrinhos, jogos, séries, filmes, músicas, etc., prontos a serem consumidos por alguns de nós. Ênfase no “alguns”. Afinal, são poucos que podem se dar esse luxo de pagar por tudo que querem. Todo liberalzinho de internet, principalmente aqueles à moda brasileira, vai encher a boca para dizer que o capitalismo gera riqueza. Só falta dizer PARA QUEM ele gera.

Talvez num país com um sólido nível de bem-estar social um cidadão médio consiga financiar todos seus gostos. Para os demais, escolhas tem que ser feitas. No meu caso pessoal, eu compro alguns livros e alguns jogos em promoção. Filmes e séries, por outro lado, geralmente eu baixo da internet. Uma vez ou outra eu vou com meu amigo no cinema e olhe lá, sendo que eu faço muito mais para poder socializar com ele do que para ver o filme de fato. Eu não tenho capacidade de assinar dúzias de streamings diferentes para ter tudo a minha disposição (sendo que mesmo assim haveria coisas fora desses catálogos). Logo, eu abro eu pego um link num desses Clubes do Drive aí do Twitter e vou ser feliz, tal como centenas de milhares de pessoas fazem todos os dias.

Se falarmos de videogame é algo ainda pior. Resident Evil Requiem saiu ontem e está a R$ 299,00 na Steam. O próximo lançamento grande provavelmente vai estar por esse mesmo valor. Então, bicho, não vai rolar. Existem exclusivos no PlayStation 5 do que pessoas que podem financiar esse hobby sem se preocupar com o orçamento do mês. E antes que aqueles mesmos liberalzinhos que eu citei venham dizer que no Brasil tudo é mais caro e o brasileiro tem pouco poder de compra, vou lembrar da pesquisa que saiu dizendo que mais da metade dos consumidores americanos compram dois jogos ou menos por ano.

Por isso que o choro sobre as empresas metafóricas que faliram por causa da pirataria é tão ridículo. Você acha que esse também gamer metafórico ia comprar o Resident Evil Requiem num mundo que a possibilidade de pirateá-lo não existisse? Evidente que não. Portanto, não precisamos aqui ficar nos desgastando com justificativas para nós mesmos ou para aqueles que tomaram como objetivo da vida proteger o fluxo de caixa das empresas. Só baixa seu jogo aí e depois usa o dinheiro para pagar a sua conta de luz. Só meia dúzia de idiota se incomoda com isso de verdades. Os demais… opa! Foi mal, vocês vão ter que me dar licença. Acabou de subir uma notificação do qBittorrent aqui!


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