Soulstone Survivors é o lendário survivors-like que eu tanto procurava

Capa de Soulstone Survivors editado com o meme de "I get it now" da série It's Always Sunny in Philadelphia

Em 2024 eu ganhei de presente, joguei, me viciei, zerei e depois abandonei Vampire Survivors. Contudo, nesses quatro anos, eu segui explorando emergente gênero dos ditos survivors-like. Há quem prefira chamá-los de bullet heaven, mas tem uma conotação negativa em survivors-like que eu acho muito necessária. Enfim, já contei essa história diversas vezes aqui no blog então serei sucinto.

Apesar da minha opinião sobre esses jogos ter decaído a cada novo título que eu testava, ainda mantive a esperança que um dia encontraria um que conseguisse repetir o mesmo sentimento que tive com Vampire Survivors. Recentemente tive algumas boas experiências com Shard Squad e HoloCure: Save the Fans!. Entretanto, nenhuma delas chegou ao ponto de superar o “original” no meu coração. Foi então, meus caros leitores, que eu finalmente me encontrei com Soulstone Survivors.

Depois de desinstalar HoloCure: Save the Fans!, apenas por curiosidade, eu resolvi contar todos os survivors-like que eu tinha jogado. Ok, ok, não foi apenas por curiosidade. Spoiler dos bastidores do Backlogger: estou fazendo uma lista ranqueada com esses jogos. Pois bem, naquele momento eu tinha 11 survivors-like no meu histórico. Como uma pessoa completamente normal e em pleno controle das suas faculdades mentais, eu precisava que esse número fosse par. Logo, resolvi jogar mais um para fechar a lista com 12. Pesquisei alguns títulos, olhei algumas imagens, ignorei qualquer comentário pois não tenho respeito pela comunidade de survivors-like e de todos os jogos que encontrei no caminho foi o Soulstone Survivors que me chamou atenção.

Não me aprofundei em nada sobre o jogo antes de testá-lo. Tanto é que tem poucos dias que descobri que a Game Smithing Limited é um estúdio brasileiro. Mas também não havia muito motivo para ir além da superfície, porque todo mundo que já jogou alguns survivors-like sabe o que lhes espera. Então eu busquei me orientar apenas pela estética de Soulstone Survivors, tentando adivinhar qual seria sua gimmick. Me pareceu que o estúdio tomou como inspiração jogos de ação “Diablo-like”, como Titan Quest e Grim Dawn, onde parte considerável da graça vem de aperfeiçoar suas builds a fim de tornar seus personagens o mais poderosos possíveis.

Foi um chute certeiro, porém ainda houve espaço para surpresas!

Prólogo do jogo Soulstone Survivors mostrando a fortaleza dos Caçadores do Vazio

Abri Soulstone Survivors e, já estando acostumado (e saturado) com survivors-like, supus que isso me levaria a uma tela de hub para selecionar um personagem e um mapa. Contudo eu me enganei. O jogo me colocou no controle de um personagem, o Bárbaro, sendo teletransportado para uma fortaleza onde ele é recebido por um soldado. Ele despeja uma penca de informações sobre o universo de Soulstone Survivors e seguimos até uma sala onde será feito um ritual para abrir o portal que leva até os domínios do Rei do Vazio.

Depois de um longo monólogo de outro NPC, entramos no portal e aí que Soulstone Survivors apresenta as típicas mecânicas de survivors-like que acredito que vocês estão tão familiarizados quanto eu. Há uma pequena diferença na lógica da fase, mas eu comento disso depois. O prólogo termina numa reviravolta que não vale a pena dar detalhes e só então vamos para a jogabilidade real. Admito que esse comecinho me pegou de surpresa, pois não esperava uma apresentação mais complexa do que a média desses jogos. Esses primeiros minutos me deram algo que eu acho extremamente problemático de você dar às pessoas: esperança!

Apesar do meu melodrama, foi um sentimento genuíno. O prólogo/tutorial me fez acreditar que esse talvez fosse o lendário survivors-like que há quatro anos eu procurava. Será que Soulstone Survivors foi capaz de substituir Vampire Survivors na minha lista de favoritos? Essa resposta vocês só vão descobrir… agora porque foi isso mesmo!

Depois de passar mais horas do que eu me sinto confortável de compartilhar, posso afirmar categoricamente que Soulstone Survivors é o meu Top 1! Afirmação essa que só tem algum valor para mim, mas este é meu blog então é a minha palavra que importa!!! Mas falando sério, realmente eu achei esse um jogo muito bom dentro dos limites que a jogabilidade de um survivors-like impõe. Sou até capaz de recomendá-lo para quem não tem interesse nesses jogos e por isso achei que valia a pena registrar meus motivos.

Sendo um jogo com 22 personagens, cada um com uma árvore de habilidades próprias (além de uma global) com 170 pontos e com mais de 480 conquistas, é um tanto óbvio que a repetição é uma parte integral de Soulstone Survivors. Porém essa ideia de repetição se manifesta dentro da lógica dos mapas. Não digo isso como um elogio, até porque ninguém aqui é ingênuo para não perceber que é só uma forma de aumentar a quantidade de horas de jogo. Apenas acredito que Soulstone Survivors entende como esse é um aspecto natural dos survivors-like e por isso vai tentar explorá-lo em mais de uma maneira.

Os mapas se dividem em três conjuntos – Campos do Vazio, Catedral Profana e Caça aos Titãs – que funcionam cada um segundo regras particulares. Comecemos então pelos Campos do Vazio. É o primeiro tipo que você tem disponível e também porque a partir desses mapas podemos explicar todos os demais.

O Vale Escaldante, primeiro mapa dos Campos do Vazio em Soulstone Survivors

Campos do Vazio segue aquele formato manjado dos survivors-like. Seu personagem é colocado num mapa e precisa sobreviver às hordas contínuas de inimigos. Ao todo são cinco mapas, liberando o seguinte sempre que você termina o anterior, porém, como eu disse, existe uma dinâmica diferente. Em vez dos chefões, Senhores do Vazio, aparecerem em intervalos pré-determinados, eles surgem assim que você elimina uma certa quantidade de inimigos. Cada ciclo aumenta um pouco a força de todos os monstros e isso se repete cinco vezes na mesma fase. Depois que o último Senhor do Vazio é eliminado, param de aparecer inimigos e surgem de um até três portais no centro do mapa. O principal é o que te leva de volta ao hub e explico os outros dois daqui a pouco.

Pode não parecer uma diferença tão grande assim, associar a duração da fase aos inimigos derrotados tornou Survivors Soulstone menos enfadonho do que outros survivors-like que eu já joguei. Inclusive até daqueles que eu gosto! Desse modo, você passa menos tempo em cada mapa conforme seus personagens fiquem mais poderosos. A metaprogressão somada a uma build eficiente traz resultados observáveis. No começo eu podia levar de 15 minutos ou até mais para concluir um mapa. Esse número foi reduzindo a tal ponto que mais para o fim eu consegui fazer runs abaixo da metade desse tempo. Aliás, isso serve também para você medir a efetividade de uma build vendo o quão mais rápido foi o seu avanço.

Como os desenvolvedores sabem que um jogador necessariamente terá que repetir a mesma fase uma dezena (ou centena) de vezes, eles tinham que adicionar algum modificador. Em Campos do Vazio temos dois tipos. Concluindo um mapa pela primeira vez, você libera o sistema de maldições que adicionam mais desafios. Inimigos que explodem, mais Senhores do Vazio, meteoros e até um espectro que te persegue pela fase. São sete níveis de maldições que exigem que você refaça as fases diversas vezes para liberar todo, como eu já lhes havia alertado.

Lembram aqueles dois outros portais que eu disse que podem abrir? Claro que lembram, eu falei isso tem poucos parágrafos. Eles aparecem se você terminar a fase suficientemente rápido. O amarelo te leva ao Modo Infinito em que você é transportado para outro mapa dos Campos do Vazio. As regras são as mesmas, você só tem que enfrentar inimigos cada vez mais fortes. O portal vermelho leva ao Modo Overlord. A lógica é a mesma, porém com algumas diferenças: você fica numa arena circular e para invocar os Senhores do Vazio precisa derrotar menos inimigos do tipo Elite. O modo é feito para partidas mais rápidas, porém o tamanho da arena dificulta mais sua capacidade de desviar de golpes.

Quando você termina os mapas dos Campos do Vazio abre a Catedral Profana. São apenas três mapas idênticos, apenas com níveis de desafio maiores e um modificador de dificuldade padrão no último deles. A Catedral Profana acabou sendo meu formato favorito porque acho ele um pouquinho mais estratégico do que os demais.

Catedral Profana, um dos modos de jogo de Soulstone Survivors

A ideia é que você precisa interromper o ritual que um monstro gigante com a cara do Cthulhu está fazendo. Para te impedir ele invoca os Senhores do Vazio que te atacam em dupla junto com alguns lacaios. Após derrotar todos, você se aproxima do altar para concluir o ciclo, escolher um bônus e reiniciar o processo mais três vezes. No final, o monstrão te ataca e ele possui duas fases, uma no mapa e outra numa arena menor.

Mas a principal diferença desse modo é que cada vez que um ciclo se reinicia você perde todas as habilidades ativas que você escolheu na partida e tem que montar uma nova build. Todavia, as habilidades que você selecionou no ciclo anterior não aparecem mais. A Catedral Profana te obriga a pensar antecipadamente em quais habilidades irá escolher, pois você precisa montar várias builds funcionais para sobreviver até o último chefão. Não é tão difícil quanto parece, mas é sempre bom ter desafios diferentes.

Caça aos Titãs é o “final” de Soulstone Survivors. Nele você é transportado de volta ao prólogo e precisa realizar um novo ritual para abrir o portal para os domínios do Rei do Vazio, só que dessa vez você usa sangue coletado de quatro Titãs diferentes. Então no começo do mapa você escolhe qual dos Titãs quer enfrentar e é enviado para o mapa dele. A arena do Titã fica fechada e para abri-la você tem que reunir Fragmentos do Vazio. Você recebe uma determinada quantidade deles concluindo desafios menores ativados em estátuas pelo mapa.

As tarefas não são lá muito criativas, no geral você tem que derrotar um grupo de inimigos ou os Senhores do Vazio. O único desafio diferente é quando você tem que sobreviver por uns segundos às Presenças do Vazio, o mesmo espectro que aparece no último nível de maldição dos Campos do Vazio. Depois de derrotar um dos Titãs você recebe um frasco com o sangue dele, seleciona um bônus e escolhe o próximo. Após conseguir quatro frascos decide se quer realizar o ritual ou se continua caçando os Titãs para conseguir mais bônus. Feito o ritual, você tem mais um mapa em que precisa mais uma vez reunir os Fragmentos do Vazio para abrir mais uma porta, para mais uma arena onde você enfrenta um Caçador do Vazio corrompido.

Caça aos Titãs, o modo final de jogo em Soulstone Survivors

A Caça aos Titãs também tem dois modos de dificuldade diferentes. Cada vez que você obtém um frasco com o sangue de um Titã os inimigos vão ficando mais fortes e mais para frente você habilita um modificador padrão igual o da Catedral Profana. Mas vou fazer uma pausa aqui porque essa descrição fria da jogabilidade está me dando nos nervos.

Para colocar algum comentário pessoal neste texto, o que eu acho que faz Soulstone Survivors funcionar é a sinergia com que ele combina os elementos de survivors-like com os de RPGs de ação “Diablo-like”. Diria até mais, ele é o que as pessoas queriam que Vampire Survivors fosse de verdade. Porque há anos que eu ouço que uma das graças desses jogos é você tentar montar uma build super poderosa que torne seu personagem invencível. Entretanto, eu não conseguia enxergar esse apelo na maioria dos survivors-like, incluindo o Vampire Survivors. É só uma questão de escolher uns itens, pois até mesmo os personagens não passam de avatares intercambiáveis. Um dos motivos de eu ter gostado do HoloCure: Save the Fans! foi justamente porque cada personagem parecia diferente e em Soulstone Survivors isso se intensifica.

Existe um leque bem maior de possibilidades de como customizar os personagens e, por consequência, criar builds de fato distintas. Eles possuem um conjunto de habilidades ativas comuns e mais três habilidades específicas para cada. Além disso, você consegue materiais nas fases que servem para criar novas armas, então você fica ao todo cinco variações e cada variação tem mais duas habilidades próprias. Depois de criar todas as armas de um personagem, você pode aprimorá-las e depois de um nível você ativa mais uma habilidade específica para aquela arma. Por fim, cada personagem tem mais um poder especial que você consegue ao abrir as árvores de habilidades deles.

Em paralelo às armas e habilidades, temos também um sistema de runas que também abre outro leque de possibilidades, mas não vejo muitos motivos para entrar em detalhes. Vocês conseguem imaginar como ele funciona. Eu não vou ficar aqui perdendo mais tempo explicando cada efeito, a limitação de Poder Rúnico e a divisão entre entre as runas de Versatilidade e as de Tenacidade, para isso vocês podem pesquisar guias na internet. O que importa saber é que esse sistema existe e como ele contribui para ampliar esse universo de possibilidades de builds.

Você pode fazer um personagem especializado em invocar aliados, pode priorizar buffs, ou debuffs, ou até uma combinação dos dois, pode focar num status negativo ou um elemento específico, misturar habilidades de diferentes personagens, etc. Por isso que mesmo odiando a repetição comum dos survivors-like, em Soulstone Survivors eu acabei me entretendo com as possibilidades. Mesmo depois de concluir cada cenário do jogo, eu ainda fiquei mais umas dezenas de horas nele só para continuar testando novas builds com personagens que eu já tinha usado ou os outros que desbloqueei. Ainda que houvesse a mesma dinâmica de todo survivors-like – ficar andando pelo mapa evitando os monstros – era a qualidade de “Diablo-like” que me mantinha investido

Rei do Vazio, o último chefão de Soulstone Survivors

Tenho que enfatizar o fato do quanto eu continuei jogando Soulstone Survivors depois de “zerá-lo” porque essa não é uma experiência frequente para mim. Vamos lembrar que em Maniac, que é um dos que eu mais gostei, eu parei de jogar depois de ganhar uma partida pela segunda vez. Porque não é uma mera questão de jogabilidade para mim. Usando HoloCure mais uma vez de exemplo, foi questão de eu concluir o último mapa no modo difícil que eu desinstalei o jogo. Porque, ao meu ver, a maior parte dos survivors-like são assim, eles apenas param. Não existe antecipação para algum desfecho, apenas o desenvolvedor que cansou de fazer novos mapas. Isso não me incentiva a ter um investimento maior no jogo.

Em Soulstone Survivors meu sentimento foi o oposto. Mesmo que você não preste atenção nos diálogos, sobretudo no final da Catedral Profana, apenas pela forma como o jogo é organizado parece que ele está te levando a algum lugar. Na Caça aos Titãs o jogo usa da repetição – cada vez que você completa a Caça aos Titãs você recebe um selo – para criar uma expectativa para o confronto final com o Rei do Vazio. Quando ela ocorre é muito mais satisfatória do que apenas ser o último mapa disponível para o jogo no momento. Sensação esta que continuou se repetindo quando refiz a mesma trajetória com outros personagens.

Claro que Soulstone Survivors ainda será mais um dos casos de survivors-like que eu não me vejo revisitando no futuro. Já explorei tudo que havia para explorar na sua jogabilidade: personagens, modos, habilidades, runas, segredos, etc. Porém, igual aconteceu com Shard Squad, eu não teria problemas em voltar a esse universo num novo formato. Algo que a Game Smithing Limited já está trabalhando, pois o estúdio quer transformar Soulstone numa franquia. Pelo que pude conferir, tem dois projetos em desenvolvimento: Veil of the Soulstones e Rogue Soulstone.

Queria que abandonassem esses elementos de roguelike/roguelite e focassem numa experiência mais direta, porém quem sou eu para ditar os caminhos que uma franquia deve trilhar? Terão meu interesse, embora não sei se terei o mesmo sentimento que tive com Soulstone Survivors. Pelo menos a minha jornada com os survivors-like terminou de um jeito que eu não esperava que o gênero conseguiria fazer: satisfatoriamente!


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