Belmont’s Curse e a [minha] Teoria da Contração do Universo Cultural dos Fãs™

Meme do Dr. Manhattan editado com capas de Resident Evil 7, Final Fantasy XVI e Castlevania: Belmont's Curse que alguns fãs não consideram como representantes das suas respectivas franquias

Em março deste ano eu me senti obrigado a escrever “Em busca do ‘Final Fantasy de Verdade’“. No artigo eu critiquei a visão de uma parcela de fãs de Final Fantasy que consideram que os jogos mais recentes perderam a tal essência, seja lá o que isso significa, da franquia. Esse papo já rola há bastante tempo, se não me engano já tem mais de década. Porém sinto que ganhou mais força três anos atrás com o lançamento de Final Fantasy XVI que foi criticado por alguns por ter ousado apostar numa jogabilidade de RPG de ação. Algo que parece se afastar demais do que um Final Fantasy – supostamente – deveria ser.

Os pormenores dessa discussão vocês podem conferir no artigo. Hoje vou me dar ao luxo de não entrar em detalhes porque tem mais casos para cobrir.

Passaram alguns meses e novamente me vi obrigado a escrever outro artigo. Dessa vez era “A franquia de Resident Evil não é absoluta“, porém não por conta do lançamento de Resident Evil Requiem e sim por causa do filme do Zach Cregger. Vocês verão que muda-se as franquias e contextos, mas o cerne da discussão permanece o mesmo. No texto eu abordo a implicância e má vontade com que os fãs trataram o filme, dizendo que ele “desrespeitava o legado da franquia”. Aquela não era uma boa adaptação porque, segundo eles, o diretor não requentou a história de nenhum dos jogos ou repetiu os mesmos personagens de sempre.

Agora em novembro, onde será que eu me encontro? Semanas atrás, alguns fãs de Castlevania estavam dizendo que Belmont’s Curse, o mais recente título da franquia depois de um longuíssimo hiato, não é um “Castlevania de Verdade”. Então mais uma vez me vejo tentado a escrever mais um artigo. Notem que dessa vez eu disse tentado e não obrigado.

Ainda que eu navegue pelas águas turbulentas das redes sociais com a alcunha de Belmonteiro, falo bem pouco de Castlevania. No meu perfil de Twitter e menos ainda no meu blog. Acontece que tem bastante tempo que eu percebi que entrei na fase de “amar também é deixar partir” com a franquia. Meu interesse surgiu muito antes de eu ter um blog e hoje ele já passou. O máximo que fiz nos últimos anos foi dedicar uma pequena review a Castlevania II: Belmont’s Revenge e não tenho quaisquer planos para outro texto.

Mas há outra razão para eu não ter esse ímpeto de falar sobre Belmont’s Curse e toda essa discussão: simplesmente não sei nada a respeito dele. Não li notícias, não vi o trailer (se vi, não lembro), reviews ou vídeos sobre o jogo. Nem mesmo a sua página da Wikipédia eu visitei! Soube do anúncio e parei por ali. Só tive conhecimento da discussão por conta de algumas pessoas que sigo no Twitter. Isso porque atualmente eu estou muito mais a fim da prequel de Bloodstained: Ritual of the Night do que qualquer coisa relacionada ao universo de Castlevania.

Portanto, não caberia aqui um vídeo de defesa a Belmont’s Curse. Eu teria que me informar tanto sobre jogo quando sobre essa narrativa que se formou ao redor dele. Sendo sincero com vocês, depois dos arcos de Final Fantasy e Resident Evil eu não tenho a menor vontade em mergulhar em outro lamaçal. Ainda mais quando eu sei que a resposta para pergunta “Belmont’s Curse é um Castlevania de verdade?” seria um sonoro “É obvio que sim, porra!!!”.

Então não preciso perder o tempo de vocês e, o mais importante, o meu só para chegar nessa conclusão. Entretanto, eu preciso criar conteúdo para o blog e não consigo resistir a minha gana palpiteira. Então, em vez de falar especificamente de Belmont’s Curse, vou utilizá-lo como gancho para dividir com vocês a Teoria da Contração do Universo dos Fãs™. Não é nada com respaldo acadêmico, ok? Somente mais uma das bobagens pedantes que eu invento sempre que estou entediado.

Tudo isso que está acontecendo com Belmont’s Curse faz parte de um padrão que se repete sucessivamente nas redes sociais há anos. Porém eu só comecei a formular a minha “teoria” recentemente depois de acompanhar de uma distância segura outra discussão na internet sobre a série de Lanternas. Toda semana eu ficava vendo os Ei Nerds – o original e suas cópias – reclamando como estragaram os personagens do Hal Jordan e do John Stewart. Como de costume eu revirava meus olhos todas as vezes que um comentário passava no meu feed. É a mesma lenga-lenga que há muito tempo desde que conteúdo voltado a cultura pop foi dominado por picaretas tentando ganhar visualização com guerra cultural.

Mês sim e mês também eles voltam gritando que a entidade cósmica conhecida como Cultura Woke fez mais uma vítima. Por ser um padrão tão recorrente, há sempre a suspeita que aquilo não é uma burrice genuína e só gente querendo atenção. Contudo, não deixa de ser burrice. Então, para os fins desse texto, vamos considerar que essas pessoas estão sendo sinceras. Honestas não, sinceras.

Esse papo de “estragar o personagem” é especialmente ridículo quando o objeto em questão são quadrinhos de super-heróis. Ainda mais aqueles do eixo DC/Marvel por se tratar de bonecos que existem há décadas. O Hal Jordan, por exemplo, surgiu no final dos anos 50 e já era a reinvenção de outro personagem, Alan Scott, a primeira encarnação do Lanterna Verde que é de 1940. Super-heróis passam por múltiplas eras, artistas, releituras, adaptações, etc.; onde não existe uma versão correta. O que você tem é uma versão original que vai passar por diversas revisões que irá reinterpretar o personagem ou até mesmo dar luz a um novo.

Por esse motivo que, excluindo o lado mais picareta da equação, sinto que essas discussões partem de alguém que teve contato com uma versão particular do personagem na sua infância e passou as décadas seguintes se convencendo que ela é a certa. Depois ele vai sair se intitulando um fã do personagem como se isso lhe conferisse alguma autoridade na sua história de publicação. Eu poderia ser tão leviano quanto essas pessoas e acusá-las de não serem “Fãs de Verdade” que julgam ser. Entretanto, eu não nego que elas sejam fãs. Fanbases são mais heterogêneas do que a gente costuma pensar, então existirão fãs nos mais diversos graus. Ao meu ver, o que acontece é que essas pessoas são fãs de uma interpretação específica daqueles personagens e não do seus conceitos no geral.

Quer ver um exemplo bem característico aqui do Brasil? Não tenho dúvidas que existe muita gente da minha geração que se considera um fã do Super Choque mesmo sem sequer ter lido uma das suas HQs. Porque o que essas pessoas estão querendo dizer – e eu me incluo nesse grupo – é que elas gostam do desenho que passava na TV nos anos 2000. Não há mal nenhum nisso, você só precisa ser honesto consigo mesmo e com as pessoas a sua volta sobre os seus gostos. Porém até mesmo esse tipo singular de fã pode estar suscetível ao processo que chamei de Teoria da Contração do Universo Cultural dos Fãs™ se não ficar atento. Ou minimamente informado!

Quando ouvimos falar a palavra fã nós pensamos muito em fanático, fazendo uma associação ao comportamento obsessivo e passional que ele tem com um personagem ou uma franquia. Mas tem algum tempo que prefiro observar o fã, ou melhor, um tipo de fã por uma outra lente. Para mim, ele é na verdade um refém que se colocou por conta própria nessa situação. Quem representou isso muito bem foi a Isabela Boscov na sua crítica de O Mandaloriano e Grogu no seguinte trecho:

A parte mais aguerrida, digamos assim, do fandom de Star Wars não só se encurralou num canto como encurralou a Lucasfilm também. Eu nem sempre entendo quais são as queixas desse fandom, porque eu não sou uma pessoa super envolvida com Star Wars, mas o fato é que chovem queixas deles a respeito de tudo que é feito nesse universo.

O trecho em questão começa no minuto 3:38

Eu sempre acho engraçado como Star Wars teoricamente se passa numa galáxia, repleta de infinitas possibilidades, mas que não consegue se afastar muito do que foi apresentado na trilogia clássica. Tem sempre o Império, a Força, os Jedi, etc. De um jeito ou de outro a gente acaba retornando aos mesmos heróis, vilões e coadjuvantes. Talvez seja a limitação criativa dessa franquia? Pode ser! Ao mesmo tempo, não dá para livrar a consciência dos fãs que exigem que Star Wars se mantenha dentro de tais limites.

Aí entra a minha “teoria”. Se preparem que agora vem o pedantismo, mas prometo que ele só vai durar três parágrafos.

Quando o ainda não-fã tem seu primeiro contato com a franquia que se tornará fruto da sua obsessão no futuro, ele experimenta uma súbita expansão cultural. Ele é apresentado a uma nova linguagem, um novo estilo, uma nova estética, uma nova ideia e aí ele se torna um fã. A princípio esse universo cultural cresce na mesma proporção de obras daquela franquia que ele consome. Essa expansão pode até ser infinita, porém depende de um ponto crucial na forma que esse fã irá lidar com aquele universo. Assim vão se formando os diferentes níveis dentro de uma fanbase de acordo com as escolhas tomadas por essa pessoa.

Um dos tipos de fãs é aquele que cria um interesse não apenas pela aquela franquia como também pelas suas bases. Ele vai atrás das obras e artistas que a influenciaram e que também foram influenciadas por ela. Dessa forma, ele passa a ter contato com outras visões que continuam a expandir seu universo cultural. Infinitamente! Haverá sempre oportunidade de descobrir algo novo porque ele ainda está aberto ao conhecimento, a experimentação.

Entretanto há também outro tipo de fã que se volta cada vez mais a sua franquia, tentando consumir tudo que há disponível sobre ela. Pode ser filmes, séries, jogos, quadrinhos, livros, etc. Só que algo que esse fã não percebe é que ao seguir por esse caminho o universo cultural dele não se expandirá mais na mesma proporção de antes. Ele começa a desacelerar até que em um momento ele para por completo. Porque mesmo que o fã esteja consumindo novas obras, elas passam a girar em torno das mesmas histórias, mesmos personagens e mesmos conceitos que ele teve contato lá atrás.

Não há nenhuma novidade real e isso dá início a um novo fenômeno. Como esse fã se volta apenas para aquela franquia, ele se torna cada vez mais refém de elementos específicos dela. O fã passa a exigir histórias específicas, com personagens específicos, dentro de uma estética específica e repetindo os conceitos específicos com que ele já está plenamente familiarizado. Então o universo cultural que já não crescia mais, agora começa a se contrair. Esse fã irá rejeitar tudo que não se encaixa dentro dos limites que ele demarcou para a franquia e ela se torna um mundinho bem pequeno daquelas coisas que ele decidiu para si que são a sua essência.

Se a gente volta nos exemplos que citei lá no começo, dá para ver que alguns desses comentários partiam exatamente de fãs que se tornaram reféns a uma única concepção das franquias e que acreditam que estão fazendo uma crítica honesta. Final Fantasy XVI começou a ser criticado por uma galera apenas pelo fato de apostar numa jogabilidade voltada a RPG de ação. O último filme de Resident Evil está até hoje causando choro apenas por não ter Leon e Claire no seu elenco e por não se passar em 1998. Resident Evil 7 gerou o mesmo efeito por mudar a perspectiva da câmera, com um protagonista original e nenhum dos monstros mais conhecidos da franquia.

Essa fã vai soltar falas genéricas de como a franquia está perdendo a qualidade ou que estão desrespeitando o seu legado, porém o que incomoda ele de verdade é que a idealização da qual ele se julga digno de receber não foi suprida. Provavelmente é o mesmo que aconteceu com Belmont’s Curse. Com certeza existem apontamentos válidos sobre aspectos da sua jogabilidade, direção de arte, roteirização e por aí vai. Porém, quando o que guia a crítica é um pensamento de que aquilo não é um “Castlevania de Verdade”, não perca seu tempo. Não haverá qualquer honestidade nesse debate, apenas um fã cujo horizonte cultural se tornou tão minúsculo que ele não consegue enxergar nada além de um palmo do seu nariz.


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