
Quinta-feira passada, usuários descobriram a biblioteca do DLSS 5 entre os arquivos de NBK 2K27, o que deixou a comunidade de modders em polvorosa. Nos últimos dias, as redes sociais foram inundadas com vídeos de pessoas testando o DLSS 5 em diferentes jogos. Control, GTA V, The Last of Us, The Witcher 3, e muitos outros títulos que o gamer médio conhece. Como tudo que acontece na internet, o ocorrido incendiou opiniões bem divergentes.
Antes de continuar, deixa eu me certificar que estamos todos na mesma página: o DLSS 5 é a próxima geração da tecnologia de renderização por inteligência artificial da NVIDIA, se propondo a trazer mais fidelidade visual para jogos e renderização neural em tempo real. Ela foi anunciada meses atrás, gerando uma boa dose de controvérsias e voltou a ficar em alta com esse vazamento.
É evidente que a NVIDIA não ficou nada feliz com isso. Ela já estava muito feliz com a reação inicial da comunidade durante o anúncio. O DLSS 5 foi criticado tanto por usuários quanto por pessoas da indústria, com exceção daqueles milicianos da Digital Foundry. Se eu não me engano, mais cedo a NVIDIA fez uma apresentação oficial para falar sobre a situação do DLSS 5 e também para fazer aquela contenção de danos assegurando que a versão vazada não é a final. Como se o problema dessa tecnologia não fosse outro. De qualquer forma, existem várias pessoas muito empolgadas com o que viram do DLSS 5 e ninguém está mais feliz do que o homem medíocre!
Podemos dizer que as reações se dividem em dois grupos principais: aqueles deslumbrados com tudo que a tecnologia é capaz de “fazer” e aqueles que têm bom gosto. A forma com que represento cada grupo já indica em qual lado do muro eu estou. Pois bem, não dá para dizer que são grupos que se gostam tanto. Quase como cães e gatos. Ambos vivem de se provocar, embora para mim seja visível o quanto os entusiastas de DLSS 5 se incomodam muito mais com os outros do que o contrário. Mas não tenho problema de admitir que o meu lado também consegue ser bem… emocionado no seu posicionamento.
Sei que é gostoso apontar para essas pessoas deslumbradas com o DLSS 5 e dizer que elas não tem qualquer senso artístico. Ainda mais quando a única direção de arte que eles parecem dar valor é uma que se preze em mimetizar com cada vez mais detalhes o mundo real. Em grande parte eu acho que isso as resume com exatidão. Muita gente sem repertório que se empolga apenas porque o gráfico está mais realista.
Entretanto, não vim alfinetá-los com isso. Ainda vou alfinetá-los, mas meus motivos são outros. O vazamento e as reações reforçaram algo que eu penso há algum tempo e já vi outras pessoas comentando. Não acho que os “apóstolos do DLSS 5” se impressionam exatamente com os resultados, mas sim com essa ilusão de poder que a inteligência artificial vem gerando nos últimos anos.
Quem acompanha o blog talvez deve se lembrar que lá em janeiro eu publiquei um texto com o título “Dublagem por IA é a vitória dos medíocres, não da acessibilidade“. Na época o que me motivou a escrever aquele artigo foi esbarrar com algumas pessoas – que para ser justo era um seleto grupo de gatos pingados – defendendo uma dublagem tenebrosa com a desculpa que ela tornaria o jogo mais acessível. Esse é um cinismo que acompanha as defesas da IA generativa desde a sua gênese. Não basta apenas vender a tecnologia pelo que ela é, é preciso inventar uma história bonitinha para encantar os mais desavisados. Por exemplo, quantas vezes vocês ouviram que a IA está democratizando a arte?
Claro que esse pensamento só pode existir se a gente ignorar alguns detalhes, né? Muito democrático o fato que para treinar seus modelos de linguagem essas empresas se apropriaram do trabalho de dezenas de milhares de artistas que nunca receberam e nunca irão receber um centavo por isso. Também é muito democrático como a IA generativa tem promovido um sucateamento acelerado de diversas áreas, sobretudo as criativas, com uma falsa promessa de aumento de produtividade, mas que por algum motivo nunca reduz o trabalho e aumenta a qualidade de vida. Democracia pujante essa em que as únicas pessoas que estão ganhando dinheiro de verdade com a IA são os seus investidores.
Mas isso não importa, não é mesmo? O bom é que agora qualquer idiota pessoa pode gerar um pôster um batalha de rap no Vale do Anhangabaú com Alvin e os Esquilos em menos de dez segundos*.
*Sim, eu me deparei com essa imagem enquanto escrevia este artigo.
Aqui a gente percebe qual é o apelo da IA generativa. Não porque ela é uma ferramenta que otimiza o trabalho, mas sim porque ela vende uma ilusão agradável para muitos usuários. Ela convence o cara que não sabe desenhar que ele pode criar uma arte super detalhada, o cara que mal sabe diferenciar os quatro porquês que ele consegue escrever um texto rebuscado, o cara que não estudou o mínimo de enquadramento e movimento de câmera que ele pode gravar um curta e o cara que nunca escreveu uma linha de código que ele é capaz de desenvolver um jogo. A magia IA generativa está em te fazer acreditar que dá para se tornar um artista sem ter o esforço de aprender as técnicas necessárias.
Só que a mesma fantasia que dá a pessoa a sua sensação de poder é também a que a expõe ao ridículo. Aprender o bê-á-bá de uma arte não é importante apenas para você desenvolver suas habilidades. Esse processo também desenvolve o seu senso crítico e faz te reconhecer melhor a qualidade e o esforço artístico por trás de qualquer obra. Por pularem etapas que os usuários de IA generativa acreditam que está de bom tamanho aquelas artes que parecem ter sempre o mesmo filtro oleoso e são cheias de inconsistências para um olhar mais treinado.
A título de curiosidade, esbarrei com alguns vídeos de testes do DLSS 5 que também têm essa oleosidade tão característica da IA.
Essas pessoas nem mesmo se incomodam em como a IA não consegue produzir uma identidade visual distinta e acaba por homogeneizar tudo. Até quando ela tenta fazer algo estilizado é dentro dos mesmos moldes de textura, perspectiva e iluminação. Um dos meus passatempos é reparar na dificuldade que esses modelos ainda apresentam para desenhar um objeto de costas quando porque existem tantas referências dele.
Só que no final das contas, a mera ideia que criaram algo já é o bastante para afagar o ego desses usuários. No fundo, eles querem se sentir como artistas, e se irritam quando alguém acha que a “sua” arte ficou uma bosta. A vontade de ser um criador é tamanha que inventaram até uma nova profissão, os tais “engenheiros de prompt”, que sustenta a ilusão de que eles desenvolveram uma habilidade especial que os separa da massa. Você não precisa aprender nada além de refinar seus prompts que a IA vai dar um jeito. E nunca dá!
O DLSS 5 está gerando esse mesmo fenômeno. Talvez alguns não vou concordar porque tecnologia não está exatamente criando algo novo. Tanto é que muitas pessoas para ironizar o DLSS 5 o chamam de filtro de IA. Mas eu tenho a impressão que o entusiasta do DLSS 5 se enxerga de maneira análoga a como o entusiasta da IA generativa se enxerga. Na sua cabeça, ele não está apenas ativando uma função no software, tem algo a mais. Ele se vê colaborando no desenvolvimento do jogo, como se fosse um daqueles modders que conseguem alterar as texturas, iluminação e os modelos originais. Eles também querem ser capazes de fazer isso, só não querem ter que aprender as complexidades de uma modelagem 3D ou de programação. Mas ai de você se criticar o “trabalho” deles.
O entusiasta do DLSS 5 também queria ser um artista, um desenvolvedor. Alguém que conseguisse criar esses jogos tão maravilhosos (e realistas) que ele se esforça tanto para gostar. Porém ele sabe que não passa de um homem medíocre que não consegue escapar dessa zona pela mesma incapacidade que usuário de IA generativa tem de aprender a desenhar, escrever e até mesmo pensar. Assim ele já se apegou ao DLSS 5, pois ele é sua passagem para a terra da fantasia em que ele consegue melhorar os gráficos dos jogos.
Finalmente o gamer encontrou uma escadinha para finalmente subir nos ombros dos gigantes. Porém ele não tem a intenção de enxergar mais longe. Ele só quer a possibilidade de chegar no ouvido desses gigantes e dizer: “olha só como eu deixei seu jogo mais next-gen!”.
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