
Aproveitando esses últimos resquícios do clima da Copa do Mundo, eu queria relembrar de um momento mais feliz para os brasileiros: a vitória da Seleção Brasileira na Copa de 94. Especificamente a icônica narração do Galvão Bueno, ao lado do rei Pelé, gritando “É tetra! É tetra!”. Eu amo esse trecho, até mais do que a memória que eu tenho de ter visto o Brasil conquistar o penta. Mais do que uma comemoração, os gritos do Galvão se tornaram para mim a melhor representação audiovisual do sentimento de euforia. Algo que pode ser aplicado em qualquer contexto, do mais importante até o mais banal como a minha felicidade após jogar The Excavation of Hob’s Barrow.
Nossa! Será que esse pequeno jogo independente de aventura point-and-click feito pela Cloak and Dagger Games é tão fenomenal assim para causar tamanha reação? Não necessariamente. Não tenho dúvidas que muitas pessoas consideram The Excavation of Hob’s Barrow um bom jogo, mas devem ser poucos que o colocarão tão alto nas suas prateleiras como eu coloco. Isso porque no meu centro-mundismo gosto de pensar que este jogo é feito especificamente para mim. The Excavation of Hob’s Barrow se encontra na interseção do meu diagrama de Venn pessoal, composto por jogos de aventura point-and-click, pixel art e terror folclórico.
Já falei em carnavais passados que uma das minhas franquias favoritas na vida é Monkey Island. Se tratando de jogos de aventura, ela é A favorita. Não só pela qualidade dos jogos, mas porque The Secret of Monkey Island foi minha porta de entrada no gênero. Eu ainda me recordo do dia em que peguei o CD emprestado com um amigo meu e foi paixão à primeira vista. Me atraí pelos visuais, a ambientação, o senso de humor e a jogabilidade que naquele momento não me era tão comum. Esse foi um sentimento que eu consegui revisitar este ano ao finalmente jogar The Excavation of Hob’s Barrow.
O jogo em si não tem nada particularmente inovador, mas carrega um forte apelo nostálgico comigo pelos seus visuais. Durante toda a gameplay eu me pegava pensando naquela primeira vez que testei The Secret of Monkey Island. Porém o que mais me entusiasmou foi a ambientação de The Excavation of Hob’s Barrow, que se passa numa comunidade rural no interior da Inglaterra, evocando elementos do chamado terror folclórico. De uns anos para cá este se tornou o meu subgênero favorito do terror e que em mais outros carnavais passados já expliquei aqui essa relação. Você encontra uma boa dose de exemplos no cinema, porém não tanto em jogos. Logo, agora vocês podem entender melhor porque esse jogo me encanta tanto.
Citei Monkey Island não apenas por fins de nostalgia, mas também porque The Excavation of Hob’s Barrow remete a esses clássicos point-and-click, porém com essa tendência moderna de simplificar os controles. Você só tem dois comandos, o botão esquerdo do mouse que serve para pegar itens e falar com os personagens e o esquerdo para observá-los. Também tem a barra de espaço que destaca os objetos com os quais você pode interagir. Por fim temos um inventário que fica no topo da dela, junto de um mapa que permite transitar mais rápido entre cenários já visitados e uma listinha com seus objetivos. Não tem nenhuma outra mecânica, nenhuma gimmick, nada. É como o nome diz, apontar e clicar.

A mesma simplicidade nas mecânicas de The Excavation of Hob’s Barrow também se estende aos seus puzzles. Pode até decepcionar algumas pessoas mais versadas na arte dos jogos de aventura, ainda mais quem está nessa desde tempos imemoriais. Apesar de não ser um enfoque puramente narrativo, é evidente que o jogo não se preocupa em criar enigmas complexos. Porém não acho que é a falta de dificuldade que vai incomodar alguns e sim como o jogo não exige tanta ponderação da parte do jogador. Como assim? O espaço entre pegar um item e o momento que você irá utilizá-lo é bem pequeno, então dificilmente você travará em alguma parte pensando em possíveis soluções. Vou citar um exemplo para deixar mais claro para vocês.
A trama se desenrola no decorrer de três dias que a nossa protagonista, Thomasina Bateman, passa na cidade de Bewlay. No segundo dia encontramos uma menina que pede para Thomasina consertar o arco do seu violino cuja corda arrebentou. Olhando para o objeto a protagonista diz que precisará de fios e resina.
Se voltarmos para a hospedaria, lá encontraremos um novo, um músico de passagem que acabou de chegar com seu cavalo. Já dá para saber onde encontrar os fios, certo? Agora é só ir com Thomasina até o beco ao lado da hospedaria e puxar um fio… opa, calma lá! O cavalo é a arisco, então é necessário conquistar sua confiança. Mais uma vez voltamos para a hospedaria e, olha só que coisa, tem um terceiro personagem lá dentro que não estava ali antes. Ele se encontra numa das mesas adoçando seu chá com torrões de açúcar. Acho que vocês já entenderam!
Eu consigo entender como isso é um problema para algumas pessoas, não é para mim. Um dos jogos que mais gostei de zerar ano passado foi Lacuna, cuja jogabilidade se resume a interagir com NPCs, coletar informações e preencher um relatório no final do capítulo. Porém concordo que às vezes parece que The Excavation of Hob’s Barrow te direciona além da conta para a solução dos puzzles. Algumas menções nos diálogos são bem explícitas, mas o jogo também consegue ser mais sútil quando quer. No primeiro dia o Padre Roache revela que adora as peças de Shakespeare e cita várias passagens ao longo das suas interações. A princípio isso é apenas uma característica do personagem, mas tempo depois se torna uma dica quando Thomasina precisa encontrar uma chave para ter acesso ao jardim.
Além disso, quando chegamos na parte final, os desenvolvedores dão uma elevada nesse departamento dos puzzles. Portanto, compensa ser um pouco paciente. Os primeiros dias, ainda que existam esses puzzles aqui e acolá, são mais dedicados a explorar esse pequeno povoado de Bewlay, conhecer seus habitantes e, principalmente, seus mistérios.
Mas comecemos pelo começo, certo?
Na primeira cena de The Excavation of Hob’s Barrow, Thomasina Bateman anda em silêncio por uma rua que leva até o casarão de seus pais. Depois de um curto diálogo com um senhor que aparenta ser o médico da família, damos um salto no tempo e a protagonista passa a narrar a história, através de uma carta destinada a sua mãe que conta os eventos que se passaram durante sua viagem para Bewlay. Thomasina fala de um jeito um pouco críptico, indicando que ela mesma não está segura das suas memórias. Assim, antes mesmo de qualquer fragmento da trama real ser revelado, o jogo já começa com um forte clima de mistério.

Pausa para um rápido comentário: a dublagem de The Excavation of Hob’s Barrow é fenomenal. Não tenho nada mais elaborado para dizer, só queria rasgar uma sedinha para o trabalho dos atores mesmo. Continuando!
Thomasina vai até Bewlay a convite de Leonard Shoulder, um senhor que mora na vila e lhe fala sobre o titular Hob’s Barrow. Acredito que uma tradução próxima seria Monte do Duende, sendo que “hob” é uma contração de “hobgoblin”, porém preferi manter o nome original. Thomasina é uma antiquária, alguém que estuda objetos da antiguidade, que está escrevendo um livro sobre as mamoas no interior da Inglaterra. As mamoas, também conhecidas como tumuli, são estruturas antigas feitas com areia e terra para proteger câmaras funerárias, tendo um imenso valor arqueológico. Intrigada pelas cartas a respeito de Hob’s Barrow e a possibilidade de escavar o local, Thomasina decide viajar até Bewlay para encontrar o Sr. Shoulder.
Contudo, uma sequência de estranhos contratempos mostram que essa não será uma simples viagem para a nossa protagonista. Ela se depara com uma população não tão hospitaleira e bem evasiva a respeito da existência de Hob’s Barrow. Para piorar, o Sr. Shoulder, o último que parece disposto a levá-la até a mamoa, desaparece no mesmo dia em que Thomasina chega em Bewlay. Tentando encontrar o Sr. Shoulder e a localização de Hob’s Barrow, ela começa a suspeitar que existem mistérios mais profundos no coração daquela comunidade. Mistérios estes que se conectam com o passado do seu próprio pai, também um antiquário, que se encontra num estado catatônico desde que sofreu um acidente numa viagem quando Thomasina era criança.
Sinto que é um pouco difícil para eu falar de The Excavation of Hob’s Barrow. Não porque é uma obra complicada e sim porque eu não quero The Excavation of Hob’s Barrow. Ou melhor, eu não quero falar de Hob’s Barrow, a mamoa. Também não quero falar de Bewlay e seus mistérios. Menos ainda do povo de Bewlay e suas histórias pessoais.
Isso para mim seria igual a listar todas as soluções de todos os puzzles do jogo. Não, na verdade seria pior. Porque a graça aqui está em você, o jogador, investigar descobrir o que se passa nessa isolada comunidade rural. O prazer de jogar The Excavation of Hob’s Barrow não está em descobrir o que fazer para obter aquele determinado item que ajudará você a dar sequência a história. Ele vem das informações que você obtém nesse processo para entender melhor as circunstâncias estranhas que giram dessa enigmática região de Bewlay e todas as personagens que ali se encontram.

Mas vale tecer uns comentários sobre a atmosfera do jogo, especificamente no tipo de terror que iremos encontrar ali. O terror folclórico às vezes se confunde com o terror sobrenatural quando se pensa que o horror vem do contato com o fantástico, com as forças obscuras, com esse mal abstrato. Entretanto, esse é um subgênero que lida muito mais com a crença nesse fantástico e aquilo que os personagens estão dispostos a fazer em nome dessa crença. O clássico O Homem de Palha (1973), por exemplo, sequer tem um elemento explicitamente sobrenatural em toda sua história. Porque o terror folclórico é construído, acima de tudo, no choque cultural.
Se vocês pesquisarem, verão que temas comuns obras desse gênero são: paganismo, religiões populares, folclore local, seitas, etc. Só que esses são temas que você também consegue encontrar no terror gótico, no terror cósmico, no supracitado terror sobrenatural, etc. A diferença do terror folclórico está em explorar esses temas através da figura do estrangeiro, uma pessoa que vem de fora e entra em conflito com os hábitos e as culturas locais, nem sempre por alguma intenção maliciosa.
A jornada de Thomasina ilustra isso muito bem. Nos primeiros momentos que ela passa em Bewlay a personagem já recebe diversos sinais que sua presença não é bem-vinda naquele lugar. A primeira pessoa com quem ela entra em contato, uma senhora na estação de trem que dias depois descobrimos que é Mildred, a curandeira local que é tratada como bruxa por algumas pessoas, lhe diz que não há nada de bom em Bewlay para ela e que seria melhor que voltasse para casa no próximo trem. Quando Thomasina chega na hospedaria, com exceção do dono Stanley Kemp, todas as pessoas lá dentro a tratam com algum grau de aversão. Por fim, no dia seguinte, são poucos aqueles dispostos a dar as informações que Thomasina precisa.
Mas essa é uma desconfiança que funciona em mão dupla. Em vários momentos o jogo te dá a opção de mentir para os personagens. Isso não acarreta nenhuma consequência para a história porque não existem múltiplas rotas e finais. A ideia dessas “opções” é manter o clima constante de paranoia que faz com nos sentimos vulneráveis nesse universo. The Excavation of Hob’s Barrow não é um jogo da Sierra Entertainment. Não existem game overs súbitos, becos sem saída, nenhum perigo real para a personagem e, por extensão, para nós. Então o jogo utiliza de elementos narrativos para criar essa sensação.
Vou citar um pequeno exemplo que é só um mero detalhe que talvez você nem perceba se não prestar atenção. Durante a primeira noite em Bewlay, Thomasina segue um senhor que ela vê saindo de um beco. No trajeto você passa em frente uma casa que você vê uma luz acesa. Ao passar pela janela, a luz apaga de repente como quem está lá dentro não quer que você saiba da sua presença. A partir daí a gente sempre fica com a impressão que, numa das várias casas do vilarejo, sempre tem alguém observando Thomasina das sombras. Isso causa desconforto e a sensação de medo sempre precisar colocar um perigo prático na jogabilidade.
Um pequeno detalhe que acontece na primeira noite que passa em Bewlay é quando a Thomasina tenta seguir alguém que ela viu próxima de um beco. Ela passa em frente uma casa que está com a luz acesa, mas no momento que você se aproxima alguém apaga a luz. Se pararmos para pensar, até o clima da região te faz sentir essa insegurança porque há uma constante neblina no seu entorno, como se houvesse ali que é melhor ficar longe da sua vista.
Falando em visuais, há uma ênfase muito clara para os olhos em The Excavation of Hob’s Barrow. O pixel-art é muito “simpático” no sentido que não te causa nenhum estranhamento. Apesar do jogo usar muitas cores frias para trazer uma melancolia na atmosfera de Bewlay, é tudo muito bonitinho, muito bem desenhadinho. O contraste vem quando a câmera, que geralmente se posiciona na lateral, muda para vermos os personagens de frente. O close nunca é generoso, destacando as feições mais repugnantes das personagens.
Nas sequências que Thomasina tem um flashback da sua infância, para nos mostrar como era a relação dela com o pai antes e depois do acidente, a câmera também vai sempre para seus olhos. A maneira como eles são enquadrados, em combinação com a trilha sonora e os efeitos de transição, fazem parecer que a protagonista está entrando em transe e não se lembrando de alguma memória. Isso adiciona um elemento psicológico na trama, como se a mente da protagonista estivesse deteriorando pouco a pouco pela influência daquele lugar na sua mente.
Enfim, não quero me estender mais porque já sinto que estou me empolgando além da conta e vou acabar dando detalhes que podem deixar essa experiência menos proveitosa. Então, me apropriando momentaneamente das palavras do Galvão Bueno, reforço que The Excavation of Hob’s Barrow é tetra (para mim)! Se você gosta de terror folclórico, coloque esse jogo na sua lista imediatamente. E se você tem curiosidade em conhecer o terror folclórico, também coloque. Mas caso não tenha interesse… coloque o jogo na lista mesmo assim. Ainda é uma boa experiência de aventura point-and-click e nunca é tarde para desenvolver novos gostos.

O Backlogger precisa do seu apoio para crescer. Então, por favor, compartilhe ou deixe um comentário que isso ajuda imensamente o blog. Para mais críticas clique aqui.










