
Em 19 de fevereiro do longínquo ano de 2023 eu escrevi “Legendas e a vanglória estúpida por um passado mais merda“. O texto foi para, em parte, discutir a questão da localização nos videogames e para, em parte maior, extravasar a minha raiva com um padrão que eu via se manifestar. Três anos depois eu volto com um novo texto para, em parte, discutir a questão da localização nos videogames e para, em parte ainda maior, extravasar a minha raiva com um padrão que eu continuo vendo se manifestar. A única coisa que mudou é que acredito que hoje eu consigo expressar melhor as minhas ideias quando algo me irrita.
Mas antes de entrar nesse assunto, peço um instante do tempo de vocês para uma rápida tangente: dublagem de filmes. Ainda que exista uma birra de gente que vive um segundo Ensino Médio nas redes sociais, entre aqueles que preferem assistir filmes dublados e os que preferem legendado, não existe uma discussão real sobre dublagem. É uma indústria que já desenvolveu e se solidificou no Brasil há décadas, enraizando-se profundamente na nossa cultura. Dubladores como Wendel Bezerra e Guilherme Briggs conseguem ter uma popularidade que daria inveja a muitos atores globais. Sem contar obras que ficaram marcadas nestas bandas justamente por conta da dublagem. Portanto, tirando um ou outro Pablo Pirraça da vida tentando polemizar, não existe um movimento contrário a dublagem em filmes, séries ou desenhos.
Entretanto, por motivos que fogem a minha compreensão, a localização em jogos ainda parece ser uma questão!
Exageros à parte, a maioria das pessoas quer que quanto mais jogos possam ser traduzidos para português. Porém ainda existem uns gatos pingados gamers dissimulador por aí que parecem ser adaptados da filosofia do “só para contrariar”. Por isso que tem um bom tempo que reluto com a ideia de fazer outro artigo sobre este tema da localização. Mas Deus é minha testemunha de que motivos não me faltaram. Parece que todo mês eu dou o azar de esbarrar novamente com aquele maldito meme de Resident Evil 3 e tradução em jogos. Ele ou uma das suas dezenas de variações que tanto me assombram.
Caso nunca tenham visto esses memes, saibam que eu os invejo. Às vezes eles mudam algumas palavras, outras vezes os jogos – já vi várias versões usando Red Dead Redemption 2 e alguns JRPGs no lugar de Resident Evil 3 – mas sempre é a mesma comparação com hipotéticos gamers de hoje com os hipotéticos gamers dos anos 90. Como se essas imagens já não me incomodassem o suficiente, alguém resolveu juntar GTA e IA generativa, os dois maiores símbolos da mediocridade da comunidade gamer, para produzir uma nova variação do original.
*sigh*

Pois bem, o que mais me irrita nesses memes é a canalhice. Eles se aproveitam do formato para parecer que é só uma anedota descontraída sobre como eram as coisas antigamente, enquanto empurram a mesma narrativa batida de conflitos geracionais. Para o mal de todos e infelicidade geral da Nação, existem idiotas que compram e validam essa historinha. Caso você seja um desses idiotas, saiba que não te chamei assim para te ofender. Talvez um pouquinho. É só porque eu acho que reconhecer essa estupidez faz parte do processo de cura. Porque o cenário que esse meme cria é uma mistura de memórias falsas com meias verdades.
A entrada e disseminação dos videogames no Brasil se deu muito graças à, digamos, informalidade. Canais oficiais levaram um tempo para se firmar aqui e, mesmo quando o fizeram, não era toda família que podia se dar o luxo pagar pelos eletrônicos. Portanto o mercado cinza foi – e ainda é – muito importante para aquisição de jogos. Numa dessas idas e vindas, você acabava com uma cópia que alguém trouxe do Japão para revender ou uma cópia dessa cópia.
Citando meu caso pessoal, eu herdei meu PlayStation do meu primo com alguns CDs. Entre eles estavam dois Resident Evil (Gun Survivor & 3) e Castlevania: Symphony of the Night, todos em japonês. Poderia ter mais naquela pilha de CDs, mas são esses que eu me lembro com mais nitidez. Como toda experiência não é individual, o meu caso se repetiu em várias outras casas pelo Brasil. Então quando alguém diz que jogou X, Y ou Z em japonês, é bem provável que elas estejam te falando a verdade. O problema é aquilo que elas esquecem de falar também sobre a época.
Reconheço que alguns não fazem isso na maldade, a nossa memória é falha e temos uma tendência de idealizar o passado. Então com toda certeza essas pessoas têm lembranças felizes de estarem se divertindo com videogames. Eu só contesto o caso específico dos jogos em japonês, ainda mais considerando os exemplos que botam naqueles memes. Se fossem jogos de plataforma, de tirinho ou o bom e velho “briga de rua”, eu não teria dúvidas que as pessoas os jogaram do começo ao fim. São jogabilidades intuitivas nas quais você não irá travar por não entender uma linha ou outra de diálogo que esses jogos possam ter. Agora jogos que envolviam puzzles ou narrativas mais complexas do que ir para frente, pular, atirar ou socar? Aí eu já começo a questionar!
Admito que é perfeitamente possível de também se divertir com esses jogos, mas em algum momento virava uma tarefa frustrante quando você não sabia para onde ir ou o que tinha que fazer. Nessa hora a jogabilidade se tornava uma cansativa sequência de tentativa e erro, com você apertando botões e checando cada canto na esperança que algo funcionasse. Tanto que sempre que eu entro nos comentários desses memes e vejo alguém dizendo “zerei não sei o que em japonês slc kkkkkk” eu já imagino que ela fez isso com um olho na televisão e outro no detonado que ele encontrou em alguma revistinha da época.
Mais um relato pessoal. Eu não sou tão chegado assim no Castlevania: Symphony of the Night porque a minha primeira experiência quando eu era criança não foi das melhores. Gostava das mecânicas, a arte enchia meus olhos e eu adorava explorar aquele castelo. Só que chegava um momento no jogo que eu empacava e não sabia como avançar. Eu andava em círculos, tentando encontrar uma passagem secreta ou uma porta que talvez não tinha entrado ainda, sempre sem sucesso. Então eu ficava com raiva, tirava o CD e ia jogar um Mega Man 8, um Brave Fencer Musashi, um Crash Team Racing ou um Legend of Legaia que eu conseguia ir mais longe.
Por que isso acontecia? Por causa daquelas malditas portas azuis! Para abri-las, a gente tem que comprar uma relíquia naquele NPC da biblioteca. Está lá na descrição do item, todavia, a minha cópia era japonesa. Então eu não tinha a menor ideia de que precisava desse item para acessar as outras áreas do castelo. Até hoje eu me recordo de toda a frustração que jogar Symphony of the Night me causou, então não caiam nesse papinho de que nos anos 90 a gente se divertia horrores sem entender o que estava acontecendo. Podia acontecer por 30 minutos, talvez uma horinha de gameplay, mas chegava um momento que se tornava uma tarefa tão cansativa que você preferia mudar de jogo.

Nessa primeira parte do texto a minha intenção foi mostrar como esses memes que as pessoas ainda repostam não são ilustrações exatas, e menos ainda sinceras, do passado. Todavia, não foram eles que me trouxeram de volta para o tema da localização. Embora exista ali um problema geracional, eu acho que a mentalidade por trás deles vai além de um Velhos vs Jovens. Pois também vejo essa mentalidade num perfil bem específico de gamers que se manifestam quando as pessoas estão falando sobre algum jogo que não terá localização.
E não qualquer jogo, ok? Ninguém se incomoda que aquele indie feito por dois caras num fim de mundo qualquer só terá inglês e talvez o idioma nativo dos desenvolvedores. Até porque o mais louco é tem um monte desses indie feitos por dois caras num fim de mundo qualquer que SÃO localizados para diferentes idiomas. Eu me refiro a jogos lançados por grandes publishers que já estão há décadas aí no mercado com alcance internacional. Empresas com recursos e pessoal mais do que suficiente para encontrar profissionais ou uma terceirizada que possam cuidar da localização, mas escolhem não fazê-lo.
Não sei se vocês conhecem, mas existe uma empresinha minúscula por aí chamada Square Enix. Ela faz uns joguinhos meio obscuros, mas tem uma franquia chamada Final Fantasy que conseguiu longo dos anos conquistar um punhado de fãs ao redor do mundo. No caso dos seus fãs brasileiros, vira uma relação de amor e ódio pela quantidade de vezes que a Square Enix lança um jogo sem localização para a nossa região. Claro que os principais títulos da franquia são devidamente localizados: Final Fantasy XVI foi, o remake de Final Fantasy VII também e até os seis jogos da coleção de Final Fantasy Pixel Remaster. Mas aquele Final Fantasy Ressonance, anunciado no mês passado, não terá tradução para português. O remaster de Final Fantasy Tactics, do ano passado, também não teve. Stranger of Paradise: Final Fantasy Story, feito em comemoração pelos 35 anos da franquia, idem.
A título de curiosidade, eu resolvi conferir para quais idiomas esses jogos costumam ser localizados. Tirando inglês e japonês, os mais comuns são: chinês, coreano, francês e alemão. Me chamou atenção também que a Square Enix traduz muito seus jogos também para espanhol e italiano, embora não seja sempre uma regra. Stranger of Paradise, por exemplo, foi para os dois idiomas, Ressonance por enquanto só será para espanhol e o Tactics não foi nem para um nem para o outro. Até uma IP original lançada recentemente, The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, recebeu tradução para todos os idiomas listados com exceção, claro, do português.
É perfeitamente compreensível que a Square Enix dê prioridade aos principais mercados da Ásia, da Europa e da América do Norte. Mas há de se questionar essa negligência com o Brasil quando ele é: o maior mercado da América Latina, está entre as dez maiores bases de jogadores e tem uma comunidade altamente (e às vezes cronicamente) engajada na internet. Lembro que até uns anos atrás o Brasil também estava entre as dez maiores receitas no mercado de jogos, mas me deparei com dados recentes conflitantes. De qualquer forma, como se fosse um mercado tão menor quanto o da Itália ou da Espanha. Então, no final das contas, o fã fica com a impressão que a Square Enix está ativamente ignorando a sua comunidade brasileira por puro descaso.
Porém este não é um texto sobre a Square Enix, o problema não é exclusivo dela. Apenas calhou que nesse mês eu me deparei com duas situações envolvendo jogos dela. Não vale a pena entrar em detalhes, porque certamente vocês já conseguem imaginar o que aconteceu. Alguém fez uma postagem reclamando da falta de tradução de um jogo e surgiram aqueles que apelidei de Defensores Voluntários da Pessoa Jurídica™ para reclamar também… só que da reclamação. Existem diferentes graus para essas pessoas, mas a lenga-lenga parte sempre do mesmo ponto. Tem os mais babacas que vão dizer que as pessoas deveriam aprender inglês, tem os conformados que vão dizer que não adianta reclamar, tem aqueles que irão se apoiar na desculpa que tais jogos ainda são nicho e por aí vai. No final das contas, é gente que se preocupa mais com CNPJ do que com CPF.
Eu acho graça de como essas pessoas vem com suas respostas prontas e ignoram movimentações que aconteceram e que acontecem no mercado. Talvez por ignorância, talvez por malícia. Por exemplo, esse lance do nicho. Realmente é um senso comum de que RPGs não estão entre os gêneros mais populares. Vamos ignorar que alguns sucessos dos últimos anos como Baldur’s Gate 3 e Clair Obscur: Expedition 33 eram RPGs, de turno ainda por cima, e tiveram localização para português. Mas acho que todos vamos concordar que existe um gênero ainda mais nichado que são as visual novels, certo? Pois vejam só, a Capcom tempo atrás decidiu adicionar uma tradução em português para Phoenix Wright: Ace Attorney Trilogy. Por que será que ela fez isso?
Vamos voltar no tempo. Na transição da década de 80 para de 90, o Master System se tornou o principal console no Brasil por intermédio da TecToy, a parceira nacional da Sega na época. Por muitos anos a TecToy dominou o mercado brasileiro, com várias iniciativas que visavam conquistar esse espaço. Um episódio emblemático foi o lançamento do primeiro Phantasy Star em 1991, TOTALMENTE em português. Algo que a TecToy repetiu também fez com duas das suas sequências no Mega Drive nos anos seguintes.

Ninguém aqui é inocente para achar que a Capcom traduziu Phoenix Wright pelo seu amor a comunidade brasileira. A TecToy também não traduziu Phantasy Star porque queria que jovens gamers pudessem aproveitar um jogo na língua deles. Ambas as empresas tiveram um entendimento muito simples de como a localização ajuda a atrair um público mais amplo para o seu produto. Contudo, pouco importa que as intenções dessas empresas não sejam nobres, o que é relevante para nós, consumidores, é termos esse acesso.
Phantasy Star acabou sendo o primeiro contato de vários brasileiros com RPGs nos anos 90. Com certeza isso estimulou parte deles a buscar mais jogos com aquela jogabilidade e é ainda mais certo que alguns acabaram desistindo depois quando deram de cara com a barreira linguística. A minha geração, aqueles que começaram a jogar mais próximos dos anos 2000, também enfrentou esse obstáculo. Porém, para a nossa sorte, naquela época surgiam os primeiros emuladores e também começaram a aparecer ROMs traduzidas. A qualidade em alguns jogos era questionável, fora que isso se limitava a uns poucos títulos mais populares. O importante é como isso abriu ainda mais a porta de entrada para gêneros que demandam mais compreensão de texto.
Novamente venho com meu caso pessoal. Chrono Trigger foi um dos principais responsáveis por me fazer gostar de RPGs e a primeira vez que eu o zerei foi com uma versão brasileira que eu encontrei na internet. Depois de anos de cursinho de inglês eu tive a possibilidade de expandir meus horizontes culturais, mas se não fosse esse pontapé inicial com as ROMs traduzidas talvez eu não tivesse o mesmo interesse que tenho hoje com esses jogos.
Saindo um pouco do videogames, vamos pensar na cultura otaku dos anos 2000-2010. Canais como Fox Kids, Cartoon Network e os da TV aberta ajudaram a apresentar vários animês para várias gerações. Mas a internet também teve seu papel fundamental com fansubs de obras que não eram visadas por essas emissoras. O famoso Big Three, formado por Naruto, Bleach e One Piece, e conheci através dos sites do grupo PROJECT. Portanto, fosse por meios oficiais ou não, a localização sempre esteve presente para o nosso acesso à cultura. Filmes, séries, livros, quadrinhos, etc. Mas quando chegamos nos videogames, surge esse pensamento de que ter o inglês como única alternativa já é bom o bastante.
Por quê?
Sério, por quê?
Eu tenho uma resposta simples: o gamer é um tremendo de um cuzão! Não é a resposta mais intelectualmente honesta, contudo não está tão errada assim. Já vivi tempo o suficiente nessa comunidade, saltando de bolha em bolha e de plataforma em plataforma, para saber que existe uma parcela de gamers que adorariam que ela fosse um clubinho exclusivo. Principalmente entre essa galera que ainda mantém “normie” e “larper” no seu vocabulário. Então para eles o inglês não é uma barreira linguística, é um aliado que filtra aqueles que não são os folclóricos “gamers de verdade”. Porém eu acho que dá para ir mais fundo nisso.
Alerta de psicanálise freestyle, beleza?
Algo que penso desde o meu primeiro texto, falando especificamente de uma galera mais velha, é que existe uma espécie de “ressentimento pelos dias melhores”. Tenho certeza que todo mundo aqui já presenciou esse fenômeno, não precisa nem ser em situações que envolvem videogames. O mundo não é as mil maravilhas, mas em alguns aspectos da vida as coisas melhoraram nas últimas décadas. Por conta dessas transformações, me parece que existe uma pequena raiva das gerações mais velhas com as mais novas por elas não terem passados pelos seus mesmos perrengues.
Isso pode se manifestar até nas coisas mais banais como, por exemplo, não ter que jogar algo em japonês porque não havia outra alternativa. Talvez seja tentativa de tirar algum orgulho do fato de ter vivido um passado mais merda já que não dá para mudá-lo. Aí a pessoa prefere fingir que a geração atual é mais fresca e quer tudo de mão beijada, só para não ter que admitir que a sua experiência foi pior devido às circunstâncias da época.
Óbvio que esse é um pensamento tosco porque todos se beneficiam da existência de uma localização. Uma pena que o Belmonteirinho de 10 anos não pode zerar Symphony of the Night porque não entendia japonês. Mas que bom o Belmonteiro de 20 anos foi capaz de baixar uma ISO em inglês e eliminar essa pendência da sua lista. E espero que se um dia existir o Belmonteirinho Jr. ele não precise nem se preocupar de ter um dicionário do lado para ajudá-lo a entender seus joguinhos. Porém o que eu acho pior é que esse é um pensamento hipócrita.

Se pegarmos essa galera dos memes e botá-los para jogar qualquer coisa em japonês eles não passarão nem do menu inicial ao ver os primeiros kanji. Todo mundo entende como é bom ter um jogo traduzido. Alguns só não querem dar o braço a torcer porque conseguem usufruir da localização americana. Entretanto, só isso não explica o porquê de existir uma má vontade com aqueles que estão buscando um jeito de convencer as empresas a olharem para a vasta maioria de brasileiros que só entendem português. Aí entra minha segunda teoria.
Para mim o gamer vive sob um constante estado de temor. Porém ele não é temente a uma divindade e sim às empresas de sua preferência. Ele fica com receio em “ofendê-las” com alguma crítica e receber alguma forma de represália nos joguinhos que eles têm dependência emocional. Assim o gamer tenta então ser o máximo obediente e se conforma com qualquer decisão, acreditando que lá na frente essas empresas serão misericordiosas e lhe concederá alguma bênção. A graça é que isso NUNCA acontece! Não precisa nem ir muito longe, basta olhar as últimas semanas.
Mais do que nunca, falar do Xbox, perdão, do XBOX no Brasil é quase que fazer bullying com os caixistas. Os coitados há longa data convivem com uma forte síndrome de vira-lata, acreditando que a sua marca sempre foi vítima da entidade cósmica da “mídia sonysta”. Eles se mantiveram devotos fiéis ao Xbox, perdão novamente, ao XBOX por duas décadas com a esperança que os prometidos dias melhores chegassem. Resultado?
Dos casos mais recentes temos as mídias físicas que não são mais produzidas no Brasil desde 2023. Se você quiser comprar um Xbox Series X você tem que importar ou procurar no mercado cinza, pois o console já não é mais distribuído oficialmente aqui. Em outubro do ano passado, o maravilhoso (e insustentável) Game Pass dobrou de preço. Por fim, o Xbox, perdão pela terceira vez, o XBOX quase acabou com os exclusivos que os caixistas tanto defendiam. Porém esses dois últimos nós táticos precisaram ser desfeitos porque a empresa percebeu que colocou a corda no próprio pescoço. Eu também poderia citar a demissão de mais de 3 mil funcionários que vai ocorrer pelos próximos meses e os cinco estúdios que foram chutados para fora. Só que desde quando o gamer se importa com trabalhadores, né?
Mas tatua aí “Asha Sharma até a morte”!
Brinco com os caixistas apenas porque eu não tenho o menor respeito ou empatia pela comunidade deles. Três anos atrás, o Xbox Series S passou por um pequeno aumento de preço de quase R$ 1.000,00. Muita gente criticou a decisão na época, até mesmo alguns criadores de conteúdo. Sabem como a marca respondeu? Recolhendo os consoles que foram cedidos para esses veículos. Sabem como alguns caixistas responderam? Rindo dos “jornalistinhas” que foram afetados. O aumento do console impactaria todo mundo, mas tinha gamer que preferia criticar quem estava reportando o aumento, como se a culpa fosse deles, do que a porra do Xbox. Perdão, perdão, XBOX!
Mas acalmem-se, meus camaradinhas esverdeados. Darei uma colher de chá porque o problema também não é um exclusivo de vocês. Esse capachismo é muito mais generalizado na comunidade gamer.
No início deste mês a Sony escancarou seus planos de acabar com a mídia física no PlayStation, a “Ferrari dos consoles”. A empresa alegou que isso era uma “direção natural” para se adaptar às “tendências de consumidores”. Com certeza deve ser isso, mesmo que a Sony não tenha apresentado os dados que confirmam essa análise. Não deve ser porque ela quer matar a revenda e o mercado de usados para garantir seu monopólio digital. Para ser justo, a resposta a este anúncio foi tão negativa quanto a resposta do aumento de preço do Xbox Series S. Mas sempre tem o gamer! Tive que ver gente se iludindo que talvez o formato totalmente digital poderia nos levar a jogos mais baratos no futuro. Alguns até batiam no peito com orgulho de dizer que nem compram mais mídia física.
Quanto aos nintendistas, vou ser bem clichê. Já cansei de ver essa galera irritadiça com quem cria conteúdo sobre emulação com medo que isso fosse trazer ira da deusa Nintendo. Quando ela conseguiu derrubar terminantemente o Yuzu teve gente que comemorou como se isso fosse uma vitória para a comunidade. Alguns desses arrombados também adoram criticar pessoas como o Senhor Linguiça que fala sobre emulação. E que tal falarmos de localização na Nintendo? Bom, pelo menos o site para comprar seus joguinhos está 100% em português!

Agora que já fiz média falando sobre as outras empresas, voltarei aos caixistas. Desculpe, mas uma demissão de 3,2 mil funcionários não é algo que podemos tratar como nota de rodapé. Porque até para demitir gente o XBOX – agora falei direitinho, clã – conseguiu se superar.
De imediato foram mandados embora metade desse número, as próximas demissões ocorrerão nos próximos meses. Que delícia, né? Eu até pediria para tentarem imaginar como deve estar a cabeça do funcionário que agora vai trabalhar todo dia com medo de que ele será o próximo a ter que “iniciar uma nova fase na sua carreira”. Mas, novamente, quando que o gamer se importa com trabalhadores? Preferem acreditar na fanfic de que os dispensados eram desenvolvedores e gestores incompetentes que estavam travando a empresa e agora que esse grande reset foi dado os bons ventos irão soprar mais uma vez. É só ignorar que até a id Software, um dos estúdios nos últimos 10 anos consistentemente entregou resultado, teve metade da sua força de trabalho demitida.
Mas está tudo bem. Pelo menos a Bethesda fez um tweet esses dias dizendo “tamo fazendo jogo, tamo fazendo jogo”. Vamos enxergar esse copo meio cheio, galera!
Mesmo com tudo isso acima, ainda tive que ver gamer falando que podia ser pior e que estão pondo a casa em ordem. Meu primeiro instinto é voltar ao que eu disse lá atrás que a resposta mais simples é que o gamer é um tremendo cuzão. Só que ao mesmo tempo ele é também um cordeirinho que foi muito bem domesticado pelas suas empresas ao longo de décadas. Ele irá abaixar a cabeça e aceitar tudo com a promessa que eventualmente ele receberá joguinhos. Mesmo aqueles que ele nem terá condição de jogar, pois ele precisa acreditar que uma hora o preço vai cair.
Num cenário em que estúdios são abandonados a sua própria sorte, milhares de funcionários são demitidos mês sim e mês também, tanto jogos quanto consoles se tornam mais caros e as opções do gamer se tornam cada vez mais escassas e ele ainda tem a coragem de reagir com uma mentalidade de “não é hora para críticas”, é óbvio que ele não vai dar a devida importância de termos traduções para o nosso idioma. Errado somos nós por esperar qualquer coisa diferente do consumidor mais frouxo que o capitalismo conseguiu produzir!
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