Sobre Árida, aquele jogo que o Lula estava jogando

Imagem do teaser de Árida 2: Rise of the Brave, do estúdio brasileiro Aoca Game Lab

Anteontem (14) foi um episódio importante para um potencial futuro da indústria de desenvolvimento de jogos no Brasil. O presidente Lula assinou o decreto que regulamenta o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, marco estes já tinha sido criado através da Lei nº 14.852/2024. Agora com a regulamentação temos as diretrizes que ditam como a lei será aplicada e que também define responsabilidades dos órgãos envolvidos, além de medidas de proteção aos usuários, direitos de propriedade intelectual e preservação dos jogos. A newstletter Jornal dos Jogos fez um excelente artigo falando do decreto que recomendo conferirem.

Pois bem, eu não sou nem advogado e nem desenvolvedor de jogos para dar algum parecer mais embasado do decreto. O que posso lhes oferecer é o meu otimismo. Particularmente estou bem otimista com o avanço dessa pauta. Em especial, quero muito que se concretize os planos para criação de uma plataforma pública, Game Brasil, que servirá para catalogar e divulgar jogos nacionais. Outro comentário que posso fazer é sobre a divulgação do ato, onde fizeram um vídeo do Lula testando um jogos brasileiro. Foi uma escolha bem feliz para mim porque eu conhecia o jogo, Árida 2: Rise of the Brave (estilizado como ARIDA, mas eu não me importo com a pronúncia para os gringos). Árida está sendo desenvolvido pelo estúdio Aoca Game Lab, com lançamento previsto para 2027.

Gostei de saber que o projeto seguia firme e forte, porém eu tive um mau pressentimento ao assistir o vídeo. Infelizmente não estamos nas melhores circunstâncias, com o segundo turno de uma eleição altamente polarizada batendo à porta*. Então já podemos imaginar que haverá uma parcela de pessoas desequilibradas vomitando ódio gratuito ao jogo apenas porque o Lula estava jogando. Porém não é com essas pessoas que me incomodo porque já sei que para eles não existe mais salvação. O que me pega é saber que mesmo que estivéssemos em outro contexto, teria gente torcendo o nariz para Árida apenas pelo fato de ser um jogo nacional.

*Que fique registrado que meu posicionamento nessa história é de que eu jamais votarei num Bolsonaro!

Assim que o vídeo passou no meu feed eu escutei o vira-latismo gamer uivando lá de longe. Bastou uma rápida ida ao Reddit para encontrar alguém falando que o jogo parecia uma bomba. Se eu fosse no Twitter provavelmente encontraria comentários piores e em maior quantidade, mas depois do primeiro reclamando da captação de recursos públicos para o desenvolvimento de jogos eu resolvi me preservar. Para ser justo, naquela postagem do Reddit a maior parte dos comentários estava falando muito bem de Árida e incentivava as pessoas a testarem o jogo. Isso me deu um pouco de esperança e vi que havia a oportunidade de falar dele no meu blog também. Tem muitos aspectos de Árida, desde a sua história de desenvolvimento até o jogo em si, que eu acho que vale a pena comentar neste momento.

A concepção de Árida não é recente, começou dez anos atrás sob o título de Projeto Sertão na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Lá por volta de 2016, a UNEB foi uma das primeiras universidades a oferecer um curso de Graduação Tecnológica em Jogos Digitais no Ensino Superior. Não sei se foram os primeiros na Bahia ou no Brasil todo, de qualquer jeito foi um passo importante para formação de novos profissionais. Um dos professores que ministravam o curso da UNEB era Filipe Pereira e lá ele começou uma linha de pesquisa em Comunidades Virtuais. Assim nasceu a Aoca Game Lab e os primeiros conceitos do que anos depois se transformaria em Árida.

Mas como vocês devem ter reparado lá no primeiro parágrafo, tem um 2 antes do subtítulo de Rise of the Brave. É porque a primeira versão de Árida, intitulada de Backland’s Awakening, ficou pronta em 2019. Embora seja apresentada – e vendida – como um jogo completo, na prática essa versão é um protótipo do que Rise of the Brave virá a ser. Backland’s Awakening é um jogo curtíssimo. Se não me engano ele não tem mais do que duas horas de duração e conta com poucas mecânicas se comparado com a média do gênero de sobrevivência.

Em 2021, época em que eu ainda fazia minhas reviews no formato de fios no Twitter, cheguei a falar dele. Se me permitem, vou resgatar o texto na íntegra para vocês entenderem melhor a proposta do jogo. Não mudei nenhuma palavra, apenas organizei os tweets em parágrafos para deixar a leitura mais fluida. Portanto, todo o conteúdo é de inteira responsabilidade do Belmonteiro por quem eu jamais botaria minha mão no fogo.

Imagem da jogabilidade de Árida: Backland's Awakening

Eu não sou chegado a jogos de sobrevivência, mas resolvi dar uma chance pra Árida: Backland’s Awakening por conta da sua ambientação no sertão nordestino (e porque o jogo estava em promoção na Steam).

A ambientação de Árida é de longe o seu ponto forte Não apenas por ser um jogo no Brasil, mas porque o jogo tira inspirações de elementos históricos e culturais do Nordeste que tornam seu contexto mais interessante. Vemos esses elementos como a literatura do cordel, as menções à cidade de Canudos e pelo fato da jornada da protagonista Cícera se passar no final do séc. XIX onde todo o Nordeste passou por um terrível período de secas que assolaram a população.

Mas se por um lado o jogo se sobressai bastante com a ambientação, ele deixa a desejar na jogabilidade onde se mostra muito limitado se compararmos com outros títulos de jogos de sobrevivência como Raft e The Long Dark. Fora amolar suas duas ferramentas do jogo, um facão e uma enxada, montar fogueiras e uma armadilha, tudo que te sobra pra fazer em Árida são uma penca de receitas e umas tarefas que os NPCs te passam. Não há nem muito o que se explorar uma vez que o mapa do jogo também é limitado e as tarefas não te levam para muito longe

Assim, Árida parece mais um jogo de aventura com alguns elementos de sobrevivência do que um jogo de sobrevivência de fato. Árida é a primeira parte de uma série planejada de três jogos e então Backland’s Awakening funciona como um capítulo introdutório e dá pra notar que o jogo ainda não atingiu seu potencial e ainda precisa ser mais polido. A jornada pessoal de Cícera dá uma carga dramática ao jogo que, se for bem trabalhada nos próximos títulos, pode elevá-lo bem acima do que se espera de um jogo de sobrevivência.

Resumindo: os elementos que compõe a ambientação e narrativa de Árida: Backland’s Awakening dão sinais que o jogo tem muitas qualidades a serem exploradas. Mas por enquanto, em termos de jogabilidade, ele só cumpre o mínimo esperado.

Aos trancos e barrancos, a Aoca Game Lab passou os anos seguintes trabalhando na “sequência” de Árida para garantir que o jogo saia da forma que o imaginaram em 2016. Então é muito importante que ela esteja no centro da discussão do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos para mostrar todo o esforço que nossos desenvolvedores fazem para ajudar a construir uma indústria que infelizmente ainda está num estágio muito inicial. Não faltam talentos, isso eu posso afirmar. Só que além das barreiras de mercado, de acesso a tecnologia, captação de recursos, existe um outro muro que os jogos nacionais têm dificuldade de derrubar: a própria comunidade brasileira.

Eu já falei em outros carnavais como o gamer médio não gosta de admitir o quanto ele é um consumidor limitado, fortemente influenciado pelas tendências da indústria. O caso do gamer brasileiro é ainda pior porque durante décadas ele passou por uma colonização cultural de dois grandes núcleos do desenvolvimento de jogos, o americano e o japonês. Então é natural que ele tende a supervalorizar os títulos desses países como o suprassumo da mídia. Claro que se deve dar o devido valor à produção cultural desses países, o problema é como isso vem ao custo de encarar sua própria cultura como inferior. Jogos nacionais chegam a ser uma coisa quase que alienígena para o gamer médio brasileiro.

Se eu falar que nos anos 2000 o jogo de computador mais popular no Brasil era Counter-Strike, o famigerado CS, não haverá qualquer estranhamento, certo? Mas e se eu disser que o Show do Milhão foi tão popular quanto CS nessa época? Tenho certeza que vários desses gamers irão questionar tal afirmação. “Como assim um joguinho BRASILEIRO era tão popular?”, dirão eles, alguns que sequer sabiam da existência desseS jogoS. Sim, Show do Milhão foi uma franquia com lançamentos anuais de 1999 até 2006. Ele pegou embalo no programa original, além de ser um jogo barato que rodava em qualquer computador. E era um um quiz divertido que até minha mãe às vezes pegava meu computador para jogar.

Mas queria que o problema da comunidade gamer brasileira fosse apenas o desconhecimento da sua própria cultura. O pior é que existe muita gente cretina nesse meio e que acaba influenciando os desavisados criando falsos estereótipos sobre o cenário nacional. Soma-se isso a um grupo que já tem tendências reacionárias e o resultado é sempre desanimador. Um grande exemplo é a caricatura que inventaram de jogos baseados no “folclore brasileiro” – ou a mais ampla “cultura brasileira” que já satirizei aqui no blog – que dizem ter uma enorme expressividade no nosso catálogo. Existem alguns exemplos de fato, que essa gente nunca cita por nomes, porém não na proporção que fazem parecer.

Inclusive para cada jogo de “folclore brasileiro” dá para citar dúzias que não se encaixam nessa categoria e essa é a parte ingrata da discussão. Porque não deveríamos ter a necessidade de provar que não existem tantos jogos de “folclore brasileiro” porque isso nem deveria ser um problema. Não é para os americanos, nem para os japoneses, mas aqui, essa terra de vira-latas carentes pela aprovação gringa, ainda existe esse estigma de associar nossa cultura como algo menor. Ou então, menos lucrativo.

A gente não tem que ter vergonha alguma disso. Que bom que temos Toren para se inspirar em mitos indígenas, ou Hell Clock para criar um universo fantástico em cima do Massacre de Canudos, ou Punhos do Repúdio para abordar eventos contemporâneos. E agora teremos Árida que puxa elementos da Grande Seca do século XIX e a literatura de cordel para desenvolver um jogo de sobrevivência. Que reforço, coisa que acontece lá fora sem ninguém questionar. O supracitado The Long Dark, por exemplo. É um jogo de um estúdio canadense, ambientado no Canadá e que, vejam só, captou recursos de um fundo canadense para auxiliar no seu financiamento. Agora eu pergunto a vocês, alguém aqui acha que teve gamer lá achando ruim que estavam fazendo um jogo baseado na “cultura canadense”?

Enfim, fico feliz que Árida tenha recebido um pouquinho de atenção agora que estamos tão próximos do seu lançamento. Convido a todos a dar uma chance ao Backland’s Awakening, mesmo com todas as suas limitações, e que ano que vem considerem testar o Rise of the Brave. E sim, faço esse pedido por se tratar de um jogo de “cultura brasileira” porque já passou da hora de nos livrarmos dessa síndrome de vira-lata que empodera esse bando de gamer ignorante que empesteia as discussões sobre o nosso cenário.


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