Digimon Adventure V-Tamer 01 e o fantástico universo das possibilidades multimídia

Arte promocional do mangá Digimon Adventure V-Tamer 01

Mês passado tivemos no cinema Resident Evil (2026), o oitavo filme live action e o terceiro reboot da mais do que popular franquia homônima. Quem me acompanha, seja pelo blog ou pelo Twitter, sabe da odisseia que foram as semanas que precederam a estreia, então lhes pouparei de maiores dores de cabeça. Basta apenas lembrarmos que alguns fãs ficaram um tanto desgostosos pelo fato do filme não adaptar nenhum dos jogos originais e por não incluir nenhum dos seus principais personagens. Os comentários que chegaram a mim eram, no geral, de brasileiros, americanos e um ou dois espanhóis perdidos. Acho que vi um francês também. Durante essa seara, eu fiquei me perguntando se o público japonês passou por um fenômeno parecido nas suas redes. Gosto de acreditar que não, pois recentemente eu li Digimon Adventure V-Tamer 01!

…

Ok, ok! Eu explico!

Em 1996, a Bandai lançou o Tamagotchi, um brinquedo da linha de virtual pets que ajudou a popularizar esse nicho. Talvez popularizar seja até um eufemismo, pois o Tamagotchi criou uma febre global nos anos 90. Originalmente a Bandai tinha como público-alvo meninas e adolescentes, então no ano seguinte ela lançou o Digital Monster buscando o público masculino. O Digital Monster mantinha a proposta de cuidar de bichinhos virtuais, permitindo também que os garotos os usassem em duelos.

Uma das primeiras versõs do Digial Monster, um virtual pet lançado pela Bandai nos anos 90

Tenho certeza que todas as crianças brasileiras dos anos 90 e 2000 tiveram um ou mais Tamagotchis comprados numa feira. Já o Digital Monster eu não me recordo se veio parar nessas terras. Eu pelo menos só vim saber desses brinquedos pesquisando na internet. Portanto, acho seguro afirmar que o contato brasileiro se deu por meio da franquia, Digimon, que surgiu a partir do Digital Monster. Falando do meu caso pessoal, a primeira vez que ouvi esse nome foi através da série animada, Digimon Adventure, que estreou na TV Globinho. Depois também tive contato com alguns de seus jogos, principalmente aqueles da série de Digimon World. E também Rumble Arena!

Imagino que outras pessoas da minha geração compartilham da mesma experiência. Portanto, na nossa cabeça, Digimon começou a partir do desenho e foi recebendo novas séries e adaptações para jogos. Contudo, antes de chegar aqui, Digimon já era uma franquia multimídia no Japão. Digimon Adventure, por exemplo, originalmente era um curta-metragem produzido pela Toei Animation. Assim que o curta entrou em produção, o estúdio recebeu ordens para produzir também uma série e assim o projeto inicial se converteu a um prólogo.

Só que esse não é o começo também. A Bandai já tinha produzido Digital Monster Ver. S: Digimon Tamers, um jogo do Sega Saturn lançado no em 1998 no Japão e que servia como uma versão para consoles do virtual pet original. E tem mais!

Poucos meses depois de Digimon Tamers, a Shueisha passou a publicar o mangá de Digimon Adventure V-Tamer 01, que eu vou me referir apenas como Digimon V-Tamer por motivos de “não tenho paciência”. Ele foi escrito por Hiroshi Izawa e ilustrado por Tenya Yabuno de 1998 até 2003. Contudo esse ainda não é o começo do grande universo multimídia de Digimon porque a dupla Izawa & Yabuno já tinha publicado um one-shot intitulado C’mon Digimon no ano anterior. Então a linha do tempo real é: Digital Monster levou a C’mon Digimon, C’mon Digimon levou a Digimon V-Tamer, Digimon V-Tamer levou a Digimon Adventure (o filme) e Digimon Adventure (o filme) levou a Digimon Adventure (a série). A partir daí Digimon se dividiu em mais uma porrada de filmes, séries, jogos, quadrinhos e em tudo mais que a Bandai conseguiria transformar em dinheiro.

Ufa! Que bagunça, não? Pois eu acho o maior barato e, se dependesse de mim, toda e qualquer franquia seria desse jeito.

Digimon, especificamente nesses seus primeiros anos de existência, se tornou o meu exemplo preferido para falar de franquias que vão fundo nesse lance de multimídia. Só não arrisco dizer que é o melhor exemplo porque tenho pouca familiaridade com outras franquias que se originaram no Japão. Vale destacar que aqui eu não estou falando da qualidade das obras, até porque ela pode variar bastante. Também não estou falando de suce$$o, pois existem dezenas de franquias que dão muito mais dinheiro que Digimon. Quando eu cito Digimon é porque essa é uma franquia que realmente tirou total proveito dessa variedade de formatos para criar uma narrativa transmídia.

Vamos começar pelos mangás!

Página do mangá Digimon Adventure V-Tamer 01 mostrando Tai e Zero

C’mon Digimon é uma versão mais fantástica do brinquedo original. O one-shot tem como personagem principal o jovem Kentarou Kamon, que não é muito ligado a Digimons. Nesse universo, as batalhas acontecem através de dispositivos chamados de Docks e os Digimons “ganham vida” através de hologramas. Depois que um colega de classe é derrotado pelo antagonista Shin’ichirou Jōsaki e tem seu Digimon absorvido, Kentarou decide desafiá-lo para um duelo. A história é bem curta (afinaç é um one-shot, duh!) e dá para ver que os autores ainda estavam tentando entender como explorar os conceitos de uma linha de brinquedos numa narrativa sequencial.

Digimon V-Tamer por sua vez, tinha ideias mais sólidas e decidiu investir no subgênero dos isekai que começava a ganhar mais tração na virada do milênio. O mangá cria uma nova história e traz um novo protagonista, um garoto chamado Tai, que tenta participar de um torneio de V-Pets. Todavia, Tai é desclassificado porque seu Digimon, Zero, não consta como um monstro oficial. Logo em seguida ele acaba sendo teletransportado para o Digi-Mundo onde encontra Zero e agora os dois precisam derrotar Daemon que planeja conquistar o continente.

Ainda que C’mon Digimon e Digimon V-Tamer sejam dois mangás de aventura para o público infantil, já podemos notar que cada um resolve explorar o conceito de Digimon ao seu modo. Agora vamos para as séries!

O filme-prólogo, como descrevi no passado, é essencialmente um filme de kaiju. Nele somos apresentados novamente ao Tai, porém como um personagem diferente do mangá. Em vez de ser transportado para um mundo digital, é um Digimon que sai do computador e vem parar no mundo físico. Tao e sua irmã Kari cuidam do Digimon e ele vai se transformando até virar um Agumon gigante. Durante à noite, um Parrotmon surge na cidade e começa a lutar com Agumon que evolui mais uma vez para Greymon. Depois de uma tensa batalha, ambos os Digimons desaparecem, deixando Tai, Kari e mais um grupo de crianças como as únicas testemunhas do que ocorreu.

Já a série também aposta também na rota de isekai, em que Tai e seus amigos vão parar no Digi-Mundo para que eles possam salvá-lo das forças sombrias que o ameaçam. Mais para o meio da temporada, os personagens conseguem voltar para casa e descobrem que os limites entre o mundo físico e virtual estão ruindo. Esse conceito também será explorado nas outras séries e por isso não pretendo me prender a muitos detalhes. Só quero dar um panorama geral das sequências.

Cena de Digimon Adventure mostrando todas as crianças escolhidas com seus Digimons na suas formas evoluídas

Digimon Adventure 2 é uma continuação direta que introduz com um novo grupo de protagonistas e Digimons, mas com a participação do elenco anterior. Digimon Tamers não tem qualquer conexão com as outras duas séries, traz uma temática de cartas e tem novamente os Digimons sendo transportados para o nosso mundo e não as crianças. Por fim, Digimon Frontier cria mais uma linha do tempo, com protagonistas indo parar numa nova versão do Digi-Mundo e agora elas próprias se transformam em Digimons. Depois do Frontier houve um hiato de alguns anos até a próxima série ser anunciada em 2005, mas esse é um período que não importa para os fins deste artigo.

Entre 1999 e 2003 tivemos alguns longas-metragens, como o Digimon Adventure: Our War Game, produzidos em paralelo às temporadas. Cada série chegou a ter pelo menos um filme cujos eventos aconteciam no meio ou após a conclusão da sua história. Sendo honesto com vocês, eu só assisti dois desses filmes, o supracitado Our War Game e Hurricane Touchdown!! (na versão americana de Digimon: The Movie), portanto não irei me aprofundar neste tópico. Mas fica aqui o registro das outras produções: Revenge of Diaboromon (Digimon Adventure 2), Battle of Adventurers & Runaway Locomon (Digimon Tamers) e Island of Lost Digimon (Digimon Frontier).

Última parada: videogames! Também tem muita coisa que daria para citar, mas vou me limitar aos três primeiros da série World porque se alinham com o objetivo do texto.

Em Digimon World, o protagonista é levado para Digi-Mundo e recebe a missão de resgatar os Digimons de File City que se tornaram agressivos e abandonaram a cidade. Você recebe um Digimon e o jogo traz algumas das mecânicas do Digital Monster original. Além de treinar seu Digimon para que ele evolua para suas próximas formas, você tem que alimentá-lo, deixar que ele descanse e levá-lo ao banheiro. Batalhas ocorrem pelo mapa ao encostar nos inimigos e você dá os comandos. O Digimon pode morrer tanto durante os combates quanto de velhice, voltando a sua forma de ovo e te obrigando a reiniciar seu treinamento.

Na sequência, Digimon World 2, temos uma nova proposta de jogabilidade de RPG dungeon crawler. A história acontece num mundo em que Digimons e humanos coexistem. O protagonista ingressa numa das três equipes que protegem a região e recebe missões onde você explora diferentes dungeons com seu Digi-Beetle, desvia de armadilhas e enfrenta Digimons malignos. Dessa vez o jogador não precisa passar pelo processo de cuidar dos seus Digimon e em vez disso deve conquistar a amizade deles. O combate assume o formato de um típico JRPG de turnos, onde você monta sua equipe e pode evoluir e fundir os Digimons conforme eles passam de nível.

  • Imagem de Digimon World 1

Por fim, em Digimon World 3 o protagonista e seus amigos ficam presos dentro de um MMORPG e agora precisam usar seus Digimons para escapar. O jogo adquire ainda mais o formato de um típico JRPG de turnos, porém as batalhas acontecem em duelos. Você pode levar até três Digimons, obtidos através do DDNA deixado pelos inimigos, e alternar entre eles durante as lutas. As evoluções ocorrem automaticamente quando eles alcançam determinados níveis e você também pode equipar seus Digimons com itens.

Como pudemos ver, no espaço de apenas seis anos a franquia de Digimon conseguiu ter uma surpreendente pluralidade de títulos. Não só em quantidade, mas também em diversidade. Por isso eu a considero um dos melhores exemplos do potencial de uma franquia que de fato se comprometa a ser multimídia. Poderíamos pegar exemplos de mais sucesso – Digimon não está nem mesmo entre as 50 primeiras – e até de melhor qualidade, ainda que essa última seja uma questão meramente subjetiva. Inclusive tem um pessoal que considera que a falta de uma consistência entre a linha de jogos e de séries prejudicou Digimon a longo prazo.

Já eu penso o exato oposto. O que a torna uma franquia interessante é justamente esse total desprendimento com uma unidade criativa. As obras não precisam conversar tanto entre si e podem trazer novas interpretações dos Digimons e do próprio Digi-Mundo. O seu universo não está em constante expansão e sim em transformação. Os artistas não precisam se apegar a estruturas fixas, salvo alguns elementos que distingue Digimon de outras franquias, e gozam de mais liberdade para criar. Algo que cada vez eu sinto que é mais necessário nestes ambientes de fandoms.

Para concluir minha reflexão, vou retomar minha menção inicial a Resident Evil. Temos aqui outra franquia multimídia só que sem o mesmo grau liberdade criativa de Digimon. Embora tenhamos séries, filmes, livros, quadrinhos e até mesmo peças de teatro, os jogos ainda definem uma linha do tempo que tenta organizar a franquia. Por conta disso, Resident Evil tem uma rigidez criativa maior e, por consequência, os fãs também ficam limitados às mesmas referências de sempre. Tanto é que os infames filmes do Paul W. S. Anderson não são criticados dentro dos seus (de)méritos e sim porque “não foram fiéis aos jogos”. Ao mesmo tempo, as animações são analisadas com mais boa vontade apenas pela Capcom ditar que elas fazem parte do cânon e repetirem os mesmo personagens. Não surpreende que Ilha da Morte seja uma das favoritas, já que ela é descaradamente os “Vingadores de Resident Evil”.

Por causa dessa rigidez que tivemos que ver o discurso mais simplório sobre Resident Evil (2026) sendo repetido à exaustão. Esses fãs não tentaram analisar a sua cinematografia, seus temas, nada. Eram apenas implicâncias das mais bestas por não ter um Leon ou uma Jill, da história se passar em 1998, de não ter nenhum monstro dos jogos e por estar nevando. Porque esse tipo de fã não gosta de coisas novas de verdade na sua franquia. Ele só precisa que você coloque uma nova embalagem no mesmo produto e venda de novo para ele. Assim a ideia de uma franquia multimídia vira apenas uma desculpa para continuar consumindo a mesma coisa, só que num formato diferente.

Eu acho isso uma pena, pois essas pessoas não tem noção de quão fantástico é viver num universo de possibilidades infinitas. Num ano você tem Digimon V-Tamer, no outro Digimon Adventure e depois ganha um Digimon World. Três títulos, três mídias e, o mais importante, três histórias diferentes. Algumas vão dar mais certo do que as outras? Evidentemente que sim! Mas e daí? O bom é que sempre teremos algo de fato novo para experimentar.


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