Enterre Seus Mortos: o fim do mundo será vazio

Montagem com a capa do livro Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia, em meio a um cemitério

Nunca tenho plena certeza de quanto eu estou digitando para as paredes e quanto há pessoas de verdade me lendo. Caso estejam, também me pergunto desde quando o fazem. Por isso é bem provável que muitos de vocês não saibam que um dos meus filmes de terror favoritos é o argentino O Mal Que Nos Habita (2023), do diretor Demián Rugna. Dois anos depois de assisti-lo eu me deparei com o cartaz do filme brasileiro Enterre Seus Mortos (2025). Nele se destacava um vermelho forte que me fez pensar imediatamente em O Mal Que Nos Habita. Foi mais do que suficiente para me convencer a lhe dar uma chance.

Ok, não foi apenas um caso de “julgar o filme pelo pôster”. Eu reconheci o nome do diretor e roteirista, Marcos Dutra, pois estava familiarizado com alguns dos seus trabalhos anteriores. Em 2014 ele dirigiu Quando Eu Era Vivo, que é um suspense sobrenatural que tem seu lugar na minha listinha do cinema nacional. Mas eu prefiro as colaborações que ele fez com a também diretora e roteirista Juliana Rojas, o terror urbano de Trabalhar Cansa (2001) e o terror fantástico de As Boas Maneiras (2017).

Citei O Mal Que Nos Habita porque eu acho que existe um elemento em comum na atmosfera dessas duas obras: o sentimento de fim do mundo. A diferença é que no primeiro parece que ele já ocorreu e estamos acompanhando as pessoas que restaram vivendo num eterno limbo. O segundo, por outro lado, passa a sensação que o fim do mundo é iminente. Isso foi que capturou a minha atenção e comecei curtindo bastante Enterre Seus Mortos. Quando cheguei no final já não parecia mais o começo.

Não há problema nenhum com a direção do Marcos Dutra. Porém durante todo o tempo eu não conseguia deixar de pensar que aquilo era uma série comprimida num único filme. Há elementos demais nesse universo: temos pedras que caem do céu, pessoas que fogem do planeta em foguetes, uma síndrome misteriosa que ataca crianças, um culto que parece ter sido tirado de uma das páginas do H. P. Lovecraft, espíritos que possuem os corpos das pessoas. Quando coloco assim, até parece que são ingredientes para um filme de terror interessante. Porém, no saldo final, essas coisas não passam de uma perfumaria que serve apenas para causar tal impressão.

Um tanto decepcionado eu resolvi pesquisar um pouco sobre o filme. Descobri que Enterre Seus Mortos se tratava de uma adaptação do livro homônimo da autora brasileira Ana Paula Maia. Conheço muito pouco da literatura brasileiro, então ali havia a oportunidade de matar dois coelhos com uma cajadada. Então, além de conhecer uma autora contemporânea, eu também poderia ver se os problemas que eu tive com o filme partiam das escolhas criativas do Marcos Dutra ou se era algo intrínseco à obra.

Comprei o livro e, vejam só, não é que gostei muito mais do original?

Adaptações hoje são um tópico espinhoso na internet muito pela forma infantilizada com que o fã age sobre as coisas que ele gosta. Cai sempre naquele reducionismo barato de exigir que essas transposições de uma mídia para a outra sejam o mais fiéis possíveis. Isso não é uma questão para mim. Não tenho problemas com adaptações que decidem ir por caminhos diferentes e respeito o Marcos Dutra nas suas escolhas. Ainda mais porque eu entendo a possibilidade de ser uma necessidade “comercial”. O livro não tem elementos típicos do que o espectador médio de terror espera nos seus filmes, ainda mais depois de anos acomodado com a linguagem cinematográfica americana. Mesmo assim, após ver as duas obras, meu sentimento é que a adaptação falha em capturar a essência do terror que Ana Paula Maia cria de um fim do mundo vazio.

A trama nos coloca na perspectiva de Edgar Wilson, um personagem que normalmente você não gostaria de ter como protagonista da sua história. É um homem muito calado, apático, que fala e age às vezes como uma máquina. Porém não um homem-máquina carismático como o Exterminador do Futuro, apenas um robô que colocaram ali para executar a tarefa de recolher carcaças de animais nas estradas de uma cidadezinha do interior esquecida por Deus. Talvez até literalmente!

Pouco sabemos sobre Edgar Wilson e pouco saberemos sobre ele ao fim dessa jornada. Ele não tem um grande arco, não no sentido que costumamos esperar dessas histórias. Poderíamos até dizer que ele tem uma jornada do herói ao seu modo. Todavia isso é consequência de um mundo tão desolado que até um homem-máquina como Edgar Wilson pode ser um herói demonstrando o mínimo de decência e humanidade.

O livro se divide em duas partes, Os animais e Os mortos, em que na primeira precisamos torcer um pouco as páginas para dizer que existe alguma trama. Ana Paula Maia não tem pressa alguma – mesmo que Enterre Seus Mortos tenha menos de 150 páginas – em nos levar para história. Algumas coisas acontecem, ela nos apresenta alguns personagens, porém parece que estamos apenas vivendo o dia-a-dia de um protagonista apático num universo igualmente apático.

Todos aqueles mistérios que cobrem o filme não dão as caras nestas e nem nas próximas páginas. O máximo que você tem é a menção que Edgar Wilson faz sobre um culto local cujos membros se encontram na mata. Porém nada é mostrado ou muito menos dito que o torne explicitamente sobrenatural. Até as pedras que caem do céu são desmistificadas ao descobrirmos que isso acontece porque estão dinamitando rochas na pedreira da cidade. Parece bem desanimador, certo? Porém peço um voto de confiança de vocês, porque é exatamente essa falta de qualquer mística que o mundo de Enterre Seus Mortos fica mais sombrio.

Eu sei que falar sobre “o vazio de [inserir obra]” se tornou um meme graças a youtubers metidos que vídeo ensaístas que, na minha humilde opinião, deveriam estar na cadeia. Porém aqui há uma aplicação real. A ideia de vazio é evocada numa passagem em que Edgar Wilson diz não ser capaz de sentir a presença do mal. Deveria ser algo positivo, certo? Entretanto, é ao entendermos que o mal só existe em contraste com o bem é que percebemos que inexistência de um implica também na inexistência do outro. A partir daí eu entendi melhor meus problemas com a adaptação de Enterre Seus Mortos. Porque essa frase está presente no filme, só que ela perde qualquer efeito quando você olha para os lados. É muito difícil aceitar que o mal não está presente quando você o tempo todo tem alguma força oculta à espreita.

Isso não significa que coisas ruins não aconteçam no universo apático construído por Ana Paula Maia e aí que entramos na segunda parte do livro em que tropeçamos em algo mais próximo de uma trama. Edgar Wilson costuma ficar atento à presença de urubus para encontrar carcaças que ainda não foram reportadas. Numa dessas suas andanças ele acaba encontrando o cadáver de uma mulher. Infelizmente o único rabecão da cidade quebrou e não tem ninguém para recolher o corpo. Isso cria um conflito interno no protagonista que, num acidente que acontece no começo do livro, se mostra muito impassível na sua função. Edgar Wilson recolhe animais mortos, não pessoas e ponto. Só que ao mesmo tempo ele não fica confortável com a ideia de deixar o corpo à mercê dos urubus sem lhe dar um fim próprio. Ou melhor, um fim digno!

Para resolver o conflito, Edgar Wilson decide guardar o cadáver num freezer velho no galpão próximo de onde ele reside e trabalha. Para complicar mais as coisas, ele encontra um segundo corpo, dessa vez de um homem, que também guarda junto da mulher. Todavia o freezer quebra e por conta do fedor o seu chefe lhe ordena a tirar os mortos dali. Junto com Tomás, Edgar Wilson decide fazer uma pequena viagem para ele mesmo entregar os cadáveres no necrotério mais próximo.

Isso traz toda uma nova gama de percalços que eu não vou comentar porque tenho que deixar alguma surpresa para vocês que talvez venham a ler Enterre Seus Mortos. Mesmo que não haja uma grande surpresa assim que possa ser estragada com a coisa que turma do “consumo de mídias” mais teme que é o abominável spoiler.

Mas são nessas páginas que Enterre Seus Mortos ganhou sentido – o título, não o livro – com sua literalidade. O descaso com os mortos é o último estágio do esvaziamento desse mundo. Carcaças de animais ainda tem um valor, um fim prático, pois podem ser jogadas numa máquina de compostagem para fazer adubo. Mas as pessoas? Dá trabalho demais! Isso torna o livro de Ana Paula Maia angustiante. Dar fim aos restos mortais daqueles que nem mais estão aqui, reconhecendo a vida que ali existiu e nada mais pode fazer por si, talvez seja o mais profundo traço de humanidade que temos. Se perdermos isso, é porque não há mais nada nesse mundo.

É dessa forma que Edgar Wilson, um homem-máquina procurando uma cova para dois indigentes, se torna nossa única esperança de um mundo prestes a morrer e que não há quem se importe a enterrá-lo.


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