
Conforme a distância até dezembro se encurta, uma nuvem negra paira sobre a minha cabeça. Não por causa da consciência da passagem inexorável do tempo que essa data traz. É porque em dezembro também chegará um evento que promete ser um cataclismo para aqueles que passam um tempo nada saudável em redes sociais: a estreia da série de Harry Potter!
Antes de partirmos para a pauta, peço alguns minutinhos da sua paciência para dividir com vocês uma rápida anedota. Tempinho atrás – e dependendo de quando eu decidi publicar este artigo pode não ser mais um tempinho – um tweet chamou a minha atenção. A pessoa compartilhava com seus seguidores uma aflição que acredito que era honesta. Ela pensava em desistir de ler qualquer coisa porque todos os autores que ela gostava acabavam se mostrando problemáticos. Ou até coisa pior. Ex-fã de Sandman detectado! Essa mesma pessoa acrescentou que parecia que não dava mais para curtir as coisas sem checar os antecedentes dos autores. Se minha memória não falha, a primeira coisa que eu fiz ao ler esse tweet foi dar um longo suspiro.
Meu desânimo não foi por causa do comentário. Eu não concordo muito com essa ideia de ficar checando se os autores são Boas Pessoas™ antes de conhecer suas obras. Seja autoimposto ou não, acho um policiamento bobo e fruto das dinâmicas insuportáveis da internet em que todo mundo quer se mostrar mais iluminado do que o coleguinha. Porém eu me solidarizo muito com essa decepção de descobrir que um artista que você gostava, ou estava começando a gostar, fez coisas terríveis.
Por exemplo, eu tinha acabado de ler Coraline e O Mistério da Estrela e também estava pensando em começar a ler Os Livros da Magia quando veio a público as acusações de assédio e abuso sexual do Neil Gaiman. Até hoje não comprei ou li qualquer outra coisa de sua autoria. Não é apenas porque eu não quero que meu dinheiro vá parar no bolso de um abusador, é também porque a notícia me causou um rompimento tão grande que matou qualquer vontade de eu conhecer mais do trabalho dele. Vou continuar adorando tanto Coraline quanto O Mistério da Estrela, incluindo suas adaptações, mas por enquanto não quero saber de mais nada que o Neil Gaiman escreveu.
Eu suspirei naquele dia porque aquele foi um dos momentos da vida em que você percebe que receberá o dom da profecia de Apolo. Soube na mesma hora que se eu abrisse os comentários não levaria muito tempo até eu encontrar uma ou mais pessoas puxando a maldita carta da Morte do Autor. Dito e feito, isso estava em um dos comentários do topo.
Esse episódio aconteceu meses atrás, mas eu fiz questão de anotá-lo num rascunho porque sabia que mais tarde ele me seria útil. Minha intenção era guardá-lo até que estivéssemos em dezembro, que é quando eu imagino que algumas discussões acaloradas que já ocorrem na internet de tempos em tempos ganharão ainda mais intensidade. Contudo, nesses últimos dias têm saído muitas coisas sobre a série de Harry Potter e, como de costume, isso destaca no centro da sala o enorme elefante transfóbico que a J. K. Rowling se tornou nos últimos anos.
Mas antes disso vamos falar de algo que todo mundo ama: teoria literária!
Roland Barthes foi um autor francês que contribuiu para diversas áreas além da literatura. Escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo, Barthes esteve ativo da década de 50 até a sua morte prematura em 1980. Durante seus anos em atividade, ele publicou dezenas de ensaios. Entre eles estava “A Morte do Autor”, que veio a ser seu trabalho mais conhecido para além do campo da teoria literária. Eu não vou tentar enganá-los que eu eu sei qualquer coisa sobre essa área, meu conhecimento se limita a entender que dentro dela existem diversas correntes de pensamento. O Barthes, até onde eu pesquisei, teve contribuições para três escolas teóricas: o estruturalismo, a semiótica e por fim o pós-estruturalismo, onde “A Morte do Autor” se encaixa.
*Link para download de um PDF do ensaio original traduzido.
Então, qualé desse negócio aí de Morte do Autor e por que citam tanto esse ensaio no Twitter? Respeito vocês o bastante (nem tanto) para não ter que explicar que a morte aqui é usada como uma metáfora. Pois bem, em “A Morte do Autor”, Barthes renega uma visão da crítica literária que coloca o autor como uma figura de autoridade sobre o entendimento de um texto. Ou seja, ao se conhecer o autor, sua história de vida, suas crenças políticas, filosóficas, religiosas, etc., nós seríamos capazes de entender o que ele quis nos dizer em seus textos. Porém, para Barthes, não existe uma forma de se determinar com certeza a intenção do autor. Não há uma verdade absoluta oriunda de uma entidade superior e portanto seria inútil usar isso para a produção de uma leitura. Na sua máxima: “o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do Autor”.
Isso não quer dizer que qualquer abobrinha que você entender do texto está valendo. Mas isso é papo para outro dia!
Se não me falha a memória, a publicação original de “A Morte do Autor” foi numa revista em 1967. Era um ensaio bem conhecido por qualquer um da área de humanas, mas de umas décadas para cá ele também se popularizou entre o público leigo. Chuto que foi pelo contato com criadores de conteúdo, principalmente aqueles produzem video-ensaios, que ajudaram a espalhar o conceito. Só que a internet é um grande telefone sem fio em que a mensagem se perde pela ação de centenas de milhares de usuários repetindo aquilo que eles acham que entenderam de alguém.
Não sei exatamente quando que eu ouvi falar de Morte do Autor pela primeira vez, mas me lembro muito bem do vídeo da Lindsay Ellis em que ela discute o texto do Barthes. Adivinhem que autora de uma série de livros super popular que motivou a Lindsay a falar desse tema?
Dizer que Harry Potter é um grande fenômeno da cultura pop seria um eufemismo. Ele foi para os anos 90 e 2000 o que Star Wars foi para os anos 70 e 80. Os livros se tornaram um sucesso multimídia com suas adaptações para cinema, teatro, videogames, além dos milhares de produtos licenciados. Mas não somente a marca Harry Potter tinha esse grande impacto cultural, a própria J. K. Rowling era uma popstar da literatura infanto-juvenil. Ela era admirada, idolatrada, querida por um vasta legião de fãs. Inclusive em comunidades queer. É por isso que é tão louco ver como a imagem dela mudou tanto de dez anos para cá quando ela decidiu se transformar na transfóbica mais conhecida do mundo.
O que começou com uma suposta defesa do que seria a definição de uma mulher, se valendo da identificação da autora como uma feminista, logo se tornou uma negação da identidade trans, que por consequência também se torna uma negação dos seus direitos. Não é de se surpreender que não demorou muito para a J. K. Rowling retratar a comunidade trans como um antro de predadores que querem fazer algum mal às mulheres. E também às crianças quando esse pânico moral não é suficiente!
Hoje você tem que ser muito inocente, e desonesto, para negar o quanto a J. K. Rowling é abertamente anti-trans. Só a título de curiosidade, eu resolvi dar uma passada no perfil do Twitter dela. Ignorando a postagem fixada que tem aquele discurso cínico sobre liberdade de expressão, eu só precisei descer três tweets para ver a J. K. Rowling expondo uma pessoa trans aleatória para os milhares de transfóbicos que a seguem. Quanto mais eu descia no seu perfil, pior ficava. Ela passa mais tempo numa cruzada anti-trans do que fazendo a divulgação da droga da nova série dos livros dela.
Beleza, mas o que tudo isso tem a ver com o conceito de Morte do Autor?
Muita gente gosta de Harry Potter. Tipo, muita mesmo! Coisa de que se a gente pegasse todos os fãs de Harry Potter e colocasse num único lugar, teríamos uma população tão grande que entraria no Top 10 mundial. Logo, se você fizer qualquer recorte demográfico da fanbase de Harry Potter resultará numa caralhada de pessoas. Um desses grupos é aquele que continua muito apegado ao universo da franquia e tem problemas em como lidar com o fato da J. K. Rowling tornou-se uma transfóbica tão arraigada.
Alguns tentam esquecer, outros buscam uma forma de conciliar tais sentimentos conflitantes. Na busca por respostas, tiveram aqueles que se convenceram a Morte do Autor é o caminho. Quero acreditar que não passa de um erro ingênuo. Elas devem ter ouvido em algum lugar que o Barthes disse que quando o autor termina o seu texto, este passa a pertencer ao leitor. O que elas não entenderam que o que pertence aqui é a INTERPRETAÇÃO, não a obra em si. O autor segue tendo a autoria do seu trabalho, ele somente não tem autoridade sobre a leitura que iremos fazer do seu texto. J. K. Rowling escreveu Harry Potter e nada mudará isso.
A explicação mais simples é que esses fãs simplesmente estão confundindo conceitos. O que eles chamam de Morte do Autor é nada mais do que a velha história de saber separar o artista da obra. Algo que até funciona bem na teoria, porém não é tão simples assim de se por em prática. Como comentei em outros carnavais, essa ideia não funciona tão bem para Harry Potter quanto funciona para, sei lá, algum conto do H. P. Lovecraft porque ele não está por aí financiando instituições que querem acabar com os direitos das pessoas negras.
Estamos falando de um nível pessoal muito mais profundo. É bem fácil para alguém como eu, um homem cis, dizer que consegue separar a J. K. Rowling dos seus livros. As palavras dela não me machucam, as ações dela não me prejudicam. É uma experiência completamente diferente para uma pessoa trans que vê a autora ativamente utilizando seus recursos para dificultar a vida da comunidade a qual ela pertence. Os livros, os filmes, a série, deixam de ser meras obras que você decide ou não consumir e se tornam uma forma de aumentar a influência da J. K. Rowling para que ela continue prejudicando vidas trans. Por isso que mesmo não gostando desse policiamento do consumo alheio, eu entendo o porquê da comunidade trans ser tão beligerante contra a J. K. Rowling e, por extensão, Harry Potter.
Falar de separar a obra do artista é irrelevante nesse contexto. O caso da J. K. Rowling é uma questão muito mais íntima do que “consumir autores problemáticos”. Não se resolve colando uma thumb de um vídeo do papai Quadrinhos na Sarjeta ou dizendo que não existe consumo ético dentro do capitalismo. Vocês estão tentando racionalizar uma reação que para essas pessoas é puramente emocional.
Voltando ao exemplo que eu dei lá atrás do Neil Gaiman. Se meu incômodo fosse apenas o de não dar dinheiro para o autor, eu poderia apenas pegar uma scan de Os Livros da Magia que tem aos montes aí pela internet. Só que isso ainda não apaga a mancha que saber acusações de abuso criou na minha cabeça. Talvez algum dia eu consiga resolver esse conflito interno? Pode ser! Mas enquanto me gera desconforto, eu irei boicotá-lo. É uma resolução emocional, não prática. E acredito que isso é o mesmo que se aplica em quem boicota Harry Potter.
Não acho que existam pessoas tão inocentes no mundo que pensam que podem confrontar a magnitude de uma franquia como Harry Potter. Um exemplo recente que tivemos foi Hogwart’s Legacy. Mesmo com toda a polêmica ao redor da marca, o jogo foi um sucesso de vendas estrondoso. 40 milhões de cópias vendidas! Se pensarmos apenas nos livros, foram mais de 600 MILHÕES de cópias vendidas. Sabe o que é isso? É gente, para um caralho! Os fãs de Harry Potter são uma massa enorme composta de demografias muito heterogêneas. Isso significa que até aqueles que sequer sabem das controvérsias da J. K. Rowling com a comunidade trans compõem um número muito extenso.
Portanto a comunidade trans e os “haters” da J. K. Rowling sabem muito bem que são incapazes de fazer qualquer coisa relacionada a Harry Potter não ser um sucesso. A decisão de não consumir as obras são poucas formas que possuem para atingir uma mulher que todo dia tenta invalidar a sua existência. É algo que fazem mais por princípio do que na tentativa de alcançar um objetivo concreto.
Daí surge todo esse meu incômodo com todo esse “esforço argumentativo” da parte de outras pessoas para justificar o ato de assistir a série. De novo, não descarto a possibilidade que tem gente que genuinamente tenta conciliar os seus sentimentos entre a obra e a autora. Mas tenho para mim que essas pessoas estão quietas no seu canto e não na internet citando Morte do Autor. Por esse motivo que eu cada vez menos acredito que seja um erro ingênuo e que se trata de uma desculpa fácil para consumir Harry Potter sem culpa na esfera pública digital.
As pessoas poderiam tentar ser mais honestas e apenas admitir que não se importam o bastante com a transfobia da J. K. Rowling para deixar de assistir a série ou qualquer coisa relacionada a este universo. Eu nem falo isso como uma forma de dizer que elas sejam transfóbicas. Longe disso. É apenas um reconhecimento franco que você até pode simpatizar com a luta da comunidade trans, só que não a ponto de querer boicotar Harry Potter. E não adianta fingir que não é isso porque ninguém se convence do seu teatro de dizer que foi uma franquia muito importante para sua infância e adolescência e portanto você PRECISA ver a série.
Só fala que você quer assistir e pronto. Algumas pessoas vão gritar com você, outras talvez parem de te seguir, mas é a vida. Cada escolha é uma renúncia. Apenas pare de citar a Morte do Autor como se fosse uma artefato mágico que livra a sua consciência quando o ensaio não chega nem perto desse ponto. A insistência em usar esse argumento ou então apontar a hipocrisia que as pessoas que te criticam ainda usam o Twitter não está melhorando o seu caso. Só torna a sua defesa muito, mas muito mesmo, suspeita!

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