Turn A Gundam: a guerra é frustrante

White Doll enfrentando um robô dos moonrace em Turn A Gundam

Como já mencionei algumas vezes, de vez em quando eu sofro de “surtos culturais” que não são nenhuma condição séria e apenas meu hábito de dar um apelido para as minhas manias. Esses “surtos” nada mais são do que períodos nos quais eu decido explorar alguma mídia específica. Já tivemos alguns episódios aqui no passado recente do blog e lá atrás, na sua gênese, eu passei por isso quando quis conhecer Gundam, uma das mais longevas franquias japonesas existentes criada pelo Yoshiyuki Tomino.

Não lembro ao certo os motivos que me levaram a assistir Gundam, até porque eu não sou um grande entusiasta da ficção científica mesmo com a presença de robôs gigantes. Mesmo assim a franquia clicou comigo. Cheguei a assistir várias de suas séries, algumas OVAs, uns filmes e até li dois mangás. Só os jogos de Gundam que eu não tive e sigo não tendo interesse em conhecer.

Enfim, tudo isso levou à produção de alguns textos de Gundam que publiquei ao longo de 2023. Falei dos primórdios da franquia, de algumas OVAs e alguns fracassos dos anos 90. Contudo, nos três anos seguintes Gundam não deu mais as caras por aqui e o motivo é simples: eu saturei. Depois que os efeitos dos meus “surtos” passam, eu também entro num tipo de “esgotamento cultural”. Aconteceu quando eu decidi ver filmes brasileiros e irá acontecer quando eu terminar a minha maratona de jogos de animê (do Game Boy Advance).

Porém não é nada tão radical assim, eu ainda continuo explorando essas mídias só que com intervalos maiores. No caso de Gundam eu ainda assisti mais duas séries: Mobile Fighter G Gundam – a melhor, diga-se de passagem – e meses atrás terminei Turn A Gundam. Que, aliás, exigiu um certo esforço. Levei umas três tentativas até eu conseguir terminá-la porque outros planos entraram na frente. De qualquer forma, valeu a pena ter paciência pois gostei bastante de Turn A Gundam. Acho que o Tomino trouxe uma perspectiva curiosa a respeito da guerra que ele ainda não havia explorado nas outras séries dele que eu assisti.

Mas antes de entrarmos em Turn A Gundam de fato, acho que um pouquinho do contexto da sua produção seria útil já que ele é um ponto importante dentro história da franquia. A série marcou o aniversário de 20 anos de Gundam desde o animê original de 1979 e, talvez o mais importante, ela também trouxe de volta o próprio Tomino na direção depois de um hiato de cinco anos. Durante a “primeira era” de Gundam, ele foi a principal mente por trás da franquia, dirigindo praticamente tudo. Novos nomes passaram aparecer no controle criativo com as OVAs, como a War in the Pocket e Stardust Memory.

Já as séries de televisão só começaram a ter novos diretores a partir dos anos 90, muito por conta do afastamento do Tomino após aquele desastre chamado Victory Gundam. Essa foi uma produção bem conturbada e a interferência dos executivos intensificou um quadro depressivo que ele já havia demonstrado anos antes. Isso afetou muito a série, infamemente conhecida por ser uma das mais sombrias em relação a quantidade de mortes dos personagens, que até hoje divide opiniões entre fãs. Cinco anos depois o Tomino consegue voltar a sua criação com o espírito renovado e isso é transmitido na direção que ele tomou com Turn A Gundam.

A saída temporária do Tomino possibilitou que Gundam desenvolvesse uma característica que eu considero hoje a sua maior força: as diferentes linhas do tempo. As primeiras produções se passam no chamado Universal Century e com os anos novas linhas foram surgindo para abrigar as demais séries: Future, After Colony, After War, etc. Com isso novos diretores puderam gozar de mais liberdade nas suas séries, ainda que mantenham vários elementos em comum com o Gundam original, sem ter que amarrar tudo num gigantesco universo.

Diferentes linhas do tempo de Gundam aparecendo em Turn A Gundam

Entretanto, com Turn A Gundam, o Tomino criou a Correct Century, que seria uma linha do tempo que “unifica” todas as outras. Tanto é que o nome real da série é ∀ Gundam, sendo esse A invertido o chamado quantificador universal que é usado para denotar que algumas coisas são verdadeiras para todas as coisas. Porém essa ideia de unificar as linhas do tempo é algo que tem um valor muito mais simbólico do que prático.

Colocar a história de Turn A Gundam num futuro abstratamente distante para dizer que todas as outras séries ocorreram em algum momento do seu passado é algo que funciona no campo das ideias. Mas apenas se você não tentar pensar muito nisso, pois ninguém irá se convencer que um War in the Pocket e um G Gundam dividiram o mesmo universo em algum momento. São tons e lógicas muito distantes de si que eu acho que funcionam muito melhor estando nos seus próprios mundinhos. Não existe algo que eu ache uma bobagem maior do que tentar interligar todas as obras dentro de uma franquia, ainda mais considerando como elas são produzidas.

Por isso tenho para mim que o que Turn A Gundam faz de verdade é mostrar que todas essas interpretações são válidas e compõem a “universalidade” de Gundam.

Agora entrarei de fato na série. Como eu disse, a trama se passa num futuro beeeeeem distante após um evento cataclísmico que deixou a Terra próxima de ser inabitável. Uma parte da população fugiu para a Lua, mantendo uma sociedade tecnologicamente avançada chamada de moonrace. Os terráqueos, por outro lado, ficaram para trás e de alguma forma conseguiram recuperar o planeta. Apesar disso, a sociedade como um todo regrediu para um estado próximo ao pós-Revolução Industrial e perdeu os registros sobre os eventos que quase destruíram a Terra. Agora no presente, os moonrace enviam três adolescentes – Loran, Keith, e Fran – numa missão de reconhecimento para determinar se o planeta tem condições viáveis para o seu retorno, algo que dará início a um novo conflito que põe o planeta em risco de uma nova extinção.

Já adianto que não irei entrar em detalhes da história de Turn A Gundam porque ela não tem uma narrativa tão objetiva quanto as outras séries que o Tomino dirigiu. O que quero dizer com isso é que enquanto no Gundam original, mesmo com uma estrutura episódica, tudo parecia encaminhar para o embate que colocaria um fim à guerra. Por outro lado, em Turn A Gundam parece que estamos sempre dançando em torno do mesmo ponto de forma que o conflito nunca se aproxima de uma resolução. E para mim essa é a exata intenção da série!

Com 20 anos de franquia, o Tomino já pontuou diversas vezes como a guerra é algo terrível. A destruição sem sentido, as vidas perdidas, os traumas gerados, todo o sofrimento, toda dor, toda sequela deixada. Ele mostrou isso no primeiro Gundam. Ele definitivamente mostrou isso no Zeta Gundam! E eu acho que ele tentou mostrar isso no ZZ Gundam. Então o que mais o Tomino poderia fazer? Simples: mostrar que a guerra, acima de tudo, é frustrante! Ou melhor, a tentativa de retomar a paz é.

Soldado moonrace tentando evitar a explosão de uma míssil nuclear em Turn A Gundam

Há uma mudança muito clara em como o Tomino resolve representar o conflito entre os terráqueos e os moonrace. No Gundam original era muito fácil entender que a resolução para a guerra se dá com a derrota de Zeon que essencialmente são os nazistas do espaço. Porém em Turn A Gundam o Tomino já não demonstra tanto interesse em explorar o fim do conflito apenas com a destruição do inimigo, ele faz seus personagens buscarem uma solução pacífica em que ambas as civilizações possam conviver na Terra. Só que ao mesmo tempo ele vai mostrar o quão difícil é chegar a um estado de paz uma vez que é deflagrado o confronto. Não tem como descrever essa tentativa senão como uma gigantesca frustração. Tanto para os personagens, mas principalmente para nós, os espectadores.

Procurando uns comentários sobre Turn A Gundam, encontrei algumas pessoas que tiveram um pouco de dificuldade de avançar na série. Outras não se sentiram plenamente satisfeitas com o final. Aqueles que gostaram de Turn A Gundam tentaram justificar esse sentimento dizendo que a série é muito lenta e exige paciência. Até concordo com a segunda parte, porém não acho que a narrativa tenha problemas de ritmo. Diria até o contrário. Alguns pequenos arcos teriam se beneficiado muito caso se alongassem um pouquinho mais. Toda a história do Will Game, por exemplo, é apresentada, mais ou menos desenvolvida e terminada num único episódio, ficando muito aquém se tivesse durado por dois ou mais.

Portanto, ao meu ver, é que tanto a história quanto a experiência de assistir Turn A Gundam por vezes dá nos nervos. Não que seja mal escrita, mas sim porque nada nunca se resolve. Ou quando se resolve, é muito abrupto. São muitos personagens e linhas narrativas que não recebem o devido cuidado até serem descartadas para a continuidade do drama. Drama aqui é a tentativa das lideranças dos moonrace e dos terráqueos em chegar a um acordo de paz.

Vamos falar agora um pouquinho sobre o comecinho da série!

Chegando na Terra, especificamente na região de Inglessa, Loran, Keith e Fran seguem caminhos diferentes para concluir sua missão. Fran se torna uma jornalista, Keith vira um aprendiz de padeiro e Loran passa a trabalhar como mecânico para a família Heim. Durante esse período ele se afeiçoa muito às duas herdeiras Heim, Sochie e Kihen, e ao povo de Inglessa. Por extensão ele também se apaixona pelos terráqueos e mostra muito otimismo para o retorno dos moonrace. A esperança de Loran provém muito de Dianna Soriel, a rainha da Lua, a quem ele admira e compartilha a vontade de uma convivência pacífica entre ambas as civilizações. Só que a realidade tende a nos decepcionar, não é mesmo? Passado um ano, os moonrace decidem dar início a operação de retornar ao planeta iniciando um confronto com os terráqueos.

Como descobrimos nos episódios seguintes, a volta dos moonrace não era um segredo para todas as pessoas. Havia negociações acontecendo entre os dois povos para definir um território no qual os moonrace poderiam se assentar. Uma das pessoas que acompanhava essas negociações era Guin Rhineford, ninguém menos que o herdeiro do principado de Inglessa. Contudo, ele usa o conhecimento sobre a chegada dos moonrace para formar uma milícia para combatê-los. Ao mesmo tempo, Guin financia um grupo de arqueólogos liderados pelo Dr. Sid Munzer que visa encontrar vestígios da história perdida da destruição da Terra. Claro que arqueologia não é o principal interesse de Guin e sim as possibilidade de escavar máquinas antigas que foram deixadas pelos seus antepassados e que pudessem dar alguma vantagem para a sua mílica.

Quando o exército dos moonrace chega à Inglesa com seus robôs gigantes, inicia-se uma luta armada que causa várias fatalidades… para os terráqueos. As armas da milícia de Guin mal conseguem arranhar a tecnologia avançada dos moonrace. Porém, para sua sorte, os robôs ativam os sensores de um Gundam adormecido, apelidado de White Doll, e ele desperta. Loran aprende a controlá-lo e com a sua força ele é capaz de ajudar os terráqueos a resistir ao exército dos moonrace. Loran se torna a carta principal da milícia de Guin, mesmo que sua intenção seja apenas de garantir que não haja mais destruição até que haja um acordo de paz.

White Doll disparando seu rifle em Turn A Gundam

Isso marca uma característica que separa Loran pouco dos outros protagonistas que o Tomino criou, como Amuro, Kamille e Judau. Loran é profundamente ingênuo. IRRITANTEMENTE INGÊNUO! Podemos argumentar que ele é apenas uma pessoa idealista, movido pela sua filosofia de pacifismo e pela sua própria benevolência. Algo que é necessário para um piloto de Gundams que no contexto da franquia são armas de imenso poder que nas mãos erradas podem ter consequências terríveis. Ainda mais no caso particular do White Doll que essencialmente é o “Superman dos Gundams”. Contudo, o problema da dita benevolência do Loran é que ela o torna facilmente manipulável. Ele fica tão cego nos seus ideais que não percebe que existem pessoas que querem que o conflito continue para alcançar os seus próprios objetivos.

Isso vai culminar em toda frustração da experiência de assistir Turn A Gundam. Sabe a expressão “dar um passo para frente e dois para trás”? Os episódios são quase isso. Quando parece que estamos próximos de um acordo de paz, alguém faz alguma coisa para colocar todo o avanço a perder. Uma hora lorde decide matar o comandante dos moonrace em vingança por um parente que sucumbiu durante os primeiros ataques. Mais para frente alguém arma um atentado contra a vida de Dianna e incrimina os terráqueos. Aí os moonrace resolvem soltar da prisão um… lunático que acaba destruindo a capital de Inglessa só para atrair a atenção do White Doll.

Todas essas ações vão aumentando a animosidade em ambos os lados e a possibilidade de chegarem a um acordo se torna progressivamente mais difícil. Acima de tudo isso, ainda temos o Guin que é de longe o personagem central mais interessante da série. Não leva muito tempo para percebermos que ele quer sim acabar com a guerra… contando que isso lhe garanta poder político e tecnológico. Assim ele manipula todos à sua volta, incluindo Loran e até mesmo a Rainha Dianna.

A ideia de Turn A Gundam é mostrar que a paz não é um objetivo tão fácil de se atingir não por uma espécie de “instintos de luta” que os humanos carregam consigo. É difícil porque existem filhos da puta que estão dispostos a manter uma guerra pelo tempo que lhes for útil. Algo totalmente ficcional e que de forma alguma temos visto acontecer na nossa realidade com a “maior democracia do mundo”, né?

Aí que a ingenuidade do Loran acaba causando tanta raiva. Ele parece se recusar a ver os problemas entre os dois povos, querendo acreditar neste ideal de paz. Por exemplo, a Dianna pode até ser uma líder benevolente, porém o exército dos moonrace surgem como colonizadores. Como se pode esperar que os terráqueos os recebam de braços abertos quando foi essa civilização que os abandonou à própria sorte no passado? E quando voltam, se apropriem de suas terras, destroem suas casas e causam centenas de mortes? Não dá apenas para estender os braços e pedir um pouco mais de moderação!

Nesse contexto, outros personagens acabam sendo um pouco tão ingênuos também, fazendo-os experimentar essa frustração da guerra cada um ao seu modo. Fran, durante os primeiros confrontos entre os moonrace e a milícia de Guin, tira diversas fotos. Na sua cabeça elas servirão para mostrar a gravidade do conflito e que servirá de registro no futuro. Mas logo ela descobre que nenhum jornal irá publicar suas fotos, pois vai contra os interesses políticos daquele momento.

Keith é outro que acaba se frustrando achando que a neutralidade lhe renderá alguma segurança. Ele tenta tirar algum proveito da guerra, vendendo pão para os dois lados. A princípio isso lhe dá bons resultados e ele até consegue abrir uma fábrica. Porém logo o fogo cruzado dos moonrace e da milícia chega à sua porta, quase vitimando a sua esposa e assim ele acaba aprendendo as duras penas que não existirá nenhuma garantia de segurança enquanto houver guerra.

Porém a melhor forma com que o Tomino evoca esse sentimento de frustração é na sua direção das batalhas. Até mesmo o animê original de 1979, que precisava reciclar muito material pelas limitações orçamentárias e os prazos de entrega, tinha excelentes sequências de combate. Não vou arriscar dizer que todo episódio tinha um confronto do Gundam do Amuro, mas em geral você tinha algum confronto com começo, meio e fim. Em Turn A Gundam também temos várias batalhas, entretanto elas têm um começo e um fim abrupto tão questionável quanto o seu quase inexistente meio.

Guin Rhineford, um dos personagens principais em Turn A Gundam

É sempre o mesmo roteiro. Os moonrace tentam algum ataque, a milícia resiste o quanto pode, Loran chega com seu bigodudo White Doll e faz o inimigo recuar. Ele até danifica um robô ou outro, mas nada que cause uma perda significativa para o exército dos moonrace. Tanto é que pouco tempo depois eles voltam com mais máquinas e recomeçam outro embate. Porém entendam que essa repetição não é um defeito da série. Sei que muitos irão interpretar dessa forma e não tiro a razão deles, fica chato essa constante sensação de coito interrompido. Mas é porque Turn A Gundam precisa ser frustrante e te fazer querer arrancar os cabelos.

Entendo que estou numa posição ingrata aqui. Esse texto todo é um grande “Turn A Gundam é chato e isso é bom” e não sei como posso convencê-los a investir na série quando eu mesmo precisei de três tentativas até concluí-la. Mesmo assim peço esse esforço, a longo prazo ele é recompensador. O Tomino consegue te convencer que a guerra é algo terrível não pela destruição ou pelas mortes, mas pela dor de cabeça que é ter que lidar com tanto filho da puta que quer lucrar com ela.


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